Quando a vontade de igualdade reproduz privilégios: a relação estudante-educante no Cursinho Livre da Lapa

O ideal libertário prevê relações baseadas em apoio mútuo e solidariedade. Em uma sociedade em que a violência é banalizada e oprimidos e opressores se misturam, fazer com que nossas relações sejam mais justas se torna um processo difícil. Reinventar a moral humana, como proporia Bakunin, e criar relações em que não caibam opressões de nenhum tipo, são em si tarefas hercúleas diante dos aparelhos ideológicos e repressivos contra os quais temos que lutar; pior fica quando subestimamos essas tarefas. Subestimar a necessidade de mecanismos que garantam relações livres é fazer o jogo de quem nos oprime. Quando não premeditamos mudar nossas relações, perdemos o cabo-de-guerra da transformação social e ajudamos a consolidar ainda mais a ordem das coisas.

A pedagogia criou o conceito de relação professor-aluno (que poderia abranger maior pluralidade se chamada de relação estudante-educante). Como toda relação, não é possível isolar da sociedade em que se insere a relação entre quem educa e quem aprende. Assim, quando as partes não tomam os devidos cuidados, a relação estudante-educante pode reproduzir machismo, sexismo, homotranslesbofia, fascismo, etarismo e qualquer outra discriminação, preconceito ou opressão que alicerça nosso cotidiano.

Além dos fatores sociais, externos (mas não menos conectados) à educação formal, que regulam a relação entre educadores, educadoras e estudantes, há um elemento inerente ao processo de ensino e aprendizagem: é a intencionalidade intrínseca aos papéis dessa relação. Coberto de razão estava Paulo Freire ao ressignificar os papéis de educador e educando, renomeando-os para educador-educando e educando-educador: é impossível não aprender quando se ensina, e quem aprende sempre tem algo a ensinar à quem educa. Uma leitura descuidada de Freire pode sugerir que os atos de educar e de ser educado se misturam, se confundem a ponto de serem os mesmos. No entanto, Freire nunca negou a intencionalidade de educadores e educadoras. Tal intencionalidade é nitidamente exposta em sua análise da ética do educador em “Pedagogia da autonomia”.

A intenção de educar é o que diferencia educação de educação formal, faz com que a pedagogia seja uma área de conhecimento. Assim, os saberes pedagógicos, mesmo sendo compartilhados com estudantes, fazem com que educantes, que detêm esse conhecimento, tenham um papel necessariamente diferente em sua relação com estudantes. Assim, a relação não pode ser em si horizontal, uma vez que os saberes delineiam a diferença entre os papéis dos dois lados da relação.

Reconhecer as diferenças e as assimetrias entre os papéis de estudantes e educantes não implica necessariamente em dar justificativa a pretensos privilégios e abusos por parte de educadores e educadoras. É fundamental ter mapeadas tais diferenças justamente para não transformá-las em privilégios. Por outro lado, ao negligenciar a assimetria entre os papéis, corre-se o risco de tornar a relação abusiva. Decorre dessa constatação a responsabilidade de quem está em uma posição reconhecida de privilégio construído socialmente, como é o caso de quem educa, de impedir que a diferença entre papéis se transforme em privilégio.

No Cursinho Livre da Lapa, já houve em seu um ano e meio de história algumas situações em que a falta de cuidado de educadores e educadoras em sua relação com estudantes criou problemas ao projeto como um todo.

Uma delas aconteceu em setembro de 2015. Na ocasião, educadores e educadoras perceberam que estudantes iam ao Cursinho, mas não entravam nas aulas; não seguiam a orientação de fazer exercícios em casa; e, em alguns casos, desqualificavam momentos de aprendizagem com atitudes que sugeriam pouca responsabilidade com o objetivo de aprender. No olhar dos educadores e das educadoras, estudantes de maneira geral pareciam não ter percebido sua responsabilidade com a própria aprendizagem, não estavam cientes de que, enquanto partes da relação, deveriam ter o mínimo comprometimento com o aprender e gastar alguma energia para chegarem ao objetivo, seja ele passar no vestibular ou se relacionar de maneira diferente do que lhe é imposto em outros espaços.

Educadores e educadoras, depois de conversarem entre si e entenderem que esse sentimento de desresponsabilização de estudantes era comum a todas, resolveram não esperar uma nova reunião (ou assembleia) mensal para tocar nesse assunto e resolveram chamar uma reunião geral extraordinária. Essa reunião aconteceu durante o horário de uma aula, a fim de garantir a presença de um maior número de estudantes. Na reunião, estudantes ouviram educadores e educadoras contarem o que viam acontecer nos últimos meses, como achavam negligenciadas as responsabilidades com a própria aprendizagem e que provavelmente havia uma reprodução, de maneira irrefletida, de práticas da escola tradicional por parte de estudantes.

A resposta de estudantes àquela reunião, acontecida em setembro, veio na última hora do encontro de fechamento e avaliação do ano, chamado fórum, em dezembro. Estudantes contaram terem se sentido acuadas e acharam que educadores e educadoras foram “blocadas” à reunião para fazer a cobrança, como se estivessem abusando de sua posição de educadores.

Esse incidente sugere ruídos na comunicação entre educantes e estudantes. Primeiro porque parece não ter ficado claro que não é um problema em si haver cobranças em um diálogo; afinal, se há responsabilidades a serem cumpridas a fim de que as expectativas de aprendizagem e organização de qualquer projeto sejam atingidas, todas as pessoas envolvidas devem cumprir com seus papéis, de modo que, quando não cumprem, acabam por colocar em risco os objetivos a serem atingidos. Portanto é fundamental haver cobrança para que se perceba como as responsabilidades de estudantes e educantes é igualmente importante para o avanço do Cursinho. Afinal, apoio mútuo e solidariedade só existe quando compartilhados e só se concretizam quando a responsabilidade é mutuamente assumida.

Outro ruído é o de que educadores e educadoras não deveriam conversar entre si enquanto uma frente e “blocarem”, chegando a um consenso entre si. O equívoco nessa ideia surge quando não se reconhece a diferença entre os papéis e, além disso, pressupõe-se que tal diferença implica de maneira inequívoca em privilégios, que se concretizou na cobrança sentida pelas estudantes. Irresponsável seria negar as diferenças e ignorar que as pessoas partem de histórias diferentes para cumprir coletivamente com um dado objetivo. Confundir o princípio de igualdade com o de equidade é um erro recorrente no meio libertário, e cabe a quem reconhece a diferença entre esses dois princípios realçá-los para que a igualdade não se torne opressão.

É elementar que mecanismos sejam criados em nossos projetos para que não reproduzamos opressões. Para tanto, precisamos olhar para o que já foi construído, avaliar o que estamos construindo e realinhar sempre que possível nossos princípios aos nossos objetivos. Não se chega aos objetivos de maneira espontânea, e solidariedade e apoio mútuo não nascem naturalmente de nossas práticas. Transpor a ideia de relações mais justas à relação entre educantes e estudantes não é tarefa fácil, e exige constante cuidado para que essa relação se torne de fato horizontal, uma vez é impossível fugir à diferença entre aos papéis que dela fazem parte. A defesa da diferença entre os papéis de educantes e estudantes não pode ser confundida com os tradicionais abusos e privilégios de professores e professoras em ambiente escolar. Se não deixarmos clara tal diferença, faremos com que a inexistência de mecanismos que promovam a equidade permita a reprodução da opressão e dos privilégios de quem educa, que têm sistematicamente sido fantasiados de igualdade.

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Contribua com o mais novo espaço autônomo em São Paulo!

10 de junho de 2011 marca um grande dia na história do Autônomos & Autônomas FC: em assembléia, aprovamos a idéia da aquisição da nossa sede!

Isso significa que um novo espaço autônomo independente na cidade já é realidade. Será o Espaço Autônomo Casa Mafalda!

Mas antes de falar dele, vamos nos apresentar pra quem não nos conhece.

Quem somos?

O Autônomos FC, ou Auto como é carinhosamente chamado, é um time de futebol autogerido criado em 2006 por um grupo de punks, anarquistas e ativistas de São Paulo. Desde a sua criação, o Auto sempre tentou viver o futebol de uma maneira coletiva, sem hierarquias, com decisões coletivas e com abertura para todos e todas.

Hoje, 5 anos depois, temos dois times de futebol de campo masculino, um de futsal feminino e nos arriscamos em jogos mistos em diversas modalidades também. A partir de então, passamos a nos chamar Autônomos & Autônomas FC.

Por alguns anos pensamos estar sozinhos nessa coisa de futegol autogerido. Mas em 2009 descobrimos um time inglês, o Easton Cowboys & Cowgirls, que desde 1992 está na mesma sintonia! Depois de visitarem os palestinos e os zapatistas em Chiapas, em 2009 foi a vez de estarem por aqui pra jogar e trocar experiências conosco. Então, em 2010, foi a nossa vez de jogar, na cidade de Yorkshire, Inglaterra, a Copa do Mundo Alternativa, evento organizado por times europeus com os mesmos moldes do Auto e que acontece todo ano. Um encontro até então europeu de diversas pessoas e movimentos sociais não-hierárquicos, que tivemos a chance de conhecer nos 10 dias que ficamos por lá e por Bristol, cidade natal do Easton. Lá conhecemos e estabelecemos contatos com muita gente e muita coisa que trouxemos pro nosso dia-a-dia aqui.

Aqui, participamos em São Paulo de lutas e eventos com diversos movimentos sociais e grupos culturais, como o Movimento pelo Passe Livre, a Frente de Luta por Moradia, o Bloco Carnavalesco Filhos da Santa e a Associação Nacional dos Torcedores. E em 2012, junto ao Club Social Atlético y Deportivo Che Guevara, time hermano de ideais semelhantes aos nossos da província de Córdoba, na Argentina, estaremos organizando a primeira Copa América Alternativa!

Somos, pra além de time, um coletivo. E tentamos pensar e praticar nossas relações de uma forma horizontal, libertária, diferente da imposição hierárquica e individualista que domina o cotidiano de quase todos pelo planeta.

A idéia de ter uma sede, a Casa Mafalda, deriva da necessidade de um lugar no espaço para fortalecer essa relações. Um lugar como foram tantos outros que acabaram por terminar, como o Ay Carmela e o Espaço Impróprio.

Achamos esse lugar: é o Estúdio Fábrica Lapa, na Rua Clélia, 1745 (www.estudiofabricalapa.net), na Lapa, bem próximo ao nosso campo, o CDM Bento Bicudo.

Agora, precisamos de ajuda pra que o projeto se materialize.

Como?

Simples. Pra adquirir o ponto do local (ou seja, toda a estrutura que ele já tem e que comporta shows, festas, debates, palestras, oficinas, exposições e o que mais quisermos), nós precisamos arrecadar até o dia 01 de agosto R$ 60 mil (pra pagá-lo à vista) ou R$ 35 mil de entrada, com o resto sendo pago em parcelas (o que, esperamos, consigamos fazer com o próprio movimento do espaço).

No momento, temos R$ 15 mil. Precisamos, portanto, de no mínimo mais R$ 20 mil.

A idéia pra arrecadar essa grana é bem simples: um sistema de apadrinhamento/amadrinhamento da casa.

Funciona assim: você escolhe na lista abaixo quanto pode doar e recebe em troca uma recompensa, que pode ser horas de ensaio (caso você tenha banda), datas grátis pra eventos ou mesmo entrada livre na casa. E se você não é de São Paulo ou não costuma frequentar esse tipo de espaço mas apóia completamente a existência deles, pode contribuir e ganhar de volta uma camista da campanha do Autônomos & Autônomas FC pela sede (algo como “Casa Mafalda – eu também construí!”) e outros materiais do time.

A sua doação pode ser feita de duas formas: com um depósito na conta poupança que disponibilizaremos para isso, cujo extrato estará toda sexta-feira em nosso site para conferência de todos os padrinhos e madrinhas, ou com uma doação pelo site www.vakinha.com.br, caso você se sinta mais seguro/a fazendo assim.

Segue, então, a nossa lista de doações. E claro que se você quiser doar sem precisar de nada em troca, apenas pelo amor à camisa, ficaremos extremamente contentes!

Todos os padrinhos e madrinhas terão seus nomes em uma das paredes da casa!

R$ 10 – entrada livre em 2 shows ou eventos

R$ 20 – entrada livre em 5 shows ou eventos OU 2 horas de ensaio

R$ 50 – entrada livre em até 20 shows ou eventos e/ou 1 a 6h de ensaio

R$ 100 – entrada livre em até 50 shows ou eventos e/ou 1h a 12h horas de ensaio

R$ 250 – uma data grátis para show/evento/festa OU 30h horas de ensaio, limitadas em 10h por mês

R$ 500 – vale de R$ 500 para entrada em festas/shows/eventos OU 100 horas de ensaio, limitadas em 10h por mês OU três datas grátis para show/evento/festa, limitadas a 1 por mês

Acima de R$ 1000 – passe livre vitalício em festas/shows/eventos E passe livre vitalício no estúdio de música, limitadas em 10h mensais, OU datas grátis para festas/shows/eventos, limitadas a 4 por ano

Conta poupança para fazer a doação (não se esqueça de depois mandar um email para autonomosfc@gmail.com com seu nome, o valor e a data do depósito):

Banco do Brasil
Ag. 1894-5
Conta Poupança (01) 15943-3
Danilo Heitor Vilarinho Cajazeira
CPF 324.950.348-70

Site do Vakinha.com com o nosso projeto:

http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=40184

Como eu sei que isso vai dar certo?

Bom, o Estúdio Fábrica Lapa já existe e já dá certo há 3 anos. O que nós pretendemos é agregar novas atividades ao espaço, transformar ele de estúdio em centro cultural. Mas sem deixar de abrir as portas pra quem já faz coisas por lá, pelo contrário: a idéia é não deixar o espaço morrer e trazer mais gente pra dentro dele.

Se eu doar, quando eu posso ter minha recompensa?

O espaço só será nosso a partir de agosto. Portanto, a partir de agosto poderemos retribuir nossos padrinhos e madrinhas. Mas claro que desde já podemos ir agendando as coisas, com calma.

E se não arrecadar os R$ 35 mil necessários?

Acreditamos que vamos conseguir. Se não conseguirmos, teremos duas opções: pegar um empréstimo bancário ou desistir e devolver a grana a todos que doaram. A primeira é bem mais provável que a segunda, mas estamos confiantes que com a ajuda de todos poderemos dispensar as duas.

Dá pra conhecer o espaço antes de doar?

Sim, dá. Sempre rolam eventos por lá, é só ficar esperto no estudiofabricalapa.net.

Porque Casa Mafalda?

Quando o Auto deixou o futebol society (ou futebol sete para alguns) para jogar na tradicional várzea paulistana, nosso primeiro campo foi na zona leste da cidade, próximo a um bairro chamado Chácara Mafalda.

Como nossa torcida na época era majoritariamente composta pelas namoradas e amigas dos jogadores e torcedores, em homenagem à elas e ao bairro escolhemos como mascote a personagem Mafalda, do cartunista argentino Quino, uma menina que questiona de forma bem humorada os pais e a todos sobre os problemas sociais, políticos e morais da humanidade.

Com o surgimento do nosso time feminino, a idéia ficou ainda mais forte, e nada mais justo do que nomear nossa casa, palavra no feminino, com o nome de nossa mascote.

Mais sobre o Autônomos & Autônomas FC

Se você quiser saber mais sobre o Auto, jogar com a gente, fazer parte da torcida, conhecer o espaço da futura Casa Mafalda ou mesmo trocar qualquer idéia, entre em contato:

www.autonomosfc.com.br
autonomosfc@gmail.com
(11) 9506-9920

Aqui há uma pequena reportagem feita pelo Carlos Carlos, do programa Bola & Arte (http://bolaearte.wordpress.com), para a TVT: http://digi.to/LI2AR

Entre em contato. Estamos sempre abertos a novas propostas. De repente você quer começar um time de basquete do Auto…

Contamos com a sua ajuda para que no dia 06 de agosto possamos fazer a grande inauguração do Espaço Autônomo Casa Mafalda!

Vamo Auto!

http://www.autonomosfc.com.br
autonomosfc@gmail.com