Na catraca. II

Este texto é de dezembro de 2010. É inédito, embora tenha quase cinco anos de idade. Está sendo publicado agora por ter sido encontrado entre escombros e rascunhos abandonados na configuração deste blog. Mudei coisa ou outra do conteúdo, enxuguei algumas frases – provavelmente as que me impediram de publicá-lo naquela época. Apesar de mudados os endereços, a ideia se mantém a mesma.

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Volto da casa do meu pai depois de um final de semana nostálgico. Rememorei bons e maus momentos de minha juventude em São Vicente. Ao menos uma oportunidade para confrontar alguns preconceitos daquela época com os de hoje.

Com reflexões a mil e o domingo se esvaindo, subo em um ônibus na rua Augusta. Aquela linha passaria pela Cidade Jardim. Minha casa estava à espera, no Butantã. Nesse ínterim, cidade movimentada, consumo paulistano no ápice e busão lotado como no rush de segunda-feira.

Na luta por um assento, não passo a catraca e fico no banco logo atrás do motorista. Divido o banco com uma travesti. Ela estava a caminho da avenida do Jóquei, seu lugar de trabalho, enquanto todos os outros passageiros do ônibus, “normais” e de bem, voltavam para casa após um dia de consumo e de trabalho árduo. Muitos ali provavelmente se achavam mais dignos do que minha vizinha de banco.

Ouço um diálogo vir logo da frente. Uma jovem simpática conversa com o motorista em pé a seu lado.

– Como a linha tá lotada hoje. Há três semanas não estava assim. E nessa linha aqui normalmente sobem uns travestis pra ir pro Jóquei, não é? Hoje não tem nenhum.

Ledo engano. Eu tapava a visão da jovem. Distraída, sentiu-se à vontade para falar. Continuou ela a discorrer ao seu modo sobre mobilidade urbana e transexualidade, enquanto o motorista consentia com respostas curtas.

– Eles normalmente descem pela frente, não é?

Eles, não. Elas.

– Sim, são folgados. Pagam, giram a catraca e descem pela frente. É que tem um pessoal que pesa na deles, chama pra jogar bola, pra encher laje…

– Pois é. Há alguns anos eu trabalhava vendendo coisas em um ponto de ônibus na Francisco Morato. Um dia, quando desci no Jóquei para pegar outro ônibus pro meu trabalho, vi vários deles trabalhando na avenida. Vi que as pessoas que param os carros na avenida e saem com eles sempre são homens de família, muitos deles casados. Normalmente são homens bem de vida. Pra que isso, né? Que nojo.

A jovem filósofa desceu logo em seguida. Continuei ali, na minha, sentindo o perfume da outra moça que, como eu, continuava sentada e reflexiva.

Liberada, libertária e “laertina”. 3. Minha roupa não é um alvará de estupro

As duas situações ocorreram na Casa Mafalda, entre eu e duas pessoas desconhecidas.

A primeira situação foi relativamente tranquila. Como a Lapa é repleta de puteiros, chega um certo horário da noite em que aparece uma série de pessoas que não têm o perfil de frequentadores da Mafalda, saem desses lugares e entram na Casa, numa boa, sem compromisso. Isso acontece em praticamente todas as festas que viram madrugada. Em uma delas, um cara de seus 35, talvez 40 anos, bem bêbado, apareceu e começou a tentar trocar ideia. Digo tentar porque, primeiro, ele não estava sóbrio o suficiente para fazê-lo e, depois, porque ninguém dava trela para ele, principalmente as mulheres.

Fiquei lá, cuidando da entrada da festa, curtindo meu vestido vermelho, minha meia-calça preta, minha sapatilha vermelha e minha breja. O cara se encostou na parede ao meu lado, começou a falar um monte de palavras indecifráveis. Por um momento me pareceu que ele não queria só trocar ideia comigo, queria algo diferente, e eu não sabia dizer o quê. Loucura minha, né? O que ele poderia querer mais? Não sabia o que responder a mim mesmo, limitado por minha ingenuidade e leve ebriedade.

O cara resmungou mais um pouco, disse a ele que não entendia o que ele queria dizer. Então ele deixou bem claro: “eu quero chupar seus peitos, chupar você inteiro…” Interrompi e toquei o cara pra fora da Casa, dizendo que ele não estava entendendo que ele estava em uma festa e talvez não entendesse o que se passava ali.

Só uma cantada, meio desajeitada, certo? Mera coincidência ter acontecido pela primeira vez quando eu me vestia com aquelas roupas.

Até que houve uma segunda situação. Outra festa, outras pessoas, outro constrangimento. Desta vez, mais violento.

Estava no hall, cuidando do caixa e da cobrança de entradas. Por um momento, fiquei de costas para a passagem. Festa cheia. Naquele instante, muita gente passava por ali, tanto para sair quanto para entrar na Casa. Senti um aperto em minha bunda, um daqueles bem servidos. Pensei ter sido minha companheira a responsável por aquilo. Até fiz uma cara de prazer. Quando virei para procurá-la, onde ela estava? Impossível ter se escondido, tinha muita gente, não dava para correr. A pessoa mais próxima, quase encostada em mim, era um cara de seus 40 anos, alto, parecendo o Tackleberry, com óculos, calça, coturno. A possibilidade de ter sido ele o autor da bela apalpada desapareceu num átimo, como se nunca tivesse existido, virou pura alucinação, e a presença de uma blusa pendurada em seu antebraço tirava qualquer dúvida de que ele não tinha feito o que eu sentira, mas sim foi mero efeito de um esfregão sem intenção de sua blusa. Era impossível alguém, um cara, ter me passado a mão; em meus 30 anos de idade isso nunca tinha acontecido. Pronto, não precisava me preocupar e nem tirar satisfação de ninguém por uma situação absurda, que provavelmente não tinha acontecido. Voltei a contar as notas de dinheiro e a organizar as moedas.

Depois perguntei aos organizadores da festa quem era essa figura; disseram que ele era convidado, mas não o conheciam. Festas abertas dão espaço para isso. 

Minutos depois, percebi o mesmo cidadão me medindo dos pés à cabeça, parava ao meu lado, ficava olhando para mim. Reconsiderei a situação: o cara me apalpou mesmo e, como eu não falei nada, começou a achar que eu estava na dele. Puta que o pariu! Será que aquilo estava mesmo acontecendo? O que fazer agora? A situação ficava cada vez mais inusitada e bizarra, e eu sem ação, sem reação, sem condição e coragem de tomar qualquer atitude e dar um fim àquilo. Nunca tinha acontecido comigo, será que acontecera mesmo só por que eu estava de saia e sapatilha?

Ainda na dúvida, contei à minha companheira. Ela começou a perceber que o cara estava mesmo na minha cola. Quando eu ficava parado numa parede, lá vinha ele. Até que sentou no mesmo sofá que eu, ao meu lado. Levantei e nunca mais voltei para aquela sala. Ali ele dormiu por três horas seguidas, se levantou quando limpávamos a Casa, já no fim da festa, e foi embora.

Se o que eu conto lhe parece uma novidade, como foi novidade para mim, provavelmente você é um homem. De todas as mulheres a quem contei, ouvi que esse é o cotidiano que elas têm que enfrentar desde sempre. Eu já havia sentido na pele um indicativo de que a forma com que você se veste dá supostas permissões aos outros invadirem seu corpo. Era uma reunião, estava pela primeira vez ali, só entre amigos, de saia branca, sapatilha e meia-calça (pois é, meu repertório vestuário não é nem um pouco vasto). Quando entrei na sala, perdi a conta de quantos apalpões recebi, de homens e mulheres. Claro, brincandeira de todo mundo, pura descontração. “Minha roupa tá dando permissão para vocês fazerem isso comigo? Por que nunca fizeram isso antes?” Alguém ainda fez alguma piada para acabar com a torta de climão, no entanto aquilo nunca mais se repetiu, e quem conversou comigo sobre esse episódio – uma mulher, aliás – disse ter percebido como a gente, inclusive ela, perpetua a opressão sem perceber.

O discurso machista tenta justificar o injustificável apontando a roupa curta, o decote ou seja lá o que o homem diz o deixar excitado como responsável pela opressão que a mulher sofre. Minha curta experiência usando roupas femininas me sugere que a própria condição de mulher, de não ser homem, alicerça essa opressão. Se você é assinalada como não-homem seja por sua roupa, genótipo, fenótipo ou alguma prática que lhe dá a etiqueta F ou te afasta da heteronormatividade, você automaticamente está sujeita contra sua vontade à uma condição de dominação e dá alvará para os outros fazerem com você e seu corpo o que diz o roteiro da ordem das coisas, desde ouvir gracinhas na rua até mesmo o estupro.

Embora seja uma experiência recente, me vestir com roupas femininas em público tem sido extremamente revelador e tem me ajudado a começar a entender a importância de se posicionar junto ao discurso feminista, embora minha condição de homem faça com que, querendo ou não, eu reproduza o machismo principalmente em suas formas subliminares. Tenho noção do papel político que assumo ao vestir minhas roupas (masculinas ou femininas), e não tenho a ambição de reparar a opressão secular a qual mulheres, homossexuais, transexuais e travestis estão sujeitas. Apesar de saber das limitações às quais estou sujeito, me passa a ser insuficiente reconhecer como nossas práticas perpetuam o machismo: passo a sentir a necessidade de assumir práticas e discursos que tensionem com a ordem opressora, na perspectiva de se ter, pela construção ou transformação, um mundo em que qualquer pessoa se sinta à vontade, livre e segura em qualquer lugar e não só perto de amigos, amigas ou sozinha entre quatro paredes.

Liberada, libertária e “laertina”. 2. A violência do olhar


Não deveria, mas faço. Procuro saber como as pessoas me olham. São diferentes os olhares que recebo quando ando com unhas pintadas, saia, meia-calça e sapatilha. Todos os olhares de pessoas estranhas, sem exceção, são violentos. A cada olhar, uma nova decepção, uma ferida na utopia, como se o horizonte ficasse cada vez mais distante mesmo andando em direção a ele.

Tem o olhar de estranhamento. Como se pra quem me vê fosse inacreditável um cara que não tem aparência e corpo de mulher e nem de travesti andar por aí assim. Que porra é essa?, já é carnaval?, o que esse cara tem na cabeça pra andar assim por aí? é o que vejo nos olhos de quem me vê.

Outro olhar é o do menosprezo. Para muita gente o que faço significa abrir mão de um status de homem e me rebaixar ao status de mulher. Misoginia em seu estado mais explícito. Como se minha negação a adequar minha aparência e modo de me vestir ao meu sexo biológico me tornasse alguém inferior. Minha companheira diz perceber esse tipo de olhar quando está comigo. Ela diz que alguns olham como se ela precisasse de um homem de verdade para saber o que é bom – exatamente como falam de lésbicas os homens que sabem o que é ser homem.

O olhar que mais me incomoda é o da indiferença dissimulada, o blasé. Não só porque ele esconde o menosprezo e/ou o estranhamento, mas porque ele mostra como as pessoas sabem se adequar às situações, demonstrando a falsa aceitação do diferente, como se aceitassem o que veem, embora esteja nítido que não concordem.

A ocasião em que esse olhar me foi mais marcante foi uma visita a uma escola grande, tradicional e bem católica, com uma amiga à procura de uma creche para matricular seu filho de poucos meses. Eu estava em um desses momentos de estrangeiro no mundo, alienígena, Geni, em que a gente fica na febre de botar pra fora a ariana dentro da gente e radicalizar, de sair esfregando na cara de todos e todas que andar assim não é um problema pra mim, mas sim pra quem não saiu do século XX, de gritar aos quatro cantos o que é a violência do cissexismo, de extravasar de todas as formas o desalinhamento do meu sexo biológico à minha identidade de gênero; de começar uma guerrilha urbana, transformando em arma meu corpo e minhas roupas em munição. Naquele momento, faria isso sozinha se fosse preciso, bancaria a briga que fosse para andar como eu quero. Essa fúria vai e volta, e na época estava num ápice. Mais do que justificado eu ir de vestido, meia calça e sapatilha à uma escola católica, certo?

As reações foram as mais diversas e facilmente associadas a faixas etárias diferentes. Até seus 4 anos, as crianças olhavam para mim com curiosidade, como se algo dissesse a elas que alguma coisa ali estivesse diferente. Entre 5 e 6, já sabiam que eu não estava vestido “como deveria”, mas para elas era apenas curioso. Dos 7 para cima, as risadas eram mais frequentes, a ponto de as crianças no recreio saírem pelo pátio chamando as amigas para não perderem a oportunidade de verem o cara vestido de mulher. Eu não esperava reações diferentes dessas. Afinal, vivemos a ditadura do binarismo de gênero e do cissexismo, e homens vestidos com roupas femininas não são comuns a não ser em carnaval e em festas “do trocado” (de preferência vulgarizando a imagem do feminino). As reações inesperadas foram das coordenadoras e professores da escola que receberam minha amiga e eu. Ignoraram minha roupa e a todas as reações de todas as crianças da escola. Isso me deixou envergonhada, arrependida de estar fazendo aquilo. Por um momento, o que eu fazia não se justificava, pois minha provocação estava sendo ignorada. Por uns momentos fiquei com vontade de sair correndo dali, ir ao banheiro, vestir uma calça, uma camiseta, qualquer tênis. Ainda bem que não pintei as unhas, teria ficado muito mais envergonhado por ter gastado meu tempo em vão, sem conseguir tirar das professoras e coordenadora nem sequer um franzir de sobrancelhas. As representantes da escola não apenas sabiam que era uma provocação como tinham certeza de como agir naquela situação sem nos causar qualquer constrangimento – até porque ali encenávamos ser uma família de potenciais clientes.

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Há algumas pessoas que não me olham de um jeito violento.

Pensei um pouco. Se eu estivesse ali na recepção daquela escola de sunga, eu seria impedido de entrar e qualquer pessoa diria que eu estava inadequadamente trajado para a ocasião. Embora o fato de eu estar de vestido tenha causado as mesmas reações nas crianças se eu estivesse na moda praia (masculina ou feminina), a instituição sabia que ao me rejeitar as implicações à sua imagem seriam absolutamente negativas. Lembrei-me de Laerte ter sido impedida de usar o banheiro feminino e como isso repercutiu negativamente ao restaurante em que se deu a questão.

A falsa indiferença é frequente. Até meu vizinho, embebido de ares franceses, foi tomado pelo blasé e ignorou a afronta por um tempo. Não cobrou nada, não comentou nada, como se estivesse tudo bem. Unha pintada, calça legging, minissaia, nadinha. Naquela altura da guerrilha, aberta inclusive contra a boa vizinhança, sabíamos que ele e todos os outros moradores da vila não estavam muito confortáveis com minhas roupas. A indiferença não durou muito. Certo dia, me perguntou:

– Vem cá, deixa eu te fazer uma pergunta: você é escocês? Porque tô vendo que você usa saia…

– Não, escocês usa outro tipo de saia. Essa aqui é toda preta, a de escocês é xadrez.

– Ah, achei que você era escocês, por isso andasse assim por aí, de saia.

– Ué, você nunca usou saia, não?, perguntei de forma pouco ingênua, nem meu tom de voz escondeu a provocação. Ele, quase ofendido, respondeu:

– Eu não! Quem usa saia é mulher!

– Eu não sou mulher e uso saia, respondi. Mas ele, afrontado, já tinha entrado em seu bunker.

Acabou que hoje em dia, quando vou de saia ou de vestido pelas ruas, ignoro absolutamente todos e todas por quem passo. É isso ou correr o risco de ficar paranoico pela pressão de ter que lidar com o que os outros pensam sobre mim. Não olho pra cara de ninguém, não chego a saber se cruzei com uma pessoa conhecida, pela presidenta da república ou a dona morte. Faço exatamente como muitas mulheres que, ao andarem por aí desconfortáveis com os homens que olham para elas, ignoram a presença dos olhares que lhe depositam. Evito me preocupar com os olhares não por achar que sou um objeto de desejo, mas para me esconder da violência denunciada por todos esses tipos de olhares.

Como minha condição de cis-gênero homem nunca havia me colocado (nem nunca colocaria) nessa situação de enfrentamento, provocada por estar com roupas femininas, só agora sinto na pele a chamada opressão de gênero. Não sofreria com isso em outro contexto, por ser homem ou, como dizem assinalado biopoliticamente como tal. Passo a ter algum indício de como a dominação masculina age sobre nossos corpos, tanto de homens que oprimem irreflexivamente quanto não-homens oprimidas.

 

Liberada, libertária e “laertina”. 1. Experiência outdoor

Na realidade, quando nos travestimos, não estamos imitando nenhum “gênero original”, uma vez que gênero já é, em si, a imitação de algo que nunca existiu na realidade, que jamais possuiu um “original”. (Judith Butler)

Crossdresser é como se chama hoje um travesti de classe média ou alta que tenta se distinguir daquele esteriótipo visualmente ofensivo e socialmente repudiado, que em nosso imaginário ameaça a masculinidade de muitos e perturba a feminilidade de muitas. Embora eu pertença à classe média, serei classista, não vou me enrustir e me assumirei travesti para contar a experiência de uma noite em uma festa queer na Casa Mafalda. Claro que a nomenclatura neste post não vai resolver o problema de ninguém, mas ao menos serei sincera.

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Essa experiência outdoor foi só um tipo de começo. Nesse texto farei o relato. Se procura a justificativa, deverá aguardar um outro post.

A preparação

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Meu corpo é masculinizado, é praticamente impossível mudá-lo aos 30 anos sem intervenções cirúrgicas. Imagino que hormônios também não seriam tão bem sucedidos em uma transformação em um corpo feminino. Minha cintura não é fina, meu rosto é marcado por traços típicos de homens, não tenho seios (embora tenha “peitinhos”), meus ombros são largos. Como transformar meu corpo de homem em um de mulher com tantos empecilhos assim? Gastei um tempo pensando em estratégias, analisando roupas que pudessem desvalorizar ombros e cintura. Após algumas consultorias, dei um grande foda-se às roupas e fui atrás de outras alternativas. Pensei em depilação e maquiagem. Esta é relativamente fácil de realizar, embora eu não fosse capaz de fazer sozinha. Um estojinho e alguém com experiência poderiam me ajudar com toques e retoques.

E quanto à depilação? Poucas acreditam quando conto. Confesso que fiquei excitada ao me imaginar depilando o corpo inteiro, tronco e membros. Virilha achei exagero. Por questões econômicas decidi tirar apenas os pelos dos braços, costas e peito – uma meia calça fio 80 me pouparia umas dezenas de reais e mais dor. Imaginava como seria difícil bancar essa experiência depois de tantos anos ouvindo “ah, duvido que um homem aguente a dor da cera arrancando seus pelos”.

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A insuportabilidade da dor da depilação: caíra mais uma mentira. Já li alguns textos feministas muito bem argumentados, concluindo como quase tudo dito do homem ou da mulher é resultado de construções sociais e não tem nenhuma justificativa biológica. Brincar com bonecas ou carrinhos, gostar de azul ou rosa, ser sentimental ou racional, saber cozinhar ou arrumar o chuveiro. Falsas polarizações, é claro que homens também aguentam depilar como qualquer pessoa. Tanto aguentam quanto depilam – conversem com qualquer depilador/a: há mulheres que têm medo de depilar, homens que depilam e concluam que toda a variedade de opções não têm nada a ver com gênero ou sexualidade.

Na segunda-feira, marquei hora com a depiladora para a sexta-feira seguinte. Semana de pura ansiedade. “Por que diabos eu tô fazendo essa merda?”, me perguntava. Por quê? Porque não poderia ser de outro jeito.

Fui. Nilda, a depiladora, ficou impressionada com o motivo da minha depilação. “Deve ser uma festa boa, para você vir aqui se depilar só pra isso”. Aparentemente ignorou o “queer”, talvez por não saber seu significado, ou por achar não ser um conceito importante a ponto de fazer uma pessoa se depilar pela primeira vez. Começou pelas costas. Ela sabia quais cuidados tomar e o que fazer para tratar bem um freguês. Nenhuma dor até ali. Fui ajudado pelo medo e a expectativa de não aguentar e desistir logo de cara. Até ali estava fácil. Tirou os pelos dos braços. Pouquíssima dor, quase um refresco. Nilda me convenceu a depilar também as axilas – e não é que para cada tipo de pelo se usa uma cera diferente? Apesar da dor causar um incômodo reflexivo – “isso é mesmo necessário?”, acabava de criar uma demanda: descobri pela via empírica que a falta de pelos na axila implica em melhor higiene e menos cheiro. Por pouco Nilda não me convenceu a fazer também as sobrancelhas: neguei por medo de criar mais um novo hábito e um novo custo a partir dali.

“Você tá aguentando bem”, apoiava Nilda. O elogio era um apoio moral, pois ela, melhor que ninguém, sabia onde os pelos escondiam todo o sofrimento do universo. E esse lugar era a frente, barriga e peito, matreiramente deixada para o final. Conclusão: pretendo voltar a depilar as axilas, não vejo motivo para arrancar os pelos dos braços, todos os pelos das costas encravaram ao crescerem (mesmo seguindo as orientações da Nilda para usar esfregão e bucha – não preciso depilar as costas de novo, né?) e a depilação do peito é tortura, e é dificílimo me imaginar fazendo aquilo de novo.

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No sábado, dia da festa, as roupas estavam prontas. Usei uma combinação que não foi exatamente a que imaginei, mas ficou bacana. Gastei um tempo procurando uma saia que me agradasse. As que vi à venda eram todas apertadas e muito curtas para o meu gosto, preferia as não muito compridas, acima do joelho. Descobri que eu procurava na realidade uma minissaia… o que não facilitou minha busca. Achei por sorte uma barraquinha na Doze de Outubro que vende só saias e vestidos, onde comprei uma pretinha do meu tamanho. Da Marisa, comprei uma meia-calça vermelha sem perceber ser legging; acabei tendo que improvisar para fazê-la parecer uma meia-calça fechada, deixando sobrar as pernas para dobrar as pontas. Usei uma blusinha branca de alça – preferia uma do tipo nadador, mas fazer o quê? Vesti um sutiã rosa, confortável e com bojo (teve que ser número 46 para não me apertar o tronco), escondido pela blusinha. Calcinha fio dental preta. Graças ao google, encontrei um sapato boneca preto, número 42. Aliás, se precisar de dicas de lojas de calçados femininos de tamanhos especiais, estou à disposição.

Ingênua, achei que o cinza deixado pela barba feita poderia ser escondido por uma boa base. Só a depilação poderia ter salvado, mas naquela altura era tarde demais. Teria oportunidades no futuro para depilar o rosto, mas não para a festa. Conversando com minha namorada (fundamental em todo esse processo) me convenci de que não deveria usar Veet por ser agressivo demais, além de que eu conheço quem já se machucou com aquele veneno. Minha cunhada e minha namorada me fizeram as unhas das mãos com tinta vermelha e me maquiaram. Nós três estávamos prontas para a festa.

A festa

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Sou uma pessoa domesticada e dócil, pois minha família e escola funcionaram muito bem em meu processo de socialização (ou docilização?, dá na mesma) a ponto de eu não conseguir respirar sem pensar se estou atrapalhando alguém próximo a mim. Vestida seria pior ainda, todos constrangidos com meu corpo masculinizado coberto por aquela roupa feminina. Eu já me montara uma vez em um carnaval (embora com bem menos dedicação estética), mas no carnaval tudo pode. Aliás, há um tipo de permissão para esse evento, em que trajes femininos podem ser usados por homens, pois são fantasias (mesmo que você seja um transgênero, travesti ou crossdresser e não esteja fantasiada!) tão comuns quanto uma cueca vermelha sobre a calça azul ou uma fruteira na cabeça. No entanto, não é você mas sim as outras pessoas que escolhem quando você está de fantasia ou não, e são raras as pessoas que me dariam um alvará em junho para me vestir daquele jeito. Amarras sociais? Desatei todas, me convenci da minha liberação e fui em frente, pois eu definitivamente não estava fantasiada e, imagina!, não pediria permissão a ninguém.

Dez minutos de caminhada pela Lapa até a festa, 22h30 de um sábado. Os estabelecimentos abertos no caminho eram pizzarias. Alguns transeuntes chegando e saindo de casa para seus eventos, provavelmente bem tradicionais, e alguns motoboys me veriam daquele jeito com duas cisgêneros – nós três vestidas para matar, com saltos, roupas curtas, decotes e maquiagem. Imagine duas mulheres vestidas assim passando por todos os motoboys do mundo concentrados em duas pizzarias, e nenhum deles dá nem um pio sequer. Surreal? Pois foi o que aconteceu. Claro que eu não esperava que eles não percebessem minha presença, nem mesmo achassem que eu era uma cisgênero e mexessem com nós três, mas fiquei surpresa por, mesmo eu estando vestida e não vestido, nenhum deles ter feito qualquer gracinha com qualquer uma de nós.

Chegamos cedo para arrumar a casa. Um amigo, o primeiro a chegar, se supreendeu: “quem é essa piriguete?”; eu era a única no salão. Conforme mais pessoas chegavam, mais surpresas: “por que você está vestido assim?”. Pois não é que nem numa festa queer eu tenho permissão social para me vestir como de qualquer gênero? “O que você fez para ficar com os peitinhos assim?” “Onde você conseguiu um sapato tão grande?” Eu provocara muito mais perguntas do que eu imaginara.

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Provocava perguntas aos outros e a mim mesma. Alguns amigos apertavam meus peitos e bunda quando passavam por mim. Taí outra pergunta, da série “permissões bizarras”: quer dizer então que roupas femininas representam porteiras abertas para você fazer o que quiser com o corpo naquela roupa? A Marcha das Vadias, mais do que nunca, fazia total sentido para mim.

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No meio da festa, uma garota que conheci ali e só depois descobri ser lésbica me perguntava inconformada: “como assim você é hétero?” É complicado, mas com o tempo essa ideia vai ficando mais fácil de ser digerida. Duvido que eu seja capaz de esclarecer algo tão complexo, mas lá vai: você nasce com desejos que são seus. E o mundo está cheio de pessoas a fim de dizer para você qual é o seu desejo. E essas pessoas querem que um desejo esteja amarrado a outro. Mas não, identidade de gênero e orientação sexual não estão necessariamente atreladas. Sugiro que, ao invés de sustentar falsos vínculos e perpetuar preconceitos, tente se convencer de que é difícil ditar como as mais de 7 bilhões de pessoas no mundo devem se sentir e o que devem desejar. Essa poderia ter sido uma boa resposta, não é? Mas me contentei com o “sim, sou hétero”.

Não fui ofendida, molestada, agredida, não jogaram pedra em mim nem em ninguém que me acompanhou. Poderia ter aterrizado na laje um zepelim com dois mil canhões assim… mas nem isso. Tudo correu muitíssimo bem a noite inteira. A festa foi uma delícia, um clima sensacional. Lá pelas 6h, a polícia bate à porta a mando da vizinhança, que reclamava do barulho. Fui atender. Nunca havia sido bem tratada pelos cachorrinhos do governo, a ponto de não exigirem ver minha identidade (hã? hã?) e apertarem minha mão em despedida após registrarem a ocorrência. Ainda assim, perguntaram se era uma festa de aniversário, se eu era o dono da casa (e não dona, claro, pois estava fantasiada) e se a festa era minha. Sim, não, não, tchau.

Pós-festa

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Adormeci. Mal girou a Terra e lá já estava eu acordada de novo. Gostei de ver o esmalte nas minhas unhas. Decidi ficar com elas pintadas por mais um tempo. Durou até segunda-feira. Nas compras pela Lapa pela manhã, alguns comerciantes ficaram assustados com o vermelho em minhas mãos. Perplexos, não entendiam o motivo e não tinham coragem para me questionar. Na loja de materiais de construção, o mocinho não sabia se me atendia ou se clamava pela ajuda do dono do estabelecimento. Numa loja de informática, uma menina de seus 9 anos cochichou para seu irmão um pouco mais velho, e ficaram me encarando como se eu fosse um ser bizarro. Ela sim, quase me perguntou, dava para ver a curiosidade em seus olhos… mas já estava velha demais. Na biblioteca, onde fui entregar flyers da festa junina da Casa Mafalda, o atendente, sem ler uma linha do que eu tentava lhe mostrar, se negou a ficar com os panfletos e deu sete justificativas diferentes – disse que o evento era pago, de partido, que não divulgam eventos ali na biblioteca, que os flyers que eu estava vendo no balcão divulgavam eventos que eram diferentes do meu… será por eu ser negro ou pelas minhas unhas masculinas vermelhas? Minha rejeição diária tinha um novo ingrediente. Furioso, saí sem perguntar e sem saber o motivo. Na terça-feira trabalharia e, por não ter coragem de encarar os possíveis enfrentamentos na escola, tirei o esmalte.

Foi só o começo, foi uma mera experiência de uma festa qualquer, que no fundo não fez diferença ser queer ou não. Ainda há muita experimentação e provocação a ser contada, sobre choques em espaços e tempos (ainda!) não reservados ao pós-gênero. Pintar as unhas de rosa e sair por aí, andar de legging e saia pela vizinhança, ir ao vestiário do seu time de futebol de várzea com unhas dos pés pintadas e lingerie. Muito a contar, a ser respondido e ainda muito mais a ser perguntado, talvez sem ter resposta para tudo. Afinal, toda pergunta precisa de resposta?

Recomendo:

O desejo como fatalidade? nascer gay, lésbica, bissexual. Ou o desejo como devir? tornar-se gay, lésbica, bissexual, de Fabiano Camilo

Por um marxismo queer da periferia – Parte 2, de Lia Urbini para Revista Geni

Minha vida em cor-de-rosa (Ma vie en rose, Bélgica/França, Inglaterra. 1997)

Muriel Total, de Laerte