Guerra da Tarifa 2005

Muito elucidativa a leitura de “Guerra da Tarifa 2005 – uma visão de dentro do Movimento Passe Livre em Floripa” (Editora Faísca). Leo Vinicius, membro do MPL naquela ocasião, faz um relato do conflito entre a população da capital catarinense e o governo municipal, que aumentara o valor da tarifa de ônibus.

Clique na imagem para baixar o vídeo de Alex Antunes, que valeu um prêmio Vladimir Herzog ao cinegrafista

Clique na imagem para baixar o vídeo de Alex Antunes, que valeu um prêmio Vladimir Herzog ao cinegrafista

Em junho de 2004, a população já havia protestado e conseguido barrar o aumento da tarifa do ônibus municipal, de 15,6%. A estratégia da prefeitura para driblar a resistência popular foi aumentar a tarifa em duas parcelas: a primeira em 23 de dezembro de 2004 (6,8%, em pleno recesso de final de ano) e a segunda em maio de 2005 (8,8%), totalizando os 15,6% planejados anteriormente. Essa ação da prefeitura provocou uma série de manifestações que culminaram em conflitos com a polícia local, colocando essa mobilização popular na história das mais importantes do país, vista a resistência dos mais diversos grupos sociais envolvidos nas manifestações violentamente reprimidas – como mostra o vídeo de Alex Antunes, que pode ser baixado com um clique na imagem acima.

O relato traz um ponto de vista crítico de um militante preocupado com as estratégias de mobilização dos manifestantes, com as ações dos manifestantes, com o papel das lideranças do movimento, além de desvelar as sabotagens mais sujas protagonizadas pela prefeitura florianopolitana, as quais a imprensa, como é de praxe, fez vista grossa e omitiu de suas reportagens.

Para quem se interessa pelo Movimento Passe Livre-SP, essa leitura parece ser mais que recomendada, por relatar uma experiência muito rica e por descrever situações recorrentes nesse tipo de mobilização, evitando assim que muitas rodas precisem ser reinventadas.

Campanha pela tarifa zero nos ônibus de São Paulo

Falando no MPL-SP, vale a pena divulgar a genial iniciativa do Movimento.

O grupo redigiu um projeto de lei que prevê a tarifa zero nos ônibus municipais da cidade de São Paulo. Para encaminhar esse projeto de iniciativa popular (pois não está sendo encaminhado por nenhum vereador) para ser votado na câmara, é necessário um abaixo assinado com 500 mil nomes de eleitores da cidade de São Paulo. Embora haja alguns mutirões por assinaturas ocorrendo pela cidade, você pode ajudar imprimindo uma folha para o abaixo assinado, que pode ser baixada no site (por sinal muito bom!) www.tarifazerosp.net. Lá, há mais informações de como proceder com as assinaturas, sobre o projeto de lei, sua justificativa (para você que torceu o nariz  ao ler sobre esse projeto e se perguntou “de onde vai sair o dinheiro para financiar ônibus gratuito para toda população?”) e muito mais sobre o movimento por um transporte paulistano mais justo e inclusivo.

E se a luta é pelo passe livre, então a guerra ainda não acabou, nem lá nem cá.

Contribua com o mais novo espaço autônomo em São Paulo!

10 de junho de 2011 marca um grande dia na história do Autônomos & Autônomas FC: em assembléia, aprovamos a idéia da aquisição da nossa sede!

Isso significa que um novo espaço autônomo independente na cidade já é realidade. Será o Espaço Autônomo Casa Mafalda!

Mas antes de falar dele, vamos nos apresentar pra quem não nos conhece.

Quem somos?

O Autônomos FC, ou Auto como é carinhosamente chamado, é um time de futebol autogerido criado em 2006 por um grupo de punks, anarquistas e ativistas de São Paulo. Desde a sua criação, o Auto sempre tentou viver o futebol de uma maneira coletiva, sem hierarquias, com decisões coletivas e com abertura para todos e todas.

Hoje, 5 anos depois, temos dois times de futebol de campo masculino, um de futsal feminino e nos arriscamos em jogos mistos em diversas modalidades também. A partir de então, passamos a nos chamar Autônomos & Autônomas FC.

Por alguns anos pensamos estar sozinhos nessa coisa de futegol autogerido. Mas em 2009 descobrimos um time inglês, o Easton Cowboys & Cowgirls, que desde 1992 está na mesma sintonia! Depois de visitarem os palestinos e os zapatistas em Chiapas, em 2009 foi a vez de estarem por aqui pra jogar e trocar experiências conosco. Então, em 2010, foi a nossa vez de jogar, na cidade de Yorkshire, Inglaterra, a Copa do Mundo Alternativa, evento organizado por times europeus com os mesmos moldes do Auto e que acontece todo ano. Um encontro até então europeu de diversas pessoas e movimentos sociais não-hierárquicos, que tivemos a chance de conhecer nos 10 dias que ficamos por lá e por Bristol, cidade natal do Easton. Lá conhecemos e estabelecemos contatos com muita gente e muita coisa que trouxemos pro nosso dia-a-dia aqui.

Aqui, participamos em São Paulo de lutas e eventos com diversos movimentos sociais e grupos culturais, como o Movimento pelo Passe Livre, a Frente de Luta por Moradia, o Bloco Carnavalesco Filhos da Santa e a Associação Nacional dos Torcedores. E em 2012, junto ao Club Social Atlético y Deportivo Che Guevara, time hermano de ideais semelhantes aos nossos da província de Córdoba, na Argentina, estaremos organizando a primeira Copa América Alternativa!

Somos, pra além de time, um coletivo. E tentamos pensar e praticar nossas relações de uma forma horizontal, libertária, diferente da imposição hierárquica e individualista que domina o cotidiano de quase todos pelo planeta.

A idéia de ter uma sede, a Casa Mafalda, deriva da necessidade de um lugar no espaço para fortalecer essa relações. Um lugar como foram tantos outros que acabaram por terminar, como o Ay Carmela e o Espaço Impróprio.

Achamos esse lugar: é o Estúdio Fábrica Lapa, na Rua Clélia, 1745 (www.estudiofabricalapa.net), na Lapa, bem próximo ao nosso campo, o CDM Bento Bicudo.

Agora, precisamos de ajuda pra que o projeto se materialize.

Como?

Simples. Pra adquirir o ponto do local (ou seja, toda a estrutura que ele já tem e que comporta shows, festas, debates, palestras, oficinas, exposições e o que mais quisermos), nós precisamos arrecadar até o dia 01 de agosto R$ 60 mil (pra pagá-lo à vista) ou R$ 35 mil de entrada, com o resto sendo pago em parcelas (o que, esperamos, consigamos fazer com o próprio movimento do espaço).

No momento, temos R$ 15 mil. Precisamos, portanto, de no mínimo mais R$ 20 mil.

A idéia pra arrecadar essa grana é bem simples: um sistema de apadrinhamento/amadrinhamento da casa.

Funciona assim: você escolhe na lista abaixo quanto pode doar e recebe em troca uma recompensa, que pode ser horas de ensaio (caso você tenha banda), datas grátis pra eventos ou mesmo entrada livre na casa. E se você não é de São Paulo ou não costuma frequentar esse tipo de espaço mas apóia completamente a existência deles, pode contribuir e ganhar de volta uma camista da campanha do Autônomos & Autônomas FC pela sede (algo como “Casa Mafalda – eu também construí!”) e outros materiais do time.

A sua doação pode ser feita de duas formas: com um depósito na conta poupança que disponibilizaremos para isso, cujo extrato estará toda sexta-feira em nosso site para conferência de todos os padrinhos e madrinhas, ou com uma doação pelo site www.vakinha.com.br, caso você se sinta mais seguro/a fazendo assim.

Segue, então, a nossa lista de doações. E claro que se você quiser doar sem precisar de nada em troca, apenas pelo amor à camisa, ficaremos extremamente contentes!

Todos os padrinhos e madrinhas terão seus nomes em uma das paredes da casa!

R$ 10 – entrada livre em 2 shows ou eventos

R$ 20 – entrada livre em 5 shows ou eventos OU 2 horas de ensaio

R$ 50 – entrada livre em até 20 shows ou eventos e/ou 1 a 6h de ensaio

R$ 100 – entrada livre em até 50 shows ou eventos e/ou 1h a 12h horas de ensaio

R$ 250 – uma data grátis para show/evento/festa OU 30h horas de ensaio, limitadas em 10h por mês

R$ 500 – vale de R$ 500 para entrada em festas/shows/eventos OU 100 horas de ensaio, limitadas em 10h por mês OU três datas grátis para show/evento/festa, limitadas a 1 por mês

Acima de R$ 1000 – passe livre vitalício em festas/shows/eventos E passe livre vitalício no estúdio de música, limitadas em 10h mensais, OU datas grátis para festas/shows/eventos, limitadas a 4 por ano

Conta poupança para fazer a doação (não se esqueça de depois mandar um email para autonomosfc@gmail.com com seu nome, o valor e a data do depósito):

Banco do Brasil
Ag. 1894-5
Conta Poupança (01) 15943-3
Danilo Heitor Vilarinho Cajazeira
CPF 324.950.348-70

Site do Vakinha.com com o nosso projeto:

http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=40184

Como eu sei que isso vai dar certo?

Bom, o Estúdio Fábrica Lapa já existe e já dá certo há 3 anos. O que nós pretendemos é agregar novas atividades ao espaço, transformar ele de estúdio em centro cultural. Mas sem deixar de abrir as portas pra quem já faz coisas por lá, pelo contrário: a idéia é não deixar o espaço morrer e trazer mais gente pra dentro dele.

Se eu doar, quando eu posso ter minha recompensa?

O espaço só será nosso a partir de agosto. Portanto, a partir de agosto poderemos retribuir nossos padrinhos e madrinhas. Mas claro que desde já podemos ir agendando as coisas, com calma.

E se não arrecadar os R$ 35 mil necessários?

Acreditamos que vamos conseguir. Se não conseguirmos, teremos duas opções: pegar um empréstimo bancário ou desistir e devolver a grana a todos que doaram. A primeira é bem mais provável que a segunda, mas estamos confiantes que com a ajuda de todos poderemos dispensar as duas.

Dá pra conhecer o espaço antes de doar?

Sim, dá. Sempre rolam eventos por lá, é só ficar esperto no estudiofabricalapa.net.

Porque Casa Mafalda?

Quando o Auto deixou o futebol society (ou futebol sete para alguns) para jogar na tradicional várzea paulistana, nosso primeiro campo foi na zona leste da cidade, próximo a um bairro chamado Chácara Mafalda.

Como nossa torcida na época era majoritariamente composta pelas namoradas e amigas dos jogadores e torcedores, em homenagem à elas e ao bairro escolhemos como mascote a personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino, uma menina que questiona de forma bem humorada os pais e a todos sobre os problemas sociais, políticos e morais da humanidade.

Com o surgimento do nosso time feminino, a idéia ficou ainda mais forte, e nada mais justo do que nomear nossa casa, palavra no feminino, com o nome de nossa mascote.

Mais sobre o Autônomos & Autônomas FC

Se você quiser saber mais sobre o Auto, jogar com a gente, fazer parte da torcida, conhecer o espaço da futura Casa Mafalda ou mesmo trocar qualquer idéia, entre em contato:

www.autonomosfc.com.br
autonomosfc@gmail.com
(11) 9506-9920

Aqui há uma pequena reportagem feita pelo Carlos Carlos, do programa Bola & Arte (http://bolaearte.wordpress.com), para a TVT: http://digi.to/LI2AR

Entre em contato. Estamos sempre abertos a novas propostas. De repente você quer começar um time de basquete do Auto…

Contamos com a sua ajuda para que no dia 06 de agosto possamos fazer a grande inauguração do Espaço Autônomo Casa Mafalda!

Vamo Auto!

http://www.autonomosfc.com.br
autonomosfc@gmail.com

IX Encontro Latinoamericano de Organizações Populares Autônomas

O IX Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas ocorreu em Jarinu/SP nos dias 22, 23 e 24 de janeiro de 2011.

Estiveram presentes membros de organizações de diferentes nacionalidades – além da absoluta maioria brasileira, uruguaios, chilenos, argentinos e haitianos também participaram.

O Encontro busca promover a integração das organizações autônomas da América Latina a partir do debate de temas pontuais indicados pelos ELAOPAs anteriores. Ao longo dos três dias, os participantes se dividiram nas comissões sindical, comunitária, de cultura e comunicação, de educação, estudantil, gênero/raça/etnia, muralismo e de questão agrária e ecologia. No terceiro dia, cada comissão fez ao público um relato dos debates e das propostas levantadas, discutidos em assembleia a fim de ser concretizado até o próximo ELAOPA.

Tomou-se como tema transversal a todas as comissões o IIRSA, Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana, uma espécie de Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) sulamericano.

Palestra sobre o IIRSA

O caráter libertário do encontro atrai pessoas ligadas a movimentos com a mesma orientação e acaba por afastar organizações socialistas marxistas, partidos e ONGs. Apesar disso, membros da AJR e UJS marcaram presença, embora em um número muito pequeno. Logo, a maioria do público era composta por anarquistas e libertários. Ação direta, democracia direta, autonomia e autogestão acabaram sendo expressões comuns nas discussões.

Acompanhei duas comissões: a comunitária e a de educação.

Comunitária

A comissão comunitária, voltada para a discussão de movimentos de bairro, levantou a falta da continuidade de trabalhos comunitários, normalmente interrompidos por motivos dos mais diversos. A realidade desse trabalho sofre com o comum esvaziamento de organizações, que iniciam com pessoas interessadas, mas que por seus motivos abandonam o movimento, prejudicando sua continuidade. O problema é que parece não haver muita solução a não ser ressaltar a importância da perseverança que os ingressantes do movimento devem ter para não prejudicar a atividade do grupo.

Outro ponto levantado pela comissão foi a dificuldade de fortalecer a rede de luta das comunidades e bairros. Criar uma estratégia que permita unificar as lutas é um processo ainda em construção e possivelmente sem uma fórmula para concretizá-lo, a não ser pelo estabelecimento de uma comunicação eficiente – encontros desse tipo cabem aqui como exemplo.

As conversas da comissão comunitária foram todas novas para mim, dada minha pouca ou nenhuma experiência com grupos desse caráter; por mais que eu tenha visitado ocupações e espaços autônomos, nunca participei efetivamente de um coletivo a ponto de saber quais as questões normalmente enfrentadas por esse tipo de organização. Já na comissão de educação, estive ambientado e a par dos discursos manifestados a ponto de poder tecer algumas críticas ao desenvolvimento do processo, mesmo sem ter participado da comissão no dia anterior.

Educação

A leitura do relato elaborado no primeiro dia explicitou o senso comum que pauta o debate político acerca da educação em quase todos seus fóruns, seja em uma reunião de professores e educadores, seja em um encontro como esse.

O debate do segundo dia se prendeu à melhor definição do termo educação popular – um dos temas propostos para essa comissão, junto de educação formal e cursinhos pré-vestibular/universtiários. (Pré-vestibular é diferente de pré-universitário visto que este propõe não apenas um bom desempenho na prova, mas também levar o aluno à vida e ao ambiente universitário desde cedo, como parte de sua formação). Detalhar a definição do termo educação popular, de acordo com os membros da comissão, pareceu pertinente por garantir os caminhos a serem percorridos pela comissão no futuro. Assim, a discussão foi norteada por uma educação transformadora, para o trabalhador, catalizadora do processo de criação do poder popular, um espaço que privilegie a educação libertária (tomando como princípios autogestão, autonomia, ação direta, classismo, democracia direta e formação integral).

Tenho um problema quanto a essa perspectiva, que mostra uma clara preocupação com o caminhar e não com o ponto de chegada. Fica a impressão de que todos estão preocupados em saber como resolver a educação, enquanto seu papel social fica hermeticamente isolado em uma sala escura, intocado. Talvez a educação não tenha mesmo um problema; talvez transformá-la e pautá-la em princípios libertários leve-a do nada a lugar algum, continue desrespeitando as diferenças e individualidades de todos nós. Ao meu ver, respeito às diferenças é um pressuposto importante apesar de ausente em todas as discussões das quais tenho participado.

Escreverei em breve mais sobre essa comissão, tocando no assunto do respeito às diferenças.

Uma das propostas criadas foi a de se criar um fórum a fim de se debater online a educação.

Visão geral do encontro

Alguns debates parecem ser ainda muito crus se comparados aos que permeiam, por exemplo, encontros estudantis. O debate para se decidir pela articulação ou não de encontros regionais ou nacionais entre o latinoamericano deixa esse ponto de vista explícito. Isso pode ser causado pela juventude do evento, que tem apenas dez anos, ou pela própria estrutura horizontalizada do debate.

Intervenção da comissão de gênero/raça/etnia na assembleia final do Encontro

Outro exemplo foi a típica perda de foco das discussões, muito comum em encontros de todos os tipos. Apesar da preocupação com a perda de foco ter dado origem aos textos disparadores criados para orientar as comissões, os temas e propostas ainda estão muito abertos. Isso leva a conversas extensas e pouco propositivas, como no caso da comissão de educação.

Foi difícil amarrar o tema transversal (IIRSA) aos temas das comissões. No caso da comissão de gênero/raça/etnia (tema tão aberto a ponto de ser tomado como transversal em futuros encontros, o que foi sugerido por seus integrantes), a distância se dá pela amplitude das duas questões, o que faz com que ligar ambos os temas pareça ser por demais forçado. Nas outras comissões, embora com temas mais próximos da questão da integração da infraestrutura sulamericana, a dificuldade não foi diferente. Isso deve expressar como esse evento ainda engatinha e tem ainda muito a se desenvolver em termos de encaminhamentos, uma vez que os debates ainda não estão fechados o suficientes para serem articulados com um tema transversal importante como o IIRSA.

Mas a perda de foco e entraves em questões relativamente simples não é necessariamente um problema. É muito mais prudente fazer muitos encontros com debates relativamente longos do que se meter os pés pelas mãos, dar passos além das pernas e se perder uma oportunidade valiosa de se estabelecer uma rede coesa de movimentos libertários. Isso é importante enquanto alternativa ao modelo de resistência e luta popular vigente, atualmente liderado por braços estatais, ONGs e outras instituições. Tal importância se dá não só em termos de organização dos próprios movimentos mas também de resultados práticos, uma vez que nada garante que um modelo de resistência deve ser mais eficiente do que outro (pelo menos a priori), justificando a investida de organizações populares autônomas contra a ordem social.

Aumento da tarifa de ônibus e o Grande Congestionamento

À espera do Grande Congestionamento

 

Um trecho do livro “Não verás país nenhum”, de Ignácio De Loyola Brandão, que me marcou demais foi o Grande Congestionamento. Nessa que é apenas uma das críticas à política nem um pouco ecológica do contexto em que o livro foi escrito, o autor criou a situação em que milhares de carros ficaram parados em um congestionamento sem início nem fim de tão grande que era. Os donos ficaram sentados em seus carros durante dias, esperando pelo fim daquele engarrafamento, até que perceberam que não haveria solução a não ser abandoná-los ali e voltarem para suas casas.

De tanto se produzir carros e colocá-los nas ruas sem qualquer planejamento ou responsabilidade sobre isso, às vezes tenho a sensação de que o Grande Congestionamento em breve deixará de ser ficção e se tornará realidade. Pode parecer triste (não para mim) ou cruel, mas creio que esse fim é inevitável, gostando dele ou não.

Por outro lado, ainda acredito que possa haver uma via na qual possamos cultivar uma cultura menos pautada em autoafirmação e consumo e que dê lugar a uma postura mais consciente (embora eu tenha dúvidas quanto a viabilidade dessa solução quase metafísica à qual damos o nome de consciência) tanto da população quanto de quem diz nos representar frente a ações de cunho coletivo. Duas conseqüências imediatas dessa nova cultura, possivelmente pautada em uma economia baseada no uso racional de recursos naturais ao invés do acúmulo de capital, que depende necessariamente da exploração humana e do consumo, deveria ser a diminuição do uso de carros e o incentivo ao transporte coletivo. Obviamente o Estado deveria assumir seu papel nessa perspectiva, enquanto o papel de seus cidadãos por ele “representados” deveria ser o de cobrá-lo para que essa tendência, natural em um mundo que se pretende sustentável e ecologicamente correto, seja concretizada.

Manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em 13 de janeiro de 2011

E essa cobrança existe. O Movimento Passe Livre de São Paulo organizou na última quinta-feira 13 uma manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus na capital paulista, de R$2,70 para 3 reais. Esse aumento expressa como não faz parte da política estatal o incentivo à utilização de transporte coletivo. A prefeitura anda na contramão não apenas da moda da sustentabilidade mas também do respeito aos usuários de seus ônibus, obrigados a pagar uma tarifa que viola o direito ao transporte público previsto pela lei nacional e que, mesmo se a tarifa fosse justa, não condiz com o serviço oferecido.

Enquanto a prefeitura retrocede em uma política que deveria expandir seus serviços a toda a população, esta mostra indignação e, pelo menos uma fração, se presta a reivindicar uma mudança na postura política de quem a “representa”. Prova disso são as manifestações contra o aumento da tarifa, para não falar de outros movimentos sociais relevantes como o FLM, que recentemente ocupou inúmeros prédios do Centro reivindicando um plano habitacional justo em São Paulo.

Parece não haver argumentos razoáveis contra a motivação de manifestações como a de quinta-feira. No entanto, os métodos para a cobrança feita à prefeitura ainda geram controvérsias.

Um argumento contra manifestações que ocupam as ruas é que elas não surtem efeito. Se fosse verdade, os movimentos contra o aumento das tarifas de ônibus em Florianópolis e Recife não teriam dado em nada – pelo contrário, depois das manifestações, as prefeituras voltaram atrás e não aumentaram as tarifas – assim como não haveria passe livre aos estudantes de Cuiabá.

Outro argumento é que os manifestantes seriam violentos. E é óbvio que a polícia os agrediu na quinta-feira com gás de pimenta, bombas de estilhaço e balas de borracha, como mostra o vídeo acima, por serem violentos. Isso é uma grande falácia, pois não há comparação entre a força utilizada pelos manifestantes, por mais violentos que tenham sido, e a utilizada pela PM. Podemos comparar também o método da polícia para prender os manifestantes: após dispersar a manifestação com as bombas e tiros, viaturas perseguiram e renderam aleatoriamente pelas ruas do centro grupos de jovens que poderiam estar na manifestação. Motivo? Um motivo dado foi que alguns derrubaram uma cabine da PM na praça da República. Isso ainda não é justificativa razoável para atirarem bombas e ferirem manifestantes. Ou a PM carece de táticas eficientes para prender infratores ou esse fato foi convenientemente utilizado para dispersas uma manifestação que compromete a imagem do prefeito e de sua gestão. Se fosse um conflito isolado entre manifestantes e a PM, poderia dizer que não é intenção de nossos “representantes” no governo oprimir quem dele discorda.

Ou seja, a prefeitura não apenas fere o direito do cidadão ao transporte público, cobrando tarifas abusivas, mas também coíbe violentamente uma cultura que busca garantir o bem-estar social sob uma pespectiva coletiva e reivindicar por justiça por meio da ação direta.

Quinta-feira, 20, haverá mais um ato, agora com saída da Praça do Ciclista (av. Paulista com av. Consolação). E provavelmente mais violência e agressões policias desproporcionais às ocorrências. Independente de o Estado vivificado pela prefeitura fazer seu papel ou não, creio que a manifestação nos permite defender nosso ponto de vista e reivindicar não apenas uma tarifa justa mas também uma alternativa razoável para o transporte na cidade.

Ocupar as ruas para se manifestar ainda é melhor do que aguardar pelo Grande Congestionamento.

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Leia mais sobre a luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo em Viomundo, Blog do Sakamoto e Passa Palavra.

Frente de Luta por Moradia e I Copa dos Movimentos

O descaso e o desrespeito das autoridades com relação às leis federais que deveriam garantir o direito à moradia a todos (veja a Constituição Federal, art. 6º) levaram um grupo de sem-tetos a se organizarem e se ajudarem de forma mútua.

Na luta pelo seu direito de morar, centenas de famílias estão ocupando quatro prédios do centro de São Paulo, reivindicando uma ação efetiva da Prefeitura a fim de abrigar essas pessoas. A iniciativa tem responsáveis: a Frente de Luta por Moradia.

O Autônomos FC, time de futebol de várzea autogestionado, está organizando a I Copa dos Movimentos. A proposta da Copa é a de promover uma campanha de arrecadação de alimentos, roupas, remédios, materias escolares etc. para as famílias envolvidas nas ocupações. Além disso, será um campeonato de integração entre vários movimentos sociais. Já confirmaram presença a FLM, MST, Movimento pelo Passe Livre, Associação Nacional dos Torcedores, Rádio Várzea, Gaviões da Fiel – Movimento Rua São Jorge e Ativismo ABC.

A I Copa dos Movimentos ocorrerá ao longo do sábado, dia 6 de novembro, e é aberto a quem quiser participar. Basta levar alguma doação – 1kg de alimento não perecível ou uma peça de roupa. Leve quantas doações puder!

Depois do campeonato, haverá um amistoso entre o Autônomos FC e a FLM, samba e confraternização entre os movimentos.

Saia do banco de reservas e venha jogar conosco em solidariedade às ocupações da FLM.

Mais:
Autônomos FC convida: I Copa dos Movimentos
Futebol e o direito de morar

Autônomos FC

Mafalda: mascote do Autônomos FC

O Autônomos FC é um time paulistano de futebol de várzea formado em 2006 por amigos que tinham em comum ideais libertários.

Conheci esse time pela revista esportiva Invictus, em uma reportagem que mostrava o time como uma autogestão, premissa não muito comum no futebol atual, tanto profissional quanto no amador. Aquela reportagem me chamou a atenção, até porque os integrantes do time tinham uma banda com um som que me agradava. Para mim era inusitado pessoas que gostavam de futebol, punk rock e com ideais libertários unirem todos esses ingredientes em um mesmo caldo, e me pareceu fantástica a concretização dessa proposta.

Tempos depois, acompanhando o blog Passa Palavra, ouvi falar novamente do Autônomos. Dessa vez, eles promoviam eventos em São Paulo com a participação de um time de futebol amador vindo de Bristol, Inglaterra, chamado Easton Cowboys & Cowgirls. O pessoal do Easton saiu do berço do futebol para conhecer de perto o time brasileiro que, assim como eles, levantavam bandeiras libertárias em seus jogos e atividades.

Na época, eu estava particularmente interessado em participar de um time de várzea qualquer, não apenas para jogar mais futebol, mas também para jogar futebol fora da universidade, buscando conhecer pessoas e ideias diferentes daquelas com que eu convivia até então.

A possibilidade de conhecer o Autônomos veio a calhar. Para completar, no blog há o seguinte convite: “se você sabe jogar e curte a idéia de um time autogestionado, se auto-convoque enviando um email”. Não pensei duas vezes: procurei descobrir quando e onde seria o próximo jogo e fui conhecê-los. Na ocasião, já portando chuteira, caneleira e todo material necessário para entrar em campo, participei dos 15 minutos finais de uma partida contra o SPAC, em seu campo na zona sul. Desde então, tenho feito parte do plantel do Autônomos. Todo sábado e quase toda terça-feira me reúno aos outros jogadores em sua sede, o glorioso Bicudão, ou em outros campos da Grande São Paulo, em um ritual que mantém acesa a chama do futebol do povo e contra o futebol moderno – bandeira que o time não cansa de hastear. Devo dizer aqui que agradeço muito a todos do time por terem me aceitado e me acolhido, mesmo tendo eu chegado como penetra, sem convite algum.

Auto na Europa

Em agosto haverá um campeonato de futebol amador na Inglaterra, o Yorkshire’s Alternative Word Cup 2010. O Easton Cowboys convidou o Autônomos para participar desse campeonato. É duro de acreditar, mas no dia 30 de julho, formando um grupo de 26 pessoas, embarcaremos para Bristol; lá seremos recebidos pelo Easton, com quem iremos à cidade de York no dia 6 de agosto para participar da Copa do Mundo Alternativa com outros times europeus de futebol amador.

Viajar para outro país para jogar futebol pelo Autônomos exige não apenas uma festa para comemorar essa oportunidade, mas também uma arrecadação para cobrir gastos com os quais teremos de lidar (apesar da ajuda dos ingleses). É com esse mote que haverá uma festa no sábado, 24/julho, no Espaço Impróprio, com shows de bandas convidadas e outras formadas por jogadores do Autônomos, além de outras atrações – sorteios de camisas do time, inauguração da sala de troféus e exibição de vídeos do Autônomos.

É uma oportunidade ímpar para conhecer o Autônomos, seus jogadores e confraternizar com todos, aproveitando esse inefável momento – talvez o mais importante da história do time de várzea autogestionado mais querido de São Paulo. Para mim, pelo menos, é o mais querido.

Para mais informações sobre o Autônomos FC, acesse autonomosfc.com.br. Há também um breve documentário de 2009 sobre o time, feito em um sábado em um jogo no campo do Vila Paulina. Para assisti-lo, basta clicar no vídeo abaixo.