Resistência e política pedagógica: a importância de objetivos e estratégias

Propor-se a uma tarefa sem saber onde se quer chegar e por onde seguir é tão razoável quanto ir a uma rodoviária para viajar para onde não se sabe e sem saber como pagar o ônibus. Embora coincidências possam fazer com que a viagem aconteça, poucas pessoas se aventurariam a isso sem um mínimo planejamento.

Minha sugestão é que assumir uma ação reconhecidamente política sem ter claros seus objetivos e as estratégias para realizá-la é predestinar tal ação ao fracasso.

Tome como exemplo o trabalho de professora. Se a pessoa acredita que ser professora se resume a ensinar conteúdos de uma área de conhecimento – o que me parece ser uma visão simplista e superficial do que se faz em sala de aula – inevitavelmente vai se deparar com dificuldades que decorrem das relações de poder que permeiam a escola. Pode ter uma inspetora que está preocupada em manter boas as relações com a direção e te faz pedidos informais sem qualquer intenção pedagógica (quem nunca ouviu um “não faz isso senão complica pra mim” de um bedel?), uma vice-diretora que cobra “parceria” do corpo docente esperando que abaixem as cabeças às arbitrariedades da equipe gestora, ou ainda uma série de sujeitos do currículo (explícito ou oculto) da escola que colocam interesses geralmente pessoais em concorrência com o seu. Nesse cenário, como poderia se garantir com sucesso o cumprimento de uma tarefa a princípio simples como a de fazer seu papel em sala de aula?

O enredo fica mais complexo quando a professora se entende como um ser político protagonizando um papel essencialmente social.

É urgente a construção de uma cultura em que todas as pessoas da comunidade escolar se percebam como sujeitos políticos. É fundamental o entendimento da educação formal como uma ação política, permeada de relações de poder que exigem um posicionamento seguindo uma reflexão mínima sobre papéis, escolhas, objetivos e estratégias. Lendo Paulo Freire, Mikhail Bakunin, Silvio Gallo, Hannah Arendt, José Pacheco, Anísio Teixeira, Paul Robin, Sebastian Faurre, Pierre Bourdieu ou qualquer pessoa que tenha se proposto a pensar minimamente a escola, percebe-se que há consenso de que o ato de ensinar é essencial, inevitável e fundamentalmente político. Contudo, esse olhar sobre educação parece estar à anos-luz de distância do projeto de educação pública do Governo do Estado de São Paulo e, consequentemente, de grande parte das escolas da rede pública de ensino.

Como, enquanto professora, se relacionar com um ambiente repleto de pessoas que, alinhadas a um senso comum ou ao projeto de educação estatal, baseiam suas relações no desrespeito, na violência, na miséria ética e se alienam do magistério enquanto prática política? Ao mesmo tempo, como combater e não reproduzir os sistemas de opressão – capital, Estado, patriarcado, heteronormatividade, homolesbotransfobia, racismo, fascismo? Como não se resignar diante de tantas dificuldades articuladas e organizadas para sabotar seus objetivos políticos, barreiras impostas por gestão escolar, diretoria de ensino, secretaria de educação, política institucional, colegas de trabalho, burocracia sindical e toda a sorte de pessoas treinadas e empenhadas em te derrubar?

Não é possível alguém em sã consciência esperar que boas coincidências possam ocorrer em uma escola para que se possa cumprir com seu papel de maneira honesta e ética.

É um desafio descomunal manter seus objetivos de maneira ética no interior de um ambiente que regula um habitus fantasiado de pedagógico mas que, na verdade, perpetua a ordem das coisas. Nesse sentido, é impensável manter-se em ambiente tão hostil sem traçar uma estratégia visando objetivos políticos e pedagógicos a longo (a perder de vista), médio e curto prazo.

Pois resistência sem organização não demora para se transformar em resignação.

Acredito que, para alguém que pretenda se manter entrincheirada em ambiente escolar e ter a transformação social em seus horizontes, vale o exercício periódico de rever suas práticas e avaliar sempre que possível seus objetivos e estratégias.

Na catraca. II

Este texto é de dezembro de 2010. É inédito, embora tenha quase cinco anos de idade. Está sendo publicado agora por ter sido encontrado entre escombros e rascunhos abandonados na configuração deste blog. Mudei coisa ou outra do conteúdo, enxuguei algumas frases – provavelmente as que me impediram de publicá-lo naquela época. Apesar de mudados os endereços, a ideia se mantém a mesma.

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Volto da casa do meu pai depois de um final de semana nostálgico. Rememorei bons e maus momentos de minha juventude em São Vicente. Ao menos uma oportunidade para confrontar alguns preconceitos daquela época com os de hoje.

Com reflexões a mil e o domingo se esvaindo, subo em um ônibus na rua Augusta. Aquela linha passaria pela Cidade Jardim. Minha casa estava à espera, no Butantã. Nesse ínterim, cidade movimentada, consumo paulistano no ápice e busão lotado como no rush de segunda-feira.

Na luta por um assento, não passo a catraca e fico no banco logo atrás do motorista. Divido o banco com uma travesti. Ela estava a caminho da avenida do Jóquei, seu lugar de trabalho, enquanto todos os outros passageiros do ônibus, “normais” e de bem, voltavam para casa após um dia de consumo e de trabalho árduo. Muitos ali provavelmente se achavam mais dignos do que minha vizinha de banco.

Ouço um diálogo vir logo da frente. Uma jovem simpática conversa com o motorista em pé a seu lado.

– Como a linha tá lotada hoje. Há três semanas não estava assim. E nessa linha aqui normalmente sobem uns travestis pra ir pro Jóquei, não é? Hoje não tem nenhum.

Ledo engano. Eu tapava a visão da jovem. Distraída, sentiu-se à vontade para falar. Continuou ela a discorrer ao seu modo sobre mobilidade urbana e transexualidade, enquanto o motorista consentia com respostas curtas.

– Eles normalmente descem pela frente, não é?

Eles, não. Elas.

– Sim, são folgados. Pagam, giram a catraca e descem pela frente. É que tem um pessoal que pesa na deles, chama pra jogar bola, pra encher laje…

– Pois é. Há alguns anos eu trabalhava vendendo coisas em um ponto de ônibus na Francisco Morato. Um dia, quando desci no Jóquei para pegar outro ônibus pro meu trabalho, vi vários deles trabalhando na avenida. Vi que as pessoas que param os carros na avenida e saem com eles sempre são homens de família, muitos deles casados. Normalmente são homens bem de vida. Pra que isso, né? Que nojo.

A jovem filósofa desceu logo em seguida. Continuei ali, na minha, sentindo o perfume da outra moça que, como eu, continuava sentada e reflexiva.

Memórias póstumas de uma libertação merecida

wpid-20150907_193347.jpgSubi a ladeira de bicicleta e com uma estranha empolgação. Talvez um coquetel de endorfina, no sangue por conta da pedalada, e um toque de euforia para mais uma reunião pedagógica na escola, com uma pitada daquela insanidade fundamental para sustentar pouco mais de uma hora e meia de anúncios de que o mundo está chegando ao fim vindos da boca de colegas de trabalho. Se eu pelo menos tivesse uma aula para dar naquele dia… Mas nem isso para diminuir minha dor.

“Será que a inspetora no portão fará o chiste novamente?” Mal terminei de pensar e ouvi a fatídica piada do “cadê o uniforme da escola, hein?”. Já tinha ouvido aquilo mais vezes que a do pavê em Natal em família. Não bastasse ver estudantes terem que se sujeitar à surreal humilhação de vestirem um uniforme para não receberem advertência da inspetora na entrada, tenho eu que ser cobrado com um comentário cretino por meu uniforme de professor. Sim, professores têm uniforme: não podem ir pra escola de bermuda sem correrem o risco de ouvirem gracinha ou receberem uma cara torcida. Enquanto tranco a bicicleta, me pergunto de que inferno deve vir aquela misteriosa empolgação. “Não é possível que eu ainda sinta algum prazer em participar de reunião de professores”.

Sigo o script. Começo com o sorriso sem graça, um oi aqui, encosto a bicicleta ali, outro oi-tudo-bom-tudo-bem burocrático mais frente, uma engolida a seco por, sem nem ter atravessado o estacionamento, ouvir uma má frase vir da janela da sala de profes… Sabe aquela maldição que lançam em seu ouvido? Aquela que te faz desejar ter nascido com deficiência auditiva. Ou ainda a que te faz querer uma espada escorregar da mão de alguém e, como se colocada ali pela compaixão de deus, entrar por um ouvido, rasgar o cérebro, chegar no outro lado da cabeça e salvar você de mais uma besteira que polui aquela atmosfera desgraçada. Frases que te fazem se sentir mal por cada vez mais ter certeza de que o mundo está sim mudando, mas para pior, como “bandido bom é bandido morto”, “Brasil tá virando Cuba”… Naquele dia fui recebido com o “manifestante grevista é baderneiro”. Era apenas o prelúdio de mais uma aula de trabalho pedagógico e coletivo, vulgo ATPC.

Em uma sala apertada, improvisada como de propósito para aperfeiçoar aquela fábrica de pessoas à beira de um ataque de nervos, professores e professoras se amontoam em órbita de uma mesa de reuniões para debaterem o nada, o vazio, em um tradicional ritual em homenagem à inexistência de coerência em argumentar sobre qualquer evento ou fenômeno natural – quem dirá social. Bullying, drogas, gênero, petismo, nacionalismo, religião, tudo era conteúdo para engordar aquela produção dadaísta-ideológica financiada pelo Estado, ao tempo em que de pedagógico nada se produzia. Sentei e comecei a desenhar minhas já tradicionais cenas de suicídio. O flerte com a morte era o que tornava suportáveis aquelas reuniões.

Até que, como se colocassem uma cereja naquele bolo fecal, fui presenteado com a frase definitiva: “aqui na escola não vamos mudar os problemas da sociedade, então bola pra frente, não vamos perder nosso tempo discutindo isso, né, aqui não temos solução para nada”.

Se o nosso fim era inevitável, por que esperar? Como num reflexo, puxei o estilete em meu estojo e cortei meu pulso direito. A euforia acabara. Embora achasse estranho, me sentia tranquilo, de certa maneira aliviado, enquanto via meu próprio sangue jorrando para todos os lados.

Quem recebeu o primeiro jato, o mais espesso, foi o coordenador pedagógico. Desde que ele entrou na escola, percebíamos um certo esforço daquele pobre ser que tentava não se submeter aos desmandos da diretora, pau-mandada da supervisora de ensino que, por sua vez, fazia o viciado papel de reproduzir a lógica da gestão imposta pela ordem das coisas. Mas, como se punido por ser ali o mais alto da hierarquia, teve que se afastar depois do esguicho e limpar seus óculos para tentar entender o que estava acontecendo, perdendo quase toda a cena.

Em seguida, foi a professora de português a presenteada com outro bem servido golpe de hemoglobina. Naquele instante senti a felicidade da vingança. Como se eu tivesse guardado toda a groselha que, gota a gota, aquela fascista me salpicava durante todas aquelas malditas reuniões, dei um leve sorriso enquanto pensava comigo mesmo “você não gosta de Milani? Pronto, taí”.

Não poupei ninguém. Enquanto o sangue tingia móveis, paredes, provas do Saresp, diários de classe, toda uma sorte de papéis inúteis, apontava o jato para o rosto de cada uma das pessoas presentes. Marcava em vermelho uma por uma, como elas fizeram com suas canetas durante todos seus anos de trabalhos, reprovando uma nação de estudantes desajustados, insolentes, que se negavam a ser domesticados e dóceis. Quando tonteei, agradeci os tempos por estar abandonando aquele espaço de maneira triunfal e por ter tido a coragem de fazer o que sonhei durante, sem exceção, todas as reuniões pedagógicas em que estive presente em meus anos de magistério. Caí e vi o pavor tomando o semblante de todos e todas ao meu redor. O pobre professor de Artes, chateado, provavelmente lamentava por não ter conseguido sacar a tempo seu celular para filmar a cena para colocá-la em um de seus filmes B, hobby que lhe dava a sanidade mental para não ser o protagonista de um ato como o meu. O rosto que destoava dos outros foi o do professor de Sociologia, que dias antes me confessara ter decidido exonerar no final do ano. Seu olhar foi uma mistura de cumplicidade e inveja, e ali tive certeza de que foi ele a pessoa mais compreensiva com quem trabalhei naquela escola.

Eu amava estar em sala de aula, conversar diariamente com estudantes, e era enorme a satisfação de poder trocar vivências com toda aquela gente que, obrigada por pais e mães, se submetia ao ambiente escolar e se resignava por ao todo mais de doze anos àquela violência institucionalizada em troca de um pedaço de papel escrito “diploma”. Claro, às vezes um perdia a noção e me desrepeitava, outras ouvia alguém fazer uma cobrança meio sem cabimento por uma nota… mas eu seria incapaz de me queixar de estudantes, as maiores vítimas dessa roda viva chamada escola. Para mim, o difícil mesmo foi aguentar são as reuniões com professores e professoras. Mas, enfim, conseguira alcançar minha libertação.

A relativização da existência

Cada uma de minhas vivências me faz compreender por que algumas pessoas relativizam sua existência.

Por que ficar em um lugar ao qual você não pertence?

São desenhos feitos em situações de perplexidade – palestras corporativas, reuniões “pedagógicas”, salas de TV e outros espaços-tempos de absoluto vazio existencial.

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Os pequenos fascismos de nossa vida cotidiana

Sou diariamente pressionado a não confrontar a imposição da ordem das coisas. É como se a todo momento eu estivesse em um rodamoinho, num vórtice do qual eu não consigo escapar por mais que eu dê braçadas ou busque recursos para dele me desprender. Não um vórtice líquido, mas etéreo, de uma matéria que, mesmo sem existir, me captura e me transforma na própria matéria. Como se, além de ser vão ou inadequado confrontar o que me oprime, fosse necessário reproduzir a própria ordem e confrontar quem confronta a ordem imposta. Como se fosse uma regra da qual não se pode fugir.

Questionar a tetrapakzação da vida é ser chato, impertinente, inadequado, indisciplinado, errado, egoísta, incivilizado, intolerante, desrespeitoso, amoral, insociável, desajustado. A imposição não está numa repressão física imposta diretamente ao meu corpo. Ninguém me põe uma mordaça ou me amarra para me impedir de ter uma vida diferente. Mas a simples indisposição das pessoas em entender que meu modo de ver e viver o mundo é diferente do hegemônico é constrangedor. É nas pequenas ações, nas afirmações sem compromisso que se fabrica discursivamente o modo de vida hegemônico como um aspecto da inevitabilidade, natural e anterior a qualquer desejo, a qualquer construção, a qualquer vivência.

“E aí, até quando vai continuar enganando sua namorada e se casar?”, “quando você vai ter uma vida de verdade e constituir família?”, “como assim, você só trabalha oito horas por semana?”, “se não votar vai ganhar o quê com isso?”, “quando você vai deixar de ser rebelde e viver a vida?”, “nem parece adulto”, “quando vai deixar de viver como adolescente?”, “quanta viadagem, nem parece homem”, “quando vai honrar o pau que tem entre suas pernas?”. Amenidades que constrangem e imputam um modo de vida pré-fabricado. E oprimem.

QuinoLazzarini

As diferenças serão apagadas em breve. O diferente vai deixar de ser uma alternativa válida e produtiva. O cinza tende a prevalecer sobre tudo o que não for cinza. Expressões, olhares, falas insignificantes e despretensiosas de nossas vidas materializam o fascismo que transforma a invariabilidade de algumas formas de vida na inevitabilidade de uma forma de vida. O efeito é a destruição de qualquer possibilidade de aceitação da diversidade e do questionamento de um modo de vida hegemônico, seja ele o atual ou o que está para ser forjado por quem garante seus privilégios por meio de todos os sistemas de opressão que medeiam nossas relações.

O hegemônico exclui o diferente sem precisar levantar prisões/escolas/fábricas/hospícios para enjaular os desajustados e discipliná-los. Há uma multidão que se alinha à suposta ordem natural das coisas, e uma multidão bem disposta a constranger qualquer prática diferente da sua. Fugiu à regra? Descarte. Sem chance de errar, pois não se pode cair da esteira da linha de produção de nossas vidas. A multidão está lá, pronta para dar conta de lhe apontar os erros, por mais acertados que sejam seus erros.

É uma multidão sem história, sem genealogia, repleta de pressupostos inquestionáveis. Sem hipóteses, mas cheia de verdades e certezas.

Essa multidão pressupõe que a Natureza está pronta, que o que é dado é imutável, que se as coisas têm sido assim nunca serão de outro jeito. Não questiona a suposta imutabilidade, não se perguntam sobre o que é de fato imutável, por que é imutável, quando é imutável.

Pressupõe que a seleção natural é igual à seleção social, e ambas são leis anteriores ao surgimento do Universo. Não questiona se essa lei foi de fato descoberta por pessoas iluminadas ou se pessoas quaisquer inventaram uma lei supostamente natural legitimada por nós que não a confrontamos.

Pressupõe que existe o Belo, uma verdadeira beleza primordial, uma estrutura regular, ordenada e simétrica da qual nos afastamos por não aceitarmos a necessidade do progresso e do desenvolvimento. Como se o modo como pensamos não fosse uma construção histórica, mas sim uma propriedade humana de natureza inexorável.

Pressupõe que as mulheres são dos homens e os homens têm as mulheres, que homens e mulheres têm seus papéis sociais ditados pelos cromossomos, que não existe outros gêneros que não correspondam a esse binarismo compulsório. Não questiona se é natural ou naturalizada a correspondência de nossas práticas a essa matriz de sexo/gênero inventada para perpetuar o sistema patriarcal.

Pressupõe que crianças, jovens, adultos e idosos têm papéis naturais, distintos e inevitáveis. Não põe em cheque a suposta justificativa das privações às quais crianças e pessoas jovens, adultas e idosas são submetidas, se são inerentes à própria condição ou resultado de uma construção histórica de relações assimétricas em que a idade tem uma relação forçada com todo e qualquer comportamento.

Pressupõe que viver é não morrer, e manter a ordem biológica da vida é tudo o que há de mais importante, e as necessidades biológicas são suficientes e justificam todo o resto. Como se vivência e sobrevivência fossem sinônimos.

Pressupõe que é inevitável a linearidade da vida ordinária – nascer, crescer, ir pra escola, virar pessoa adulta, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar um carro, namorar, casar, comprar o próprio imóvel, ter filhos, envelhecer, mudar pro interior, morrer. Como se não fosse possível questionar esse script divino, pronto e formatado como se todo humanoide devesse seguir os mesmos passos, uma vez que todos têm pernas. Como se a vida fosse um bingo, o qual ganha quem marcar todos os quadradinhos da cartela dada na entrada.

Pressupõe que o trabalho enobrece, e quanto mais se trabalha melhor se é. Mesmo que não se goste do próprio emprego, se estresse, se submeta à falta de dignidade e à exploração imposta pelas relações de trabalho, se produza para alguém que não precisa da sua produção, se escravize.

Meu modo de vida não se alinha a qualquer um desses pressupostos.

Acreditei por um tempo em ser agente de uma missão em até certo ponto metafísica, na qual deveria eu levar algum tipo de palavra contra-hegemônica às pessoas mais próximas. Era uma tentativa quase messiânica de capitalizar as pessoas em prol de um modo de vida como o meu e provocá-las aos mesmos questionamentos que eu tenho sobre a rotina a qual nossas vivências nos aprisionam. Pura evangelização. Deixei de acreditar nesse modo de ação e na filosofia invasiva por trás dele. Se deve haver alguma coerência entre discurso e prática, que seja entre a descrença em qualquer metafísica homogeneizadora, ou em um Além determinante que deveria minimamente servir como referência para um conjunto de comportamentos, e o exercício da autonomia das pessoas sobre suas próprias vidas.

Desisti de levar o evangelho aos outros povos, mas do meu modo de vida não abri mão. Questiono absolutamente tudo o que me parece pressuposto e coloco à prova o que me parece conflitante com alguns princípios que tomo para mim como básicos. Esse exercício passa a ser minimamente interessante quando se passa a perceber como há uma série de construções sociais às quais tendo me aparelhar, condicionar, me tornando mais uma pessoa em uma massa pasteurizada, homogênea e embalada hermeticamente como um produto em um tetra pak, milimetricamente cúbico, igual, sem impurezas, industrializado, geneticamente modificado, com um selo de garantia ISO 9001, com prazo de validade e com meu valor e impostos estampados no lado de fora.

Não quero convencer ninguém de que as pessoas devam abandonar suas vidas para viverem como eu. Meu desejo é o de poder ter autonomia sobre meu desejo, minha vida, meu corpo e tudo o que preciso fazer para me satisfazer de acordo com princípios que tento aplicar em minhas práticas sociais. A utopia (ou impossível, para algumas pessoas – não eu) não é o desejo de que as pessoas sigam o mesmo modo de vida que o seu – o que por si só recai nos pequenos fascismos de nossa vida cotidiana. A utopia reside no desejo de que as pessoas pelo menos entendam que existe não um único, mas muitos e diferentes modos de se entender e praticar a vida, e respeitem a diferença.

“Tinha que ser petista. Só falta defender a Dilma!”

É por me ver acuado em acusações como essa que resolvi propor uma explicação pedagógica da diferença entre petistas e o restante da esquerda. O público-alvo deste texto é quem se entende como uma pessoa disposta a ver o mundo além de duas dimensões e não se satisfaz com um mísero óculos 3D. Se sua miopia é do tipo social, faça um esforço, pois a realidade alheia talvez não esteja tão longe assim.

Afinal, não é possível que uma pessoa seja capaz de separar lixo de materiais recicláveis, distinguir um cavalo de uma zebra, entender a diferença entre catraca de canhão e conhaque de alcatrão, mas não consiga perceber que ser de esquerda não é a mesma coisa que votar na Dilma. Afinal, existe muita coisa além do PT. A esquerda não é um monobloco, por isso não pode ser generalizada como um bando de petistas.

A seguir apresento um breve glossário*. Parto do princípio de que a diferença entre ser de esquerda e de direita é o desejo de transformar a sociedade tendo em seu horizonte o fim das desigualdades sociais. Para diferenciar os grupos, considero aquelas ações e posturas que vão além de reclamar na fila do banco e xingar muito no Face. Outro princípio é que a explicação para a desigualdade social não está na natureza humana, na lei de Gerson ou na vontade de Deus: qualquer obstáculo à mudança na sociedade pode ser superado pelo esforço coletivo. Esforço individual faz parte do jargão liberal (e não libertário, hein!), ao qual o discurso da esquerda historicamente se opõe.

Se você acredita em qualquer uma dessas mitologias e já moveu o mouse para fechar esta janela em seu navegador, peço encarecidamente que insista, siga com a leitura, faça algum esforço e tente entender a diferença entre petistas, marxistas, anarquistas, trotskistas, maoístas… Não precisa nem mesmo quebrar aquela vidraça de banco que há dentro de você, basta tentar entender que petistas e socialistas são seres com ideias diferentes. Acredite que você estará criando condições para uma boa ação: poderá fazer um bem para a saúde da sua família, de seus colegas de trabalho e para as pessoas que dividem o espaço público com você. Não precisa concordar com as ideias que caracterizam cada segmento, basta entender que são diferentes.

Meu objetivo está longe de defender qualquer uma das ideologias que estabelecem as fronteiras do espectro político – pelo menos não aqui. O que pretendo é fornecer alguma referência para quem tiver interesse em ofender algum membro da esquerda de maneira um pouco mais rigorosa do que usar a triste e desgastada alcunha de “petista”.

Esse texto é também para você em uma situação como a minha. Cansou de ser chamado de petista por aquela tia tacanha que azeda sua sobremesa de domingo ao sugerir que o Lula nada mais é do que um enviado da sarjeta para abrir a bolsa dessa classe média que lutou para chegar aonde chegou? Ainda acredita que é capaz de convencer o babaca daquele colega de trabalho que te inferniza enquanto você faz um esforço atroz para explicar que a Dilma não cogita ameaçar ninguém com distribuição de renda alguma aumentando o poder de compra e dando crédito pra classe C? Está perdendo a disposição para conversar na fila do mercado ou no coletivo com aquela senhorinha que parece ser tão simpática até o triste momento em que ela cita o Reinado Azevedo para sugerir que os petralhas são enviados cubanos para aumentar o preço do tomate e viabilizar o golpe comunista? Pensa em furar os ouvidos se mais uma vez receber o epíteto de petista por simplesmente não concordar com pessoas com os pontos de vista acima? Então envie este texto àquelas e àqueles com quem você tem a custosa missão de estabelecer um convívio harmonioso.

Comunismo: lugar-comum à maior parte da esquerda. Uma sociedade comunista é aquela na qual não há desigualdades sociais, opressões e na qual todos são tratados da mesma forma e tem o mesmo acesso a tudo que precisa para viver. Nessa sociedade não há líderes nem Estado. Para se chegar ao comunismo, existem diversas teorias.

Socialistas: são anticapitalistas e propõem o fim das desigualdades sociais pela via revolucionária, lutam pela distribuição de bens e pelo fim dos benefícios e privilégios econômicos e/ou sociais restritos a uma determinada elite, ou seja, lutam pelo fim da propriedade privada. Para alcançar o comunismo, um socialista acredita que é necessária a criação de um partido (um pouco diferente da nossa concepção atual de partido) ou organização de vanguarda para organizar a classe trabalhadora. Esse partido tem a função de mostrar aos trabalhadores que eles estão sendo explorados pelos seus patrões. O socialismo seria uma espécie de etapa de transição entre o capitalismo e o comunismo, na qual o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores. A principal teoria que embasa a luta socialista é o marxismo, corrente inspirada nos escritos de Karl Marx.

Marxistas:também são anticapitalistas e acreditam que houve um momento na História em que um primeiro pilantra deu a si mesmo o direito de acumular bens materiais além do que precisava, deixando outras pessoas na mão. Esse primeiro pilantra – ou burguês, se preferir – dividiu o mundo em dois: entre os exploradores e os explorados. Assim, uma pessoa marxista advoga que quando os explorados tomarem e repartirem igualmente todos os meios de produção (fábricas,  empresas etc.) por meio de uma revolução social, o comunismo será alcançado, mas isso acontecerá depois da experiência socialista (conforme descrita acima). Nem todos os marxistas acreditam necessariamente na etapa socialista, ou na vanguarda etc., pois existem inúmeras correntes internas no marxismo, o que possibilitou o surgimento de vários grupos que têm discordâncias entre si, mas que tem o comunismo como horizonte.

Anarquistas: Acreditam no bem comum, mas sua conquista só pode ser concretizada com a negação de toda forma de exploração e opressão de qualquer natureza e pela afirmação e garantia da diversidade humana. Por isso, são anticapitalistas e não acreditam no Estado como ferramenta para transformar a sociedade – pelo contrário, veem no Estado mais uma forma de garantia da ordem das coisas. Confiam que as pessoas, trabalhando juntas, são capazes por si só de se organizarem e conseguirem tudo o que precisam, inclusive transformar a sociedade, sem representantes eleitos, chefes de estado ou uma elite de legisladores e magistrados fazendo o meio-campo ou ditando seus rumos. Em outras palavras, se autogovernam. Uma pessoa anarquista não vota, não confia em qualquer pessoa que diz representá-la (seja petista, tucano ou partidário de qualquer combinação da sopa de letrinhas).

O que é comum a todos: a indignação ao ver negros, indígenas, homos, trans, mulheres, bandidos e qualquer outra minoria serem violentadas por sistemas de opressão como o capitalismo, patriarcado, família, religião etc. Querem derrubar o capitalismo. Por caminhos diferentes.

Petista: membro, militante, simpatizante ou afim ao Partido dos Trabalhadores (PT). Acredita na via eleitoral-partidária e no Estado como ferramenta de transformação social. Seu partido tem origem no movimento de metalúrgicos do ABC e Grande São Paulo e de seus respectivos sindicatos, e seu principal líder é o Lula. Suas reivindicações sempre foram trabalhistas; embora muitos de seus militantes se identificassem com o discurso socialista (com o qual as reinvindicações de perspectiva trabalhista estão alinhadas), atualmente isso não corresponde mais à realidade do partido. Embora tenha sido criado com o viés socialista, o PT combatia as formas tradicionais de fazer política na esquerda. Com o tempo sua forma de atuação foi mudando e o socialismo já não está mais no horizonte do partido como um todo, o que corrige qualquer possível espanto causado por sua aliança com empresários, Michel Temer e toda a corja de oligarcas para chegar ao poder. E, definitivamente, hoje petistas não são pessoas nem um pouco revolucionárias!

Agora, se mesmo assim você decidir chamar de petista qualquer pessoa que discorde de você ao vê-la coçar a cabeça enquanto ouve você reproduzindo irresponsavelmente o discurso pau-mandado do Boris Casoy, Fátima Bernardes ou qualquer outro cachorrinho da mídia corporativa, não poderá mais se defender dizendo que a culpa é por você ter o limitado repertório do programa do Datena – se é que esse argumento pôde algum dia ser utilizado dignamente.

(* Corro o risco de, por conta dessa publicação, ser apedrejado por representantes de todos os grupos que citei acima e que não concordam com as descrições. As pessoas que me ajudaram a escrever isso tudo de forma cuidadosa e minimamente rigorosa me alertaram para essa possibilidade, e inclusive pediram para não serem citadas. Não duvido que as críticas surjam de todos os lados – na realidade, estou à espera disso. Mas meu desespero tem sido tão grande ao ser chamado de petista na atual conjuntura que não tive como não escrevê-lo. Como diria um CAMARADA, “irresponsabilidade seria não escrever”.)