Os pequenos fascismos de nossa vida cotidiana

Sou diariamente pressionado a não confrontar a imposição da ordem das coisas. É como se a todo momento eu estivesse em um rodamoinho, num vórtice do qual eu não consigo escapar por mais que eu dê braçadas ou busque recursos para dele me desprender. Não um vórtice líquido, mas etéreo, de uma matéria que, mesmo sem existir, me captura e me transforma na própria matéria. Como se, além de ser vão ou inadequado confrontar o que me oprime, fosse necessário reproduzir a própria ordem e confrontar quem confronta a ordem imposta. Como se fosse uma regra da qual não se pode fugir.

Questionar a tetrapakzação da vida é ser chato, impertinente, inadequado, indisciplinado, errado, egoísta, incivilizado, intolerante, desrespeitoso, amoral, insociável, desajustado. A imposição não está numa repressão física imposta diretamente ao meu corpo. Ninguém me põe uma mordaça ou me amarra para me impedir de ter uma vida diferente. Mas a simples indisposição das pessoas em entender que meu modo de ver e viver o mundo é diferente do hegemônico é constrangedor. É nas pequenas ações, nas afirmações sem compromisso que se fabrica discursivamente o modo de vida hegemônico como um aspecto da inevitabilidade, natural e anterior a qualquer desejo, a qualquer construção, a qualquer vivência.

“E aí, até quando vai continuar enganando sua namorada e se casar?”, “quando você vai ter uma vida de verdade e constituir família?”, “como assim, você só trabalha oito horas por semana?”, “se não votar vai ganhar o quê com isso?”, “quando você vai deixar de ser rebelde e viver a vida?”, “nem parece adulto”, “quando vai deixar de viver como adolescente?”, “quanta viadagem, nem parece homem”, “quando vai honrar o pau que tem entre suas pernas?”. Amenidades que constrangem e imputam um modo de vida pré-fabricado. E oprimem.

QuinoLazzarini

As diferenças serão apagadas em breve. O diferente vai deixar de ser uma alternativa válida e produtiva. O cinza tende a prevalecer sobre tudo o que não for cinza. Expressões, olhares, falas insignificantes e despretensiosas de nossas vidas materializam o fascismo que transforma a invariabilidade de algumas formas de vida na inevitabilidade de uma forma de vida. O efeito é a destruição de qualquer possibilidade de aceitação da diversidade e do questionamento de um modo de vida hegemônico, seja ele o atual ou o que está para ser forjado por quem garante seus privilégios por meio de todos os sistemas de opressão que medeiam nossas relações.

O hegemônico exclui o diferente sem precisar levantar prisões/escolas/fábricas/hospícios para enjaular os desajustados e discipliná-los. Há uma multidão que se alinha à suposta ordem natural das coisas, e uma multidão bem disposta a constranger qualquer prática diferente da sua. Fugiu à regra? Descarte. Sem chance de errar, pois não se pode cair da esteira da linha de produção de nossas vidas. A multidão está lá, pronta para dar conta de lhe apontar os erros, por mais acertados que sejam seus erros.

É uma multidão sem história, sem genealogia, repleta de pressupostos inquestionáveis. Sem hipóteses, mas cheia de verdades e certezas.

Essa multidão pressupõe que a Natureza está pronta, que o que é dado é imutável, que se as coisas têm sido assim nunca serão de outro jeito. Não questiona a suposta imutabilidade, não se perguntam sobre o que é de fato imutável, por que é imutável, quando é imutável.

Pressupõe que a seleção natural é igual à seleção social, e ambas são leis anteriores ao surgimento do Universo. Não questiona se essa lei foi de fato descoberta por pessoas iluminadas ou se pessoas quaisquer inventaram uma lei supostamente natural legitimada por nós que não a confrontamos.

Pressupõe que existe o Belo, uma verdadeira beleza primordial, uma estrutura regular, ordenada e simétrica da qual nos afastamos por não aceitarmos a necessidade do progresso e do desenvolvimento. Como se o modo como pensamos não fosse uma construção histórica, mas sim uma propriedade humana de natureza inexorável.

Pressupõe que as mulheres são dos homens e os homens têm as mulheres, que homens e mulheres têm seus papéis sociais ditados pelos cromossomos, que não existe outros gêneros que não correspondam a esse binarismo compulsório. Não questiona se é natural ou naturalizada a correspondência de nossas práticas a essa matriz de sexo/gênero inventada para perpetuar o sistema patriarcal.

Pressupõe que crianças, jovens, adultos e idosos têm papéis naturais, distintos e inevitáveis. Não põe em cheque a suposta justificativa das privações às quais crianças e pessoas jovens, adultas e idosas são submetidas, se são inerentes à própria condição ou resultado de uma construção histórica de relações assimétricas em que a idade tem uma relação forçada com todo e qualquer comportamento.

Pressupõe que viver é não morrer, e manter a ordem biológica da vida é tudo o que há de mais importante, e as necessidades biológicas são suficientes e justificam todo o resto. Como se vivência e sobrevivência fossem sinônimos.

Pressupõe que é inevitável a linearidade da vida ordinária – nascer, crescer, ir pra escola, virar pessoa adulta, trabalhar, ganhar dinheiro, comprar um carro, namorar, casar, comprar o próprio imóvel, ter filhos, envelhecer, mudar pro interior, morrer. Como se não fosse possível questionar esse script divino, pronto e formatado como se todo humanoide devesse seguir os mesmos passos, uma vez que todos têm pernas. Como se a vida fosse um bingo, o qual ganha quem marcar todos os quadradinhos da cartela dada na entrada.

Pressupõe que o trabalho enobrece, e quanto mais se trabalha melhor se é. Mesmo que não se goste do próprio emprego, se estresse, se submeta à falta de dignidade e à exploração imposta pelas relações de trabalho, se produza para alguém que não precisa da sua produção, se escravize.

Meu modo de vida não se alinha a qualquer um desses pressupostos.

Acreditei por um tempo em ser agente de uma missão em até certo ponto metafísica, na qual deveria eu levar algum tipo de palavra contra-hegemônica às pessoas mais próximas. Era uma tentativa quase messiânica de capitalizar as pessoas em prol de um modo de vida como o meu e provocá-las aos mesmos questionamentos que eu tenho sobre a rotina a qual nossas vivências nos aprisionam. Pura evangelização. Deixei de acreditar nesse modo de ação e na filosofia invasiva por trás dele. Se deve haver alguma coerência entre discurso e prática, que seja entre a descrença em qualquer metafísica homogeneizadora, ou em um Além determinante que deveria minimamente servir como referência para um conjunto de comportamentos, e o exercício da autonomia das pessoas sobre suas próprias vidas.

Desisti de levar o evangelho aos outros povos, mas do meu modo de vida não abri mão. Questiono absolutamente tudo o que me parece pressuposto e coloco à prova o que me parece conflitante com alguns princípios que tomo para mim como básicos. Esse exercício passa a ser minimamente interessante quando se passa a perceber como há uma série de construções sociais às quais tendo me aparelhar, condicionar, me tornando mais uma pessoa em uma massa pasteurizada, homogênea e embalada hermeticamente como um produto em um tetra pak, milimetricamente cúbico, igual, sem impurezas, industrializado, geneticamente modificado, com um selo de garantia ISO 9001, com prazo de validade e com meu valor e impostos estampados no lado de fora.

Não quero convencer ninguém de que as pessoas devam abandonar suas vidas para viverem como eu. Meu desejo é o de poder ter autonomia sobre meu desejo, minha vida, meu corpo e tudo o que preciso fazer para me satisfazer de acordo com princípios que tento aplicar em minhas práticas sociais. A utopia (ou impossível, para algumas pessoas – não eu) não é o desejo de que as pessoas sigam o mesmo modo de vida que o seu – o que por si só recai nos pequenos fascismos de nossa vida cotidiana. A utopia reside no desejo de que as pessoas pelo menos entendam que existe não um único, mas muitos e diferentes modos de se entender e praticar a vida, e respeitem a diferença.

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