O valor do saber

Muito se fala sobre estudantes que não querem estar na escola, preferem perder seu tempo em seus celulares, não estão nem aí para o conhecimento que professoras e professores oferecem, desrespeitam a autoridade… são queixas que vêm aumentando de maneira crescente, a ponto de serem sensíveis em todas as escolas, de públicas a particulares, sem respeitar classe ou credo.

Se esse fenômeno transcende escolas de regiões ou perfis socioeconômicos, há uma sugestão de que há uma estrutura responsável por estudantes estarem alheios à escola e às suas atividades, sem dar qualquer importância ao saberes e ao que essa instituição tem a lhes oferecer.

Por que estudantes preferem estar em qualquer lugar menos na sala de aula? Por que o ambiente escolar é bom para a socialização, mas é desinteressante, desvalorizado e aparentemente sem a menor importância para estudantes?

Há quem diga que é uma questão geracional, influenciada pelo atual fácil acesso às tecnologias de informação. Ouve-se também que há uma crise de valores, que se manifesta na perda de autoridade do professor em sala de aula.

Apesar de ser necessário uma investigação mais profunda e rigorosa para se responder a essa pergunta, arrisco um palpite. Corro o risco de ser irresponsável para ao menos despertar alguma discussão sobre o tema.

Nosso modelo de educação formal, em salas de aula centradas em uma pessoa detentora e oferecedora do conhecimento, remonta ao século XIII e se constituiu na Europa. A participação das aulas nas universidades, dentro de alguns limites e restrições, era optativa a quem tivesse interesse em desvendar a organização do mundo e do Universo. A princípio, não havia coação: quem não quisesse não precisava estar lá. Apesar da exigência de um comportamento disciplinar e respeito à autoridade investida à quem ministrava as aulas, provavelmente não era necessário o uso de métodos coercitivos para que o conhecimento fosse valorizado por estudantes. A valorização do saber aparentemente era algo dado a priori, uma vez que as pessoas que frequentavam a universidade estavam lá por iniciativa própria. Não havia necessariamente uma obrigação de ela estar ali buscando novas formas de conhecer o mundo.

Em algum momento dessa história, as pessoas começaram a ser obrigadas a frequentar a escola. A institucionalização da escolarização passou a regular uma série de relações sociais. A igreja e o Estado dependiam de uma instituição disciplinar que correspondesse às necessidades da produção, portanto econômicas.

Estar em um ambiente contra a própria vontade é, independente da circunstância, desconfortável e, no geral, ofensivo a qualquer corpo. Seja um guarda britânico, uma criança diagnosticada com TDAH, alguém em uma fila de banco ou ainda uma pessoa claustrofóbica em um elevador, estar onde não se quer estar pode causar não só desconforto mas também traumas irreparáveis. Poderia aqui trazer referências ao que poderia ser a natureza humana, mas prefiro adotar uma postura conservadora e não ir tão longe. Me limito a dizer que parece haver uma tendência de as pessoas buscarem situações de liberdade para o corpo, mente e o que mais que nos permita manifestar enquanto seres vivos. Quando o ambiente escolar deixa de ser um espaço de conforto a pessoas que passam a frequentá-lo por imposição da família, da igreja, do Estado ou de qualquer outra instituição que imponha uma ordem externa, a tendência de se buscar espaços mais livres passa a se manifestar e, quase que espontaneamente, a escola passa a ser um espaço desagradável.

Como fazer com que uma instituição desagradável para os nossos corpos cumpram com seus objetivos? Por mais importante que a escolarização possa ser, como garantir que as pessoas cumpram com a obrigação de se escolarizarem se o ambiente escolar é essencialmente hostil?

O palpite é de que a criação de tecnologias específicas de disciplinarização dos corpos em ambiente escolar tornou-se mais intensa quando a frequência nas escolas passou a ser obrigatória. Na lógica de os fins justificam os meios, as pessoas têm que aprender por bem ou por mal. O maior investimento em métodos de coerção nas escolas parece não ser o único problema decorrente da escolarização imposta pela ordem social. Essa imposição, resultado de um jogo político que faz da escola não mais um templo de sacralização do conhecimento mas sim um dispositivo disciplinar, um aparelho ideológico, implica na desvalorização do saber. Ter conhecimento não deixa de ser importante, mas concorre com a necessidade de ter um diploma, certificados ou qualquer outro instrumento facilitador de uma distinção social.

Tem início o processo de desvalorização do conhecimento. A motivação primeira do modelo de educação formal constituído no Ocidente passa então a se perder ao longo de um processo histórico que propõe a escola como principal formadora de mão-de-obra, no século XIX e XX, e de cidadãos conscientes de seu papel social, do XX para o XXI. A escola, espaço criado para facilitar o acesso ao conhecimento, se transforma e tem novas funções, como a de formar pessoas aptas a corresponder a interesses diversos – cidadãos, pagadoras de impostos, civilizadas, que sustentam um modo de vida que corresponde ao modelo de economia e sociedade vigentes. A escola não é mais o templo do saber, mas a instituição que busca garantir a perpetuação da ideologia da classe dominante.

A desvalorização do conhecimento parece atingir seu auge na atualidade, com a banalização da informação, estágio que atingimos com a popularização das tecnologias de informação. Com um toque em uma tela, tem-se acesso a informações que em outras épocas só se teria com longas viagens ou no mínimo investindo-se muito dinheiro.

Houve um tempo em que um “trabalho escolar” foi um gênero plausível para se construir e apresentar o que se conhecia sobre um assunto. Hoje, sites que disponibilizam trabalhos prontos dominam as primeiras páginas indicadas por ferramentas de busca na internet e dispensam a leitura de seu conteúdo.

Há quem leia e compartilhe informações na redes sociais sem saber sua origem. Por mais que haja empresas prestadoras de serviço de difamação por mecanismos virtuais, criando memes e reportagens com informações falsas, há pouca responsabilidade em filtrar de maneira crítica os conteúdos em circulação. Não importa se a informação condiz com a realidade, importa se ela está alinhada à sua opinião.

Nesse contexto, que espaço existe para a reflexão sobre a relação entre a realidade e o simbólico? Há como se pensar sobre a construção de um conhecimento que nos permita acessar e expressar a realidade em algum grau, sendo que vivemos em tempos de que esse tipo de conhecimento não tem mais valor? Como lidar com a falta de responsabilidade de se usar um texto que não foi lido? Afinal o que estamos fazendo com a informação quando a acessamos? O que precisamos fazer para lidar com a informação de maneira que ela interfira em nossa visão de mundo e nos ajude a construir o conhecimento com um propósito social, que nos permita relações com o mundo de maneira libertadora e livre de opressões?

Não é à toa ter-se tornado comum ouvir pessoas que sentem-se à vontade para mostrar sua opinião sem conhecer com profundidade sobre o que estão a falar, não só no facebook como em qualquer espaço para além de telas e eletrônicos. Longe de fazer uma crítica à liberdade de opinião, questiono o processo que nos permite sermos negligentes com o conhecimento histórica e socialmente construído.

Parece-se me que tirar aparelhos eletrônicos das mãos das pessoas ou ainda fortalecer discursos moralistas e chauvinistas não vai nos ajudar em nada a resolver nossa limitação em lidar com estudantes que preferem estar nos corredores e não nas salas de aula. Meu palpite é de que precisamos de espaços em que o conhecimento seja valorizado sem usarmos métodos coercitivos ou discursos moralistas, saudosistas ou retrógrados. Talvez o caminho para um novo modelo de escola seja o de repensar nosso papel de educantes enquanto responsáveis por mostrar o valor do conhecimento e sua importância para a real transformação de nossa sociedade, tomando como base relações mais justas, sem opressões e que nos permitam viver livremente em sociedade.

O ódio

Entro na sala e sinto o cheiro da desrazão. A mensagem se traduz em meu corpo na forma de um arrepio que não vem do medo, mas do desespero. Da falta de esperança.

Um mergulho em um mar de absurdos irremediáveis me cortam a pele. Imerso nesse realismo fantástico, me sinto como um peixe seco, uma aberração, o desajuste, o travesti, o abjeto.

Custo acreditar em como posso estar tão só no meio de tanta gente.

Existem dois universos: o meu e o outro, o das outras pessoas. Curiosamente, os dois se sobrepõem sem interagirem, paralelos e sobrepostos.

Como se, regidas por regras diferentes das minhas, as pessoas se relacionassem por meio de absurdos.

Como se fosse absolutamente normal um objeto cair para cima, um pão ser desassado.

Aqui, a razão pede trégua.

Sinto-me como uma barata em um depósito de tetrapak. Estar aqui é sentir na pele a esterilização, a hermetização, o UHT, sem ter uma saída no horizonte.

A síndrome de Estocolmo tomou o mundo. Por que não tomou a mim? Me pouparia dessa dor.

Diante de um comportamento geral inusitado, sinto-me em um ensaio não escrito por Saramago. Mas não é um ensaio, é real, concreto e intencional, não tem nada de acaso.

As coisas parecem ser mesmo feitas para serem assim como são, e querer o diferente é se isolar cada vez mais em sua própria casca de noz.

Será esse arrepio um tipo de carapaça que o corpo cria espontaneamente para se proteger das ondas de ódio que tomaram nossa atmosfera?

Não há saída à autolobotomia, à demissão intelectual. A regra é a da pura exoneração compulsória da racionalidade.

Faça você mesmo: insira uma faca em seu lobo frontal, desconecte o máximo possível de ligações nervosas do seu cérebro e viva como todo mundo.

Percebo então que esse arrepio não é nenhum tipo de proteção, mas sim um presságio para a inevitabildade da morte, a única solução para sair de uma vez por todas deste espaço amaldiçoado.

Pensei que dançaria para ela quando ela viesse me buscar, mas não há tempo para isso: é correr parar morrer, com urgência.

Quero meu fim a cada encontro, a cada audição, a cada contato, a cada troca de olhares com todo mundo com quem divido esse espaço. Minha vontade é de guilhotinar a mim mesmo, rasgar os próprios pulsos, jogar-se na frente do trem, enfiar uma espada na cabeça.

Com as próprias unhas, abrir no peito um buraco do tamanho da cidade para extravazar de uma só vez toda a violência encruada, calcificada, que enrigece meus músculos a ponto de tirar qualquer reação a esse estupro corretivo que se materializa na ordem das coisas.

Penso às vezes como é estranho querer a própria morte e não a de todo o resto.

Parece-me paradoxal, até perceber que não há solução para ser quem se é e ser absolutamente diferente do que já foi naturalizado.

Como não sobra esperança, o único caminho é a busca por um fim a esse cancro que transforma tudo em pus, de fora para dentro, antes que tome o pouco que sobrou do coração.

É dar um basta a essa dor maldita, imposta por um modo de vida frígido, cinza, alienado, resignado que pinta inexoravelmente essa maldita escola em que me enfiei.

Prefiro morrer a estar neste ATPC.

Resistência e política pedagógica: a importância de objetivos e estratégias

Propor-se a uma tarefa sem saber onde se quer chegar e por onde seguir é tão razoável quanto ir a uma rodoviária para viajar para onde não se sabe e sem saber como pagar o ônibus. Embora coincidências possam fazer com que a viagem aconteça, poucas pessoas se aventurariam a isso sem um mínimo planejamento.

Minha sugestão é que assumir uma ação reconhecidamente política sem ter claros seus objetivos e as estratégias para realizá-la é predestinar tal ação ao fracasso.

Tome como exemplo o trabalho de professora. Se a pessoa acredita que ser professora se resume a ensinar conteúdos de uma área de conhecimento – o que me parece ser uma visão simplista e superficial do que se faz em sala de aula – inevitavelmente vai se deparar com dificuldades que decorrem das relações de poder que permeiam a escola. Pode ter uma inspetora que está preocupada em manter boas as relações com a direção e te faz pedidos informais sem qualquer intenção pedagógica (quem nunca ouviu um “não faz isso senão complica pra mim” de um bedel?), uma vice-diretora que cobra “parceria” do corpo docente esperando que abaixem as cabeças às arbitrariedades da equipe gestora, ou ainda uma série de sujeitos do currículo (explícito ou oculto) da escola que colocam interesses geralmente pessoais em concorrência com o seu. Nesse cenário, como poderia se garantir com sucesso o cumprimento de uma tarefa a princípio simples como a de fazer seu papel em sala de aula?

O enredo fica mais complexo quando a professora se entende como um ser político protagonizando um papel essencialmente social.

É urgente a construção de uma cultura em que todas as pessoas da comunidade escolar se percebam como sujeitos políticos. É fundamental o entendimento da educação formal como uma ação política, permeada de relações de poder que exigem um posicionamento seguindo uma reflexão mínima sobre papéis, escolhas, objetivos e estratégias. Lendo Paulo Freire, Mikhail Bakunin, Silvio Gallo, Hannah Arendt, José Pacheco, Anísio Teixeira, Paul Robin, Sebastian Faurre, Pierre Bourdieu ou qualquer pessoa que tenha se proposto a pensar minimamente a escola, percebe-se que há consenso de que o ato de ensinar é essencial, inevitável e fundamentalmente político. Contudo, esse olhar sobre educação parece estar à anos-luz de distância do projeto de educação pública do Governo do Estado de São Paulo e, consequentemente, de grande parte das escolas da rede pública de ensino.

Como, enquanto professora, se relacionar com um ambiente repleto de pessoas que, alinhadas a um senso comum ou ao projeto de educação estatal, baseiam suas relações no desrespeito, na violência, na miséria ética e se alienam do magistério enquanto prática política? Ao mesmo tempo, como combater e não reproduzir os sistemas de opressão – capital, Estado, patriarcado, heteronormatividade, homolesbotransfobia, racismo, fascismo? Como não se resignar diante de tantas dificuldades articuladas e organizadas para sabotar seus objetivos políticos, barreiras impostas por gestão escolar, diretoria de ensino, secretaria de educação, política institucional, colegas de trabalho, burocracia sindical e toda a sorte de pessoas treinadas e empenhadas em te derrubar?

Não é possível alguém em sã consciência esperar que boas coincidências possam ocorrer em uma escola para que se possa cumprir com seu papel de maneira honesta e ética.

É um desafio descomunal manter seus objetivos de maneira ética no interior de um ambiente que regula um habitus fantasiado de pedagógico mas que, na verdade, perpetua a ordem das coisas. Nesse sentido, é impensável manter-se em ambiente tão hostil sem traçar uma estratégia visando objetivos políticos e pedagógicos a longo (a perder de vista), médio e curto prazo.

Pois resistência sem organização não demora para se transformar em resignação.

Acredito que, para alguém que pretenda se manter entrincheirada em ambiente escolar e ter a transformação social em seus horizontes, vale o exercício periódico de rever suas práticas e avaliar sempre que possível seus objetivos e estratégias.

Memórias póstumas de uma libertação merecida

wpid-20150907_193347.jpgSubi a ladeira de bicicleta e com uma estranha empolgação. Talvez um coquetel de endorfina, no sangue por conta da pedalada, e um toque de euforia para mais uma reunião pedagógica na escola, com uma pitada daquela insanidade fundamental para sustentar pouco mais de uma hora e meia de anúncios de que o mundo está chegando ao fim vindos da boca de colegas de trabalho. Se eu pelo menos tivesse uma aula para dar naquele dia… Mas nem isso para diminuir minha dor.

“Será que a inspetora no portão fará o chiste novamente?” Mal terminei de pensar e ouvi a fatídica piada do “cadê o uniforme da escola, hein?”. Já tinha ouvido aquilo mais vezes que a do pavê em Natal em família. Não bastasse ver estudantes terem que se sujeitar à surreal humilhação de vestirem um uniforme para não receberem advertência da inspetora na entrada, tenho eu que ser cobrado com um comentário cretino por meu uniforme de professor. Sim, professores têm uniforme: não podem ir pra escola de bermuda sem correrem o risco de ouvirem gracinha ou receberem uma cara torcida. Enquanto tranco a bicicleta, me pergunto de que inferno deve vir aquela misteriosa empolgação. “Não é possível que eu ainda sinta algum prazer em participar de reunião de professores”.

Sigo o script. Começo com o sorriso sem graça, um oi aqui, encosto a bicicleta ali, outro oi-tudo-bom-tudo-bem burocrático mais frente, uma engolida a seco por, sem nem ter atravessado o estacionamento, ouvir uma má frase vir da janela da sala de profes… Sabe aquela maldição que lançam em seu ouvido? Aquela que te faz desejar ter nascido com deficiência auditiva. Ou ainda a que te faz querer uma espada escorregar da mão de alguém e, como se colocada ali pela compaixão de deus, entrar por um ouvido, rasgar o cérebro, chegar no outro lado da cabeça e salvar você de mais uma besteira que polui aquela atmosfera desgraçada. Frases que te fazem se sentir mal por cada vez mais ter certeza de que o mundo está sim mudando, mas para pior, como “bandido bom é bandido morto”, “Brasil tá virando Cuba”… Naquele dia fui recebido com o “manifestante grevista é baderneiro”. Era apenas o prelúdio de mais uma aula de trabalho pedagógico e coletivo, vulgo ATPC.

Em uma sala apertada, improvisada como de propósito para aperfeiçoar aquela fábrica de pessoas à beira de um ataque de nervos, professores e professoras se amontoam em órbita de uma mesa de reuniões para debaterem o nada, o vazio, em um tradicional ritual em homenagem à inexistência de coerência em argumentar sobre qualquer evento ou fenômeno natural – quem dirá social. Bullying, drogas, gênero, petismo, nacionalismo, religião, tudo era conteúdo para engordar aquela produção dadaísta-ideológica financiada pelo Estado, ao tempo em que de pedagógico nada se produzia. Sentei e comecei a desenhar minhas já tradicionais cenas de suicídio. O flerte com a morte era o que tornava suportáveis aquelas reuniões.

Até que, como se colocassem uma cereja naquele bolo fecal, fui presenteado com a frase definitiva: “aqui na escola não vamos mudar os problemas da sociedade, então bola pra frente, não vamos perder nosso tempo discutindo isso, né, aqui não temos solução para nada”.

Se o nosso fim era inevitável, por que esperar? Como num reflexo, puxei o estilete em meu estojo e cortei meu pulso direito. A euforia acabara. Embora achasse estranho, me sentia tranquilo, de certa maneira aliviado, enquanto via meu próprio sangue jorrando para todos os lados.

Quem recebeu o primeiro jato, o mais espesso, foi o coordenador pedagógico. Desde que ele entrou na escola, percebíamos um certo esforço daquele pobre ser que tentava não se submeter aos desmandos da diretora, pau-mandada da supervisora de ensino que, por sua vez, fazia o viciado papel de reproduzir a lógica da gestão imposta pela ordem das coisas. Mas, como se punido por ser ali o mais alto da hierarquia, teve que se afastar depois do esguicho e limpar seus óculos para tentar entender o que estava acontecendo, perdendo quase toda a cena.

Em seguida, foi a professora de português a presenteada com outro bem servido golpe de hemoglobina. Naquele instante senti a felicidade da vingança. Como se eu tivesse guardado toda a groselha que, gota a gota, aquela fascista me salpicava durante todas aquelas malditas reuniões, dei um leve sorriso enquanto pensava comigo mesmo “você não gosta de Milani? Pronto, taí”.

Não poupei ninguém. Enquanto o sangue tingia móveis, paredes, provas do Saresp, diários de classe, toda uma sorte de papéis inúteis, apontava o jato para o rosto de cada uma das pessoas presentes. Marcava em vermelho uma por uma, como elas fizeram com suas canetas durante todos seus anos de trabalhos, reprovando uma nação de estudantes desajustados, insolentes, que se negavam a ser domesticados e dóceis. Quando tonteei, agradeci os tempos por estar abandonando aquele espaço de maneira triunfal e por ter tido a coragem de fazer o que sonhei durante, sem exceção, todas as reuniões pedagógicas em que estive presente em meus anos de magistério. Caí e vi o pavor tomando o semblante de todos e todas ao meu redor. O pobre professor de Artes, chateado, provavelmente lamentava por não ter conseguido sacar a tempo seu celular para filmar a cena para colocá-la em um de seus filmes B, hobby que lhe dava a sanidade mental para não ser o protagonista de um ato como o meu. O rosto que destoava dos outros foi o do professor de Sociologia, que dias antes me confessara ter decidido exonerar no final do ano. Seu olhar foi uma mistura de cumplicidade e inveja, e ali tive certeza de que foi ele a pessoa mais compreensiva com quem trabalhei naquela escola.

Eu amava estar em sala de aula, conversar diariamente com estudantes, e era enorme a satisfação de poder trocar vivências com toda aquela gente que, obrigada por pais e mães, se submetia ao ambiente escolar e se resignava por ao todo mais de doze anos àquela violência institucionalizada em troca de um pedaço de papel escrito “diploma”. Claro, às vezes um perdia a noção e me desrepeitava, outras ouvia alguém fazer uma cobrança meio sem cabimento por uma nota… mas eu seria incapaz de me queixar de estudantes, as maiores vítimas dessa roda viva chamada escola. Para mim, o difícil mesmo foi aguentar são as reuniões com professores e professoras. Mas, enfim, conseguira alcançar minha libertação.

O papel da escola

Quando o objetivo é defender determinado ponto de vista, normalmente os pressupostos que alicerçam o discurso da defesa ficam escondidos em um quarto ermo e escuro. É como se costuma fazer com aquele tio mais velho que a família evita ao máximo ter presente nas noites de Natal. Os mais velhos sabem por que querem esse tio escondido, enquanto as crianças nem sempre sabem, mas acabam se acostumando, conforme crescem, com a ideia de que é melhor para a família que aquele tio fique à parte da festa.

Há alguns pressupostos para a defesa da escola e de seu papel social que me interessam, embora pareça ser uma perda de tempo lidar com esse assunto. Alguns preferem não refletir acerca de tais pressupostos, pelo mesmo motivo que os parentes preferem esconder o tio, enquanto outros sequer imaginam que os pressupostos são pressupostos e não verdades, com a mesma ingenuidade das crianças que se divertem com a situação do tio que traz vergonha à familia.

Às vezes me parece que os pressupostos do papel da escola para a nossa sociedade sofrem desse mal, pois é praticamente impossível encontrar alguém que questione esse papel. Não só o senador Cristóvão Buarque acredita que a educação seja o único caminho para tornar digna a vida do brasileiro, e que a escola é um mecanismo nobre de socialização. Há quase um consenso entre os mais humanistas de que oferecer escola de qualidade a todos é fundamental para emancipar os cidadãos, dando a cada um condições de serem atuantes sociais, responsáveis por transformar a realidade na qual estão inseridos.

Será que educação e escola são tão importantes quanto se acredita? Será o ensino um bem cultural tão bom quanto acreditamos? Será a escola uma instituição capaz de fornecer a satisfação individual que dela se espera? É tão óbvio que a escola melhora as pessoas, ou estaria eu cometendo um pecado questionando o papel social da escola?

Antes de profanar o papel da escola tentando responder a essas questões, aparentemente menores e impertinentes como a das crianças, há uma proposição que precede qualquer pressuposto para a escola como se conhece atualmente: a escola não respeita as diferenças de seus alunos. A escola, em sua essência, é uma instituição que foi criada com o intuito de homogeneizar seu público alvo. A escola dos jesuítas surgiu para domesticar os indígenas; a escola do século XIX e primeira metade do século XX serviu para formar elites pensantes, dando a seus alunos todos os bons modos que eram de se esperar de sua estirpe; a escola financiada pelo Estado constrói seu currículo, por mais humanista que seja sua aplicação, pensando em docilizar seus alunos, no processo de formação cidadã, dando a ele um comportamento civilizado. Enfim, a escola é um dos mais poderosos mecanismos de subjetivação que se tem notícia na história da humanidade: é ela que forja os sujeitos de acordo com as expectativas e o contexto.

A princípio, não há nada de bom nem ruim na subjetivação: esse é um processo mediador de basicamente todas as relações humanas. A publicidade pressupõe um sujeito ao produzir o material que veicula a informação desejada, a empresa que fabrica detergentes neutros sabe que alguns de seus usuários têm alergia aos tipos alternativos e por isso não pode tirar de circulação os sabores para os alérgicos; o pessoal de RH sabe muito bem quem contratar para sua empresa; o segurança de shopping, com alguma experiência, sabe quem serão os clientes que poderão causar maiores problemas aos interesses de seu patrão. Para cada relação, institui-se um sujeito com o qual se interage.

O interessante de se notar é que não só existe a expectativa de um sujeito com o qual se espera lidar em cada situação, mas também existem mecanismos responsáveis por produzir os sujeitos que satisfaçam essas expectativas.

Ao assistir um comercial do governo federal falando sobre a importância do voto consciente, é automática a associação da publicidade como mecanismo forjador de cidadãos que correspondem ao interesse do governo. Em época de eleições surgem propagandas pregando aos cidadãos sua responsabilidade de ter a consciência que o governo deles espera e, portanto, que não devem se abster da obrigação de votar.

O mesmo ocorre em uma campanha anti-fumo. Nela, o consumidor de hoje é pressionado a seguir o exemplo do cidadão comprometido com o progresso – uma pessoa saudável, que siga as leis e que seja capaz de consumir e contribuir com impostos, trabalhar e adiar sua aposentadoria o máximo de tempo possível, portanto longevo. E como o governo seria capaz de intervir na vida das pessoas se não fosse por propagandas, campanhas publicitárias e pela escola?

Insisto em manter o maniqueísmo afastado dessa reflexão. Se os processos de subjetivação são a princípio bons ou ruins, depende do ponto de vista de quem o está a analisar. Há quem prefira trocar a possibilidade de viver mais por alguns prazeres mundanos, enquanto há os que não abrem mão de um bom e gorduroso bife de picanha ao invés de se submeterem à norma cada vez mais comum que praticamente obriga a todos terem um corpo magro, com IMC médio de 25 e capaz de viver até os 120 anos de idade, por mais dolorida, limitada e rotineira que seja essa vida. Sujeito são e dócil versus sujeito hipertenso e autônomo: qual é bom ou ruim? É óbvio que cada um tem sua resposta, e não tenho dúvidas de que a minha aqui não interessa. (Fica a dica: não dou ouvidos ao doutor Dráusio Varela em hipótese alguma).

E é justamente na construção de sujeitos que se insere a escola. Não há um modelo de escola que pense em respeitar as diferenças de todos os alunos ao mesmo tempo. Há modelos mais democráticos ou até mesmo libertários que têm como premissa a autonomia do aluno em sua formação, tanto no final quanto durante o processo. Nessa situação, o aluno tem espaço para escolher o que aprender e como aprender – é o caso da Summerhill School, na Inglaterra, idealizada por Neil e inspirada na visão de mundo do psicanalista Wilhelm Reich, entre outras em vários pontos do mundo, como EUA, Israel, inclusive várias em São Paulo. No entanto, não há por que acreditar que qualquer indivíduo deve se ajustar a esse sistema. Um desajustado social, que, digamos, não seja muito afim dos direitos humanos ou adepto de violência gratuita, dificilmente conseguiria (isso é pura especulação) conviver em um ambiente como esse, pois seria possivelmente rotulado como dotado de algum distúrbio psicológico ou rejeitado pelas pessoas de tal escola. É inevitável que um aluno mais violento que o normal seja expulso ou impedido de participar desse processo de formação. Isso mostra que a escola, libertária, estatal ou privada, não respeita todas as diferenças entre as pessoas, embora cada um estabeleça graus diferentes de aceitação do diferente.

E isso não é absolutamente um problema! Se neste ponto você está pensando “mas é óbvio que uma pessoa violenta não deve ser respeitada!, ela deve ser submetida a um tratamento para se tornar capaz de conviver em sociedade”, então estamos concordando que a escola, assim como os manicômios, hospitais, prisões, orfanatos, serve para homogeneizar as pessoas, fazê-las mais capazes de viver em sociedade. Não quero dizer que a escola seja ruim ou boa por seu caráter pasteurizador, mas sim que esse é um princípio indissociável da escola: ela pressupõe um sujeito – no caso, sociável – e investe seu tempo para produzir cidadãos que pensem como tal. Portanto, se no final do processo de escolarização as pessoas devem ser sociáveis, não faz sentido esperar que a escola queira formar pessoas com dificuldade de socialização. Essa é uma forma de dizer que a escola não respeita as diferenças entre as pessoas, pois serve justamente para acabar com tais diferenças.

Não acredito que a escola esteja fugindo de seu propósito, que a educação esteja em crise ou que seu papel está sendo deturpado por interesses adversos. A escola forja sujeitos normais, dociliza os corpos. A questão é até onde seus alunos podem ter suas singularidades respeitadas, manifestarem suas diferenças. Mas esse é tema para um futuro texto.

A escola segundo meus alunos

Hoje pude conversar com meus alunos, pois tive bastante tempo de folga com eles: além de uma sala inteira não ter comparecido, o que presenteou com cinquenta minutos de ócio, o Agita Galera (motivo da ausência daquela sala) foi adiado pela diretoria de ensino devido ao clima seco em São Paulo. Como gosto muito de conversar com os alunos, lá fui eu para o pátio jogar tênis de mesa e conviver um pouco com eles. Até que deu o sinal anunciando o fim do banho de sol. Seguindo as orientações da diretora, me dirigi à sala para “conversar com eles e ir dispensando eles aos poucos”, pois como não haveria o Agita Galera e eles supostamente não tinham em mãos seu material, não fazia sentido deixá-los trancados nos pavilhões, em suas respectivas celas.

Dos alunos que lá sobraram, seis foram para aula – alguns já sabiam que não precisariam nem mesmo subir para sala pois seriam dispensados logo a seguir. Eu e meu camarada professor de Filosofia fomos até eles para lançarmos dois dedinhos de prosa ou qualquer papo furado que viesse à mente.

Depois das duas frases que explicaram (ou não) o motivo de serem dispensados, perguntei a eles o que achavam da escola. Foi quando teve início uma das maiores experiências antropo-sociológicas (se não a única que possa ser chamada como tal) da minha vida.

A resposta imediata e consensual é que a escola já foi melhor do que é hoje. Eles acreditam que a escola (leia-se sua administração) deveria ser mais rigorosa, como já foi no passado. Um dos alunos que lá estava falou que estuda lá desde a quinta série (hoje está no segundo ano do ensino médio) e que a escola poderia ser melhor se não fosse tão frouxa como está sendo e fosse mais rigorosa em impor aos alunos suas regras de funcionamento.

Os fatos que os alunos apontam como cruciais para a direção da escola ter essa imagem de ser negligente com a impunidade dos alunos são vários: vistas grossas para quem chega atrasado, para a segunda e até mesmo para a terceira aula; falta de punição para quem depreda o patrimônio, como o caso dos alunos (vagabundos, segundo eles) que queimaram uma cortina de uma sala há alguns dias; consentimento dos inspetores e da própria direção com relação aos alunos que não querem assistir aula e ficam no pátio sem nada para fazer, para falar de alguns casos. Vejo em seu discurso que eles atribuem à direção a responsabilidade da escola não ser boa como deveria.

Então perguntamos, o filósofo e eu, se respeito às regras e rigor na sua implementação tem relação direta com o objetivo maior da escola (lembram dele?): o aprendizado. Perguntamos também se os alunos, ou todos os sujeitos do processo inseridos nesse contexto, não estão contaminados, viciados, incapazes de perceber que a lógica da qual fazem parte poderia ser outra; e quais as razões para haver ambientes em que, apesar de serem livres de tantas regras e punições, as coisas funcionam tão bem quanto uma escola militar ou uma empresa, exemplos que eles deram de instituições com as quais a escola deveria aprender.

O discurso dos alunos manteve-se o mesmo. A sociedade possui regras, as pessoas precisam delas para conviverem melhor, e as punições são fundamentais para que as pessoas aprendam que, mesmo estando em situações ruins, podem piorar.

Não adiantou falar-lhes de escolas democráticas e libertárias, de empresas em que os funcionários fazem seu próprio horário, entre várias instituições mais livres do que as quais estamos acostumados. Por que umas funcionam e outras não? Será que a responsabilidade é sempre de quem impõe as regras? Os membros do jogo não tem qualquer responsabilidade sobre seu funcionamento? Será que a escola só funcionará quando todos os alunos forem obrigados a respeitarem as regras? Regras e punições são a única alternativa? Ou deveria a escola, no lugar de condicionar os alunos a respeitarem seu regimento (deixando orgulhoso Skinner e qualquer behaviorista), estimular que os alunos aprendam a tomar decisões sem intervenção de uma instância hierarquicamente acima deles?

Quem quer fazer com que a escola seja um ambiente melhor e que funcione, não adianta apenas investir na formação dos docentes, em teorias pedagógicas e cognitivas, reformulação da estrutura de poder do sistema educacional etc. É fundamental que os alunos sejam também considerados parte ativa do sistema, como um grupo que possui atuação política relevante assim como influência direta no sucesso ou não de todo o processo e de seu produto. Os alunos possuem responsabilidade sobre o sucesso ou fracasso da escola. O problema é que o discurso ao qual estão incorporados e que, portanto, reproduzem é indício de que não há uma boa perspectiva para qualquer mudança desse sistema. No atual paradigma de escola, estruturada sobre uma mentalidade meritocrática e pautada em regras rígidas, a qual é reproduzida não só pelo Estado e seus representantes mas também pelo alunos, é difícil pensar em uma alternativa que faça a escola funcionar ou ao menos ser encarada como uma “boa escola”.

Meus alunos veem a escola como um instrumento de docilização. Haverá algum problema nessa concepção de escola?