Manoel de Barros

Certa vez achei que estava perdido. Cruzei com Manoel de Barros. Ele me ensinou muita coisa.

Hoje cruzei de novo com o Manoel. Do mesmo jeito que daquela vez. Passava sem querer nada por um sebo, e lá apareceu ele, valendo nada, como sempre.

Do mesmo jeito que daquela vez, me sinto perdido. Tão perdido que não sei o que busco. A gente busca muita coisa. A gente devia era buscar o menos.

Bom é quando a gente encontra sem buscar, quando a gente se desencontra.

Sem querer, hoje desencontrei enquanto buscava você de longe para desfazer esse eu sozinho. Acho mesmo é que descobri que a perdi. Assim como aquele índio que foi buscar no meio do mato o amante da esposa para amante e esposa viverem juntos. Uma história sobre nada, como as que o Manoel sempre conta.

Manoel cisma em desbrilhar tudo aquilo em que acredito. Faz pequeno tudo aquilo que quer ser grande. E desesconde o que tenta aparecer.

Lendo o livro do Manoel, encontrei uma beleza escondida no não ter, por mais doloroso que isso possa ser. Dá para amar sem ter, não pode? Por que alguém precisa ter um amor, mas não precisa ter um rio? Não quero chorar rios perdidos. Melhor é sorrir rios encontrados. Se se pode amar, por que não se pode riar?

Hoje Manoel me ensinou que estou riando você.

Nestes quatro anos e meio, você me ensinou muito. Manoel tinha uma namorada que via errado. Você me ensinou a ver errado. Você e Manoel têm muita coisa em comum. E eu gosto disso.

O valor do saber

Muito se fala sobre estudantes que não querem estar na escola, preferem perder seu tempo em seus celulares, não estão nem aí para o conhecimento que professoras e professores oferecem, desrespeitam a autoridade… são queixas que vêm aumentando de maneira crescente, a ponto de serem sensíveis em todas as escolas, de públicas a particulares, sem respeitar classe ou credo.

Se esse fenômeno transcende escolas de regiões ou perfis socioeconômicos, há uma sugestão de que há uma estrutura responsável por estudantes estarem alheios à escola e às suas atividades, sem dar qualquer importância ao saberes e ao que essa instituição tem a lhes oferecer.

Por que estudantes preferem estar em qualquer lugar menos na sala de aula? Por que o ambiente escolar é bom para a socialização, mas é desinteressante, desvalorizado e aparentemente sem a menor importância para estudantes?

Há quem diga que é uma questão geracional, influenciada pelo atual fácil acesso às tecnologias de informação. Ouve-se também que há uma crise de valores, que se manifesta na perda de autoridade do professor em sala de aula.

Apesar de ser necessário uma investigação mais profunda e rigorosa para se responder a essa pergunta, arrisco um palpite. Corro o risco de ser irresponsável para ao menos despertar alguma discussão sobre o tema.

Nosso modelo de educação formal, em salas de aula centradas em uma pessoa detentora e oferecedora do conhecimento, remonta ao século XIII e se constituiu na Europa. A participação das aulas nas universidades, dentro de alguns limites e restrições, era optativa a quem tivesse interesse em desvendar a organização do mundo e do Universo. A princípio, não havia coação: quem não quisesse não precisava estar lá. Apesar da exigência de um comportamento disciplinar e respeito à autoridade investida à quem ministrava as aulas, provavelmente não era necessário o uso de métodos coercitivos para que o conhecimento fosse valorizado por estudantes. A valorização do saber aparentemente era algo dado a priori, uma vez que as pessoas que frequentavam a universidade estavam lá por iniciativa própria. Não havia necessariamente uma obrigação de ela estar ali buscando novas formas de conhecer o mundo.

Em algum momento dessa história, as pessoas começaram a ser obrigadas a frequentar a escola. A institucionalização da escolarização passou a regular uma série de relações sociais. A igreja e o Estado dependiam de uma instituição disciplinar que correspondesse às necessidades da produção, portanto econômicas.

Estar em um ambiente contra a própria vontade é, independente da circunstância, desconfortável e, no geral, ofensivo a qualquer corpo. Seja um guarda britânico, uma criança diagnosticada com TDAH, alguém em uma fila de banco ou ainda uma pessoa claustrofóbica em um elevador, estar onde não se quer estar pode causar não só desconforto mas também traumas irreparáveis. Poderia aqui trazer referências ao que poderia ser a natureza humana, mas prefiro adotar uma postura conservadora e não ir tão longe. Me limito a dizer que parece haver uma tendência de as pessoas buscarem situações de liberdade para o corpo, mente e o que mais que nos permita manifestar enquanto seres vivos. Quando o ambiente escolar deixa de ser um espaço de conforto a pessoas que passam a frequentá-lo por imposição da família, da igreja, do Estado ou de qualquer outra instituição que imponha uma ordem externa, a tendência de se buscar espaços mais livres passa a se manifestar e, quase que espontaneamente, a escola passa a ser um espaço desagradável.

Como fazer com que uma instituição desagradável para os nossos corpos cumpram com seus objetivos? Por mais importante que a escolarização possa ser, como garantir que as pessoas cumpram com a obrigação de se escolarizarem se o ambiente escolar é essencialmente hostil?

O palpite é de que a criação de tecnologias específicas de disciplinarização dos corpos em ambiente escolar tornou-se mais intensa quando a frequência nas escolas passou a ser obrigatória. Na lógica de os fins justificam os meios, as pessoas têm que aprender por bem ou por mal. O maior investimento em métodos de coerção nas escolas parece não ser o único problema decorrente da escolarização imposta pela ordem social. Essa imposição, resultado de um jogo político que faz da escola não mais um templo de sacralização do conhecimento mas sim um dispositivo disciplinar, um aparelho ideológico, implica na desvalorização do saber. Ter conhecimento não deixa de ser importante, mas concorre com a necessidade de ter um diploma, certificados ou qualquer outro instrumento facilitador de uma distinção social.

Tem início o processo de desvalorização do conhecimento. A motivação primeira do modelo de educação formal constituído no Ocidente passa então a se perder ao longo de um processo histórico que propõe a escola como principal formadora de mão-de-obra, no século XIX e XX, e de cidadãos conscientes de seu papel social, do XX para o XXI. A escola, espaço criado para facilitar o acesso ao conhecimento, se transforma e tem novas funções, como a de formar pessoas aptas a corresponder a interesses diversos – cidadãos, pagadoras de impostos, civilizadas, que sustentam um modo de vida que corresponde ao modelo de economia e sociedade vigentes. A escola não é mais o templo do saber, mas a instituição que busca garantir a perpetuação da ideologia da classe dominante.

A desvalorização do conhecimento parece atingir seu auge na atualidade, com a banalização da informação, estágio que atingimos com a popularização das tecnologias de informação. Com um toque em uma tela, tem-se acesso a informações que em outras épocas só se teria com longas viagens ou no mínimo investindo-se muito dinheiro.

Houve um tempo em que um “trabalho escolar” foi um gênero plausível para se construir e apresentar o que se conhecia sobre um assunto. Hoje, sites que disponibilizam trabalhos prontos dominam as primeiras páginas indicadas por ferramentas de busca na internet e dispensam a leitura de seu conteúdo.

Há quem leia e compartilhe informações na redes sociais sem saber sua origem. Por mais que haja empresas prestadoras de serviço de difamação por mecanismos virtuais, criando memes e reportagens com informações falsas, há pouca responsabilidade em filtrar de maneira crítica os conteúdos em circulação. Não importa se a informação condiz com a realidade, importa se ela está alinhada à sua opinião.

Nesse contexto, que espaço existe para a reflexão sobre a relação entre a realidade e o simbólico? Há como se pensar sobre a construção de um conhecimento que nos permita acessar e expressar a realidade em algum grau, sendo que vivemos em tempos de que esse tipo de conhecimento não tem mais valor? Como lidar com a falta de responsabilidade de se usar um texto que não foi lido? Afinal o que estamos fazendo com a informação quando a acessamos? O que precisamos fazer para lidar com a informação de maneira que ela interfira em nossa visão de mundo e nos ajude a construir o conhecimento com um propósito social, que nos permita relações com o mundo de maneira libertadora e livre de opressões?

Não é à toa ter-se tornado comum ouvir pessoas que sentem-se à vontade para mostrar sua opinião sem conhecer com profundidade sobre o que estão a falar, não só no facebook como em qualquer espaço para além de telas e eletrônicos. Longe de fazer uma crítica à liberdade de opinião, questiono o processo que nos permite sermos negligentes com o conhecimento histórica e socialmente construído.

Parece-se me que tirar aparelhos eletrônicos das mãos das pessoas ou ainda fortalecer discursos moralistas e chauvinistas não vai nos ajudar em nada a resolver nossa limitação em lidar com estudantes que preferem estar nos corredores e não nas salas de aula. Meu palpite é de que precisamos de espaços em que o conhecimento seja valorizado sem usarmos métodos coercitivos ou discursos moralistas, saudosistas ou retrógrados. Talvez o caminho para um novo modelo de escola seja o de repensar nosso papel de educantes enquanto responsáveis por mostrar o valor do conhecimento e sua importância para a real transformação de nossa sociedade, tomando como base relações mais justas, sem opressões e que nos permitam viver livremente em sociedade.

Quando a vontade de igualdade reproduz privilégios: a relação estudante-educante no Cursinho Livre da Lapa

O ideal libertário prevê relações baseadas em apoio mútuo e solidariedade. Em uma sociedade em que a violência é banalizada e oprimidos e opressores se misturam, fazer com que nossas relações sejam mais justas se torna um processo difícil. Reinventar a moral humana, como proporia Bakunin, e criar relações em que não caibam opressões de nenhum tipo, são em si tarefas hercúleas diante dos aparelhos ideológicos e repressivos contra os quais temos que lutar; pior fica quando subestimamos essas tarefas. Subestimar a necessidade de mecanismos que garantam relações livres é fazer o jogo de quem nos oprime. Quando não premeditamos mudar nossas relações, perdemos o cabo-de-guerra da transformação social e ajudamos a consolidar ainda mais a ordem das coisas.

A pedagogia criou o conceito de relação professor-aluno (que poderia abranger maior pluralidade se chamada de relação estudante-educante). Como toda relação, não é possível isolar da sociedade em que se insere a relação entre quem educa e quem aprende. Assim, quando as partes não tomam os devidos cuidados, a relação estudante-educante pode reproduzir machismo, sexismo, homotranslesbofia, fascismo, etarismo e qualquer outra discriminação, preconceito ou opressão que alicerça nosso cotidiano.

Além dos fatores sociais, externos (mas não menos conectados) à educação formal, que regulam a relação entre educadores, educadoras e estudantes, há um elemento inerente ao processo de ensino e aprendizagem: é a intencionalidade intrínseca aos papéis dessa relação. Coberto de razão estava Paulo Freire ao ressignificar os papéis de educador e educando, renomeando-os para educador-educando e educando-educador: é impossível não aprender quando se ensina, e quem aprende sempre tem algo a ensinar à quem educa. Uma leitura descuidada de Freire pode sugerir que os atos de educar e de ser educado se misturam, se confundem a ponto de serem os mesmos. No entanto, Freire nunca negou a intencionalidade de educadores e educadoras. Tal intencionalidade é nitidamente exposta em sua análise da ética do educador em “Pedagogia da autonomia”.

A intenção de educar é o que diferencia educação de educação formal, faz com que a pedagogia seja uma área de conhecimento. Assim, os saberes pedagógicos, mesmo sendo compartilhados com estudantes, fazem com que educantes, que detêm esse conhecimento, tenham um papel necessariamente diferente em sua relação com estudantes. Assim, a relação não pode ser em si horizontal, uma vez que os saberes delineiam a diferença entre os papéis dos dois lados da relação.

Reconhecer as diferenças e as assimetrias entre os papéis de estudantes e educantes não implica necessariamente em dar justificativa a pretensos privilégios e abusos por parte de educadores e educadoras. É fundamental ter mapeadas tais diferenças justamente para não transformá-las em privilégios. Por outro lado, ao negligenciar a assimetria entre os papéis, corre-se o risco de tornar a relação abusiva. Decorre dessa constatação a responsabilidade de quem está em uma posição reconhecida de privilégio construído socialmente, como é o caso de quem educa, de impedir que a diferença entre papéis se transforme em privilégio.

No Cursinho Livre da Lapa, já houve em seu um ano e meio de história algumas situações em que a falta de cuidado de educadores e educadoras em sua relação com estudantes criou problemas ao projeto como um todo.

Uma delas aconteceu em setembro de 2015. Na ocasião, educadores e educadoras perceberam que estudantes iam ao Cursinho, mas não entravam nas aulas; não seguiam a orientação de fazer exercícios em casa; e, em alguns casos, desqualificavam momentos de aprendizagem com atitudes que sugeriam pouca responsabilidade com o objetivo de aprender. No olhar dos educadores e das educadoras, estudantes de maneira geral pareciam não ter percebido sua responsabilidade com a própria aprendizagem, não estavam cientes de que, enquanto partes da relação, deveriam ter o mínimo comprometimento com o aprender e gastar alguma energia para chegarem ao objetivo, seja ele passar no vestibular ou se relacionar de maneira diferente do que lhe é imposto em outros espaços.

Educadores e educadoras, depois de conversarem entre si e entenderem que esse sentimento de desresponsabilização de estudantes era comum a todas, resolveram não esperar uma nova reunião (ou assembleia) mensal para tocar nesse assunto e resolveram chamar uma reunião geral extraordinária. Essa reunião aconteceu durante o horário de uma aula, a fim de garantir a presença de um maior número de estudantes. Na reunião, estudantes ouviram educadores e educadoras contarem o que viam acontecer nos últimos meses, como achavam negligenciadas as responsabilidades com a própria aprendizagem e que provavelmente havia uma reprodução, de maneira irrefletida, de práticas da escola tradicional por parte de estudantes.

A resposta de estudantes àquela reunião, acontecida em setembro, veio na última hora do encontro de fechamento e avaliação do ano, chamado fórum, em dezembro. Estudantes contaram terem se sentido acuadas e acharam que educadores e educadoras foram “blocadas” à reunião para fazer a cobrança, como se estivessem abusando de sua posição de educadores.

Esse incidente sugere ruídos na comunicação entre educantes e estudantes. Primeiro porque parece não ter ficado claro que não é um problema em si haver cobranças em um diálogo; afinal, se há responsabilidades a serem cumpridas a fim de que as expectativas de aprendizagem e organização de qualquer projeto sejam atingidas, todas as pessoas envolvidas devem cumprir com seus papéis, de modo que, quando não cumprem, acabam por colocar em risco os objetivos a serem atingidos. Portanto é fundamental haver cobrança para que se perceba como as responsabilidades de estudantes e educantes é igualmente importante para o avanço do Cursinho. Afinal, apoio mútuo e solidariedade só existe quando compartilhados e só se concretizam quando a responsabilidade é mutuamente assumida.

Outro ruído é o de que educadores e educadoras não deveriam conversar entre si enquanto uma frente e “blocarem”, chegando a um consenso entre si. O equívoco nessa ideia surge quando não se reconhece a diferença entre os papéis e, além disso, pressupõe-se que tal diferença implica de maneira inequívoca em privilégios, que se concretizou na cobrança sentida pelas estudantes. Irresponsável seria negar as diferenças e ignorar que as pessoas partem de histórias diferentes para cumprir coletivamente com um dado objetivo. Confundir o princípio de igualdade com o de equidade é um erro recorrente no meio libertário, e cabe a quem reconhece a diferença entre esses dois princípios realçá-los para que a igualdade não se torne opressão.

É elementar que mecanismos sejam criados em nossos projetos para que não reproduzamos opressões. Para tanto, precisamos olhar para o que já foi construído, avaliar o que estamos construindo e realinhar sempre que possível nossos princípios aos nossos objetivos. Não se chega aos objetivos de maneira espontânea, e solidariedade e apoio mútuo não nascem naturalmente de nossas práticas. Transpor a ideia de relações mais justas à relação entre educantes e estudantes não é tarefa fácil, e exige constante cuidado para que essa relação se torne de fato horizontal, uma vez é impossível fugir à diferença entre aos papéis que dela fazem parte. A defesa da diferença entre os papéis de educantes e estudantes não pode ser confundida com os tradicionais abusos e privilégios de professores e professoras em ambiente escolar. Se não deixarmos clara tal diferença, faremos com que a inexistência de mecanismos que promovam a equidade permita a reprodução da opressão e dos privilégios de quem educa, que têm sistematicamente sido fantasiados de igualdade.

O ódio

Entro na sala e sinto o cheiro da desrazão. A mensagem se traduz em meu corpo na forma de um arrepio que não vem do medo, mas do desespero. Da falta de esperança.

Um mergulho em um mar de absurdos irremediáveis me cortam a pele. Imerso nesse realismo fantástico, me sinto como um peixe seco, uma aberração, o desajuste, o travesti, o abjeto.

Custo acreditar em como posso estar tão só no meio de tanta gente.

Existem dois universos: o meu e o outro, o das outras pessoas. Curiosamente, os dois se sobrepõem sem interagirem, paralelos e sobrepostos.

Como se, regidas por regras diferentes das minhas, as pessoas se relacionassem por meio de absurdos.

Como se fosse absolutamente normal um objeto cair para cima, um pão ser desassado.

Aqui, a razão pede trégua.

Sinto-me como uma barata em um depósito de tetrapak. Estar aqui é sentir na pele a esterilização, a hermetização, o UHT, sem ter uma saída no horizonte.

A síndrome de Estocolmo tomou o mundo. Por que não tomou a mim? Me pouparia dessa dor.

Diante de um comportamento geral inusitado, sinto-me em um ensaio não escrito por Saramago. Mas não é um ensaio, é real, concreto e intencional, não tem nada de acaso.

As coisas parecem ser mesmo feitas para serem assim como são, e querer o diferente é se isolar cada vez mais em sua própria casca de noz.

Será esse arrepio um tipo de carapaça que o corpo cria espontaneamente para se proteger das ondas de ódio que tomaram nossa atmosfera?

Não há saída à autolobotomia, à demissão intelectual. A regra é a da pura exoneração compulsória da racionalidade.

Faça você mesmo: insira uma faca em seu lobo frontal, desconecte o máximo possível de ligações nervosas do seu cérebro e viva como todo mundo.

Percebo então que esse arrepio não é nenhum tipo de proteção, mas sim um presságio para a inevitabildade da morte, a única solução para sair de uma vez por todas deste espaço amaldiçoado.

Pensei que dançaria para ela quando ela viesse me buscar, mas não há tempo para isso: é correr parar morrer, com urgência.

Quero meu fim a cada encontro, a cada audição, a cada contato, a cada troca de olhares com todo mundo com quem divido esse espaço. Minha vontade é de guilhotinar a mim mesmo, rasgar os próprios pulsos, jogar-se na frente do trem, enfiar uma espada na cabeça.

Com as próprias unhas, abrir no peito um buraco do tamanho da cidade para extravazar de uma só vez toda a violência encruada, calcificada, que enrigece meus músculos a ponto de tirar qualquer reação a esse estupro corretivo que se materializa na ordem das coisas.

Penso às vezes como é estranho querer a própria morte e não a de todo o resto.

Parece-me paradoxal, até perceber que não há solução para ser quem se é e ser absolutamente diferente do que já foi naturalizado.

Como não sobra esperança, o único caminho é a busca por um fim a esse cancro que transforma tudo em pus, de fora para dentro, antes que tome o pouco que sobrou do coração.

É dar um basta a essa dor maldita, imposta por um modo de vida frígido, cinza, alienado, resignado que pinta inexoravelmente essa maldita escola em que me enfiei.

Prefiro morrer a estar neste ATPC.

Na catraca. III

Aquela moça dos cabelos cacheados me chamaram a atenção logo que subi no ônibus. Ela conversava com uma amiga e o cobrador.

Logo desceram as duas. O cobrador, sem perder tempo, atualiza o motorista do bafão que acabara de descobrir.

– Tá difícil arrumar emprego mesmo. Viu? Elas acabaram de sair da entrevista. Eram dez vagas, contrataram dez loiras e elas ficaram de fora.
– Ué! Mas a outra é loira…
– É mais ou menos. Falaram que eram dez vagas, contrataram dez loiras. Tá vendo?! O povo vota na Dilma e Lula, agora tá todo mundo sem emprego! Quem paga é essa juventude. Tinham dez loiras, contrataram todas – refletiu o cobrador, naturalizando o racismo estruturado nos 516 anos de história do país.

Culpa da Dilma. Nem mesmo a responsabilidade sobre o preconceito racial estrutural do país foge do alcance da inábil presidenta.

Anedota Paulista

Anedota Paulista

Era uma vez um ex-funcionário da FEBEM
que achava ok violentar adolescentes.
Quando lhe mostraram na tevê que violentavam carneiros antes de servi-los à mesa,
ficou muito espantado
e disse que, embora comesse carne, não precisava ver aquilo.

Um mísero passo

Se você procurar no google, vai ver uma série de dicas de quem sofre da mesma coisa e de especialistas de como lidar com o problema. Faça uma lista com suas tarefas, faça atividades físicas dia sim, dia não, use a técnica pomodoro, faça isso, faça aquilo, faça assim, faça assado.

Comigo nada disso tem funcionado. Quando sinto a obrigação cochichando em meu ouvido é como se eu ficasse hipnotizado por ela. Tenho certeza de que, se estivesse em um campo aberto pensando no trabalho que preciso cumprir, me tornaria claustrofóbico, acoado, miseravelmente impotente e estagnado.

Daqui da minha cama, numa distância de dois metros da mesa de meu computador, imagino aquele documento aberto no editor de texto. O documento que me convoca para a inevitável produção de qualquer coisa ou materialização de qualquer ideia é o mesmo documento que me afasta, me empurra para longe. É como se ele me amarrasse na obrigação de me dedicar a ele, numa coleira que me prende a uma distância fixa, não muito longe, mas perto o suficiente para não esquecer do que é inevitável.

Tento achar explicações para essa catatonia, das mais racionais até às mais esotéricas. Já pensei que pudesse ser uma doença causada pela cidade, pela vida burguesa, pela correria do cotidiano, pela obrigação de acertar, de não errar, pelo medo de terminar a tarefa. Poderia ser uma justificativa do subconsciente para buscar o ócio produtivo ou qualquer outra perversão do capital. Não seria o puro prazer de procrastinar? Ou ainda uma vagabundagem congênita, tão odiada pelos crentes do progresso?

Imaginei também ser algum tipo de estrutura que obriga as pessoas a serem como devem ser e, portanto, seguirem o script da vida – crescer, casar, trabalhar para ter seu carro, família, filho e filha para, no final, ter a propriedade no interior para morrer de velho; quem não segue o script acaba por disparar um gatilho no fundo do próprio cérebro, provocando uma autosabotagem, deixando de cumprir pequenas tarefas e comprometendo o próprio emprego.

Como segurar essa barra? Retomar o script e se submeter à ordem das coisas, talvez.

Não seria um espírito zombeteiro? Um encosto tomando meu corpo para brincar com minha vida, fazer dela um inferno e impedir que eu cumpra tarefas muito simples, como a de traduzir um texto curto, do inglês para o português, e salvá-lo em um documento na área de trabalho. Imagino crianças em uma escola de inglês fazendo com alegria essa atividade sem qualquer compromisso, até repetindo-a em casa. Eu, que troco minha força de trabalho, realizando tarefas como essa, por dinheiro para ter o que comer, não consigo fazer. Já estou no ponto de me questionar se o faria mesmo de graça, tamanha é minha impotência para sair daqui da cama e digitar meia dúzia de palavras.

barra_anti_panico3Esse pequeno passo, para mim, se transforma em uma pedra pequena no meio do meu caminho, que cresce, se avoluma e se torna um monstro tão imenso quanto a escuridão, debruçado sobre minha barriga, travando-me aqui, ofegante e tentando levantar para enfrentar um computador que, a dois metros de distância de mim, inofensivo e até então domesticado, agora me parece hostil e me ameaça com cerca de meia página a ser digitada. E não consigo fazer nada além de me manter aqui parado, dando voltas em minha mente na tentativa de desvendar a falta de controle sobre minha própria capacidade motora.

De onde vem essa imobilidade? Por que uma tarefa outrora simples se torna numa montanha irremovível? Será um teste de fé? Fé em quê? Preciso acreditar em deus para cumprir uma obrigação cuja única dificuldade parece ser eu levantar da cama, sentar da cadeira e teclar por, no máximo, vinte minutos?

Começo a imaginar um fosso se abrindo entre minha cama e a mesa em que está o computador. Não deve ter mais de dois metros entre uma e outra. Até poderia pegar uma trena para medir, aposto que não dá dois metros. No entanto, a materialidade da medida passa a se tornar relativa quando busco um impulso para me levantar e resolver aquela tarefa simples que deveria ter sido feita já há três horas – se não fosse tão difícil sair dessa insustentável liberdade em que me afundei. Os dois metros se tornam quinze, vinte, trinta, o suficiente para eu não alcançar a mesa nem mesmo com um salto. Imagino o quão profundo deve ser esse fosso. Sinto a atmosfera do meu quarto sendo sugada para dentro dele, como se o chão fosse um aspirador querendo me dragar. Travo ainda mais.

Já consigo ouvir o som de uma moeda que eu jogaria daqui. Ouço aquele fiu de um corte fino no ar, ecoando no vão entre eu e o pc e levando todo o tempo do universo para tocar o fundo, tão profundo que não é possível saber se a viagem daquela moeda chegou ao fim. Estou tão travado que já me tornei a própria cama.

Ao invés de dar o único final feliz que este capítulo de minha história poderia ter, levanto e vou dar uma volta na rua, como procurando algo para me iludir com a possibilidade de cumprir, quem sabe um dia, essa minha tarefa. Talvez contemplar a lua me ajude a ignorar a tarrafa dentro da qual estou me perdendo. Afinal, já passei a tarde inteira tentando dar um passo sem sucesso, não posso permirir me afundar também durante a noite nessa irreconhecível impotência.