Por que Dimenstein ataca os professores?

De acordo com Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de S. Paulo, os professores da rede pública de SP deram uma aula de baderna na assembleia de sexta-feira, na qual se decidiu pela continuação da greve da categoria. No texto postado na sexta-feira, ele diz que os professores agiram mau agredindo com paus e pedras os policiais que isolavam a região do Palácio dos Bandeirantes. Como eu estava lá, vi agressões mútuas – difícil garantir quem as iniciou – e fiquei sabendo da presença de pelo menos um P2 (policial à paisana) infiltrado na manifestação, me interrogo por que Dimenstein optou por investir seu tempo escrevendo um texto com um ponto de vista enviesado e dedicado a sujar a imagem dos professores manifestantes, sem dar uma linha ao abuso de violência da PM.

Dimenstein se diz um sujeito que conhece de perto a realidade da escola pública, dando a si autoridade para falar sobre os problemas que determinam o fracasso escolar atualmente, em particular no estado de São Paulo.

Já publicou alguns livros sobre ensino, inclusive em parceria com especialistas da área, como Rubem Alves (filósofo, professor emérito da Unicamp e maior escritor no Brasil de livros de auto-ajuda para professores); esse é mais um ponto que costuma lhe atribuir algum mérito ao tratar do assunto. Seu status de quasi-educador é ainda fortalecido por ter idealizado o Projeto Aprendiz de educomunicação, que deu origem à ONG Cidade Escola Aprendiz, centrada na ideia de educação comunitária. Além de se dedicar ao Projeto Aprendiz, ele é membro do Conselho Editorial da Folha.

Essa é parte da vida pública de Dimenstein, o qual tem sido criticado, como ele mesmo diz, por uma série de leitores e professores por sua posição política frente à educação. Sinceramente, eu acreditava (de forma ingênua) que Dimenstein tinha um ponto de vista diferente dos seus leitores. Não poderia dizer que ele tinha má intenção com seus textos simplesmente por pensar que a educação deve ser construída de forma diferente do que eu acredito.

Até que li a coluna em que ele chama os professores de baderneiros.

Ao se referir aos professores agredidos pela polícia na tarde de ontem como baderneiros “desrespeitando a lei e atirando paus e pedras contra a polícia”, entre outras pérolas, mostrou sua afinidade com o discurso mentiroso e mau caráter do governador do estado, que insiste em mentir à imprensa que menos de 1% dos professores estão em greve.

Mas a afinidade de discursos não é mera coincidência. Sabe-se que, sem uma base política, o poder de um governante se torna frágil. Lula, por exemplo, estabeleceu sua base política, ao longo do crescimento do PT enquanto partido, nos movimentos sociais. Hoje, o presidente se apoia também em empresários e banqueiros. Já José Serra optou por estabelecer seu poder com base na imprensa marrom, como jornais e revistas de grande circulação cuja opinião varia de acordo com o interesse de seus amigos. Nesse espectro da mídia comprada, encontram-se os grandes jornais de São Paulo, inclusive aquele em que Dimenstein é um dos conselheiros editoriais e que (coincidência?) tem um membro do comitê editorial indicado por Serra.

Se há muitos anos os tucanos são blindados pela imprensa, há obviamente uma troca de interesses em jogo. Dada sua posição na mesa, Dimenstein certamente não está fora dessa jogada.

Não é possível que, com toda sua responsabilidade e pretensão de educador, Dimenstein seja incapaz de fazer uma crítica sequer à Secretaria de Educação e ao Governo do Estado em todas suas trapalhadas ao longo desses anos – desde a compra de milhares de exemplares de revistas da Editora Abril sem licitação, passando pela precarização dos regimes de trabalho (contratação de 100 mil professores temporários por ano e efetivação de apenas 10 mil a cada quatro anos), até a publicação repleta de erros dos Cadernos do Professor, utilizados pela rede estadual de ensino. Ainda assim, semanalmente dedica suas colunas à desmoralização da categoria que atualmente mais ataca a imagem do “ínclito” governador José Serra. Há isenção no ofício desse jornalista? Se Dimenstein é tão comprometido com a educação de São Paulo, por que insiste em tirar a culpa do governador sobre a descarada política de sucateamento (leia-se destruição) do ensino paulista, que começou há anos e hoje sofre de uma tuberculose galopante (ou você acha que o custo do aluno para o estado é o mesmo que para uma escola particular)? Por que esse colunista não deixa claro que a PM utilza da violência sobre toda e qualquer manifestação contra o governo, criminalizando os movimentos sociais?

Caro Dimenstein, se há alguma aula ocorrendo por estas bandas, então o senhor é o “professor”. E aprendi que, se eu for candidato a algum cargo político um dia, terei muitos amigos jornalistas golpistas como o senhor. Infelizmente, hoje, em minha carreira de educador, não posso chamá-lo de amigo com tantas mentiras que conta sobre nós e que inventa a favor do governo Serra.

Mais sobre a forma com que os professores são tratados por José Serra

“A Democracia, a Baderna e a Paz”, do Passa Palavra

E para não dizer que minhas críticas são infundadas: Depois da trampa da Globo: Serra dá R$ 3,7 milhões a “Conselheiro” da Folha(*)

Anúncios

Gilmar Mendes e a sabatina da Folha

O ministro Gilmar Dantas – ops!, Gilmar Mendes foi sabatinado nesta terça-feira, 23, no Teatro Folha, no Shopping Pátio Higienópolis. Compunham a “mesa” Mônica Bergamo, Eliane Castanhêde, Fernando Rodrigues e Renata Lo Prete. Ótima oportunidade para conhecer esse ministro, personagem de importância fundamental na atual conjuntura nacional. Apesar de ele não fazer parte dos poderes Executivo e Legislativo, é um juiz que se sente à vontade de agir como se estivesse lá.

Protógenes e Satiagraha
Os jornalistas não amaciaram para o ministro tanto quanto se esperava: foram um tanto contundentes em vários pontos – talvez seja um indício de que a política da Folha esteja mudando, provavelmente impulsionada pela redução no número de assinatura de seu jornal impresso. Bergamo inclusive se exaltou ao ser contrariada em sua pergunta sobre a tentativa de suborno por parte de Chicaroni a mando de Daniel Dantas e os dois habeas corpus emitidos pelo ministro; na prática, ele ignorou o episódio em que foram apreendidos R$ 865 mil oferecidos por Chicaroni e foi feito o registro em áudio da conversa em que foi oferecida a quantia em troca de se retirar o nome de Dantas da lista de investigados pela Polícia Federal na Operação Satiagraha. O ministro disse que não houve forte indício de suborno (!) e alegou que a segunda prisão do banqueiro Dantas foi uma tentativa de desmoralizar o STF.

Perguntado sobre o interesse por trás de tal desmoralização, quem sabe de um grupo de anarquistas em busca de derrubar o STF, escapou como um sabonete e se aproveitou do tema já bastante discutido até então.

Excessos
Quanto aos excessos do Judiciário, caracterizou o Ministério Público, PF e “aquele juiz”, referindo-se a De Sanctis, como agentes de um estado de anarquia, do qual não havia um controle externo.

Ao ministro foram atribuídas responsabilidades as quais o fizeram tomar as atitudes cabíveis, inclusive no episódio da súmula das algemas. Disse que nem sempre há interesse por trás de ações, inclusive das suas, e criticou esse mccarthysmo que permeia as críticas a ele dirigidas.

Ressaltou que o STF é uma instância de mais fácil acesso do que outras instâncias regidas, por exemplo, por iminentes desembargadores – essa foi a justificativa para a emissão dos dois HC que libertaram Dantas.

A pergunta natural é por que só a Dantas foi dado esse privilégio, e ele a respondeu lembrando do número de HC emitidos pelo STF em 2008 (18 ao todo); segundo ele, só os de Dantas são lembrados por algumas colunistas… mas ficou um vão na explicação do por que pular várias instâncias para favorecer um banqueiro enquanto muitos não têm a perspectiva desse privilégio.

Castanhêde questionou a correria para libertar os ricos em detrimento dos pobres. Ele respondeu, de acordo com toda a cara-de-pau que ensina a velha escola malufista, que corre na verdade para mudar o “processo civilizatório, para dar um caráter de século XXI ao Brasil”.

Demarcação, crucifixos e presidência
Falou também da criação de um estatuto de demarcação de terras indígenas, em especial da reserva Raposa/Serra do Sol. Se defendeu da contra-ofensiva dos movimentos sociais com relação à criminalização do MST por ele protagonizada há poucos dias, alegando ser de famílias ligadas à atividade rural – por sinal, segundo ele próprio sua família mora em Mato Grosso há pelo menos 200 anos e ainda assim não possui muitas terras. Mais uma vez, como é de se esperar de um discurso constitucionalista, afirmou que se houvesse uma legislação adequada não precisaria entrar no mérito da demarcação de terras.

Quando questionado sobre a decisão do Conselho Nacional de Justiça contra a retirada de crucifixos de prédios públicos do RJ, alegou que esse símbolo é só uma manifestação cultural, inserida na “cultura ocidental que tanto amamos” (o ministro falou por ele).

Não quis responder se uma dia pode ser candidato à presidência. Não disse, mas é provável que sim. Disse admirar Lula e achar FHC um estadista. Não quis falar sobre Protógenes e De Sanctis, fugindo do assunto mais polêmico no qual atualmente está envolvido.

Protesto
Depois de tentar se esquivar das acusações de agente da atual ditadura do Judiciário, criminalização dos movimentos sociais, esforço em privilegiar banqueiros, conflito de interesse em questões agrárias, dentre tantas outras práticas no mínimo questionáveis em seu mandato como presidente do STF, foi chamado de nazista e facista por manifestantes do PSOL e da UBES, presentes na saída do teatro. Tais adjetivos podem ser exagerados, mas chega a ser natural para um servidor público que usa a máquina em seu favorecimento e de seus comparsas.

Gilmar Mendes não se preocupa em se expor ao extrapolar o poder a ele concedido e não se preocupa quando não encontra justificativa para suas ações. Isso só mostra que cada vez mais se fortalesse dentro da política nacional e que não possui adversários à altura, o que o transforma em um personagem praticamente imbatível dentro da atual conjuntura política do Brasil.

Mais:
Sobre a sabatina, do blog de Paulo Henrique Amorim
Sobre a sabatina, do site da Folha

Folha e Ditadura, tudo a ver

Vale a atualização: Folha admite que errou… e reincide, por Celso Lungaretti em 10/3/2009 e
Da ditadura à democracia sem povo, por Mino Carta em 05/03/2009
(tiagozecolmeia, em 11/03/2009, 22h31)

(do blog Língua de Trapo)

 

Caiu a máscara da Folha de São Paulo (FSP). Talvez apoiada na ideia de que brasileiro tenha memória curta, o editorial de 17/02/09 achou que passaria ilesa a tentativa de passar a mão na cabeça dos nossos anos de chumbo. Parafraseando o general Franco e até mesmo o saudoso (ao menos para a família Frias) Pinochet (vejo o vídeo aqui), insinuou que nossa ditadura não foi tão dura assim, sendo merecido o nome de “ditabranda”. Não bastasse, ofendeu abertamente dois professores que questionaram de forma legítima a falta de respeito do jornal com relação aos que tiveram sua dignidade violada pelo governo dos militares, aliados e súditos coniventes, dentre os quais a FSP não mais tem vergonha de fazer parte.

Colo abaixo um email de Juliana Ghisolfi que recebi na lista Flor da Palavra. A mensagem contém o texto do editorial, cartas de leitores e comentários da própria FSP. No final deste post, links para comentários de outros jornais, blogs e para uma petição de apoio aos professores Comparato e Benevides, ofendidos pela FSP.
Haverá uma manifestação contra esse espisódio, em frente ao prédio da FSP (Alameda Barão de Limeira, 425) às 10h do dia 07/03 (sábado). A manifestação é convocada pelo Movimento dos Sem Mídia
(tiagozecolmeia)
*****

Em suma, o que ocorreu foi o seguinte:

1) em editorial, publicado no dia 17 de fevereiro, com uma crítica à aprovação da reeleição por indefinidas vezes na Venezuela, o editor responsável pelo texto refere-se ao período do regime militar que prevaleceu no Brasil entre 1964 e 1985 como “ditabranda” (em oposição a ditadura). Foi o estopim para, nos dias seguintes, uma série de manifestações no Painel do Leitor, espaço no qual o leitor do referido jornal manifesta suas opiniões sobre os temas abordados pela FSP.

2) no dia 19/02, o leitor Sérgio Lopes escreveu ao Painel, questionando o termo “ditabranda”, comparando-o à Novilíngua. A resposta da redação foi um espanto: o regime brasileiro, em relação a outras ditaduras da época, foi leve, por isso o uso do termo “ditabranda”.

(Para quem não sabe o que é Novilíngua, fica aqui a sugestão de leitura do livro 1984, de George Orwell: este seria o nome do novo idioma, que o regime estava formulando. Na Novilíngua, os termos ganhavam novos significados, a tal ponto que o lema do regime, a partir da nova língua era: “Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é força.” Tudo ficção. Será? * )

3) no dia 20/02, mais uma série de manifestações contra o referido editorial. Entre as manifestações constavam as dos professores Benevides e Comparato. Pois a resposta da redação foi ainda mais infame que a anterior, escandalosa mesmo: a redação da Folha atacou deliberadamente os referidos professores, chamando-os de cínicos e mentirosos.

 

 


São Paulo, terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Editoriais

Limites a Chávez

Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder  

O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.

*****

Painel do Leitor, Folha de São Paulo, 19/02/2009.
Ditadura
“Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.
Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre “as chamadas ditabrandas -caso do Brasil entre 1964 e 1985” (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma “ditabranda”, um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma “ditabranda” ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal? É a “novilíngua”?
Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo. É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário.”
SERGIO PINHEIRO LOPES (São Paulo, SP)
Nota da Redação – Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional. 

*****
Painel do Leitor, Folha de São Paulo, 20/02/2009.
Ditadura
“Lamentável o uso da palavra “ditabranda” no editorial “Limites a Chávez” (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes (“Painel do Leitor”, ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível “comparativamente baixo’? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande “Julgamento em Nuremberg” (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: “Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente”. A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?”
MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS)

“Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros.”
LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO)
“Com certeza o leitor Sérgio Pinheiro Lopes não entendeu o neologismo “ditabranda”, pois se referia ao regime militar que não colocou ninguém no “paredón” nem sacrificou com pena de morte intelectuais, artistas e políticos, como fazem as verdadeiras ditaduras. Quando muito, foram exilados e prosperaram no estrangeiro, socorridos por companheiros de esquerda ou por seus próprios méritos. Tivemos uma ditadura à brasileira, com troca de presidentes, que não vergaram uniforme e colocaram terno e gravata, alçando o país a ser a oitava economia do mundo, onde a violência não existia na rua, ameaçando a todos, indistintamente, como hoje. Só sofreu quem cometeu crimes contra o regime e contra a pessoa humana, por provocação, roubo, sequestro e justiçamentos. O senhor Pinheiro deveria agradecer aos militares e civis que salvaram a nação da outra ditadura, que não seria a “ditabranda”.”
PAULO MARCOS G. LUSTOZA , capitão-de-mar-e-guerra reformado (Rio de Janeiro, RJ)
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.
*****
Painel do leitor, Folha de São Paulo, 21/02/2009.
Ditadura
“Há anos a linha da Folha tem sido crítica às ditaduras, especialmente à nossa. Fiquei na dúvida se o termo “ditabranda” (editorial “Limites a Chávez”, 17/2) foi ato falho ou se é mesmo defesa do regime que foi de Castelo a Figueiredo. Nossos torturadores justificavam a nossa ditadura acusando a dos outros.”
JOEL RUFINO DOS SANTOS (Rio de Janeiro, RJ)

“Li as diversas manifestações sobre a ditadura no Brasil. Todas têm alguma validade, mas o que mais me chamou a atenção foi que a mensagem mais inteligente, mais holística, com menor conteúdo de raiva e de ódio veio exatamente de um militar (senhor Paulo Lustoza). Esperava-se que professores catedráticos tivessem um olhar mais colorido, capaz de reconhecer todas as matizes de um regime autoritário, e que o militar fosse mais branco e preto. Mas só o senhor Lustoza foi capaz de reconhecer que a nossa ditadura foi muito diferente das ditaduras de Fidel, de Stálin, de Hitler ou de Mao. Aqui não houve culto a personalidade, embora tenha havido violência e injustiças. Aqui não houve milhões de mortos nem fuga em massa para o exterior. Todos esses regimes se enquadram na definição de ditadura, mas as cores e a profundidade da falta de liberdade foram completamente diferentes.”
CARLOS EDUARDO CUNHA (São Paulo, SP)
“Qualificar a ditadura militar de “ditabranda” é insuportável. Assassinatos, perseguições, torturas, prisões iníquas, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes praticados naquela época por agentes do Estado. A relativização da perversidade desses crimes produz impacto aterrador. Os professores Fábio Comparato e Maria Victoria Benevides merecem o respeito e a gratidão do povo brasileiro pela luta pertinaz em defesa dos direitos humanos. Repudiamos com veemência os termos horríveis da resposta dada a eles neste “Painel” ontem.”
GOFFREDO DA SILVA TELLES JÚNIOR , professor emérito da USP, e MARIA EUGENIA RAPOSO DA SILVA TELLES, advogada (São paulo, SP)
“Ao chamar de “cínica e mentirosa” a “indignação” manifestada pelos professores Benevides e Comparato, a Folha (“Painel do Leitor”, ontem) foi no mínimo deselegante. Não soube lidar com as críticas. Concorde-se ou não com os professores, ambos utilizaram artifícios retóricos parecidos aos que a Folha recorreu para falar de Hugo Chávez no editorial de 17/2. Valeria também o cínico e mentiroso para o editorial?”
NONATO VIEGAS , jornalista (Duque de Caxias, RJ)
“Esta Folha entornou de vez o caldo. No lugar da autocrítica pela malfadada expressão utilizada no editorial de 17/2, de evidentes prejuízos para a cultura democrática, achou por bem agora atacar, de modo presunçoso, intelectuais brasileiros de inestimáveis serviços à crítica e superação do regime autoritário aberto em 1964.”
MARCOS AURÉLIO DA SILVA , professor do Departamento de Geociências da UFSC (Florianópolis, SC)

“A referência do editorial à ditadura brasileira como “ditabranda” não representou uma defesa ou tentativa de relativizar o período e, em seu contexto, deixa claro o caráter negativo de qualquer regime de exceção. Mas foi lamentável a forma como a Folha lidou com os protestos dos leitores. Em vez de aproveitar a oportunidade para reiterar o seu compromisso com as instituições democráticas e repudiar qualquer forma de autoritarismo, o jornal adotou uma posição defensiva, ambígua e evasiva, indigna do maior jornal do país. Particularmente inapropriado foi usar este espaço para atacar em nível pessoal dois professores universitários, rebaixando-se ao nível de um tabloide de aluguel e manchando a tradição de imparcialidade e a atitude profissional esperada pelos leitores. O que poderia ter sido um episódio menor vai ser lembrado na história da Folha como a semana infeliz em que o jornal usou seu espaço para hostilizar seus leitores.”
FELIPE DE AMORIM (Santo André, SP)
“Em relação à “Nota da Redação” em resposta às cartas do senhor Comparato e da senhora Benevides, advirto a Folha de que, apesar de correta, a referida nota despertará a fúria da militância esquerdista. Logo a Redação receberá mais um exemplar da mais profícua produção intelectual da esquerda brasileira: os abaixo-assinados.”
EDMAR DAMASCENO FONSECA (Belo Horizonte, MG) 

*****

LINKS

Folha (*) tem saudades da ditaDURA, por Paulo Henrique Amorim
Petição em solidarie
dade aos professores Comparato e Benevides
A “ditabranda” e a culpa de Fidel, por Gilson Caroni Filho em 23/2/2009
Direita, volver!, por Luiz Antonio Magalhães em 23/2/2009
Editor discorda da direção do jornal, por Fernando de Barros e Silva em 24/2/2009

‘Ditabranda’ para quem?, por Maria Victoria de Mesquita Benevides em 27/02/2009