Guerra da Tarifa 2005

Muito elucidativa a leitura de “Guerra da Tarifa 2005 – uma visão de dentro do Movimento Passe Livre em Floripa” (Editora Faísca). Leo Vinicius, membro do MPL naquela ocasião, faz um relato do conflito entre a população da capital catarinense e o governo municipal, que aumentara o valor da tarifa de ônibus.

Clique na imagem para baixar o vídeo de Alex Antunes, que valeu um prêmio Vladimir Herzog ao cinegrafista

Clique na imagem para baixar o vídeo de Alex Antunes, que valeu um prêmio Vladimir Herzog ao cinegrafista

Em junho de 2004, a população já havia protestado e conseguido barrar o aumento da tarifa do ônibus municipal, de 15,6%. A estratégia da prefeitura para driblar a resistência popular foi aumentar a tarifa em duas parcelas: a primeira em 23 de dezembro de 2004 (6,8%, em pleno recesso de final de ano) e a segunda em maio de 2005 (8,8%), totalizando os 15,6% planejados anteriormente. Essa ação da prefeitura provocou uma série de manifestações que culminaram em conflitos com a polícia local, colocando essa mobilização popular na história das mais importantes do país, vista a resistência dos mais diversos grupos sociais envolvidos nas manifestações violentamente reprimidas – como mostra o vídeo de Alex Antunes, que pode ser baixado com um clique na imagem acima.

O relato traz um ponto de vista crítico de um militante preocupado com as estratégias de mobilização dos manifestantes, com as ações dos manifestantes, com o papel das lideranças do movimento, além de desvelar as sabotagens mais sujas protagonizadas pela prefeitura florianopolitana, as quais a imprensa, como é de praxe, fez vista grossa e omitiu de suas reportagens.

Para quem se interessa pelo Movimento Passe Livre-SP, essa leitura parece ser mais que recomendada, por relatar uma experiência muito rica e por descrever situações recorrentes nesse tipo de mobilização, evitando assim que muitas rodas precisem ser reinventadas.

Campanha pela tarifa zero nos ônibus de São Paulo

Falando no MPL-SP, vale a pena divulgar a genial iniciativa do Movimento.

O grupo redigiu um projeto de lei que prevê a tarifa zero nos ônibus municipais da cidade de São Paulo. Para encaminhar esse projeto de iniciativa popular (pois não está sendo encaminhado por nenhum vereador) para ser votado na câmara, é necessário um abaixo assinado com 500 mil nomes de eleitores da cidade de São Paulo. Embora haja alguns mutirões por assinaturas ocorrendo pela cidade, você pode ajudar imprimindo uma folha para o abaixo assinado, que pode ser baixada no site (por sinal muito bom!) www.tarifazerosp.net. Lá, há mais informações de como proceder com as assinaturas, sobre o projeto de lei, sua justificativa (para você que torceu o nariz  ao ler sobre esse projeto e se perguntou “de onde vai sair o dinheiro para financiar ônibus gratuito para toda população?”) e muito mais sobre o movimento por um transporte paulistano mais justo e inclusivo.

E se a luta é pelo passe livre, então a guerra ainda não acabou, nem lá nem cá.

Aumento da tarifa de ônibus e o Grande Congestionamento

À espera do Grande Congestionamento

 

Um trecho do livro “Não verás país nenhum”, de Ignácio De Loyola Brandão, que me marcou demais foi o Grande Congestionamento. Nessa que é apenas uma das críticas à política nem um pouco ecológica do contexto em que o livro foi escrito, o autor criou a situação em que milhares de carros ficaram parados em um congestionamento sem início nem fim de tão grande que era. Os donos ficaram sentados em seus carros durante dias, esperando pelo fim daquele engarrafamento, até que perceberam que não haveria solução a não ser abandoná-los ali e voltarem para suas casas.

De tanto se produzir carros e colocá-los nas ruas sem qualquer planejamento ou responsabilidade sobre isso, às vezes tenho a sensação de que o Grande Congestionamento em breve deixará de ser ficção e se tornará realidade. Pode parecer triste (não para mim) ou cruel, mas creio que esse fim é inevitável, gostando dele ou não.

Por outro lado, ainda acredito que possa haver uma via na qual possamos cultivar uma cultura menos pautada em autoafirmação e consumo e que dê lugar a uma postura mais consciente (embora eu tenha dúvidas quanto a viabilidade dessa solução quase metafísica à qual damos o nome de consciência) tanto da população quanto de quem diz nos representar frente a ações de cunho coletivo. Duas conseqüências imediatas dessa nova cultura, possivelmente pautada em uma economia baseada no uso racional de recursos naturais ao invés do acúmulo de capital, que depende necessariamente da exploração humana e do consumo, deveria ser a diminuição do uso de carros e o incentivo ao transporte coletivo. Obviamente o Estado deveria assumir seu papel nessa perspectiva, enquanto o papel de seus cidadãos por ele “representados” deveria ser o de cobrá-lo para que essa tendência, natural em um mundo que se pretende sustentável e ecologicamente correto, seja concretizada.

Manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em 13 de janeiro de 2011

E essa cobrança existe. O Movimento Passe Livre de São Paulo organizou na última quinta-feira 13 uma manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus na capital paulista, de R$2,70 para 3 reais. Esse aumento expressa como não faz parte da política estatal o incentivo à utilização de transporte coletivo. A prefeitura anda na contramão não apenas da moda da sustentabilidade mas também do respeito aos usuários de seus ônibus, obrigados a pagar uma tarifa que viola o direito ao transporte público previsto pela lei nacional e que, mesmo se a tarifa fosse justa, não condiz com o serviço oferecido.

Enquanto a prefeitura retrocede em uma política que deveria expandir seus serviços a toda a população, esta mostra indignação e, pelo menos uma fração, se presta a reivindicar uma mudança na postura política de quem a “representa”. Prova disso são as manifestações contra o aumento da tarifa, para não falar de outros movimentos sociais relevantes como o FLM, que recentemente ocupou inúmeros prédios do Centro reivindicando um plano habitacional justo em São Paulo.

Parece não haver argumentos razoáveis contra a motivação de manifestações como a de quinta-feira. No entanto, os métodos para a cobrança feita à prefeitura ainda geram controvérsias.

Um argumento contra manifestações que ocupam as ruas é que elas não surtem efeito. Se fosse verdade, os movimentos contra o aumento das tarifas de ônibus em Florianópolis e Recife não teriam dado em nada – pelo contrário, depois das manifestações, as prefeituras voltaram atrás e não aumentaram as tarifas – assim como não haveria passe livre aos estudantes de Cuiabá.

Outro argumento é que os manifestantes seriam violentos. E é óbvio que a polícia os agrediu na quinta-feira com gás de pimenta, bombas de estilhaço e balas de borracha, como mostra o vídeo acima, por serem violentos. Isso é uma grande falácia, pois não há comparação entre a força utilizada pelos manifestantes, por mais violentos que tenham sido, e a utilizada pela PM. Podemos comparar também o método da polícia para prender os manifestantes: após dispersar a manifestação com as bombas e tiros, viaturas perseguiram e renderam aleatoriamente pelas ruas do centro grupos de jovens que poderiam estar na manifestação. Motivo? Um motivo dado foi que alguns derrubaram uma cabine da PM na praça da República. Isso ainda não é justificativa razoável para atirarem bombas e ferirem manifestantes. Ou a PM carece de táticas eficientes para prender infratores ou esse fato foi convenientemente utilizado para dispersas uma manifestação que compromete a imagem do prefeito e de sua gestão. Se fosse um conflito isolado entre manifestantes e a PM, poderia dizer que não é intenção de nossos “representantes” no governo oprimir quem dele discorda.

Ou seja, a prefeitura não apenas fere o direito do cidadão ao transporte público, cobrando tarifas abusivas, mas também coíbe violentamente uma cultura que busca garantir o bem-estar social sob uma pespectiva coletiva e reivindicar por justiça por meio da ação direta.

Quinta-feira, 20, haverá mais um ato, agora com saída da Praça do Ciclista (av. Paulista com av. Consolação). E provavelmente mais violência e agressões policias desproporcionais às ocorrências. Independente de o Estado vivificado pela prefeitura fazer seu papel ou não, creio que a manifestação nos permite defender nosso ponto de vista e reivindicar não apenas uma tarifa justa mas também uma alternativa razoável para o transporte na cidade.

Ocupar as ruas para se manifestar ainda é melhor do que aguardar pelo Grande Congestionamento.

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Leia mais sobre a luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo em Viomundo, Blog do Sakamoto e Passa Palavra.

Na catraca

Subi no busão. Quando encostei na catraca, saquei meu bilhete único (cartão de passagem) e lembrei: “dia de pular catraca”. Protesto contra o aumento da tarifa, organizado por vários movimentos, dentre eles o que defende o passe livre.

Olhei pra dentro do ônibus. Fui o segundo passageiro a subir. O coletivo acabara de sair do ponto inicial, estava praticamente vazio.

Perguntei pro cobrador, com meu bilhete já no aparelho que descontaria meus R$2,70:

– Tem muita gente pulando a catraca hoje?

– Não, ninguém pulou. Por quê?

– Por que hoje é dia de protesto contra o aumento da tarifa, que subirá para R$2,90.

– Ninguém pulou. E se pulasse, o ônibus pararia na hora e botaríamos o cara pra fora. Isso não é protesto, isso é vandalismo.

O cobrador, que não terá um centavo de aumento em seu salário, reproduziu o discurso do explorador. Sentei e, na marcha fúnebre em direção ao meu trabalho e R$2,70 mais pobre, fiquei a pensar sobre o que deveria ter dito ao cobrador para convencê-lo da importância do protesto.

Por fim, não pulei a catraca e segui calado, convencido de que não poderia fazer mais nada. Pelo menos não naquele momento.