Quando a PM faz do mundo um picadeiro

É praticamente inquestionável a necessidade da Polícia Militar para nossa sociedade, principalmente quando se trata de sua função “legítima” de garantir a segurança e a ordem social. Inclusive corre-se o risco de ser punido quando se duvida da integridade moral de um policial ou até mesmo da própria Corporação. No entanto, pouco se questiona seu monopólio da violência e seu abuso arbitrário da força em situações diversas.

Se, de acordo com o artigo 1° da Constituição Federal, todo poder emana do povo, por que as manifestações políticas são reprimidas violentamente? Manifestações não são garantias do povo reivindicar do governo a postura que achar necessária? Ou a “festa da democracia” se resume àquela piada que acontece a cada dois anos chamada de eleições? Se existem orientações para se reprimir/dispersar uma manifestação e agredir qualquer pessoa envolvida em passeatas, por que a polícia mente e esconde esse objetivo?

Refiro-me ao ocorrido nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes: a polícia infiltrou um PM à paisana (P2) na manifestação dos professores estaduais, na sexta-feira dia 26 de março, e tentou de todas as formas mentir sobre esse policial infiltrado.

A foto do P2 foi publicada nos jornais, que acreditavam que o cidadão barbado (como raramente se encontra um PM) e carregando no colo uma policial ferida seria um professor.
A Secretaria de Segurança Pública desmentiu a imprensa, afirmando que o suposto professor era na realidade um policial à paisana em operação na região. Essa foi a primeira versão do governo frente ao fato.

A segunda versão da PM dizia que o P2 não estava em serviço, mas sim passando pela manifestação por acaso.

Na terceira versão, contrariando as duas anteriores, a assessoria disse que o P2 “estava no local, não disse o que estava fazendo”.

Mas a Apeoesp jogou areia e apagou a mentira contada pela assessoria da PM, confirmando que o P2 estava em serviço, tanto que subiu em um ônibus de professores em Osasco que se dirigia à assembleia.

Por que todo esse esforço da Corporação para mentir sobre esse P2 em serviço? Se a PM  está seguindo a lei e obedecendo ordens, por que esconde a motivação de infiltrar um P2 na manifestação?

Esse é apenas dos episódios em que tentam fazer o povo de palhaço ao esconder vergonhosamente um fato de interesse público – como os familiares que tentam esconder às pressas aquela tia que só os envergonha, na ilusão de que as visitas nunca tivessem notado sua presença; como se fôssemos ingênuos a ponto de não percebermos a tentativa de criminalizar o movimento dos professores – ou haveria outro motivo para esconder a verdade sobre o P2? O papel da Polícia Militar deixa de ser meramente repressivo, passando a ser também cômico e revoltante ao mesmo tempo. Tentar esconder a verdade sobre o P2 de forma atrapalhada como foi feito não é apenas hilário mas também um insulto ao cidadão paulista.

A PM, que se esconde atrás da falaciosa defesa da ordem em favor de um progresso – enquanto existe para fazer valer a vontade de uma elite estabelecida – nos deliciou com essa cômica peça circense. Como se não bastasse, mostrou que não são apenas alguns de seus peões isolados os únicos sujeitos a desonestidade: não há garantia de que essa instituição tenha qualquer comprometimento com a verdade.

Se precisam de uma instituição para reprimir manifestações democráticas, abram o jogo e mostrem para que a PM foi criada e por que ainda existe. Mas não nos coloquem na plateia de uma ópera-bufa como essa. É um insulto à nossa inteligência.

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Infiltração e repressão: Serra repete práticas de Yeda, da Agência Carta Maior

Por que Dimenstein ataca os professores?

De acordo com Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de S. Paulo, os professores da rede pública de SP deram uma aula de baderna na assembleia de sexta-feira, na qual se decidiu pela continuação da greve da categoria. No texto postado na sexta-feira, ele diz que os professores agiram mau agredindo com paus e pedras os policiais que isolavam a região do Palácio dos Bandeirantes. Como eu estava lá, vi agressões mútuas – difícil garantir quem as iniciou – e fiquei sabendo da presença de pelo menos um P2 (policial à paisana) infiltrado na manifestação, me interrogo por que Dimenstein optou por investir seu tempo escrevendo um texto com um ponto de vista enviesado e dedicado a sujar a imagem dos professores manifestantes, sem dar uma linha ao abuso de violência da PM.

Dimenstein se diz um sujeito que conhece de perto a realidade da escola pública, dando a si autoridade para falar sobre os problemas que determinam o fracasso escolar atualmente, em particular no estado de São Paulo.

Já publicou alguns livros sobre ensino, inclusive em parceria com especialistas da área, como Rubem Alves (filósofo, professor emérito da Unicamp e maior escritor no Brasil de livros de auto-ajuda para professores); esse é mais um ponto que costuma lhe atribuir algum mérito ao tratar do assunto. Seu status de quasi-educador é ainda fortalecido por ter idealizado o Projeto Aprendiz de educomunicação, que deu origem à ONG Cidade Escola Aprendiz, centrada na ideia de educação comunitária. Além de se dedicar ao Projeto Aprendiz, ele é membro do Conselho Editorial da Folha.

Essa é parte da vida pública de Dimenstein, o qual tem sido criticado, como ele mesmo diz, por uma série de leitores e professores por sua posição política frente à educação. Sinceramente, eu acreditava (de forma ingênua) que Dimenstein tinha um ponto de vista diferente dos seus leitores. Não poderia dizer que ele tinha má intenção com seus textos simplesmente por pensar que a educação deve ser construída de forma diferente do que eu acredito.

Até que li a coluna em que ele chama os professores de baderneiros.

Ao se referir aos professores agredidos pela polícia na tarde de ontem como baderneiros “desrespeitando a lei e atirando paus e pedras contra a polícia”, entre outras pérolas, mostrou sua afinidade com o discurso mentiroso e mau caráter do governador do estado, que insiste em mentir à imprensa que menos de 1% dos professores estão em greve.

Mas a afinidade de discursos não é mera coincidência. Sabe-se que, sem uma base política, o poder de um governante se torna frágil. Lula, por exemplo, estabeleceu sua base política, ao longo do crescimento do PT enquanto partido, nos movimentos sociais. Hoje, o presidente se apoia também em empresários e banqueiros. Já José Serra optou por estabelecer seu poder com base na imprensa marrom, como jornais e revistas de grande circulação cuja opinião varia de acordo com o interesse de seus amigos. Nesse espectro da mídia comprada, encontram-se os grandes jornais de São Paulo, inclusive aquele em que Dimenstein é um dos conselheiros editoriais e que (coincidência?) tem um membro do comitê editorial indicado por Serra.

Se há muitos anos os tucanos são blindados pela imprensa, há obviamente uma troca de interesses em jogo. Dada sua posição na mesa, Dimenstein certamente não está fora dessa jogada.

Não é possível que, com toda sua responsabilidade e pretensão de educador, Dimenstein seja incapaz de fazer uma crítica sequer à Secretaria de Educação e ao Governo do Estado em todas suas trapalhadas ao longo desses anos – desde a compra de milhares de exemplares de revistas da Editora Abril sem licitação, passando pela precarização dos regimes de trabalho (contratação de 100 mil professores temporários por ano e efetivação de apenas 10 mil a cada quatro anos), até a publicação repleta de erros dos Cadernos do Professor, utilizados pela rede estadual de ensino. Ainda assim, semanalmente dedica suas colunas à desmoralização da categoria que atualmente mais ataca a imagem do “ínclito” governador José Serra. Há isenção no ofício desse jornalista? Se Dimenstein é tão comprometido com a educação de São Paulo, por que insiste em tirar a culpa do governador sobre a descarada política de sucateamento (leia-se destruição) do ensino paulista, que começou há anos e hoje sofre de uma tuberculose galopante (ou você acha que o custo do aluno para o estado é o mesmo que para uma escola particular)? Por que esse colunista não deixa claro que a PM utilza da violência sobre toda e qualquer manifestação contra o governo, criminalizando os movimentos sociais?

Caro Dimenstein, se há alguma aula ocorrendo por estas bandas, então o senhor é o “professor”. E aprendi que, se eu for candidato a algum cargo político um dia, terei muitos amigos jornalistas golpistas como o senhor. Infelizmente, hoje, em minha carreira de educador, não posso chamá-lo de amigo com tantas mentiras que conta sobre nós e que inventa a favor do governo Serra.

Mais sobre a forma com que os professores são tratados por José Serra

“A Democracia, a Baderna e a Paz”, do Passa Palavra

E para não dizer que minhas críticas são infundadas: Depois da trampa da Globo: Serra dá R$ 3,7 milhões a “Conselheiro” da Folha(*)

Greve dos professores de SP. Assembleia do dia 26/03/10

Pelo menos 15 mil professores (minha conta; a da Apeoesp somou 20 mil, a da PM, hilários 5 mil) se juntaram hoje sob a chuva para decidir em assembleia a continuidade ou não da greve. Felizmente, a paralisação continua.

Por que felizmente? Passei duas semanas dando aulas pensando se seria uma decisão feliz aderir à greve. Até que resolvi parar. Vários – incontáveis, eu diria – foram os motivos para minha decisão.

Mas há também motivos contra.

Pensei nas crianças que querem ter aula e têm medo de precisar repô-las aos sábados ao longo do ano. A elas, não interessa a greve. Pensei no meu salário indo por água abaixo e no risco de perder meu emprego – pois sou OFA (ocupante de função atividade, o mesmo que professor temporário) e não tenho qualquer estabilidade empregatícia: se faltar por 15 dias consecultivos, perco o cargo. Nesse sentido, paralisar é tão producente quanto dar um tiro no próprio pé. Pensei nos 80% dos professores da minha escola que não aderiram, e me sinto isolado no meio de todos aqueles “macacos velhos” que, após todos os longos anos que vêm servindo o magistério, possuem argumentos fortíssimos para seguirem trabalhando em meio ao vendaval. Como se andorinhas sozinhas não fizessem verão.

Não sou andorinha, nem sequer me interessa a estação. Como tenho espaço para atuar na sociedade – seja como professor, seja como qualquer sujeito – luto para mudar essa estreita área de influência que com minhas parcas ações consigo influenciar.

Mas aderi à greve, e preciso me justificar.Antes, preciso fugir desse vício de polarizar os pontos de vista. Tenho essa forte tendência maniqueísta de justificar os fatos contrapondo-os em duas colunas, antagonizando-os.

Se não quero polarizar os argumentos, é porque não acredito na unidade por trás de um movimento. Não é verdade que, em todas as disputas ideológicas ou políticas, existem dois blocos coesos, um contra o outro. Seria mais do que utópica – seria fantástica uma organização em que todas as pessoas concordam em todas as instâncias com suas diretrizes ou determinações. Um sindicato ou um movimento social homogêneo é tão real quanto uma sala de aula só com alunos sedentos por conhecimento. Por isso, não espero que todas as pessoas participantes de uma greve concordem com todas as reivindicações que a motivam.

Esse é o meu caso. Se tomarmos a pauta comum da Apeoesp, da Conlutas, da CUT e dos outros movimentos sindicais, vemos sempre as exigências por

-aumento salarial, normalmente citando 34,3% de aumento,

– fim da provinha (eliminatória de temporários) e da provona (que fornece aumento salarial por mérito) e

– melhores condições de trabalho.

Concordo apenas com a mais geral das exigências. Na realidade, minha pauta seria essencialmente diferente. Não exigiria o fim da provinha, mas sim a construção por inciativa do Estado de um projeto de formação continuada de professores. Afinal, se o estado investisse nos professores que já fazem parte da Rede, não haveria o porquê de forçá-los ao desemprego, culpabilizando-os por não investirem em sua própria capacitação profissional – o que o salário de fato não permite. Formação continuada é uma reivindicação nobre e legítima a provinha seria desnecessária no final das contas.

Não exigiria o fim da provona, mas sim a criação de um plano de carreira para todos os professores igualmente. Afinal, se os professores já foram contratados alguma vez e se houvesse investimento na formação dos professores, vincular aumento salarial a mérito seria mera questão de retórica. Premiação por mérito, como já mostraram os behavioristas, funciona perfeitamente apenas com pombos e camundongos. E, como consequência, não seria preciso gastar verba pública com a provona.

E melhores condições de trabalho é o que qualquer profissão tem direito de exigir, dado o cotexto histórico, jurídico e social. A concepção de trabalho sempre injustiçou o trabalhador, seja através da mais-valia ou fazendo com que alguns trabalhassem mais que as outros em nome de um desenvolvimento que só produz resultados para a elite. Chega a ser ridícula a inclusão desse ponto nas reivindicações.

Mas minha adesão à greve não tem nada a ver diretamente com essa pauta. Só aderi a ela porque um sentimento de hipocrisia me assolou: não poderia seguir criticando o governo do estado e sua política de sucateamento da educação pública (básica e superior) enquanto abriramão de um direito dado aos trabalhadores pela Constituição de 88. Quando me vi com um instrumento de luta nas mãos (por mais arcaico que a greve possa parecer) e dando minhas aulas fingindo estar alheio ao potencial sacrifício de parte do corpo docente, que enchia as avenidades da cidade em assembleias com 40 mil pessoas, vi que de alguma forma existiam pessoas compartilhando do meu ponto de vista, apesar de enxergarmos por ângulos diferentes. Não somos iguais, nossos anseios não são compatíveis, mas, enquanto professores e sujeitos responsáveis por uma prática social, nosso inimigo é comum. E a desunião é um passo sem volta rumo ao fracasso não só da nossa categoria mas da sociedade como um todo, que há anos sofre com a política neoliberal tucana no governo de São Paulo e sua consequência nefsta sobre a educação pública.

A assembleia no Palácio do Bandeirantes

Hoje, na assembleia, senti um alívio. Obviamente não se apagam de uma hora para outra todos os bons motivos para não se entrar em greve. Isso me fez sentir a alma dividida por um tempo. Até participar da assembleia de hoje.

Vi de perto as agressões da polícia aos professores. Senti com meus próprios olhos (não apenas vi, mas senti) o gás lacrimogênio lançado pela polícia contra nós. Com a finalidade de dispersar a mutidão e apoiado pela aquela hipótese (que sempre surge para justificar a violência policial) de que sempre há um manifestante violento (como se isso fosse o bastante para que uma mutidão seja agredida de forma descabida como aconteceu), a polícia lançou bombas de efeito moral, balas de borrada e desceu seus cassetetes sobre os professores manifestantes. Enquanto isso, após convocar uma comissão para negociar a pauta de reivindicações, a Casa Civil fazia sua proposta: só haveria negociação se os professores interrompessem a paralisação.

Em outras palavras: “enquanto o Estado espanca vocês, finjam que essa greve nunca aconteceu e TALVEZ nós, do PSDB (Pior Salário do Brasil), daremos a vocês um vale-coxinha e um corredor polonês para saírem daqui com o rabo entre as pernas”.

Recusamos. Tentaram pintar nossa cara e nos colocar um nariz vermelho (não com um daqueles de palhaço, mas com uma bela duma cassetada na cara). Não passaram. A greve continua ao menos até quarta-feira, dia 31.

E não passarão.

Presenciar (mais uma vez) a violência do Estado sobre manifestantes pacíficos me ajudou a aliviar a culpa. Aquela culpa que vem quando lembro das pobres criancinhas que querem aprender Física ou aquela que vai apertar meu coração quando ver meu holerite com meio salário a menos. Não só alivou minha culpa, mas também me deu mais força para seguir forte, acreditando que ainda vale a pena, ao menos uma vez neste mundo, lutar pelo que se acredita.

Mais:

Serra recebe professores a bomba. 16 feridos (do Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim)

O mundo bizarro de Serra (do Brasília, eu vi, de Leandro Fortes)