IX Encontro Latinoamericano de Organizações Populares Autônomas

O IX Encontro Latino-Americano de Organizações Populares Autônomas ocorreu em Jarinu/SP nos dias 22, 23 e 24 de janeiro de 2011.

Estiveram presentes membros de organizações de diferentes nacionalidades – além da absoluta maioria brasileira, uruguaios, chilenos, argentinos e haitianos também participaram.

O Encontro busca promover a integração das organizações autônomas da América Latina a partir do debate de temas pontuais indicados pelos ELAOPAs anteriores. Ao longo dos três dias, os participantes se dividiram nas comissões sindical, comunitária, de cultura e comunicação, de educação, estudantil, gênero/raça/etnia, muralismo e de questão agrária e ecologia. No terceiro dia, cada comissão fez ao público um relato dos debates e das propostas levantadas, discutidos em assembleia a fim de ser concretizado até o próximo ELAOPA.

Tomou-se como tema transversal a todas as comissões o IIRSA, Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana, uma espécie de Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) sulamericano.

Palestra sobre o IIRSA

O caráter libertário do encontro atrai pessoas ligadas a movimentos com a mesma orientação e acaba por afastar organizações socialistas marxistas, partidos e ONGs. Apesar disso, membros da AJR e UJS marcaram presença, embora em um número muito pequeno. Logo, a maioria do público era composta por anarquistas e libertários. Ação direta, democracia direta, autonomia e autogestão acabaram sendo expressões comuns nas discussões.

Acompanhei duas comissões: a comunitária e a de educação.

Comunitária

A comissão comunitária, voltada para a discussão de movimentos de bairro, levantou a falta da continuidade de trabalhos comunitários, normalmente interrompidos por motivos dos mais diversos. A realidade desse trabalho sofre com o comum esvaziamento de organizações, que iniciam com pessoas interessadas, mas que por seus motivos abandonam o movimento, prejudicando sua continuidade. O problema é que parece não haver muita solução a não ser ressaltar a importância da perseverança que os ingressantes do movimento devem ter para não prejudicar a atividade do grupo.

Outro ponto levantado pela comissão foi a dificuldade de fortalecer a rede de luta das comunidades e bairros. Criar uma estratégia que permita unificar as lutas é um processo ainda em construção e possivelmente sem uma fórmula para concretizá-lo, a não ser pelo estabelecimento de uma comunicação eficiente – encontros desse tipo cabem aqui como exemplo.

As conversas da comissão comunitária foram todas novas para mim, dada minha pouca ou nenhuma experiência com grupos desse caráter; por mais que eu tenha visitado ocupações e espaços autônomos, nunca participei efetivamente de um coletivo a ponto de saber quais as questões normalmente enfrentadas por esse tipo de organização. Já na comissão de educação, estive ambientado e a par dos discursos manifestados a ponto de poder tecer algumas críticas ao desenvolvimento do processo, mesmo sem ter participado da comissão no dia anterior.

Educação

A leitura do relato elaborado no primeiro dia explicitou o senso comum que pauta o debate político acerca da educação em quase todos seus fóruns, seja em uma reunião de professores e educadores, seja em um encontro como esse.

O debate do segundo dia se prendeu à melhor definição do termo educação popular – um dos temas propostos para essa comissão, junto de educação formal e cursinhos pré-vestibular/universtiários. (Pré-vestibular é diferente de pré-universitário visto que este propõe não apenas um bom desempenho na prova, mas também levar o aluno à vida e ao ambiente universitário desde cedo, como parte de sua formação). Detalhar a definição do termo educação popular, de acordo com os membros da comissão, pareceu pertinente por garantir os caminhos a serem percorridos pela comissão no futuro. Assim, a discussão foi norteada por uma educação transformadora, para o trabalhador, catalizadora do processo de criação do poder popular, um espaço que privilegie a educação libertária (tomando como princípios autogestão, autonomia, ação direta, classismo, democracia direta e formação integral).

Tenho um problema quanto a essa perspectiva, que mostra uma clara preocupação com o caminhar e não com o ponto de chegada. Fica a impressão de que todos estão preocupados em saber como resolver a educação, enquanto seu papel social fica hermeticamente isolado em uma sala escura, intocado. Talvez a educação não tenha mesmo um problema; talvez transformá-la e pautá-la em princípios libertários leve-a do nada a lugar algum, continue desrespeitando as diferenças e individualidades de todos nós. Ao meu ver, respeito às diferenças é um pressuposto importante apesar de ausente em todas as discussões das quais tenho participado.

Escreverei em breve mais sobre essa comissão, tocando no assunto do respeito às diferenças.

Uma das propostas criadas foi a de se criar um fórum a fim de se debater online a educação.

Visão geral do encontro

Alguns debates parecem ser ainda muito crus se comparados aos que permeiam, por exemplo, encontros estudantis. O debate para se decidir pela articulação ou não de encontros regionais ou nacionais entre o latinoamericano deixa esse ponto de vista explícito. Isso pode ser causado pela juventude do evento, que tem apenas dez anos, ou pela própria estrutura horizontalizada do debate.

Intervenção da comissão de gênero/raça/etnia na assembleia final do Encontro

Outro exemplo foi a típica perda de foco das discussões, muito comum em encontros de todos os tipos. Apesar da preocupação com a perda de foco ter dado origem aos textos disparadores criados para orientar as comissões, os temas e propostas ainda estão muito abertos. Isso leva a conversas extensas e pouco propositivas, como no caso da comissão de educação.

Foi difícil amarrar o tema transversal (IIRSA) aos temas das comissões. No caso da comissão de gênero/raça/etnia (tema tão aberto a ponto de ser tomado como transversal em futuros encontros, o que foi sugerido por seus integrantes), a distância se dá pela amplitude das duas questões, o que faz com que ligar ambos os temas pareça ser por demais forçado. Nas outras comissões, embora com temas mais próximos da questão da integração da infraestrutura sulamericana, a dificuldade não foi diferente. Isso deve expressar como esse evento ainda engatinha e tem ainda muito a se desenvolver em termos de encaminhamentos, uma vez que os debates ainda não estão fechados o suficientes para serem articulados com um tema transversal importante como o IIRSA.

Mas a perda de foco e entraves em questões relativamente simples não é necessariamente um problema. É muito mais prudente fazer muitos encontros com debates relativamente longos do que se meter os pés pelas mãos, dar passos além das pernas e se perder uma oportunidade valiosa de se estabelecer uma rede coesa de movimentos libertários. Isso é importante enquanto alternativa ao modelo de resistência e luta popular vigente, atualmente liderado por braços estatais, ONGs e outras instituições. Tal importância se dá não só em termos de organização dos próprios movimentos mas também de resultados práticos, uma vez que nada garante que um modelo de resistência deve ser mais eficiente do que outro (pelo menos a priori), justificando a investida de organizações populares autônomas contra a ordem social.

Ao redor do mundo, protestos no 1º de maio. E no Brasil?

O Dia Internacional do Trabalhador é consequência da luta por melhores condições de trabalho em todo o mundo. Infelizmente, no Brasil há pouco espaço para a cultura de valorização do trabalhador, o que faz a importância dessa data passar desapercebida.

No final do século XIX, as manifestações, fortemente influenciada por anarquistas, se espalhavam por todo o mundo. Na época, as leis trabalhistas que hoje conhecemos não existiam a não ser nas reivindicações dos trabalhadores da época. As jornadas de trabalho eram de até 18 horas, os trabalhadores não tinham folgas nem mesmo indenizações por mutilações resultantes das péssimas condições de trabalho, entre inúmeros outros abusos aos quais os patrões submetiam seu empregados.

Foi em Chicago, no dia primeiro de maio de 1886, que sete pessoas foram mortas por policiais em um protesto. Três dias depois, em um ato exigindo providências contra responsáveis pelas sete mortes, após a tentativa da polícia de dispersar a multidão, uma bomba explodiu no meio da polícia, matando sete oficiais e ferindo dezenas. A polícia abriu fogo contra a população, matando centenas. O Estado abriu um processo, prendeu os supostos envolvidos nas mortes dos policiais e, em um julgamento manipulado, foram todos condenados.

O Primeiro de Maio passou a ser marcado por manifestações a favor da libertação dos anarquistas que haviam sido presos naquela situação e pela redução da jornada de trabalho para 8 horas. Para saber o desfecho dessa história e mais detalhes sobre ela, clique aqui. Desde então tornou-se um dia de mobilização. Aqui no Brasil, ele é comemorado desde 1894 e tornou-se feriado em 1925.

Ao redor da Terra, o Dia do Trabalho costuma ser marcado por protestos. Na Inglaterra e em outros países europeus, por exemplo, as pessoas costumam se preparar para esse dia, ou se mobilizando para irem às ruas reivindicar direitos ao povo e aos trabalhadores, ou simplesmente protegendo suas casas – reforçando suas janelas, portas e protegendo suas casas.

No Brasil, acontecem comemorações. Festas, shows, eventos para lembrar que a população deve ficar feliz com o que tem, como se fosse o bastante. Mas não é. Basta perceber que o trabalhador brasileiro só não é mais estressado que o japonês, é mau remunerado e tem seus direitos arrancados e ameaçados a cada dia que passa.

Há uma série de motivos para comemorarmos o Primeiro de Maio, isso é inegável. Mas não podemos esquecer que muitos lutaram e morreram (dentre eles, anarquistas, trotskistas, leninistas, maoístas e muitos outros “istas”) para que pudéssemos ter hoje o mínimo de condições dignas de trabalho.

Um viva a todos que lutaram, lutam e lutarão nessa data de dor e glória.

Hoje o Autônomos FC completa seu quarto ano de existência. Deixo aqui meus parabéns a esse time de várzea, ao qual sou muito grato por ter me acolhido.

Venceremos!

O vídeo tem um pouco mais de 8 minutos, mas vale assisti-lo até o fim. Pode parecer mais um vídeo de Discovery Channel, com leões atacando búfalos. Não é. É muito mais interessante, pode acreditar, pois o desfecho é algo raríssimo, senão inédito aos olhos humanos.

É possível nós, humanos, reagirmos da mesma forma que os animais no vídeo? Se sim, seria uma ação pensada ou instintiva?

Não sei vocês, mas espero pelo dia em que agiremos todos como os búfalos que atuaram nessa cena fantástica.

Em tempo: de acordo com a Wikipedia, esse vídeo venceu uma premiação no youtube.com, onde foi assistido mais de 40 milhões de vezes até junho de 2009, e teve um documentário a ele dedicado pela rede de tevê ABC.

Doações no mundo musical

Já pensou em recompensar um artista de quem você gosta muito de outra forma que não seja comprando um cd ou indo a um show? Me ocorreu que enviar dinheiro diretamente ao músico ou à banda possa ser uma boa opção.

Há pouco mais de um mês baixei Contra Todos, último cd do Dead Fish, banda de hardcore do Espírito Santo. Gostei tanto que fiz questão de enviar alguma quantia em dinheiro para eles ao invés de comprar qualquer tipo de material deles.

Fiz a proposta ao Alyand, baixista da banda, com quem troquei alguns emails. Ele não gostou da ideia de doação. Disse que o encarte é legal e o cd foi feito de coração, e me incentivou a ir até a loja e comprar o redondo.

Respondi: gostaria muito de fazer uma doação pelo o que vocês representam não só para o cenário musical no Brasil mas também pela ideologia que o seu trabalho traz em si e sua importância na formação política da juventude que dá ouvidos ao Dead Fish.

Do ponto de vista global, a cultura de doações é uma alternativa para tornar o mundo musical sustentável ou até mesmo para um novo modelo de mercado, como mais um canal de vocês com os fãs sem a necessidade de um banco atravessar nossa relação e lucrar às nossas custas (pelo menos em um futuro próximo).

Do ponto de vista pessoal, não coloco um cd em um player há anos principalmente por ser mais prático baixar um álbum do que ripá-lo. E não posso comprar um objeto e ajudar a produzir mais plástico sendo que não vou usá-lo. A arte de fato me interessa, gostaria de poder apreciá-la, mas não me interessa tê-la.

Peço desculpas, mas não posso comprar o cd de vocês. Ainda assim faço questão de contribuir com seu trabalho. Espero que esteja aberto a essa troca de ideias.

No final das contas, o rapaz acabou aceitando apesar de ainda não gostar de doações com esse caráter. Disse que os 70 reais que depositei em sua conta depois de nossa conversa serão doados a um amigo que está desempregado há algum tempo.

Acho essa cultura importante para que a cena musical independente sobreviva e, por que não?, se torne autogestionável num futuro próximo.

Atualização: Conheça também o Free Activist Records, um selo anarquista baseado em doações, e o Jamendo, mecanismo para download de músicas que oferece o recurso de doação aos artistas livres.