Resistência e política pedagógica: a importância de objetivos e estratégias

Propor-se a uma tarefa sem saber onde se quer chegar e por onde seguir é tão razoável quanto ir a uma rodoviária para viajar para onde não se sabe e sem saber como pagar o ônibus. Embora coincidências possam fazer com que a viagem aconteça, poucas pessoas se aventurariam a isso sem um mínimo planejamento.

Minha sugestão é que assumir uma ação reconhecidamente política sem ter claros seus objetivos e as estratégias para realizá-la é predestinar tal ação ao fracasso.

Tome como exemplo o trabalho de professora. Se a pessoa acredita que ser professora se resume a ensinar conteúdos de uma área de conhecimento – o que me parece ser uma visão simplista e superficial do que se faz em sala de aula – inevitavelmente vai se deparar com dificuldades que decorrem das relações de poder que permeiam a escola. Pode ter uma inspetora que está preocupada em manter boas as relações com a direção e te faz pedidos informais sem qualquer intenção pedagógica (quem nunca ouviu um “não faz isso senão complica pra mim” de um bedel?), uma vice-diretora que cobra “parceria” do corpo docente esperando que abaixem as cabeças às arbitrariedades da equipe gestora, ou ainda uma série de sujeitos do currículo (explícito ou oculto) da escola que colocam interesses geralmente pessoais em concorrência com o seu. Nesse cenário, como poderia se garantir com sucesso o cumprimento de uma tarefa a princípio simples como a de fazer seu papel em sala de aula?

O enredo fica mais complexo quando a professora se entende como um ser político protagonizando um papel essencialmente social.

É urgente a construção de uma cultura em que todas as pessoas da comunidade escolar se percebam como sujeitos políticos. É fundamental o entendimento da educação formal como uma ação política, permeada de relações de poder que exigem um posicionamento seguindo uma reflexão mínima sobre papéis, escolhas, objetivos e estratégias. Lendo Paulo Freire, Mikhail Bakunin, Silvio Gallo, Hannah Arendt, José Pacheco, Anísio Teixeira, Paul Robin, Sebastian Faurre, Pierre Bourdieu ou qualquer pessoa que tenha se proposto a pensar minimamente a escola, percebe-se que há consenso de que o ato de ensinar é essencial, inevitável e fundamentalmente político. Contudo, esse olhar sobre educação parece estar à anos-luz de distância do projeto de educação pública do Governo do Estado de São Paulo e, consequentemente, de grande parte das escolas da rede pública de ensino.

Como, enquanto professora, se relacionar com um ambiente repleto de pessoas que, alinhadas a um senso comum ou ao projeto de educação estatal, baseiam suas relações no desrespeito, na violência, na miséria ética e se alienam do magistério enquanto prática política? Ao mesmo tempo, como combater e não reproduzir os sistemas de opressão – capital, Estado, patriarcado, heteronormatividade, homolesbotransfobia, racismo, fascismo? Como não se resignar diante de tantas dificuldades articuladas e organizadas para sabotar seus objetivos políticos, barreiras impostas por gestão escolar, diretoria de ensino, secretaria de educação, política institucional, colegas de trabalho, burocracia sindical e toda a sorte de pessoas treinadas e empenhadas em te derrubar?

Não é possível alguém em sã consciência esperar que boas coincidências possam ocorrer em uma escola para que se possa cumprir com seu papel de maneira honesta e ética.

É um desafio descomunal manter seus objetivos de maneira ética no interior de um ambiente que regula um habitus fantasiado de pedagógico mas que, na verdade, perpetua a ordem das coisas. Nesse sentido, é impensável manter-se em ambiente tão hostil sem traçar uma estratégia visando objetivos políticos e pedagógicos a longo (a perder de vista), médio e curto prazo.

Pois resistência sem organização não demora para se transformar em resignação.

Acredito que, para alguém que pretenda se manter entrincheirada em ambiente escolar e ter a transformação social em seus horizontes, vale o exercício periódico de rever suas práticas e avaliar sempre que possível seus objetivos e estratégias.

A vã filosofia de um pedagogo iludido

lola51“Vamos fazer pedagogia? Curso de um ano a distancia, vai ser sussa. Sozinho não consigo fazer, se você for comigo, acho que a gente termina”. Mal me convenceu e já estava matriculado, junto a um velho amigo. Nem me preocupei em saber os conteúdos, fui descobrindo como funcionava enquanto caminhava, assim como aquele aparelho posto em uso sem ler o manual. Assim soube que deveria fazer monografia e estágio – os dois, pois um não elimina o outro. Daria mais trabalho do que pensei.

Por que pedagogia? Vários motivos: por querer conhecer a fundo os processos de escolarização, por não querer parar de estudar e por acreditar que o curso ajudaria a estruturar melhor minha prática de professor de Ciências. “Porque eu gosto” não estava na lista. Mas, depois da primeira graduação, a gente aprende que a água da nascente nunca é igual à da foz.

Trezentas horas de estágio para fazer. Cem na Educação Infantil, com crianças de até 6 anos de idade, e mais duzentas nos outros níveis. Na última semana, fiz doze horas em um EMEI. Passei todas essas horas, devidamente assinadas, sem mentira, na sala de aula. De acordo com meu parceiro de curso, a diretora deve achar que sou pedófilo, porque “ninguém cumpre todas as horas de estágio”. Caxias? Não, cumpro as horas porque comecei a gostar da ideia de educar crianças bem pequenas.

Crianças são brutalmente geniais. Não aceitam shots de felicidade, apenas grandes quantidades, aos banhos. E de piscina. “Tio, você tem piscina? Tem cachorro? Tem gato? Poxa, tio, mas você não tem nada!”, diziam elas, enquanto praticamente se revezavam me abraçando. “Tio, quantos anos você tem?”. Adivinha! “Seis! Trinta e sete! Quarenta e oito! Catorze!” Não há limites para sua curiosidade, muito menos para a criatividade geradora de suas respostas.

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E me impressionada cada vez mais pensar como nós, adultos, somos capazes de destruí-las e tirar toda sua alegria e vontade de viver enquanto elas crescem, e de nos destruirmos enquanto crescemos. Durante todo o momento que passei com elas nessas doze horas, a cada fala, a cada atividade, a cada sorriso e abraço que recebo, me perguntei como nós podemos transformar criaturas tão doces em monstros duros, secos, frios, cinzas, pasteurizados, enfim, em nós?

Deve existir uma lista interminável de processos responsáveis pela humanização das crianças e, sem dúvida, não damos conta de controlar todos eles. No entanto, é possível minimizar alguns estragos que vêm com esse pacote “humanizatório”. A escola, creio eu, deve servir para reduzir esses danos. Até então eu não acreditava que a escola pudesse cumprir esse papel – e não é preciso ir para universidade nenhuma para perceber isso, basta passar uma parte de sua vida dentro desse espaço e reconhecer que sua essência é a mesma de uma fábrica, de um manicômio, de uma prisão, de uma igreja para se desconfiar que deva ter alguma coisa errada em sua concepção e, consequentemente, em como se estruturou ao longo da História. Creio que minha descrença seja resultado de ter experimentado ser educador apenas de Ensino Fundamental e Médio, pois agora percebo como na Educação Infantil essa história é um tanto diferente. Não há aquele sinal avisando aos operários a hora de entrada e saída, da refeição e das obrigações gerais, as atividades tendem a ser absolutamente lúdicas e com baixíssimo ar de cobrança e, embora o tempo seja fracionado para a melhor organização das atividades, a docilização dos corpos e esvaziamento das mentes não tomam conta de todo o processo, embora, sem ingenuidade, saibamos que o gérmen da disciplina está lá, por se tratar de educação formal e, nesses termos, não poderia ser diferente.

Mas, como eu dizia, não damos conta de controlar todos os processos de escrotização do ser humano, por mais afiada que seja a escola, corpo docente, direção, gestão, comunidade… Sempre há uma família, uma igreja, um Estado e todas as instituições seculares para desafinar a orquestra. A soma de estímulos a práticas opressoras e preconceituosas é tão grande a ponto de extrapolar nossa imaginação. Embora seja difícil enumerar todos os responsáveis, é possível notar alguns de seus efeitos, principalmente quando as crianças reproduzem falas e ações que elas não poderiam ter inventado por si só.

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Como em um incidente ocorrido na hora da motoca, quando a quadra é tomada por triciclos pedalando ferozmente por todas aquelas miniaturas sorridentes de pessoa. Alguma das crianças teve a brilhante ideia de brincar de polícia. Não era polícia e ladrão, como no meu tempo, mas simplesmente polícia. Minutos depois, surge uma delas chorando. “Tia, o Fulano me bateu no meu nariz”. Toca chamar o Fulano. “Querido, fala pra gente por que você bateu no Sicrano”. De cabeça baixa e semblante fechado – crianças de cinco anos não mentem, a não ser que estejam brincando – Fulano responde, sério e prevendo a repreensão: “É que a gente tava brincando de polícia, e aí eu bati nele”.

Elas são pequenas máquinas de aprender, não precisam estar enfurnadas num calabouço, sentadas em carteiras rígidas e com um pedaço de papel na frente, seguindo ordens de ditos superiores, para aprenderem a reproduzir aquilo que vêem todos os dias. Crianças aprendem onde e com quem estiverem, sem discriminar o que deve ou o que não deve ser aprendido. Parece-me que cabe a nós, adultos e limitados que somos, buscarmos maneiras de se garantir que essas crianças não se deformem como nos deformamos e nos deformaram. Talvez consigamos cumprir com esse objetivo se criarmos um espaço de convívio livre de nossos vícios e em que se estabeleçam condições básicas (ou princípios) para que crianças sejam pelo resto da vida aquilo que elas de fato deveriam ser: simplesmente crianças.

O papel da escola

Quando o objetivo é defender determinado ponto de vista, normalmente os pressupostos que alicerçam o discurso da defesa ficam escondidos em um quarto ermo e escuro. É como se costuma fazer com aquele tio mais velho que a família evita ao máximo ter presente nas noites de Natal. Os mais velhos sabem por que querem esse tio escondido, enquanto as crianças nem sempre sabem, mas acabam se acostumando, conforme crescem, com a ideia de que é melhor para a família que aquele tio fique à parte da festa.

Há alguns pressupostos para a defesa da escola e de seu papel social que me interessam, embora pareça ser uma perda de tempo lidar com esse assunto. Alguns preferem não refletir acerca de tais pressupostos, pelo mesmo motivo que os parentes preferem esconder o tio, enquanto outros sequer imaginam que os pressupostos são pressupostos e não verdades, com a mesma ingenuidade das crianças que se divertem com a situação do tio que traz vergonha à familia.

Às vezes me parece que os pressupostos do papel da escola para a nossa sociedade sofrem desse mal, pois é praticamente impossível encontrar alguém que questione esse papel. Não só o senador Cristóvão Buarque acredita que a educação seja o único caminho para tornar digna a vida do brasileiro, e que a escola é um mecanismo nobre de socialização. Há quase um consenso entre os mais humanistas de que oferecer escola de qualidade a todos é fundamental para emancipar os cidadãos, dando a cada um condições de serem atuantes sociais, responsáveis por transformar a realidade na qual estão inseridos.

Será que educação e escola são tão importantes quanto se acredita? Será o ensino um bem cultural tão bom quanto acreditamos? Será a escola uma instituição capaz de fornecer a satisfação individual que dela se espera? É tão óbvio que a escola melhora as pessoas, ou estaria eu cometendo um pecado questionando o papel social da escola?

Antes de profanar o papel da escola tentando responder a essas questões, aparentemente menores e impertinentes como a das crianças, há uma proposição que precede qualquer pressuposto para a escola como se conhece atualmente: a escola não respeita as diferenças de seus alunos. A escola, em sua essência, é uma instituição que foi criada com o intuito de homogeneizar seu público alvo. A escola dos jesuítas surgiu para domesticar os indígenas; a escola do século XIX e primeira metade do século XX serviu para formar elites pensantes, dando a seus alunos todos os bons modos que eram de se esperar de sua estirpe; a escola financiada pelo Estado constrói seu currículo, por mais humanista que seja sua aplicação, pensando em docilizar seus alunos, no processo de formação cidadã, dando a ele um comportamento civilizado. Enfim, a escola é um dos mais poderosos mecanismos de subjetivação que se tem notícia na história da humanidade: é ela que forja os sujeitos de acordo com as expectativas e o contexto.

A princípio, não há nada de bom nem ruim na subjetivação: esse é um processo mediador de basicamente todas as relações humanas. A publicidade pressupõe um sujeito ao produzir o material que veicula a informação desejada, a empresa que fabrica detergentes neutros sabe que alguns de seus usuários têm alergia aos tipos alternativos e por isso não pode tirar de circulação os sabores para os alérgicos; o pessoal de RH sabe muito bem quem contratar para sua empresa; o segurança de shopping, com alguma experiência, sabe quem serão os clientes que poderão causar maiores problemas aos interesses de seu patrão. Para cada relação, institui-se um sujeito com o qual se interage.

O interessante de se notar é que não só existe a expectativa de um sujeito com o qual se espera lidar em cada situação, mas também existem mecanismos responsáveis por produzir os sujeitos que satisfaçam essas expectativas.

Ao assistir um comercial do governo federal falando sobre a importância do voto consciente, é automática a associação da publicidade como mecanismo forjador de cidadãos que correspondem ao interesse do governo. Em época de eleições surgem propagandas pregando aos cidadãos sua responsabilidade de ter a consciência que o governo deles espera e, portanto, que não devem se abster da obrigação de votar.

O mesmo ocorre em uma campanha anti-fumo. Nela, o consumidor de hoje é pressionado a seguir o exemplo do cidadão comprometido com o progresso – uma pessoa saudável, que siga as leis e que seja capaz de consumir e contribuir com impostos, trabalhar e adiar sua aposentadoria o máximo de tempo possível, portanto longevo. E como o governo seria capaz de intervir na vida das pessoas se não fosse por propagandas, campanhas publicitárias e pela escola?

Insisto em manter o maniqueísmo afastado dessa reflexão. Se os processos de subjetivação são a princípio bons ou ruins, depende do ponto de vista de quem o está a analisar. Há quem prefira trocar a possibilidade de viver mais por alguns prazeres mundanos, enquanto há os que não abrem mão de um bom e gorduroso bife de picanha ao invés de se submeterem à norma cada vez mais comum que praticamente obriga a todos terem um corpo magro, com IMC médio de 25 e capaz de viver até os 120 anos de idade, por mais dolorida, limitada e rotineira que seja essa vida. Sujeito são e dócil versus sujeito hipertenso e autônomo: qual é bom ou ruim? É óbvio que cada um tem sua resposta, e não tenho dúvidas de que a minha aqui não interessa. (Fica a dica: não dou ouvidos ao doutor Dráusio Varela em hipótese alguma).

E é justamente na construção de sujeitos que se insere a escola. Não há um modelo de escola que pense em respeitar as diferenças de todos os alunos ao mesmo tempo. Há modelos mais democráticos ou até mesmo libertários que têm como premissa a autonomia do aluno em sua formação, tanto no final quanto durante o processo. Nessa situação, o aluno tem espaço para escolher o que aprender e como aprender – é o caso da Summerhill School, na Inglaterra, idealizada por Neil e inspirada na visão de mundo do psicanalista Wilhelm Reich, entre outras em vários pontos do mundo, como EUA, Israel, inclusive várias em São Paulo. No entanto, não há por que acreditar que qualquer indivíduo deve se ajustar a esse sistema. Um desajustado social, que, digamos, não seja muito afim dos direitos humanos ou adepto de violência gratuita, dificilmente conseguiria (isso é pura especulação) conviver em um ambiente como esse, pois seria possivelmente rotulado como dotado de algum distúrbio psicológico ou rejeitado pelas pessoas de tal escola. É inevitável que um aluno mais violento que o normal seja expulso ou impedido de participar desse processo de formação. Isso mostra que a escola, libertária, estatal ou privada, não respeita todas as diferenças entre as pessoas, embora cada um estabeleça graus diferentes de aceitação do diferente.

E isso não é absolutamente um problema! Se neste ponto você está pensando “mas é óbvio que uma pessoa violenta não deve ser respeitada!, ela deve ser submetida a um tratamento para se tornar capaz de conviver em sociedade”, então estamos concordando que a escola, assim como os manicômios, hospitais, prisões, orfanatos, serve para homogeneizar as pessoas, fazê-las mais capazes de viver em sociedade. Não quero dizer que a escola seja ruim ou boa por seu caráter pasteurizador, mas sim que esse é um princípio indissociável da escola: ela pressupõe um sujeito – no caso, sociável – e investe seu tempo para produzir cidadãos que pensem como tal. Portanto, se no final do processo de escolarização as pessoas devem ser sociáveis, não faz sentido esperar que a escola queira formar pessoas com dificuldade de socialização. Essa é uma forma de dizer que a escola não respeita as diferenças entre as pessoas, pois serve justamente para acabar com tais diferenças.

Não acredito que a escola esteja fugindo de seu propósito, que a educação esteja em crise ou que seu papel está sendo deturpado por interesses adversos. A escola forja sujeitos normais, dociliza os corpos. A questão é até onde seus alunos podem ter suas singularidades respeitadas, manifestarem suas diferenças. Mas esse é tema para um futuro texto.