“Tinha que ser petista. Só falta defender a Dilma!”

É por me ver acuado em acusações como essa que resolvi propor uma explicação pedagógica da diferença entre petistas e o restante da esquerda. O público-alvo deste texto é quem se entende como uma pessoa disposta a ver o mundo além de duas dimensões e não se satisfaz com um mísero óculos 3D. Se sua miopia é do tipo social, faça um esforço, pois a realidade alheia talvez não esteja tão longe assim.

Afinal, não é possível que uma pessoa seja capaz de separar lixo de materiais recicláveis, distinguir um cavalo de uma zebra, entender a diferença entre catraca de canhão e conhaque de alcatrão, mas não consiga perceber que ser de esquerda não é a mesma coisa que votar na Dilma. Afinal, existe muita coisa além do PT. A esquerda não é um monobloco, por isso não pode ser generalizada como um bando de petistas.

A seguir apresento um breve glossário*. Parto do princípio de que a diferença entre ser de esquerda e de direita é o desejo de transformar a sociedade tendo em seu horizonte o fim das desigualdades sociais. Para diferenciar os grupos, considero aquelas ações e posturas que vão além de reclamar na fila do banco e xingar muito no Face. Outro princípio é que a explicação para a desigualdade social não está na natureza humana, na lei de Gerson ou na vontade de Deus: qualquer obstáculo à mudança na sociedade pode ser superado pelo esforço coletivo. Esforço individual faz parte do jargão liberal (e não libertário, hein!), ao qual o discurso da esquerda historicamente se opõe.

Se você acredita em qualquer uma dessas mitologias e já moveu o mouse para fechar esta janela em seu navegador, peço encarecidamente que insista, siga com a leitura, faça algum esforço e tente entender a diferença entre petistas, marxistas, anarquistas, trotskistas, maoístas… Não precisa nem mesmo quebrar aquela vidraça de banco que há dentro de você, basta tentar entender que petistas e socialistas são seres com ideias diferentes. Acredite que você estará criando condições para uma boa ação: poderá fazer um bem para a saúde da sua família, de seus colegas de trabalho e para as pessoas que dividem o espaço público com você. Não precisa concordar com as ideias que caracterizam cada segmento, basta entender que são diferentes.

Meu objetivo está longe de defender qualquer uma das ideologias que estabelecem as fronteiras do espectro político – pelo menos não aqui. O que pretendo é fornecer alguma referência para quem tiver interesse em ofender algum membro da esquerda de maneira um pouco mais rigorosa do que usar a triste e desgastada alcunha de “petista”.

Esse texto é também para você em uma situação como a minha. Cansou de ser chamado de petista por aquela tia tacanha que azeda sua sobremesa de domingo ao sugerir que o Lula nada mais é do que um enviado da sarjeta para abrir a bolsa dessa classe média que lutou para chegar aonde chegou? Ainda acredita que é capaz de convencer o babaca daquele colega de trabalho que te inferniza enquanto você faz um esforço atroz para explicar que a Dilma não cogita ameaçar ninguém com distribuição de renda alguma aumentando o poder de compra e dando crédito pra classe C? Está perdendo a disposição para conversar na fila do mercado ou no coletivo com aquela senhorinha que parece ser tão simpática até o triste momento em que ela cita o Reinado Azevedo para sugerir que os petralhas são enviados cubanos para aumentar o preço do tomate e viabilizar o golpe comunista? Pensa em furar os ouvidos se mais uma vez receber o epíteto de petista por simplesmente não concordar com pessoas com os pontos de vista acima? Então envie este texto àquelas e àqueles com quem você tem a custosa missão de estabelecer um convívio harmonioso.

Comunismo: lugar-comum à maior parte da esquerda. Uma sociedade comunista é aquela na qual não há desigualdades sociais, opressões e na qual todos são tratados da mesma forma e tem o mesmo acesso a tudo que precisa para viver. Nessa sociedade não há líderes nem Estado. Para se chegar ao comunismo, existem diversas teorias.

Socialistas: são anticapitalistas e propõem o fim das desigualdades sociais pela via revolucionária, lutam pela distribuição de bens e pelo fim dos benefícios e privilégios econômicos e/ou sociais restritos a uma determinada elite, ou seja, lutam pelo fim da propriedade privada. Para alcançar o comunismo, um socialista acredita que é necessária a criação de um partido (um pouco diferente da nossa concepção atual de partido) ou organização de vanguarda para organizar a classe trabalhadora. Esse partido tem a função de mostrar aos trabalhadores que eles estão sendo explorados pelos seus patrões. O socialismo seria uma espécie de etapa de transição entre o capitalismo e o comunismo, na qual o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores. A principal teoria que embasa a luta socialista é o marxismo, corrente inspirada nos escritos de Karl Marx.

Marxistas:também são anticapitalistas e acreditam que houve um momento na História em que um primeiro pilantra deu a si mesmo o direito de acumular bens materiais além do que precisava, deixando outras pessoas na mão. Esse primeiro pilantra – ou burguês, se preferir – dividiu o mundo em dois: entre os exploradores e os explorados. Assim, uma pessoa marxista advoga que quando os explorados tomarem e repartirem igualmente todos os meios de produção (fábricas,  empresas etc.) por meio de uma revolução social, o comunismo será alcançado, mas isso acontecerá depois da experiência socialista (conforme descrita acima). Nem todos os marxistas acreditam necessariamente na etapa socialista, ou na vanguarda etc., pois existem inúmeras correntes internas no marxismo, o que possibilitou o surgimento de vários grupos que têm discordâncias entre si, mas que tem o comunismo como horizonte.

Anarquistas: Acreditam no bem comum, mas sua conquista só pode ser concretizada com a negação de toda forma de exploração e opressão de qualquer natureza e pela afirmação e garantia da diversidade humana. Por isso, são anticapitalistas e não acreditam no Estado como ferramenta para transformar a sociedade – pelo contrário, veem no Estado mais uma forma de garantia da ordem das coisas. Confiam que as pessoas, trabalhando juntas, são capazes por si só de se organizarem e conseguirem tudo o que precisam, inclusive transformar a sociedade, sem representantes eleitos, chefes de estado ou uma elite de legisladores e magistrados fazendo o meio-campo ou ditando seus rumos. Em outras palavras, se autogovernam. Uma pessoa anarquista não vota, não confia em qualquer pessoa que diz representá-la (seja petista, tucano ou partidário de qualquer combinação da sopa de letrinhas).

O que é comum a todos: a indignação ao ver negros, indígenas, homos, trans, mulheres, bandidos e qualquer outra minoria serem violentadas por sistemas de opressão como o capitalismo, patriarcado, família, religião etc. Querem derrubar o capitalismo. Por caminhos diferentes.

Petista: membro, militante, simpatizante ou afim ao Partido dos Trabalhadores (PT). Acredita na via eleitoral-partidária e no Estado como ferramenta de transformação social. Seu partido tem origem no movimento de metalúrgicos do ABC e Grande São Paulo e de seus respectivos sindicatos, e seu principal líder é o Lula. Suas reivindicações sempre foram trabalhistas; embora muitos de seus militantes se identificassem com o discurso socialista (com o qual as reinvindicações de perspectiva trabalhista estão alinhadas), atualmente isso não corresponde mais à realidade do partido. Embora tenha sido criado com o viés socialista, o PT combatia as formas tradicionais de fazer política na esquerda. Com o tempo sua forma de atuação foi mudando e o socialismo já não está mais no horizonte do partido como um todo, o que corrige qualquer possível espanto causado por sua aliança com empresários, Michel Temer e toda a corja de oligarcas para chegar ao poder. E, definitivamente, hoje petistas não são pessoas nem um pouco revolucionárias!

Agora, se mesmo assim você decidir chamar de petista qualquer pessoa que discorde de você ao vê-la coçar a cabeça enquanto ouve você reproduzindo irresponsavelmente o discurso pau-mandado do Boris Casoy, Fátima Bernardes ou qualquer outro cachorrinho da mídia corporativa, não poderá mais se defender dizendo que a culpa é por você ter o limitado repertório do programa do Datena – se é que esse argumento pôde algum dia ser utilizado dignamente.

(* Corro o risco de, por conta dessa publicação, ser apedrejado por representantes de todos os grupos que citei acima e que não concordam com as descrições. As pessoas que me ajudaram a escrever isso tudo de forma cuidadosa e minimamente rigorosa me alertaram para essa possibilidade, e inclusive pediram para não serem citadas. Não duvido que as críticas surjam de todos os lados – na realidade, estou à espera disso. Mas meu desespero tem sido tão grande ao ser chamado de petista na atual conjuntura que não tive como não escrevê-lo. Como diria um CAMARADA, “irresponsabilidade seria não escrever”.)

USP e feudalização

O brasão da PM

Todas as ações tomadas pela USP a levam ao isolamento. Busca-se, a cada reunião de departamento, a cada canetada de diretores e reitor, transformar a Universidade em um Universo-Ilha. Essa prática não é exclusiva da atual gestão, nem da última nem mesmo de qualquer outra. A elitização e a decorrente exclusão popular está no DNA da USP, desde sua idealização pela elite paulistana no começo do século XX, encabeçada por Júlio de Mesquita (que aliás teve seu nome emprestado à UNESP), até os dias de hoje, levada a cabo por todos que herdaram o discurso elitista e dirigem a instituição.

O discurso pelo autoisolamento uspiano, semelhante ao dos feudos que pautaram parte da história europeia, hoje ocupa o lugar que no passado teve o vestibular, o erguer de muros, o controle de entrada nos finais de semana: a segurança é o valor do momento. Como se a solução para os problemas provenientes da postura sectária, que extirpa do interior dos muros a comunidade dos arredores e exclui das discussões quem poderia ajudar a resolver os problemas de forma conjunta, fosse levantar ainda mais a muralha, colocar mais armas apontadas para o lado de fora, se eximir da culpa de não refletir acerca de uma estrutura social em que se estimula a agressividade e se cobra docilidade, ignorar que o todo se faz de partes e que as partes devem pensar juntas para formarem um todo.

A exigência da presença da PM dentro do campus-ilha é um totem à feudalização da USP. Essa exigência é revestida de uma retórica vergonhosamente hipócrita, que argumenta que a USP deve ter as mesmas leis que o resto da sociedade. Ou seja, à sociedade cabe esperar o desejo da USP para estreitarem a relação, e a melhor oportunidade para tal surge no abrir das portas para a PM proteger a integridade do patrimônio do senhorio. A realidade é que, por mais que repitam que as leis devam ser as mesmas dentro e fora do campus, a preocupação real não é satisfazer qualquer necessidade popular. A PM não é requisitada para proteger a “população” dentro da USP, pois essa “população” não faz parte dela, foi excluída da realidade uspiana há tempos – se é que um dia fez parte.

Para colorir ainda mais essa atmosfera circense – hilária por ser tão hipócrita – cria-se um clima de polarização em torno do episódio em que estudantes da FFLCH que portavam ou fumavam maconha foram abordados por policiais, jogando para baixo do tapete o verdadeiro problema, que é seu isolamento da sociedade, a quem deveria servir. E a postura sectária uspiana se traveste da falsa polêmica que opõe os que são a favor aos contra o convênio entre a Corporação e a Universidade. Vejam a ópera-bufa: é feita a ligação entre o caso dos jovens que usam drogas e a presença de traficantes armados no campus e, para completar, misturam tudo isso no mesmo saco com a morte do estudante em maio de 2011 no estacionamento da FEA. Traficantes armados que certamente são mais ausentes que o reitor no campus; um aluno morto injustamente e que, acredita-se, teria sobrevivido se a PM estivesse no campus (mas ela não estava lá?); e usuários de drogas que são comparados a assassinos, passando por um processo de criminalização que vem sendo cada vez mais questionado, principalmente depois de toda a acumulação em torno desse problema – veja a visibilidade da Marcha da Maconha, de inúmeros depoimentos de especialistas e da distribuição de documentários que apontam para a insustentabilidade da atual legislação referente ao consumo de drogas. Aliás, essa legislação faz hoje do Brasil um dos países mais retrógrados nessa questão, principalmente quando comparado aos que já a resolveram de forma muito mais civilizada do que apontar armas para consumidores de entorpecentes arbitrariamente encarados como ilícitos. Nessa postura, refratária à complexidade de um problema mais amplo, ignora-se o que já se construiu de conhecimento capaz de por um fim a esse conflito, aproveitando-se uma situação sensacionalizada, jogando todos os gatos no mesmo balaio para justificar a presença da PM no campus para a efetiva proteção daqueles que merecem sua proteção.

Todo esse engodo não seria menos fascista se não apelassem ao argumento de que “sou a favor da PM no campus e sou maioria”. Maioria em quê? Maioria que não quer debater o problema a fundo? Parece que todo o rigor científico usado para vencer a concorrência por verbas contra os grupos de pesquisa adversários é posto no lixo quando se precisa problematizar a sociedade e a política na qual a USP se insere. Não deveria haver um problema na falta de debate ou de rigor científico para algumas discussões, ou isso é dispensável quando a maioria já está estabelecida em torno do que se quer defender? E as minorias? Que sejam ignoradas, afinal por que se importar com elas se são meras minorias? Indígenas, comunidade LGBT, negros, deficientes físicos, idosos, por favor, cortem seus pulsos e acelerem nosso progresso, pois a maioria sempre terá a razão.

À USP não interessa resolver o problema real e buscar soluções voltadas a curar uma sociedade estruturalmente doente. Clamar pela PM no campus ou fora dele é desviar o foco de uma solução que, talvez por ser tão complexa, não é tão atraente. E esse desvio a leva cada vez mais à sua feudalização. Ao reivindicar a PM no campus para proteção de seu patrimônio, a comunidade uspiana reforça seu isolamento, com toda a configuração que cabe a um feudo: o corpo clerical/científico, esclarecido e responsável pelas verdades dadas em pílulas ao povo; o rei/reitor, que decide com apoio da nobreza os rumos do reino, sem a necessidade de consultar qualquer parte interessada – a não ser quando julga pertinente; os vassalos/terceirizados, aceitos no reino para suprir as necessidades dos estamentos superiores; e agora mais que nunca o exército/PM, para trazer segurança à fortaleza e resistir às intempéries externas, que ameaçam o conteúdo patrimonial guardados pelas muralhas sagradas da Universidade.

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Atualizando em 07/11/2011:

Não deixei absolutamente claro que sou absolutamente contra a PM no mundo (não ao menos neste post, talvez em outros). Minha intenção era me concentrar em um problema que ao meu ver é maior, embora não apague do horizonte a questão do uso da força policial no campus. Mas acabei de ler um texto que expressa muito disso tudo que omiti acima. É de uma blogueira uspiana (portanto tem propriedade para tratar do assunto) cujos textos gosto muito e que um dia terei a honra de conhecer pessoalmente. Saboreiem!

Um pouco sobre racismo e cotas

Entrei no mercado. O segurança ficou no meu pé durante todo o tempo. Eu tinha pressa, precisava voltar para os livros, estudar para a prova de Mecânica. Mas precisava também lavar a louça em casa, há muito tempo parada sobre a mesa servindo de heliporto aos insetos. Mas não tinha produtos de limpeza, precisava comprá-los. Fui ao mercado. Lá dentro, um segurança me seguia. Não tirava o olho de mim, aquilo me incomodou. Mas eu tinha pressa. Tirava e colocava a lista de compras no bolso de minha bermuda, conferindo a cada minuto o que deveria ou faltava comprar. Ao sair do mercado, após deixar 20% de minha bolsa de iniciação científica nas mãos do dono (sendo que menos de 1% disso representava os salários dos funcionários), o segurança me parou e perguntou educadamente se eu havia pegado uma buchinha, Scotch-Brite, e colocado no bolso sem querer. “Sabe como é, a gente precisa fazer esse tipo de verificação”. Tanto estava no meu pé como, ao me ver guardar a lista de compras no bolso, achou que eu concretizava aquilo que deveria ter me levado ao mercado.

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Entrei no Centro de Práticas Esportivas. Ia à piscina. Nas férias, quando quase todos viajam e não tenho amigos na faculdade para jogar futebol ou qualquer esporte coletivo, apelo à natação, solitário. Chego à catraca onde diariamente mostro a carteira da faculdade a um dos seguranças que fazem ali o rodízio do cara-crachá. Sempre mostro o selo do exame dermatológico e minha foto, presentes na carteirinha. Apesar da rotina, uma jovem segurança solicita meu documento para inspecioná-lo, examiná-lo minuciosamente. Isso nunca ocorrera naquele centro, mesmo depois de nove anos na Universidade. Tudo bem, é serviço dela zelar pela segurança dos usuários do Centro, pensei. Mas não parou por aí. A carteirinha não a satisfez: teve que solicitar também meu RG.

– Vocês sempre pedem o RG para os usuários da piscina? – perguntei.

– É para garantir que todos os usuários pertencem à USP – respondeu comparando as fotos dos dois documentos.

– E o que lhe faz pensar que minha carteirinha não é minha, mas as dos outros usuários para quem você não a solicita são deles?

– É que há usuários que entram aqui sem pertencer à comunidade. Essa solicitação é para o bem de vocês.

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Eu adorava D. Maria, faxineira do centro acadêmico. Nossa relação era afetuosa, como se nos conhecêssemos há anos. Tanto que ela me tratava como um parente. Certo dia, ela conversava com um dos diretores do centro acadêmico e, ao falar de mim, disse que eu era como um filho moreno dela. Intervi: “Não sou moreno, D. Maria. Sou negro”. Ela insistiu, dizendo que não, que eu era moreno. “Não, D. Maria. Não se preocupe, eu sou negro, não há problema nenhum em dizer isso”. Quando ela percebeu minha convicção quanto minha negritude, ela afirmou: “Poxa, meu filho! Mas eu estou tentando te ajudar!”

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Visitando Jacareí/SP, há alguns anos, minha namorada e eu fomos a uma casa de uma grande rede de comidas árabes, o Habib’s, no centro da cidade. Esperamos ser atendidos por 35 minutos. Os funcionários, predominantemente nordestinos, atenderam a absolutamente todos os clientes, predominantemente brancos, que chegaram depois de nós naquele estabelecimento antes de nos atender. O gerente da loja percebeu não apenas nosso constrangimento mas também o descaso dos outros funcionários com nossa presença na loja – não que fossêmos estrelas ou dignos de um atendimento preferencial, como também não éramos menos importantes que os outros clientes – e nos pediu desculpa pessoalmente.

Em São Paulo, em outras lojas da mesma rede, somos normalmente ignorados pelos seus funcionários, com maior frequência na loja da rua Augusta. Tanto que, ao irmos pela primeira vez ao Ragazzo (restaurante cujo dono é o mesmo do Habibis) da Alameda Santos, um funcionário na porta interviu: “Hoje estamos sem salgadinhos, todos acabaram. Temos apenas as massas do cardápio. Vocês podem ir ao Habibs se quiserem, é aqui do lado”, como se alguma coisa em nós lhe anunciasse que não queríamos comer as massas de seu restaurante.

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Em meu Ensino Médio, numa escola de um bairro de classe média da cidade em que vivi, meus amigos tentaram articular um namoro entre eu e a outra aluna negra de minha classe. Todos achavam que nós dois combinávamos.

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A biologia diz ter provado a inexistência de raças biológicas. Acredito piamente nisso. Não apenas por medo de alimentar qualquer tipo de eugenia, mas por achar desnecessário descrever o mundo em uma perspectiva que evoque raças biologicamente legitimadas.

Apesar de a única raça ser a humana, as situações reais pelas quais passei e acabei de descrever podem ser explicadas com ajuda do conceito de raça social, ou discriminação social por cor. Esse conceito prevê um comportamento pautado em uma diferenciação entre pessoas com aparências físicas diferentes, que não dependem do ponto de vista do diferenciado mas sim do diferenciador.

Os critérios utilizados para me diferenciar das outras pessoas no mercado, no centro esportivo, no Habib’s, pelos meus amigos de infância e pela faxineira não dependem de buscar uma justificativa na biologia para serem levados a cabo. Por mais que as pessoas não gostem de racismo, suas ações são pautadas em uma distinção por cor, mesmo que de forma não deliberada. Isso pode até ser justificado por uma herança cultural, contudo pretendo me prender aqui às consequências disso.

Um negro não tem o mesmo tratamento de um branco, mesmo quando comparando pessoas de classes baixas. Assim, se mesmo não havendo raças em termos biológicos existe discriminação racial na sociedade, não se pode garantir que critérios raciais não influenciem na formação pessoal de um negro.

Por mais que alguns ainda acreditem na justiça da lei, há praticas sociais que a precedem. Por mais que a lei tente ser justa, não há garantias de que a sociedade necessariamente também o seja. Enquanto a lei é posta para formar um corpo social, a sociedade deforma o cidadão à revelia da lei.

A assimetria no tratamento entre negros e brancos implica em formações diferentes. A sociedade não é a única influência na formação, embora seja relevante ao agir sobre os sujeitos aliada a outras forças. Dessa forma, uma pessoa que não vai se preocupar com um segurança atrás dela no mercado, que não vai ter a menor esperança de namorar uma pessoa branca quando criança, que sabe não poder ser miss caipirinha, que aparenta ser menos atraente economicamente para uma loja ou restaurante, e que se enquadra no perfil de prováveis suspeitos de crimes não vai lidar com o mundo da mesma forma com que lida uma pessoa privilegiada em tais circunstâncias. Essas pessoas vão interagir com o mundo de forma diferente e, por verem o mundo de uma ótica distinta, as diferenças de comportamentos entre brancos e negros vão sendo realçadas cada vez mais com o passar dos anos.

Hoje, dizer que brancos e negros partem de condições sociais iguais é uma falácia. Afirmar que tal assimetria deva ser ignorada em um exame como o vestibular, e que a concorrência é de igual para igual entre negros e brancos, é superestimar o papel da lei – que diz que todos devem ser tratados como iguais, independente de raça, cor, credo, religião, sexualidade. Ao mesmo tempo, é subestimar o papel da cultura nas relações humanas e consolidar a exclusão social de pessoas para as quais nunca houve uma política pública voltada para incluí-las em uma sociedade há séculos pautada em discriminação racial, seja a legitimada pela biologia, seja pela própria sociedade.

Vem a calhar: Mérito ou privilégio?, do Brontossauros em meu Jardim

IX Encontro Latinoamericano de Organizações Populares Autônomas

O IX Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas ocorreu em Jarinu/SP nos dias 22, 23 e 24 de janeiro de 2011.

Estiveram presentes membros de organizações de diferentes nacionalidades – além da absoluta maioria brasileira, uruguaios, chilenos, argentinos e haitianos também participaram.

O Encontro busca promover a integração das organizações autônomas da América Latina a partir do debate de temas pontuais indicados pelos ELAOPAs anteriores. Ao longo dos três dias, os participantes se dividiram nas comissões sindical, comunitária, de cultura e comunicação, de educação, estudantil, gênero/raça/etnia, muralismo e de questão agrária e ecologia. No terceiro dia, cada comissão fez ao público um relato dos debates e das propostas levantadas, discutidos em assembleia a fim de ser concretizado até o próximo ELAOPA.

Tomou-se como tema transversal a todas as comissões o IIRSA, Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana, uma espécie de Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) sulamericano.

Palestra sobre o IIRSA

O caráter libertário do encontro atrai pessoas ligadas a movimentos com a mesma orientação e acaba por afastar organizações socialistas marxistas, partidos e ONGs. Apesar disso, membros da AJR e UJS marcaram presença, embora em um número muito pequeno. Logo, a maioria do público era composta por anarquistas e libertários. Ação direta, democracia direta, autonomia e autogestão acabaram sendo expressões comuns nas discussões.

Acompanhei duas comissões: a comunitária e a de educação.

Comunitária

A comissão comunitária, voltada para a discussão de movimentos de bairro, levantou a falta da continuidade de trabalhos comunitários, normalmente interrompidos por motivos dos mais diversos. A realidade desse trabalho sofre com o comum esvaziamento de organizações, que iniciam com pessoas interessadas, mas que por seus motivos abandonam o movimento, prejudicando sua continuidade. O problema é que parece não haver muita solução a não ser ressaltar a importância da perseverança que os ingressantes do movimento devem ter para não prejudicar a atividade do grupo.

Outro ponto levantado pela comissão foi a dificuldade de fortalecer a rede de luta das comunidades e bairros. Criar uma estratégia que permita unificar as lutas é um processo ainda em construção e possivelmente sem uma fórmula para concretizá-lo, a não ser pelo estabelecimento de uma comunicação eficiente – encontros desse tipo cabem aqui como exemplo.

As conversas da comissão comunitária foram todas novas para mim, dada minha pouca ou nenhuma experiência com grupos desse caráter; por mais que eu tenha visitado ocupações e espaços autônomos, nunca participei efetivamente de um coletivo a ponto de saber quais as questões normalmente enfrentadas por esse tipo de organização. Já na comissão de educação, estive ambientado e a par dos discursos manifestados a ponto de poder tecer algumas críticas ao desenvolvimento do processo, mesmo sem ter participado da comissão no dia anterior.

Educação

A leitura do relato elaborado no primeiro dia explicitou o senso comum que pauta o debate político acerca da educação em quase todos seus fóruns, seja em uma reunião de professores e educadores, seja em um encontro como esse.

O debate do segundo dia se prendeu à melhor definição do termo educação popular – um dos temas propostos para essa comissão, junto de educação formal e cursinhos pré-vestibular/universtiários. (Pré-vestibular é diferente de pré-universitário visto que este propõe não apenas um bom desempenho na prova, mas também levar o aluno à vida e ao ambiente universitário desde cedo, como parte de sua formação). Detalhar a definição do termo educação popular, de acordo com os membros da comissão, pareceu pertinente por garantir os caminhos a serem percorridos pela comissão no futuro. Assim, a discussão foi norteada por uma educação transformadora, para o trabalhador, catalizadora do processo de criação do poder popular, um espaço que privilegie a educação libertária (tomando como princípios autogestão, autonomia, ação direta, classismo, democracia direta e formação integral).

Tenho um problema quanto a essa perspectiva, que mostra uma clara preocupação com o caminhar e não com o ponto de chegada. Fica a impressão de que todos estão preocupados em saber como resolver a educação, enquanto seu papel social fica hermeticamente isolado em uma sala escura, intocado. Talvez a educação não tenha mesmo um problema; talvez transformá-la e pautá-la em princípios libertários leve-a do nada a lugar algum, continue desrespeitando as diferenças e individualidades de todos nós. Ao meu ver, respeito às diferenças é um pressuposto importante apesar de ausente em todas as discussões das quais tenho participado.

Escreverei em breve mais sobre essa comissão, tocando no assunto do respeito às diferenças.

Uma das propostas criadas foi a de se criar um fórum a fim de se debater online a educação.

Visão geral do encontro

Alguns debates parecem ser ainda muito crus se comparados aos que permeiam, por exemplo, encontros estudantis. O debate para se decidir pela articulação ou não de encontros regionais ou nacionais entre o latinoamericano deixa esse ponto de vista explícito. Isso pode ser causado pela juventude do evento, que tem apenas dez anos, ou pela própria estrutura horizontalizada do debate.

Intervenção da comissão de gênero/raça/etnia na assembleia final do Encontro

Outro exemplo foi a típica perda de foco das discussões, muito comum em encontros de todos os tipos. Apesar da preocupação com a perda de foco ter dado origem aos textos disparadores criados para orientar as comissões, os temas e propostas ainda estão muito abertos. Isso leva a conversas extensas e pouco propositivas, como no caso da comissão de educação.

Foi difícil amarrar o tema transversal (IIRSA) aos temas das comissões. No caso da comissão de gênero/raça/etnia (tema tão aberto a ponto de ser tomado como transversal em futuros encontros, o que foi sugerido por seus integrantes), a distância se dá pela amplitude das duas questões, o que faz com que ligar ambos os temas pareça ser por demais forçado. Nas outras comissões, embora com temas mais próximos da questão da integração da infraestrutura sulamericana, a dificuldade não foi diferente. Isso deve expressar como esse evento ainda engatinha e tem ainda muito a se desenvolver em termos de encaminhamentos, uma vez que os debates ainda não estão fechados o suficientes para serem articulados com um tema transversal importante como o IIRSA.

Mas a perda de foco e entraves em questões relativamente simples não é necessariamente um problema. É muito mais prudente fazer muitos encontros com debates relativamente longos do que se meter os pés pelas mãos, dar passos além das pernas e se perder uma oportunidade valiosa de se estabelecer uma rede coesa de movimentos libertários. Isso é importante enquanto alternativa ao modelo de resistência e luta popular vigente, atualmente liderado por braços estatais, ONGs e outras instituições. Tal importância se dá não só em termos de organização dos próprios movimentos mas também de resultados práticos, uma vez que nada garante que um modelo de resistência deve ser mais eficiente do que outro (pelo menos a priori), justificando a investida de organizações populares autônomas contra a ordem social.

Na catraca

Subi no busão. Quando encostei na catraca, saquei meu bilhete único (cartão de passagem) e lembrei: “dia de pular catraca”. Protesto contra o aumento da tarifa, organizado por vários movimentos, dentre eles o que defende o passe livre.

Olhei pra dentro do ônibus. Fui o segundo passageiro a subir. O coletivo acabara de sair do ponto inicial, estava praticamente vazio.

Perguntei pro cobrador, com meu bilhete já no aparelho que descontaria meus R$2,70:

– Tem muita gente pulando a catraca hoje?

– Não, ninguém pulou. Por quê?

– Por que hoje é dia de protesto contra o aumento da tarifa, que subirá para R$2,90.

– Ninguém pulou. E se pulasse, o ônibus pararia na hora e botaríamos o cara pra fora. Isso não é protesto, isso é vandalismo.

O cobrador, que não terá um centavo de aumento em seu salário, reproduziu o discurso do explorador. Sentei e, na marcha fúnebre em direção ao meu trabalho e R$2,70 mais pobre, fiquei a pensar sobre o que deveria ter dito ao cobrador para convencê-lo da importância do protesto.

Por fim, não pulei a catraca e segui calado, convencido de que não poderia fazer mais nada. Pelo menos não naquele momento.

Frente de Luta por Moradia e I Copa dos Movimentos

O descaso e o desrespeito das autoridades com relação às leis federais que deveriam garantir o direito à moradia a todos (veja a Constituição Federal, art. 6º) levaram um grupo de sem-tetos a se organizarem e se ajudarem de forma mútua.

Na luta pelo seu direito de morar, centenas de famílias estão ocupando quatro prédios do centro de São Paulo, reivindicando uma ação efetiva da Prefeitura a fim de abrigar essas pessoas. A iniciativa tem responsáveis: a Frente de Luta por Moradia.

O Autônomos FC, time de futebol de várzea autogestionado, está organizando a I Copa dos Movimentos. A proposta da Copa é a de promover uma campanha de arrecadação de alimentos, roupas, remédios, materias escolares etc. para as famílias envolvidas nas ocupações. Além disso, será um campeonato de integração entre vários movimentos sociais. Já confirmaram presença a FLM, MST, Movimento pelo Passe Livre, Associação Nacional dos Torcedores, Rádio Várzea, Gaviões da Fiel – Movimento Rua São Jorge e Ativismo ABC.

A I Copa dos Movimentos ocorrerá ao longo do sábado, dia 6 de novembro, e é aberto a quem quiser participar. Basta levar alguma doação – 1kg de alimento não perecível ou uma peça de roupa. Leve quantas doações puder!

Depois do campeonato, haverá um amistoso entre o Autônomos FC e a FLM, samba e confraternização entre os movimentos.

Saia do banco de reservas e venha jogar conosco em solidariedade às ocupações da FLM.

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