USP e feudalização

O brasão da PM

Todas as ações tomadas pela USP a levam ao isolamento. Busca-se, a cada reunião de departamento, a cada canetada de diretores e reitor, transformar a Universidade em um Universo-Ilha. Essa prática não é exclusiva da atual gestão, nem da última nem mesmo de qualquer outra. A elitização e a decorrente exclusão popular está no DNA da USP, desde sua idealização pela elite paulistana no começo do século XX, encabeçada por Júlio de Mesquita (que aliás teve seu nome emprestado à UNESP), até os dias de hoje, levada a cabo por todos que herdaram o discurso elitista e dirigem a instituição.

O discurso pelo autoisolamento uspiano, semelhante ao dos feudos que pautaram parte da história europeia, hoje ocupa o lugar que no passado teve o vestibular, o erguer de muros, o controle de entrada nos finais de semana: a segurança é o valor do momento. Como se a solução para os problemas provenientes da postura sectária, que extirpa do interior dos muros a comunidade dos arredores e exclui das discussões quem poderia ajudar a resolver os problemas de forma conjunta, fosse levantar ainda mais a muralha, colocar mais armas apontadas para o lado de fora, se eximir da culpa de não refletir acerca de uma estrutura social em que se estimula a agressividade e se cobra docilidade, ignorar que o todo se faz de partes e que as partes devem pensar juntas para formarem um todo.

A exigência da presença da PM dentro do campus-ilha é um totem à feudalização da USP. Essa exigência é revestida de uma retórica vergonhosamente hipócrita, que argumenta que a USP deve ter as mesmas leis que o resto da sociedade. Ou seja, à sociedade cabe esperar o desejo da USP para estreitarem a relação, e a melhor oportunidade para tal surge no abrir das portas para a PM proteger a integridade do patrimônio do senhorio. A realidade é que, por mais que repitam que as leis devam ser as mesmas dentro e fora do campus, a preocupação real não é satisfazer qualquer necessidade popular. A PM não é requisitada para proteger a “população” dentro da USP, pois essa “população” não faz parte dela, foi excluída da realidade uspiana há tempos – se é que um dia fez parte.

Para colorir ainda mais essa atmosfera circense – hilária por ser tão hipócrita – cria-se um clima de polarização em torno do episódio em que estudantes da FFLCH que portavam ou fumavam maconha foram abordados por policiais, jogando para baixo do tapete o verdadeiro problema, que é seu isolamento da sociedade, a quem deveria servir. E a postura sectária uspiana se traveste da falsa polêmica que opõe os que são a favor aos contra o convênio entre a Corporação e a Universidade. Vejam a ópera-bufa: é feita a ligação entre o caso dos jovens que usam drogas e a presença de traficantes armados no campus e, para completar, misturam tudo isso no mesmo saco com a morte do estudante em maio de 2011 no estacionamento da FEA. Traficantes armados que certamente são mais ausentes que o reitor no campus; um aluno morto injustamente e que, acredita-se, teria sobrevivido se a PM estivesse no campus (mas ela não estava lá?); e usuários de drogas que são comparados a assassinos, passando por um processo de criminalização que vem sendo cada vez mais questionado, principalmente depois de toda a acumulação em torno desse problema – veja a visibilidade da Marcha da Maconha, de inúmeros depoimentos de especialistas e da distribuição de documentários que apontam para a insustentabilidade da atual legislação referente ao consumo de drogas. Aliás, essa legislação faz hoje do Brasil um dos países mais retrógrados nessa questão, principalmente quando comparado aos que já a resolveram de forma muito mais civilizada do que apontar armas para consumidores de entorpecentes arbitrariamente encarados como ilícitos. Nessa postura, refratária à complexidade de um problema mais amplo, ignora-se o que já se construiu de conhecimento capaz de por um fim a esse conflito, aproveitando-se uma situação sensacionalizada, jogando todos os gatos no mesmo balaio para justificar a presença da PM no campus para a efetiva proteção daqueles que merecem sua proteção.

Todo esse engodo não seria menos fascista se não apelassem ao argumento de que “sou a favor da PM no campus e sou maioria”. Maioria em quê? Maioria que não quer debater o problema a fundo? Parece que todo o rigor científico usado para vencer a concorrência por verbas contra os grupos de pesquisa adversários é posto no lixo quando se precisa problematizar a sociedade e a política na qual a USP se insere. Não deveria haver um problema na falta de debate ou de rigor científico para algumas discussões, ou isso é dispensável quando a maioria já está estabelecida em torno do que se quer defender? E as minorias? Que sejam ignoradas, afinal por que se importar com elas se são meras minorias? Indígenas, comunidade LGBT, negros, deficientes físicos, idosos, por favor, cortem seus pulsos e acelerem nosso progresso, pois a maioria sempre terá a razão.

À USP não interessa resolver o problema real e buscar soluções voltadas a curar uma sociedade estruturalmente doente. Clamar pela PM no campus ou fora dele é desviar o foco de uma solução que, talvez por ser tão complexa, não é tão atraente. E esse desvio a leva cada vez mais à sua feudalização. Ao reivindicar a PM no campus para proteção de seu patrimônio, a comunidade uspiana reforça seu isolamento, com toda a configuração que cabe a um feudo: o corpo clerical/científico, esclarecido e responsável pelas verdades dadas em pílulas ao povo; o rei/reitor, que decide com apoio da nobreza os rumos do reino, sem a necessidade de consultar qualquer parte interessada – a não ser quando julga pertinente; os vassalos/terceirizados, aceitos no reino para suprir as necessidades dos estamentos superiores; e agora mais que nunca o exército/PM, para trazer segurança à fortaleza e resistir às intempéries externas, que ameaçam o conteúdo patrimonial guardados pelas muralhas sagradas da Universidade.

==

Atualizando em 07/11/2011:

Não deixei absolutamente claro que sou absolutamente contra a PM no mundo (não ao menos neste post, talvez em outros). Minha intenção era me concentrar em um problema que ao meu ver é maior, embora não apague do horizonte a questão do uso da força policial no campus. Mas acabei de ler um texto que expressa muito disso tudo que omiti acima. É de uma blogueira uspiana (portanto tem propriedade para tratar do assunto) cujos textos gosto muito e que um dia terei a honra de conhecer pessoalmente. Saboreiem!

Trick or treat?

Vozes na porta, toca a campanhia do apartamento. Olho para Eleilson, o outro morador. Quem pode ser a esta hora da noite? Visita na hora de jantar, sem qualquer aviso? Engano, só pode ser. Deve ser visita pra vizinha.

Perduram a tagarelar. Soa como um grupo de crianças, pelo menos algumas delas não param de conversar e dar risadinhas.

Levanto para ver quem toca. Pelo olho mágico, aparecem vários rostos distorcidos e desconhecidos. Não reconheço nenhum deles. Tudo bem, sou novo no prédio, não conheço muita gente aqui mesmo. Além disso, estou em São Paulo, mesmo se eu fosse o síndico do prédio seria difícil conhecer seus condôminos, ocupados e apressados com seus compromissos – e eu com os meus. Em uma rápida varredura pela memória, nenhuma daquelas fisionomias remetia a qualquer parente meu, do Eleilson ou a qualquer pessoa vista antes. Quem poderia ser?

No auge de minha inocência, não atentei aos trajes, nem sequer à data. Abri a porta e dei de cara com o uníssono “doce ou travessura”. Suspirando e de cabeça baixa, agradeci aos tempos por pelo menos ter ouvido a frase no sotaque brasileiro. Eram umas sete crianças, meninas e meninos, algumas muito pequenas (como se conheceram?, num prédio tão frio, sem pátio, sem jardim, sem convivência, ainda mais em São Paulo?), fantasiadas de bruxa, vampiro, Dona Morte e qualquer outra coisa sombria, maquiada e que costuma fugir da luz. Em grupo, rasgavam o horário nobre de todas as famílias de cada um dos apartamentos dos dezenove andares do prédio pedindo doces.

- Tem alguém aí vestido de saci? Não? Mas hoje é dia do saci! Vocês acham que merecem doce mesmo assim?

Todas as carinhas, já com toda a graça perdida por conta daquela desgraçada piada do marmanjo que esquecera de sua infância naquele segundo, baixaram e responderam qualquer coisa. Não lembro o que falaram, pois até eu fiquei constrangido com a situação que eu acabara de criar. Elas não sabiam como reagir, provavelmente por não ter sido a primeira resistência que recebiam naquela noite ao pedirem doces. Talvez nem mesmo tenham ouvido falar em saci até então. Para elas, pererê pode ser qualquer som estranho que sai dos carros ou de seus escapamentos, quem dirá que teriam entendido o motivo da minha pergunta? E se é dia das bruxas, haveria alguma problema pedir doces de porta em porta?

- Pronto, aí estão seus doces – e coloquei alguns Tridents no ecobag que trazia alguns chocolates e pirulitos que ganharam dos outros vizinhos.

As crianças agradeceram sorridentes. Torço para que minha amargura não tenha tirado nem um pouco da doçura trazida por seus gritinhos e risadinhas que enchiam de volume aquele sempre sombrio e ermo corredor, tocando de forma inocente uma brincadeira que vem se tornando tradição. Afinal, a infância e tudo o que ela traz de doce vai além de qualquer nacionalidade, língua, sotaque ou cultura, e contra isso não há razão que possa resistir.

Se as crianças não sabem por que dizem “doce ou travessura” ao invés de “rapadura ou pererê”, a culpa não é delas, é dos mais velhos que, já esgotando sua ternura, nunca pararam para essa reflexão ou tentar mudar o rumo dessa história.

Praia

É incrível como pude me afastar tanto tempo da praia, mesmo tendo-a sempre tão próxima.

Me impressiona como esse pedacinho de mundo, tão acolhedor apesar de sua imensidão, pode causar tamanha renovação após um simples mergulho. Veja que contradição: o mar, tão velho, secular, inexorável, quase eterno e também tão conservador, mantendo-se ali sempre equilibrado e austero, é capaz de injetar tanta vitalidade, apaixonar moços e velhos, dar juventude aos montes, revolucionar o dia de quem quer que nele se debruce.

Não importa quando, qualquer que seja a situação – simples ou complexa, seja o início ou o fim de uma era, lá estará a praia, recebendo passiva e sempre sorridente cada onda do mar que, com toda a paciência do universo, arremessa a ela com um pouco de sua essência interminável. E mesmo sendo muitas vezes incapazes de conceber a grandiosidade da talvez mais longa e bela dança do universo, nós, efêmeros mortais, sem precisar dar muita coisa em troca, podemos, egoístas, roubar  algumas gotas desse elixir e, assim, aguçar o que nos resta de nossos sentidos molestados por um cotidiano tão duro, pálido, cinzento, insensível.

Se há algum sentido no termo biocombustível, esse sentido só pode vir da praia.

Guerra da Tarifa 2005

Muito elucidativa a leitura de “Guerra da Tarifa 2005 – uma visão de dentro do Movimento Passe Livre em Floripa” (Editora Faísca). Leo Vinicius, membro do MPL naquela ocasião, faz um relato do conflito entre a população da capital catarinense e o governo municipal, que aumentara o valor da tarifa de ônibus.

Clique na imagem para baixar o vídeo de Alex Antunes, que valeu um prêmio Vladimir Herzog ao cinegrafista

Clique na imagem para baixar o vídeo de Alex Antunes, que valeu um prêmio Vladimir Herzog ao cinegrafista

Em junho de 2004, a população já havia protestado e conseguido barrar o aumento da tarifa do ônibus municipal, de 15,6%. A estratégia da prefeitura para driblar a resistência popular foi aumentar a tarifa em duas parcelas: a primeira em 23 de dezembro de 2004 (6,8%, em pleno recesso de final de ano) e a segunda em maio de 2005 (8,8%), totalizando os 15,6% planejados anteriormente. Essa ação da prefeitura provocou uma série de manifestações que culminaram em conflitos com a polícia local, colocando essa mobilização popular na história das mais importantes do país, vista a resistência dos mais diversos grupos sociais envolvidos nas manifestações violentamente reprimidas – como mostra o vídeo de Alex Antunes, que pode ser baixado com um clique na imagem acima.

O relato traz um ponto de vista crítico de um militante preocupado com as estratégias de mobilização dos manifestantes, com as ações dos manifestantes, com o papel das lideranças do movimento, além de desvelar as sabotagens mais sujas protagonizadas pela prefeitura florianopolitana, as quais a imprensa, como é de praxe, fez vista grossa e omitiu de suas reportagens.

Para quem se interessa pelo Movimento Passe Livre-SP, essa leitura parece ser mais que recomendada, por relatar uma experiência muito rica e por descrever situações recorrentes nesse tipo de mobilização, evitando assim que muitas rodas precisem ser reinventadas.

Campanha pela tarifa zero nos ônibus de São Paulo

Falando no MPL-SP, vale a pena divulgar a genial iniciativa do Movimento.

O grupo redigiu um projeto de lei que prevê a tarifa zero nos ônibus municipais da cidade de São Paulo. Para encaminhar esse projeto de iniciativa popular (pois não está sendo encaminhado por nenhum vereador) para ser votado na câmara, é necessário um abaixo assinado com 500 mil nomes de eleitores da cidade de São Paulo. Embora haja alguns mutirões por assinaturas ocorrendo pela cidade, você pode ajudar imprimindo uma folha para o abaixo assinado, que pode ser baixada no site (por sinal muito bom!) www.tarifazerosp.net. Lá, há mais informações de como proceder com as assinaturas, sobre o projeto de lei, sua justificativa (para você que torceu o nariz  ao ler sobre esse projeto e se perguntou “de onde vai sair o dinheiro para financiar ônibus gratuito para toda população?”) e muito mais sobre o movimento por um transporte paulistano mais justo e inclusivo.

E se a luta é pelo passe livre, então a guerra ainda não acabou, nem lá nem cá.

Contribua com o mais novo espaço autônomo em São Paulo!

10 de junho de 2011 marca um grande dia na história do Autônomos & Autônomas FC: em assembléia, aprovamos a idéia da aquisição da nossa sede!

Isso significa que um novo espaço autônomo independente na cidade já é realidade. Será o Espaço Autônomo Casa Mafalda!

Mas antes de falar dele, vamos nos apresentar pra quem não nos conhece.

Quem somos?

O Autônomos FC, ou Auto como é carinhosamente chamado, é um time de futebol autogerido criado em 2006 por um grupo de punks, anarquistas e ativistas de São Paulo. Desde a sua criação, o Auto sempre tentou viver o futebol de uma maneira coletiva, sem hierarquias, com decisões coletivas e com abertura para todos e todas.

Hoje, 5 anos depois, temos dois times de futebol de campo masculino, um de futsal feminino e nos arriscamos em jogos mistos em diversas modalidades também. A partir de então, passamos a nos chamar Autônomos & Autônomas FC.

Por alguns anos pensamos estar sozinhos nessa coisa de futegol autogerido. Mas em 2009 descobrimos um time inglês, o Easton Cowboys & Cowgirls, que desde 1992 está na mesma sintonia! Depois de visitarem os palestinos e os zapatistas em Chiapas, em 2009 foi a vez de estarem por aqui pra jogar e trocar experiências conosco. Então, em 2010, foi a nossa vez de jogar, na cidade de Yorkshire, Inglaterra, a Copa do Mundo Alternativa, evento organizado por times europeus com os mesmos moldes do Auto e que acontece todo ano. Um encontro até então europeu de diversas pessoas e movimentos sociais não-hierárquicos, que tivemos a chance de conhecer nos 10 dias que ficamos por lá e por Bristol, cidade natal do Easton. Lá conhecemos e estabelecemos contatos com muita gente e muita coisa que trouxemos pro nosso dia-a-dia aqui.

Aqui, participamos em São Paulo de lutas e eventos com diversos movimentos sociais e grupos culturais, como o Movimento pelo Passe Livre, a Frente de Luta por Moradia, o Bloco Carnavalesco Filhos da Santa e a Associação Nacional dos Torcedores. E em 2012, junto ao Club Social Atlético y Deportivo Che Guevara, time hermano de ideais semelhantes aos nossos da província de Córdoba, na Argentina, estaremos organizando a primeira Copa América Alternativa!

Somos, pra além de time, um coletivo. E tentamos pensar e praticar nossas relações de uma forma horizontal, libertária, diferente da imposição hierárquica e individualista que domina o cotidiano de quase todos pelo planeta.

A idéia de ter uma sede, a Casa Mafalda, deriva da necessidade de um lugar no espaço para fortalecer essa relações. Um lugar como foram tantos outros que acabaram por terminar, como o Ay Carmela e o Espaço Impróprio.

Achamos esse lugar: é o Estúdio Fábrica Lapa, na Rua Clélia, 1745 (www.estudiofabricalapa.net), na Lapa, bem próximo ao nosso campo, o CDM Bento Bicudo.

Agora, precisamos de ajuda pra que o projeto se materialize.

Como?

Simples. Pra adquirir o ponto do local (ou seja, toda a estrutura que ele já tem e que comporta shows, festas, debates, palestras, oficinas, exposições e o que mais quisermos), nós precisamos arrecadar até o dia 01 de agosto R$ 60 mil (pra pagá-lo à vista) ou R$ 35 mil de entrada, com o resto sendo pago em parcelas (o que, esperamos, consigamos fazer com o próprio movimento do espaço).

No momento, temos R$ 15 mil. Precisamos, portanto, de no mínimo mais R$ 20 mil.

A idéia pra arrecadar essa grana é bem simples: um sistema de apadrinhamento/amadrinhamento da casa.

Funciona assim: você escolhe na lista abaixo quanto pode doar e recebe em troca uma recompensa, que pode ser horas de ensaio (caso você tenha banda), datas grátis pra eventos ou mesmo entrada livre na casa. E se você não é de São Paulo ou não costuma frequentar esse tipo de espaço mas apóia completamente a existência deles, pode contribuir e ganhar de volta uma camista da campanha do Autônomos & Autônomas FC pela sede (algo como “Casa Mafalda – eu também construí!”) e outros materiais do time.

A sua doação pode ser feita de duas formas: com um depósito na conta poupança que disponibilizaremos para isso, cujo extrato estará toda sexta-feira em nosso site para conferência de todos os padrinhos e madrinhas, ou com uma doação pelo site www.vakinha.com.br, caso você se sinta mais seguro/a fazendo assim.

Segue, então, a nossa lista de doações. E claro que se você quiser doar sem precisar de nada em troca, apenas pelo amor à camisa, ficaremos extremamente contentes!

Todos os padrinhos e madrinhas terão seus nomes em uma das paredes da casa!

R$ 10 – entrada livre em 2 shows ou eventos

R$ 20 – entrada livre em 5 shows ou eventos OU 2 horas de ensaio

R$ 50 – entrada livre em até 20 shows ou eventos e/ou 1 a 6h de ensaio

R$ 100 – entrada livre em até 50 shows ou eventos e/ou 1h a 12h horas de ensaio

R$ 250 – uma data grátis para show/evento/festa OU 30h horas de ensaio, limitadas em 10h por mês

R$ 500 – vale de R$ 500 para entrada em festas/shows/eventos OU 100 horas de ensaio, limitadas em 10h por mês OU três datas grátis para show/evento/festa, limitadas a 1 por mês

Acima de R$ 1000 – passe livre vitalício em festas/shows/eventos E passe livre vitalício no estúdio de música, limitadas em 10h mensais, OU datas grátis para festas/shows/eventos, limitadas a 4 por ano

Conta poupança para fazer a doação (não se esqueça de depois mandar um email para autonomosfc@gmail.com com seu nome, o valor e a data do depósito):

Banco do Brasil
Ag. 1894-5
Conta Poupança (01) 15943-3
Danilo Heitor Vilarinho Cajazeira
CPF 324.950.348-70

Site do Vakinha.com com o nosso projeto:

http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=40184

Como eu sei que isso vai dar certo?

Bom, o Estúdio Fábrica Lapa já existe e já dá certo há 3 anos. O que nós pretendemos é agregar novas atividades ao espaço, transformar ele de estúdio em centro cultural. Mas sem deixar de abrir as portas pra quem já faz coisas por lá, pelo contrário: a idéia é não deixar o espaço morrer e trazer mais gente pra dentro dele.

Se eu doar, quando eu posso ter minha recompensa?

O espaço só será nosso a partir de agosto. Portanto, a partir de agosto poderemos retribuir nossos padrinhos e madrinhas. Mas claro que desde já podemos ir agendando as coisas, com calma.

E se não arrecadar os R$ 35 mil necessários?

Acreditamos que vamos conseguir. Se não conseguirmos, teremos duas opções: pegar um empréstimo bancário ou desistir e devolver a grana a todos que doaram. A primeira é bem mais provável que a segunda, mas estamos confiantes que com a ajuda de todos poderemos dispensar as duas.

Dá pra conhecer o espaço antes de doar?

Sim, dá. Sempre rolam eventos por lá, é só ficar esperto no estudiofabricalapa.net.

Porque Casa Mafalda?

Quando o Auto deixou o futebol society (ou futebol sete para alguns) para jogar na tradicional várzea paulistana, nosso primeiro campo foi na zona leste da cidade, próximo a um bairro chamado Chácara Mafalda.

Como nossa torcida na época era majoritariamente composta pelas namoradas e amigas dos jogadores e torcedores, em homenagem à elas e ao bairro escolhemos como mascote a personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino, uma menina que questiona de forma bem humorada os pais e a todos sobre os problemas sociais, políticos e morais da humanidade.

Com o surgimento do nosso time feminino, a idéia ficou ainda mais forte, e nada mais justo do que nomear nossa casa, palavra no feminino, com o nome de nossa mascote.

Mais sobre o Autônomos & Autônomas FC

Se você quiser saber mais sobre o Auto, jogar com a gente, fazer parte da torcida, conhecer o espaço da futura Casa Mafalda ou mesmo trocar qualquer idéia, entre em contato:

www.autonomosfc.com.br
autonomosfc@gmail.com
(11) 9506-9920

Aqui há uma pequena reportagem feita pelo Carlos Carlos, do programa Bola & Arte (http://bolaearte.wordpress.com), para a TVT: http://digi.to/LI2AR

Entre em contato. Estamos sempre abertos a novas propostas. De repente você quer começar um time de basquete do Auto…

Contamos com a sua ajuda para que no dia 06 de agosto possamos fazer a grande inauguração do Espaço Autônomo Casa Mafalda!

Vamo Auto!

http://www.autonomosfc.com.br
autonomosfc@gmail.com

Inúteis saberes

(Este post é mais um sinal de vida do que um post propriamente dito.)

Tira do Calvin & Hobbes e quadro da TV Pirata selecionados para uma “sensibilização” em uma reunião de professores em uma escola qualquer. Clique na tira para ver a versão original.

Calvin and Hobbes, por Bill Watterson

Livre arbítrio

Obviamente a Chacina do Realengo teve que invadir a casa de meu pai. E justamente quando eu o visitava, em pleno almoço na sala, tomando uma sopa que ele me preparara – carinho para o filho que extraíra um dente do siso no dia anterior.

O que faz uma pessoa agir tão cruelmente quanto aquele sujeito que matou 12 crianças na escola? Natureza humana? Sociedade? Não. Segundo meu pai, isso tem relação com o mal que permeia a humanidade. Estava por vir um breve e raro discurso sobre as escrituras sagradas. Fazia anos que não conversava sobre religião com ele. E não tinha saudade alguma disso.

- Filho, sabe que é complicado falar sobre isso com você, pois você não acredita no que eu vou lhe falar… mas existe Maldade nesse mundo.

De fato, ele me conhece bem. Tentei rebater seu argumento de várias formas. Não queria deixá-lo falando sozinho. Conversamos tão pouco, não podia abrir mão de cinco minutos de diálogo, mesmo sobre um assunto que não me apetece mais. Decidi ir até o fim. Caminhei pelo maniqueísmo do discurso ocidental, passei pelo positivismo herdado do século XIX até que cheguei a um ponto que talvez conseguisse por um final àquela discussão.

- Tudo bem, mas quem criou a maldade do mundo foi Deus.

- Não. Deus não fez a luz? Como conseqüência, surgiu a escuridão.

- Mas se Ele é onisciente, sabia que surgiriam as sombras.

- Isso mesmo.

- Então, se Ele criou o bem sabendo que surgiria a maldade de sua ação, Ele é responsável pela maldade.

- Não. O homem faz suas escolhas, tem seu livre arbítrio. O homem escolhe o que faz e pode tomar atitudes benéficas ou que causam mal aos outros. Não é Deus quem escolhe.

- Isso não faz Deus menos responsável por ter criado a Maldade.

Gaguejou, relutou, não aceitou.

- Sou incapaz de responsabilizar Ele pela maldade do mundo.

Vendo o final da discussão que não deveria nem sequer ter começado, papai se levantou para ir à cozinha. Percebeu que não tinha me dado a pimenta para minha sopa.

- Não estou podendo comer pimenta, pai.

- Por quê? Por causa do dente que extraiu?

- Não.

- Por causa do estômago?

- Não. Por isso.

Mostrei a ele pela primeira vez a Mafalda tatuada na parte de dentro do meu braço. Ele olhou a arte por uns dez segundos.

- É… livre arbítrio – disse ele com a voz quase trêmula e cabisbaixo antes de deixar a sala e ir para seu quarto.

O papel da escola

Quando o objetivo é defender determinado ponto de vista, normalmente os pressupostos que alicerçam o discurso da defesa ficam escondidos em um quarto ermo e escuro. É como se costuma fazer com aquele tio mais velho que a família evita ao máximo ter presente nas noites de Natal. Os mais velhos sabem por que querem esse tio escondido, enquanto as crianças nem sempre sabem, mas acabam se acostumando, conforme crescem, com a ideia de que é melhor para a família que aquele tio fique à parte da festa.

Há alguns pressupostos para a defesa da escola e de seu papel social que me interessam, embora pareça ser uma perda de tempo lidar com esse assunto. Alguns preferem não refletir acerca de tais pressupostos, pelo mesmo motivo que os parentes preferem esconder o tio, enquanto outros sequer imaginam que os pressupostos são pressupostos e não verdades, com a mesma ingenuidade das crianças que se divertem com a situação do tio que traz vergonha à familia.

Às vezes me parece que os pressupostos do papel da escola para a nossa sociedade sofrem desse mal, pois é praticamente impossível encontrar alguém que questione esse papel. Não só o senador Cristóvão Buarque acredita que a educação seja o único caminho para tornar digna a vida do brasileiro, e que a escola é um mecanismo nobre de socialização. Há quase um consenso entre os mais humanistas de que oferecer escola de qualidade a todos é fundamental para emancipar os cidadãos, dando a cada um condições de serem atuantes sociais, responsáveis por transformar a realidade na qual estão inseridos.

Será que educação e escola são tão importantes quanto se acredita? Será o ensino um bem cultural tão bom quanto acreditamos? Será a escola uma instituição capaz de fornecer a satisfação individual que dela se espera? É tão óbvio que a escola melhora as pessoas, ou estaria eu cometendo um pecado questionando o papel social da escola?

Antes de profanar o papel da escola tentando responder a essas questões, aparentemente menores e impertinentes como a das crianças, há uma proposição que precede qualquer pressuposto para a escola como se conhece atualmente: a escola não respeita as diferenças de seus alunos. A escola, em sua essência, é uma instituição que foi criada com o intuito de homogeneizar seu público alvo. A escola dos jesuítas surgiu para domesticar os indígenas; a escola do século XIX e primeira metade do século XX serviu para formar elites pensantes, dando a seus alunos todos os bons modos que eram de se esperar de sua estirpe; a escola financiada pelo Estado constrói seu currículo, por mais humanista que seja sua aplicação, pensando em docilizar seus alunos, no processo de formação cidadã, dando a ele um comportamento civilizado. Enfim, a escola é um dos mais poderosos mecanismos de subjetivação que se tem notícia na história da humanidade: é ela que forja os sujeitos de acordo com as expectativas e o contexto.

A princípio, não há nada de bom nem ruim na subjetivação: esse é um processo mediador de basicamente todas as relações humanas. A publicidade pressupõe um sujeito ao produzir o material que veicula a informação desejada, a empresa que fabrica detergentes neutros sabe que alguns de seus usuários têm alergia aos tipos alternativos e por isso não pode tirar de circulação os sabores para os alérgicos; o pessoal de RH sabe muito bem quem contratar para sua empresa; o segurança de shopping, com alguma experiência, sabe quem serão os clientes que poderão causar maiores problemas aos interesses de seu patrão. Para cada relação, institui-se um sujeito com o qual se interage.

O interessante de se notar é que não só existe a expectativa de um sujeito com o qual se espera lidar em cada situação, mas também existem mecanismos responsáveis por produzir os sujeitos que satisfaçam essas expectativas.

Ao assistir um comercial do governo federal falando sobre a importância do voto consciente, é automática a associação da publicidade como mecanismo forjador de cidadãos que correspondem ao interesse do governo. Em época de eleições surgem propagandas pregando aos cidadãos sua responsabilidade de ter a consciência que o governo deles espera e, portanto, que não devem se abster da obrigação de votar.

O mesmo ocorre em uma campanha anti-fumo. Nela, o consumidor de hoje é pressionado a seguir o exemplo do cidadão comprometido com o progresso – uma pessoa saudável, que siga as leis e que seja capaz de consumir e contribuir com impostos, trabalhar e adiar sua aposentadoria o máximo de tempo possível, portanto longevo. E como o governo seria capaz de intervir na vida das pessoas se não fosse por propagandas, campanhas publicitárias e pela escola?

Insisto em manter o maniqueísmo afastado dessa reflexão. Se os processos de subjetivação são a princípio bons ou ruins, depende do ponto de vista de quem o está a analisar. Há quem prefira trocar a possibilidade de viver mais por alguns prazeres mundanos, enquanto há os que não abrem mão de um bom e gorduroso bife de picanha ao invés de se submeterem à norma cada vez mais comum que praticamente obriga a todos terem um corpo magro, com IMC médio de 25 e capaz de viver até os 120 anos de idade, por mais dolorida, limitada e rotineira que seja essa vida. Sujeito são e dócil versus sujeito hipertenso e autônomo: qual é bom ou ruim? É óbvio que cada um tem sua resposta, e não tenho dúvidas de que a minha aqui não interessa. (Fica a dica: não dou ouvidos ao doutor Dráusio Varela em hipótese alguma).

E é justamente na construção de sujeitos que se insere a escola. Não há um modelo de escola que pense em respeitar as diferenças de todos os alunos ao mesmo tempo. Há modelos mais democráticos ou até mesmo libertários que têm como premissa a autonomia do aluno em sua formação, tanto no final quanto durante o processo. Nessa situação, o aluno tem espaço para escolher o que aprender e como aprender – é o caso da Summerhill School, na Inglaterra, idealizada por Neil e inspirada na visão de mundo do psicanalista Wilhelm Reich, entre outras em vários pontos do mundo, como EUA, Israel, inclusive várias em São Paulo. No entanto, não há por que acreditar que qualquer indivíduo deve se ajustar a esse sistema. Um desajustado social, que, digamos, não seja muito afim dos direitos humanos ou adepto de violência gratuita, dificilmente conseguiria (isso é pura especulação) conviver em um ambiente como esse, pois seria possivelmente rotulado como dotado de algum distúrbio psicológico ou rejeitado pelas pessoas de tal escola. É inevitável que um aluno mais violento que o normal seja expulso ou impedido de participar desse processo de formação. Isso mostra que a escola, libertária, estatal ou privada, não respeita todas as diferenças entre as pessoas, embora cada um estabeleça graus diferentes de aceitação do diferente.

E isso não é absolutamente um problema! Se neste ponto você está pensando “mas é óbvio que uma pessoa violenta não deve ser respeitada!, ela deve ser submetida a um tratamento para se tornar capaz de conviver em sociedade”, então estamos concordando que a escola, assim como os manicômios, hospitais, prisões, orfanatos, serve para homogeneizar as pessoas, fazê-las mais capazes de viver em sociedade. Não quero dizer que a escola seja ruim ou boa por seu caráter pasteurizador, mas sim que esse é um princípio indissociável da escola: ela pressupõe um sujeito – no caso, sociável – e investe seu tempo para produzir cidadãos que pensem como tal. Portanto, se no final do processo de escolarização as pessoas devem ser sociáveis, não faz sentido esperar que a escola queira formar pessoas com dificuldade de socialização. Essa é uma forma de dizer que a escola não respeita as diferenças entre as pessoas, pois serve justamente para acabar com tais diferenças.

Não acredito que a escola esteja fugindo de seu propósito, que a educação esteja em crise ou que seu papel está sendo deturpado por interesses adversos. A escola forja sujeitos normais, dociliza os corpos. A questão é até onde seus alunos podem ter suas singularidades respeitadas, manifestarem suas diferenças. Mas esse é tema para um futuro texto.

Um pouco sobre racismo e cotas

Entrei no mercado. O segurança ficou no meu pé durante todo o tempo. Eu tinha pressa, precisava voltar para os livros, estudar para a prova de Mecânica. Mas precisava também lavar a louça em casa, há muito tempo parada sobre a mesa servindo de heliporto aos insetos. Mas não tinha produtos de limpeza, precisava comprá-los. Fui ao mercado. Lá dentro, um segurança me seguia. Não tirava o olho de mim, aquilo me incomodou. Mas eu tinha pressa. Tirava e colocava a lista de compras no bolso de minha bermuda, conferindo a cada minuto o que deveria ou faltava comprar. Ao sair do mercado, após deixar 20% de minha bolsa de iniciação científica nas mãos do dono (sendo que menos de 1% disso representava os salários dos funcionários), o segurança me parou e perguntou educadamente se eu havia pegado uma buchinha, Scotch-Brite, e colocado no bolso sem querer. “Sabe como é, a gente precisa fazer esse tipo de verificação”. Tanto estava no meu pé como, ao me ver guardar a lista de compras no bolso, achou que eu concretizava aquilo que deveria ter me levado ao mercado.

***

Entrei no Centro de Práticas Esportivas. Ia à piscina. Nas férias, quando quase todos viajam e não tenho amigos na faculdade para jogar futebol ou qualquer esporte coletivo, apelo à natação, solitário. Chego à catraca onde diariamente mostro a carteira da faculdade a um dos seguranças que fazem ali o rodízio do cara-crachá. Sempre mostro o selo do exame dermatológico e minha foto, presentes na carteirinha. Apesar da rotina, uma jovem segurança solicita meu documento para inspecioná-lo, examiná-lo minuciosamente. Isso nunca ocorrera naquele centro, mesmo depois de nove anos na Universidade. Tudo bem, é serviço dela zelar pela segurança dos usuários do Centro, pensei. Mas não parou por aí. A carteirinha não a satisfez: teve que solicitar também meu RG.

- Vocês sempre pedem o RG para os usuários da piscina? – perguntei.

- É para garantir que todos os usuários pertencem à USP – respondeu comparando as fotos dos dois documentos.

- E o que lhe faz pensar que minha carteirinha não é minha, mas as dos outros usuários para quem você não a solicita são deles?

- É que há usuários que entram aqui sem pertencer à comunidade. Essa solicitação é para o bem de vocês.

***

Eu adorava D. Maria, faxineira do centro acadêmico. Nossa relação era afetuosa, como se nos conhecêssemos há anos. Tanto que ela me tratava como um parente. Certo dia, ela conversava com um dos diretores do centro acadêmico e, ao falar de mim, disse que eu era como um filho moreno dela. Intervi: “Não sou moreno, D. Maria. Sou negro”. Ela insistiu, dizendo que não, que eu era moreno. “Não, D. Maria. Não se preocupe, eu sou negro, não há problema nenhum em dizer isso”. Quando ela percebeu minha convicção quanto minha negritude, ela afirmou: “Poxa, meu filho! Mas eu estou tentando te ajudar!”

***

Visitando Jacareí/SP, há alguns anos, minha namorada e eu fomos a uma casa de uma grande rede de comidas árabes, o Habib’s, no centro da cidade. Esperamos ser atendidos por 35 minutos. Os funcionários, predominantemente nordestinos, atenderam a absolutamente todos os clientes, predominantemente brancos, que chegaram depois de nós naquele estabelecimento antes de nos atender. O gerente da loja percebeu não apenas nosso constrangimento mas também o descaso dos outros funcionários com nossa presença na loja – não que fossêmos estrelas ou dignos de um atendimento preferencial, como também não éramos menos importantes que os outros clientes – e nos pediu desculpa pessoalmente.

Em São Paulo, em outras lojas da mesma rede, somos normalmente ignorados pelos seus funcionários, com maior frequência na loja da rua Augusta. Tanto que, ao irmos pela primeira vez ao Ragazzo (restaurante cujo dono é o mesmo do Habibis) da Alameda Santos, um funcionário na porta interviu: “Hoje estamos sem salgadinhos, todos acabaram. Temos apenas as massas do cardápio. Vocês podem ir ao Habibs se quiserem, é aqui do lado”, como se alguma coisa em nós lhe anunciasse que não queríamos comer as massas de seu restaurante.

***

Em meu Ensino Médio, numa escola de um bairro de classe média da cidade em que vivi, meus amigos tentaram articular um namoro entre eu e a outra aluna negra de minha classe. Todos achavam que nós dois combinávamos.

***

A biologia diz ter provado a inexistência de raças biológicas. Acredito piamente nisso. Não apenas por medo de alimentar qualquer tipo de eugenia, mas por achar desnecessário descrever o mundo em uma perspectiva que evoque raças biologicamente legitimadas.

Apesar de a única raça ser a humana, as situações reais pelas quais passei e acabei de descrever podem ser explicadas com ajuda do conceito de raça social, ou discriminação social por cor. Esse conceito prevê um comportamento pautado em uma diferenciação entre pessoas com aparências físicas diferentes, que não dependem do ponto de vista do diferenciado mas sim do diferenciador.

Os critérios utilizados para me diferenciar das outras pessoas no mercado, no centro esportivo, no Habib’s, pelos meus amigos de infância e pela faxineira não dependem de buscar uma justificativa na biologia para serem levados a cabo. Por mais que as pessoas não gostem de racismo, suas ações são pautadas em uma distinção por cor, mesmo que de forma não deliberada. Isso pode até ser justificado por uma herança cultural, contudo pretendo me prender aqui às consequências disso.

Um negro não tem o mesmo tratamento de um branco, mesmo quando comparando pessoas de classes baixas. Assim, se mesmo não havendo raças em termos biológicos existe discriminação racial na sociedade, não se pode garantir que critérios raciais não influenciem na formação pessoal de um negro.

Por mais que alguns ainda acreditem na justiça da lei, há praticas sociais que a precedem. Por mais que a lei tente ser justa, não há garantias de que a sociedade necessariamente também o seja. Enquanto a lei é posta para formar um corpo social, a sociedade deforma o cidadão à revelia da lei.

A assimetria no tratamento entre negros e brancos implica em formações diferentes. A sociedade não é a única influência na formação, embora seja relevante ao agir sobre os sujeitos aliada a outras forças. Dessa forma, uma pessoa que não vai se preocupar com um segurança atrás dela no mercado, que não vai ter a menor esperança de namorar uma pessoa branca quando criança, que sabe não poder ser miss caipirinha, que aparenta ser menos atraente economicamente para uma loja ou restaurante, e que se enquadra no perfil de prováveis suspeitos de crimes não vai lidar com o mundo da mesma forma com que lida uma pessoa privilegiada em tais circunstâncias. Essas pessoas vão interagir com o mundo de forma diferente e, por verem o mundo de uma ótica distinta, as diferenças de comportamentos entre brancos e negros vão sendo realçadas cada vez mais com o passar dos anos.

Hoje, dizer que brancos e negros partem de condições sociais iguais é uma falácia. Afirmar que tal assimetria deva ser ignorada em um exame como o vestibular, e que a concorrência é de igual para igual entre negros e brancos, é superestimar o papel da lei – que diz que todos devem ser tratados como iguais, independente de raça, cor, credo, religião, sexualidade. Ao mesmo tempo, é subestimar o papel da cultura nas relações humanas e consolidar a exclusão social de pessoas para as quais nunca houve uma política pública voltada para incluí-las em uma sociedade há séculos pautada em discriminação racial, seja a legitimada pela biologia, seja pela própria sociedade.

Vem a calhar: Mérito ou privilégio?, do Brontossauros em meu Jardim

Educação no ELAOPA

No post anterior, fiz uma breve descrição do que presenciei no IX ELAOPA. Achei não ter escrito o suficiente sobre a comissão de educação, da qual fiz parte e assisti ao debate em um dos dias do evento. Resolvi então dedicar um post a esse tema.

Por ter-se pautado em analisar a atual conjuntura da educação, a comissão tornou-se um grande desabafo dos problemas pelos quais passam os educadores envolvidos – o ponto de vista dos alunos foi raramente abordado. O momento poderia ter sido mais propositivo, mas muito se falou dos problemas da educação e como ela poderia ser, sem se ter propostas concretas e radicais a ponto de atacarem sua estrutura e seus pressupostos. De outra forma, apenas se muda uma maquiagem pela outra: mudam-se os métodos e mantém-se a finalidade da educação. Nesse sentido, o ELAOPA sofre do mesmo mal que qualquer outro fórum de debate sobre educação.

Minha crítica conflita com aquilo que alguém denominou marxismo acadêmico: um positivismo aliado à luta de classes como caminho para emancipar o cidadão. Encaro esses pressupostos como limitadores do encaminhamento dado a essa discussão. Exemplo disso é que o papel da educação deixa de ser questionado, pois se parte sempre da educação transformadora, muito próxima à marxista de Paulo Freire a não ser pelos métodos, pelos princípios libertários tão defendidos no Encontro; ambas se propõem a dar as armas necessárias para a base popular construir um mundo mais justo.

Infelizmente não participei do primeiro dia da comissão por ter participado de outra, e no segundo dia, por preferir não interferir na dinâmica da discussão começada um dia atrás, preferi não interferir no debate.

Acredito ser muita pretensão se colocar como um debatedor dotado de uma ética privilegiada, iluminada, tomada como mais adequada para que as pessoas se construam como sujeitos melhores. E percebi essa postura em muitos dos que estavam discursando na comissão. Tenho a impressão de que encarar a educação como sendo atualmente um processo de subjetivação, estratégico (e não necessariamente bom ou ruim) para forjar, normalizar e homogeneizar sujeitos, e pensar em formas de transformá-la em processo de singularização, que potencialize as diferenças e a multiplicidade de individualidades, permite nos libertar daquele positivismo freireano, piagetiano, marxista, ferreriano etc.

Pensar a educação como processo de singularização não deixa de ser ideológico (pensar o contrário seria ingênuo demais), mas apresenta claras vantagens. Primeiro por romper com o paradigma classista e encará-lo com um modelo dentre vários potencialmente tão úteis quanto ele para se estudar a educação. Além disso, propô-la como processo de singularização viabiliza uma multiplicidade de condições ou situações para não transformar enunciados em verdades da natureza. O problema dessas “verdades” é o de estruturarem e fortalecerem processos normatizadores, que apagam as potencialidades de nossas vidas; é da diferença que surgem opções para tornar mais dinâmica e dar maior liberação aos sujeitos nas relações de poder, criando situações que viabilizem a subversão dessas relações.

O problema parece residir no engessamento do discurso libertário em torno de um jargão estabelecido pelos militantes-quadros marxistas, bakuninistas, proudhonianos, illichistas etc. Ao meu ver, a pouca diversidade de pontos de vista empobrece demais essas discussões.

IX Encontro Latinoamericano de Organizações Populares Autônomas

O IX Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas ocorreu em Jarinu/SP nos dias 22, 23 e 24 de janeiro de 2011.

Estiveram presentes membros de organizações de diferentes nacionalidades – além da absoluta maioria brasileira, uruguaios, chilenos, argentinos e haitianos também participaram.

O Encontro busca promover a integração das organizações autônomas da América Latina a partir do debate de temas pontuais indicados pelos ELAOPAs anteriores. Ao longo dos três dias, os participantes se dividiram nas comissões sindical, comunitária, de cultura e comunicação, de educação, estudantil, gênero/raça/etnia, muralismo e de questão agrária e ecologia. No terceiro dia, cada comissão fez ao público um relato dos debates e das propostas levantadas, discutidos em assembleia a fim de ser concretizado até o próximo ELAOPA.

Tomou-se como tema transversal a todas as comissões o IIRSA, Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana, uma espécie de Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) sulamericano.

Palestra sobre o IIRSA

O caráter libertário do encontro atrai pessoas ligadas a movimentos com a mesma orientação e acaba por afastar organizações socialistas marxistas, partidos e ONGs. Apesar disso, membros da AJR e UJS marcaram presença, embora em um número muito pequeno. Logo, a maioria do público era composta por anarquistas e libertários. Ação direta, democracia direta, autonomia e autogestão acabaram sendo expressões comuns nas discussões.

Acompanhei duas comissões: a comunitária e a de educação.

Comunitária

A comissão comunitária, voltada para a discussão de movimentos de bairro, levantou a falta da continuidade de trabalhos comunitários, normalmente interrompidos por motivos dos mais diversos. A realidade desse trabalho sofre com o comum esvaziamento de organizações, que iniciam com pessoas interessadas, mas que por seus motivos abandonam o movimento, prejudicando sua continuidade. O problema é que parece não haver muita solução a não ser ressaltar a importância da perseverança que os ingressantes do movimento devem ter para não prejudicar a atividade do grupo.

Outro ponto levantado pela comissão foi a dificuldade de fortalecer a rede de luta das comunidades e bairros. Criar uma estratégia que permita unificar as lutas é um processo ainda em construção e possivelmente sem uma fórmula para concretizá-lo, a não ser pelo estabelecimento de uma comunicação eficiente – encontros desse tipo cabem aqui como exemplo.

As conversas da comissão comunitária foram todas novas para mim, dada minha pouca ou nenhuma experiência com grupos desse caráter; por mais que eu tenha visitado ocupações e espaços autônomos, nunca participei efetivamente de um coletivo a ponto de saber quais as questões normalmente enfrentadas por esse tipo de organização. Já na comissão de educação, estive ambientado e a par dos discursos manifestados a ponto de poder tecer algumas críticas ao desenvolvimento do processo, mesmo sem ter participado da comissão no dia anterior.

Educação

A leitura do relato elaborado no primeiro dia explicitou o senso comum que pauta o debate político acerca da educação em quase todos seus fóruns, seja em uma reunião de professores e educadores, seja em um encontro como esse.

O debate do segundo dia se prendeu à melhor definição do termo educação popular – um dos temas propostos para essa comissão, junto de educação formal e cursinhos pré-vestibular/universtiários. (Pré-vestibular é diferente de pré-universitário visto que este propõe não apenas um bom desempenho na prova, mas também levar o aluno à vida e ao ambiente universitário desde cedo, como parte de sua formação). Detalhar a definição do termo educação popular, de acordo com os membros da comissão, pareceu pertinente por garantir os caminhos a serem percorridos pela comissão no futuro. Assim, a discussão foi norteada por uma educação transformadora, para o trabalhador, catalizadora do processo de criação do poder popular, um espaço que privilegie a educação libertária (tomando como princípios autogestão, autonomia, ação direta, classismo, democracia direta e formação integral).

Tenho um problema quanto a essa perspectiva, que mostra uma clara preocupação com o caminhar e não com o ponto de chegada. Fica a impressão de que todos estão preocupados em saber como resolver a educação, enquanto seu papel social fica hermeticamente isolado em uma sala escura, intocado. Talvez a educação não tenha mesmo um problema; talvez transformá-la e pautá-la em princípios libertários leve-a do nada a lugar algum, continue desrespeitando as diferenças e individualidades de todos nós. Ao meu ver, respeito às diferenças é um pressuposto importante apesar de ausente em todas as discussões das quais tenho participado.

Escreverei em breve mais sobre essa comissão, tocando no assunto do respeito às diferenças.

Uma das propostas criadas foi a de se criar um fórum a fim de se debater online a educação.

Visão geral do encontro

Alguns debates parecem ser ainda muito crus se comparados aos que permeiam, por exemplo, encontros estudantis. O debate para se decidir pela articulação ou não de encontros regionais ou nacionais entre o latinoamericano deixa esse ponto de vista explícito. Isso pode ser causado pela juventude do evento, que tem apenas dez anos, ou pela própria estrutura horizontalizada do debate.

Intervenção da comissão de gênero/raça/etnia na assembleia final do Encontro

Outro exemplo foi a típica perda de foco das discussões, muito comum em encontros de todos os tipos. Apesar da preocupação com a perda de foco ter dado origem aos textos disparadores criados para orientar as comissões, os temas e propostas ainda estão muito abertos. Isso leva a conversas extensas e pouco propositivas, como no caso da comissão de educação.

Foi difícil amarrar o tema transversal (IIRSA) aos temas das comissões. No caso da comissão de gênero/raça/etnia (tema tão aberto a ponto de ser tomado como transversal em futuros encontros, o que foi sugerido por seus integrantes), a distância se dá pela amplitude das duas questões, o que faz com que ligar ambos os temas pareça ser por demais forçado. Nas outras comissões, embora com temas mais próximos da questão da integração da infraestrutura sulamericana, a dificuldade não foi diferente. Isso deve expressar como esse evento ainda engatinha e tem ainda muito a se desenvolver em termos de encaminhamentos, uma vez que os debates ainda não estão fechados o suficientes para serem articulados com um tema transversal importante como o IIRSA.

Mas a perda de foco e entraves em questões relativamente simples não é necessariamente um problema. É muito mais prudente fazer muitos encontros com debates relativamente longos do que se meter os pés pelas mãos, dar passos além das pernas e se perder uma oportunidade valiosa de se estabelecer uma rede coesa de movimentos libertários. Isso é importante enquanto alternativa ao modelo de resistência e luta popular vigente, atualmente liderado por braços estatais, ONGs e outras instituições. Tal importância se dá não só em termos de organização dos próprios movimentos mas também de resultados práticos, uma vez que nada garante que um modelo de resistência deve ser mais eficiente do que outro (pelo menos a priori), justificando a investida de organizações populares autônomas contra a ordem social.

Aumento da tarifa de ônibus e o Grande Congestionamento

À espera do Grande Congestionamento

 

Um trecho do livro “Não verás país nenhum”, de Ignácio De Loyola Brandão, que me marcou demais foi o Grande Congestionamento. Nessa que é apenas uma das críticas à política nem um pouco ecológica do contexto em que o livro foi escrito, o autor criou a situação em que milhares de carros ficaram parados em um congestionamento sem início nem fim de tão grande que era. Os donos ficaram sentados em seus carros durante dias, esperando pelo fim daquele engarrafamento, até que perceberam que não haveria solução a não ser abandoná-los ali e voltarem para suas casas.

De tanto se produzir carros e colocá-los nas ruas sem qualquer planejamento ou responsabilidade sobre isso, às vezes tenho a sensação de que o Grande Congestionamento em breve deixará de ser ficção e se tornará realidade. Pode parecer triste (não para mim) ou cruel, mas creio que esse fim é inevitável, gostando dele ou não.

Por outro lado, ainda acredito que possa haver uma via na qual possamos cultivar uma cultura menos pautada em autoafirmação e consumo e que dê lugar a uma postura mais consciente (embora eu tenha dúvidas quanto a viabilidade dessa solução quase metafísica à qual damos o nome de consciência) tanto da população quanto de quem diz nos representar frente a ações de cunho coletivo. Duas conseqüências imediatas dessa nova cultura, possivelmente pautada em uma economia baseada no uso racional de recursos naturais ao invés do acúmulo de capital, que depende necessariamente da exploração humana e do consumo, deveria ser a diminuição do uso de carros e o incentivo ao transporte coletivo. Obviamente o Estado deveria assumir seu papel nessa perspectiva, enquanto o papel de seus cidadãos por ele “representados” deveria ser o de cobrá-lo para que essa tendência, natural em um mundo que se pretende sustentável e ecologicamente correto, seja concretizada.

Manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em 13 de janeiro de 2011

E essa cobrança existe. O Movimento Passe Livre de São Paulo organizou na última quinta-feira 13 uma manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus na capital paulista, de R$2,70 para 3 reais. Esse aumento expressa como não faz parte da política estatal o incentivo à utilização de transporte coletivo. A prefeitura anda na contramão não apenas da moda da sustentabilidade mas também do respeito aos usuários de seus ônibus, obrigados a pagar uma tarifa que viola o direito ao transporte público previsto pela lei nacional e que, mesmo se a tarifa fosse justa, não condiz com o serviço oferecido.

Enquanto a prefeitura retrocede em uma política que deveria expandir seus serviços a toda a população, esta mostra indignação e, pelo menos uma fração, se presta a reivindicar uma mudança na postura política de quem a “representa”. Prova disso são as manifestações contra o aumento da tarifa, para não falar de outros movimentos sociais relevantes como o FLM, que recentemente ocupou inúmeros prédios do Centro reivindicando um plano habitacional justo em São Paulo.

Parece não haver argumentos razoáveis contra a motivação de manifestações como a de quinta-feira. No entanto, os métodos para a cobrança feita à prefeitura ainda geram controvérsias.

Um argumento contra manifestações que ocupam as ruas é que elas não surtem efeito. Se fosse verdade, os movimentos contra o aumento das tarifas de ônibus em Florianópolis e Recife não teriam dado em nada – pelo contrário, depois das manifestações, as prefeituras voltaram atrás e não aumentaram as tarifas - assim como não haveria passe livre aos estudantes de Cuiabá.

Outro argumento é que os manifestantes seriam violentos. E é óbvio que a polícia os agrediu na quinta-feira com gás de pimenta, bombas de estilhaço e balas de borracha, como mostra o vídeo acima, por serem violentos. Isso é uma grande falácia, pois não há comparação entre a força utilizada pelos manifestantes, por mais violentos que tenham sido, e a utilizada pela PM. Podemos comparar também o método da polícia para prender os manifestantes: após dispersar a manifestação com as bombas e tiros, viaturas perseguiram e renderam aleatoriamente pelas ruas do centro grupos de jovens que poderiam estar na manifestação. Motivo? Um motivo dado foi que alguns derrubaram uma cabine da PM na praça da República. Isso ainda não é justificativa razoável para atirarem bombas e ferirem manifestantes. Ou a PM carece de táticas eficientes para prender infratores ou esse fato foi convenientemente utilizado para dispersas uma manifestação que compromete a imagem do prefeito e de sua gestão. Se fosse um conflito isolado entre manifestantes e a PM, poderia dizer que não é intenção de nossos “representantes” no governo oprimir quem dele discorda.

Ou seja, a prefeitura não apenas fere o direito do cidadão ao transporte público, cobrando tarifas abusivas, mas também coíbe violentamente uma cultura que busca garantir o bem-estar social sob uma pespectiva coletiva e reivindicar por justiça por meio da ação direta.

Quinta-feira, 20, haverá mais um ato, agora com saída da Praça do Ciclista (av. Paulista com av. Consolação). E provavelmente mais violência e agressões policias desproporcionais às ocorrências. Independente de o Estado vivificado pela prefeitura fazer seu papel ou não, creio que a manifestação nos permite defender nosso ponto de vista e reivindicar não apenas uma tarifa justa mas também uma alternativa razoável para o transporte na cidade.

Ocupar as ruas para se manifestar ainda é melhor do que aguardar pelo Grande Congestionamento.

_

Leia mais sobre a luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo em Viomundo, Blog do Sakamoto e Passa Palavra.

Arte nos HTPC

Quem possui uma carga horária maior do que 10 horas-aula semanais na Rede Estadual de Ensino (SP), é presenteado com uma reunião semanal com o corpo docente da escola e a coordenação. A essa reunião é dado o nome HTPC, ou horas de trabalho pedagógico coletivo.

Os HTPC normalmente provocam uma série de queixas dos professores, tanto durante a reunião quanto fora dela. Isso porque as reuniões são pouco produtivas. Na realidade, quase todos os professores vão para o HTPC como se fosse uma perda de tempo de forma que, mesmo quando tem potencial para se debater questões importantes e se tomar decisões importantes para a escola, a reunião acaba sendo desperdiçada.

Neste meu primeiro ano de experiência na Rede, tentei contribuir como pude nessas reuniões. Normalmente muito calado, me limitei a representar em desenhos alguns momentos que me chamaram a atenção ao longo dessas reuniões. Desenhar foi o remédio que encontrei para ficar acordado enquanto os professores desabafam, faziam reclamações vãs, falavam mal do próprio emprego ou criticavam os alunos e sua postura desajustada à escola.

Resolvi escanear os desenhos e compartilhá-los com os dois ou três leitores deste blog. Não sou desenhista, portanto, não esperem técnicas ou algo mais elaborado do que mera arte rupestre no que virá a seguir.

Uma professora se queixou das garotas que se beijavam no pátio durante os intervalos; segundo a docente, os homossexuais sentiam uma necessidade maior de se mostrar, fazendo com que desrespeitassem os outros muito mais do que normalmente fazem os héteros.

Um cartaz que eu pagaria para ver o Estado colocando em todas as salas de aula da Rede.

Conheça o caráter elitista do projeto Ismart e entenda a charge: http://www.ismart.org.br/ . Uma professora fez questão de que a escola abarcasse o projeto.

Cansei de ouvir que nós, educadores, "somos a elite pensante do país", como argumento para que alinhássemos nossa ética à da direção. Diante disso, tentei fazer uma pirâmide social da forma menos fascista possível.

Um debate com argumentações complexas me levou a imaginar essa placa para a sala do HTPC.

Ver alguém na escola defender o papel FUNDAMENTAL da religião na formação dos alunos, por mais que isso não seja nenhuma surpresa, me deixou perplexo pelo menos naquele momento.

"Você acredita em Deus? Então você acredita em milagres."

Em uma conversa com alguns alunos, descobri que eles querem aprender a seguir regras e que esperam os professores serem disciplinadores, impondo limites e punindo sempre que possível. Quando questionados sobre maior liberdade em alguns momentos na escola, falaram que isso não é importante pois o mundo lá fora cobra respeitos às regras, na família, no trabalho etc.

Na catraca

Subi no busão. Quando encostei na catraca, saquei meu bilhete único (cartão de passagem) e lembrei: “dia de pular catraca”. Protesto contra o aumento da tarifa, organizado por vários movimentos, dentre eles o que defende o passe livre.

Olhei pra dentro do ônibus. Fui o segundo passageiro a subir. O coletivo acabara de sair do ponto inicial, estava praticamente vazio.

Perguntei pro cobrador, com meu bilhete já no aparelho que descontaria meus R$2,70:

- Tem muita gente pulando a catraca hoje?

- Não, ninguém pulou. Por quê?

- Por que hoje é dia de protesto contra o aumento da tarifa, que subirá para R$2,90.

- Ninguém pulou. E se pulasse, o ônibus pararia na hora e botaríamos o cara pra fora. Isso não é protesto, isso é vandalismo.

O cobrador, que não terá um centavo de aumento em seu salário, reproduziu o discurso do explorador. Sentei e, na marcha fúnebre em direção ao meu trabalho e R$2,70 mais pobre, fiquei a pensar sobre o que deveria ter dito ao cobrador para convencê-lo da importância do protesto.

Por fim, não pulei a catraca e segui calado, convencido de que não poderia fazer mais nada. Pelo menos não naquele momento.

Frente de Luta por Moradia e I Copa dos Movimentos

O descaso e o desrespeito das autoridades com relação às leis federais que deveriam garantir o direito à moradia a todos (veja a Constituição Federal, art. 6º) levaram um grupo de sem-tetos a se organizarem e se ajudarem de forma mútua.

Na luta pelo seu direito de morar, centenas de famílias estão ocupando quatro prédios do centro de São Paulo, reivindicando uma ação efetiva da Prefeitura a fim de abrigar essas pessoas. A iniciativa tem responsáveis: a Frente de Luta por Moradia.

O Autônomos FC, time de futebol de várzea autogestionado, está organizando a I Copa dos Movimentos. A proposta da Copa é a de promover uma campanha de arrecadação de alimentos, roupas, remédios, materias escolares etc. para as famílias envolvidas nas ocupações. Além disso, será um campeonato de integração entre vários movimentos sociais. Já confirmaram presença a FLM, MST, Movimento pelo Passe Livre, Associação Nacional dos Torcedores, Rádio Várzea, Gaviões da Fiel – Movimento Rua São Jorge e Ativismo ABC.

A I Copa dos Movimentos ocorrerá ao longo do sábado, dia 6 de novembro, e é aberto a quem quiser participar. Basta levar alguma doação – 1kg de alimento não perecível ou uma peça de roupa. Leve quantas doações puder!

Depois do campeonato, haverá um amistoso entre o Autônomos FC e a FLM, samba e confraternização entre os movimentos.

Saia do banco de reservas e venha jogar conosco em solidariedade às ocupações da FLM.

Mais:
Autônomos FC convida: I Copa dos Movimentos
Futebol e o direito de morar

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.