Quando a PM faz do mundo um picadeiro

É praticamente inquestionável a necessidade da Polícia Militar para nossa sociedade, principalmente quando se trata de sua função “legítima” de garantir a segurança e a ordem social. Inclusive corre-se o risco de ser punido quando se duvida da integridade moral de um policial ou até mesmo da própria Corporação. No entanto, pouco se questiona seu monopólio da violência e seu abuso arbitrário da força em situações diversas.

Se, de acordo com o artigo 1° da Constituição Federal, todo poder emana do povo, por que as manifestações políticas são reprimidas violentamente? Manifestações não são garantias do povo reivindicar do governo a postura que achar necessária? Ou a “festa da democracia” se resume àquela piada que acontece a cada dois anos chamada de eleições? Se existem orientações para se reprimir/dispersar uma manifestação e agredir qualquer pessoa envolvida em passeatas, por que a polícia mente e esconde esse objetivo?

Refiro-me ao ocorrido nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes: a polícia infiltrou um PM à paisana (P2) na manifestação dos professores estaduais, na sexta-feira dia 26 de março, e tentou de todas as formas mentir sobre esse policial infiltrado.

A foto do P2 foi publicada nos jornais, que acreditavam que o cidadão barbado (como raramente se encontra um PM) e carregando no colo uma policial ferida seria um professor.
A Secretaria de Segurança Pública desmentiu a imprensa, afirmando que o suposto professor era na realidade um policial à paisana em operação na região. Essa foi a primeira versão do governo frente ao fato.

A segunda versão da PM dizia que o P2 não estava em serviço, mas sim passando pela manifestação por acaso.

Na terceira versão, contrariando as duas anteriores, a assessoria disse que o P2 “estava no local, não disse o que estava fazendo”.

Mas a Apeoesp jogou areia e apagou a mentira contada pela assessoria da PM, confirmando que o P2 estava em serviço, tanto que subiu em um ônibus de professores em Osasco que se dirigia à assembleia.

Por que todo esse esforço da Corporação para mentir sobre esse P2 em serviço? Se a PM  está seguindo a lei e obedecendo ordens, por que esconde a motivação de infiltrar um P2 na manifestação?

Esse é apenas dos episódios em que tentam fazer o povo de palhaço ao esconder vergonhosamente um fato de interesse público – como os familiares que tentam esconder às pressas aquela tia que só os envergonha, na ilusão de que as visitas nunca tivessem notado sua presença; como se fôssemos ingênuos a ponto de não percebermos a tentativa de criminalizar o movimento dos professores – ou haveria outro motivo para esconder a verdade sobre o P2? O papel da Polícia Militar deixa de ser meramente repressivo, passando a ser também cômico e revoltante ao mesmo tempo. Tentar esconder a verdade sobre o P2 de forma atrapalhada como foi feito não é apenas hilário mas também um insulto ao cidadão paulista.

A PM, que se esconde atrás da falaciosa defesa da ordem em favor de um progresso – enquanto existe para fazer valer a vontade de uma elite estabelecida – nos deliciou com essa cômica peça circense. Como se não bastasse, mostrou que não são apenas alguns de seus peões isolados os únicos sujeitos a desonestidade: não há garantia de que essa instituição tenha qualquer comprometimento com a verdade.

Se precisam de uma instituição para reprimir manifestações democráticas, abram o jogo e mostrem para que a PM foi criada e por que ainda existe. Mas não nos coloquem na plateia de uma ópera-bufa como essa. É um insulto à nossa inteligência.

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Infiltração e repressão: Serra repete práticas de Yeda, da Agência Carta Maior

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O quarto poder e a defesa das elites

Não existe mídia imparcial. Sempre há interesse por trás de qualquer manifestação humana. Toda informação é manipulada por quem a transmite, pois é limitada pela linguagem empregada na transmissão.

Aqui há um vídeo ótimo feito por secundaristas, que trata das ferramentas da mídia para manipulação de informações. Ele mostra como mensagem transmitida pode tomar um formato que corresponda ao interesse de quem a veicula.

No entanto, essa imparcialidade pode ser utilizada de maneira perversa, servindo como mais uma forma de poder estabelecido de quem comanda os meios de comunicação.

Da teoria para a prática: temos, infelizmente, muitos exemplos de como a imprensa nos trai com informações não confiáveis, formatadas de modo a esconder verdades que vão de encontro ao interesse dos detentores dessa mídia. Em nome de uma pequena elite, se aproveitam dos meios que têm para enviesar os fatos.

Seguem quatro episódios desse semestre que me chamaram a atenção.

Em 25 de março foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) a operação Castelo de Areia. Nela, foram presos diretores da construtora Camargo Corrêa. No relatório da investigação levada pela PF, surgem nomes de partidos – PSDB, DEM, PPS, PMDB, PSB, PDT e PP – que teriam recebido doações ilegais para suas campanhas eleitorais. Não, o PT não foi citado no relatório. Ainda assim surgiram matérias – pelo menos um ou dois frutos de um esforço descabido da imprensa marrom, associando o PT e mais dois partidos às irregularidades da construtora, mesmo não existindo nenhuma evidência dessa associação.

De quem é o interesse de levantar uma suspeita que não existe?

Antes de responder, vamos ao caso da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

A Veja, via Diogo Mainardi (o que se tem de pior na história do jornalismo), lançou suspeita sobre Vitor Martins, diretor da ANP; disse que Martins “se valeria de seu cargo para direcionar os pareceres da ANP sobre a concessão de royalties do petróleo, favorecendo as prefeituras que aceitassem contratar os préstimos” da empresa da qual é sócio. Cita ainda um relatório da PF (na verdade, um relatório paralelo da operação Royalties e não o relatório final) que conteria dados que indicam o conflito de interesses do diretor Martins. No entanto, esconde que quando Martins passou a dirigir a ANP já não tinha qualquer vínculo com a dita empresa de consultoria. Ou seja, não há nem mesmo conflito de interesse para respaldar a acusação. Nassif em seu blog (aqui, aqui e aqui) destrincha muito bem o papel de Mainardi nesse ataque descabido.

Por que acusar alguém com tanto ímpeto sem qualquer indício de crime?

Essa resposta não é tão difícil e tem relação com a pergunta anterior. Evidências de fraude podem impulsionar uma nova CPI (por exemplo, da Petrobrás) contra o governo. Caso os governistas insistam no caso da construtora, a oposição pode usar a CPI em um contra-ataque. Conspiracionismo? Poderia ser se o próprio Mainardi, pau-mandado das elites (veja o que ele não faz pelo Daniel Dantas), já não tivesse feito o favor de reivindicar a investigação contra o atual governo. Esse método não é novo: há alguns anos usou-se o mensalão – cultura secular da qual o PT levou toda a culpa – e agora tem-se uma potencial CPI da Petrobrás, cujo álibi é Vitor Martins e uma fraude que não existiu.

Exemplos de factóides criados pelos grandes jornais e revistas. Impressionantes, ainda assim não únicos.

Há ainda a velha blindagem do PSDB em SP: ninguém fala das irregularidades no governo Serra. Já citei algumas em um post antigo, insisto em uma delas aqui. Por que nosso governador permite o gasto estatal de R$ 3,7 milhões, da pasta da Educação de SP, com 220.000 assinaturas de revistas da editora Abril sem abertura de licitação? O governador alegou que as revistas Recreio e Nova Escola são as únicas publicações na área de educação de interesse dos professores da rede estadual. Mentira. Não bastasse a decisão do ano passado, começou o mês de abril anunciando um novo gasto com 5.449 assinaturas de Folha de S. Paulo e Estadão.

É de interesse de todas as escolas de SP assinarem esses jornais? Quem terá acesso aos exemplares? São as melhores mídias? Contêm as informações mais confiáveis que os núcleos escolares devem ter à sua disposição? É muito raro encontrar qualquer citação ou crítica a essa má utilização de recursos públicos e irresponsabilidade no uso da máquina estatal, em benefício de interesses privados.

Nesse caso não há informação manipulada, apenas não veiculada. Peca-se pelo silêncio.

Mas o que se faz com a Operação Satiagraha é, ao meu ver, o mais impressionante dos quatro exemplos. Essa operação da Polícia Federal ameaça o poder do banqueiro condenado Daniel Dantas e de todos (e não poucos) que dele se respaldam para ter um lugar ao sol na política e mercado nacionais. A estratégia de defesa empregadoa pela legião de advogados do banqueiro é ilegitimar a investigação da PF, apontando uma série de possíveis irregularidades e contaminações ao longo de seu curso. A Justiça julgou algumas delas e as apontou como inconsistentes. Os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo (salvo poucas exceções) seguem os mesmos passos e insistem em atacar o acuado Protógenes Queiroz, delegado que liderou as investigações. Percebam: não querem inocentar Dantas usando fatos que provem sua inocência, mas sim com a destruição de fatos que provem sua culpa. A ficha de acusações que o “orelhudo” (como diz a CartaCapital em sua bela cobertura do caso) carrega é antiga e longa. O “problema” é que, enfim, o dono do grupo Opportunity foi condenado e preso, embora tenha sido libertado duas vezes pelo presidente do STF.

Qual a função da grande mídia no cenário em que Dantas tem o papel principal? Revistas (Veja, Época e IstoÉ), jornais (Estadão e Folha de S. Paulo) e obviamente a TV Globo – para citar apenas alguns meios – vêm fazendo um esforço descomunal para atacar a investigação da PF, exatamente como fazem os advogados do banqueiro. A preocupação em acusar a PF é muito maior do que a de incriminar Dantas, como comprovam todas as reportagens sobre o escândalo dos grampos (que ninguém ouviu, se é que existem). Os esforços conjuntos dos quatro poderes foram tão bem sucedidos que o delegado foi afastado por tempo indeterminado.

Afinal, para que servem as investigações: apontar as raízes da corrupção no Brasil ou apenas fazer rodeios? Desvendar as origens desse cancro da política nacional, foco da atual PF, é menos importante do que buscar falhas nas operações? Por que enquanto o banqueiro criminoso está solto todos se voltam para a inteligência investigativa do Brasil, que atingiu um padrão de excelência em suas atividades nos últimos anos, e a acusam de irregularidades?

Quando deveriam se posicionar frente a estas questões, todos se calam – ou são calados, como aconteceu com o programa do Observatório da Imprensa, vítima de nítida censura.

Esses episódios mostram que o papel da mídia na cobertura de todos esses escândalos é decisivo e por trás dele está a defesa de interesses privados, em particular da elite à frente das decisões do país.

Quando não basta o Estado e os Três Poderes, a elite que compõe tanto a oposição quanto o governo tem a imprensa agindo em seu favor.

Propaganda político-partidária na mídia marrom

Não se trata de horário político ou qualquer forma de campanha oficial.

É propaganda fantasiada de vinheta e de reportagem.

Primeiro, a Veja e sua capa com o candidato José Serra.

Se a capa não é suficiente para me fazer ser entendido, recomendo fortemente que você acesse este link. Nele, você lê o texto que anuncia a “reportagem”; ele deixa explícito seu caráter panfletário.

Depois, a Globo surge com sua comemoração dos seus 45 anos de idade.

“É por você que a gente faz sempre mais” é a frase que finaliza a vinheta.

O slogan da campanha de Serra é “O futuro é a gente quem faz”.

Das duas uma: ou estou alucinando, procurando pelo em ovo, ou tudo isso é propaganda política fora dos critérios de propaganda estabelecidos pelo TSE e contra qualquer princípio ético que um jornalista deve seguir.

Mais

Lema de Serra “inspira” vídeo comemorativo da Rede Globo, da Agência Carta Maior

Os bastidores do quase-golpe, do DoLaDoDeLá

Folha e Ditadura, tudo a ver

Vale a atualização: Folha admite que errou… e reincide, por Celso Lungaretti em 10/3/2009 e
Da ditadura à democracia sem povo, por Mino Carta em 05/03/2009
(tiagozecolmeia, em 11/03/2009, 22h31)

(do blog Língua de Trapo)

 

Caiu a máscara da Folha de São Paulo (FSP). Talvez apoiada na ideia de que brasileiro tenha memória curta, o editorial de 17/02/09 achou que passaria ilesa a tentativa de passar a mão na cabeça dos nossos anos de chumbo. Parafraseando o general Franco e até mesmo o saudoso (ao menos para a família Frias) Pinochet (vejo o vídeo aqui), insinuou que nossa ditadura não foi tão dura assim, sendo merecido o nome de “ditabranda”. Não bastasse, ofendeu abertamente dois professores que questionaram de forma legítima a falta de respeito do jornal com relação aos que tiveram sua dignidade violada pelo governo dos militares, aliados e súditos coniventes, dentre os quais a FSP não mais tem vergonha de fazer parte.

Colo abaixo um email de Juliana Ghisolfi que recebi na lista Flor da Palavra. A mensagem contém o texto do editorial, cartas de leitores e comentários da própria FSP. No final deste post, links para comentários de outros jornais, blogs e para uma petição de apoio aos professores Comparato e Benevides, ofendidos pela FSP.
Haverá uma manifestação contra esse espisódio, em frente ao prédio da FSP (Alameda Barão de Limeira, 425) às 10h do dia 07/03 (sábado). A manifestação é convocada pelo Movimento dos Sem Mídia
(tiagozecolmeia)
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Em suma, o que ocorreu foi o seguinte:

1) em editorial, publicado no dia 17 de fevereiro, com uma crítica à aprovação da reeleição por indefinidas vezes na Venezuela, o editor responsável pelo texto refere-se ao período do regime militar que prevaleceu no Brasil entre 1964 e 1985 como “ditabranda” (em oposição a ditadura). Foi o estopim para, nos dias seguintes, uma série de manifestações no Painel do Leitor, espaço no qual o leitor do referido jornal manifesta suas opiniões sobre os temas abordados pela FSP.

2) no dia 19/02, o leitor Sérgio Lopes escreveu ao Painel, questionando o termo “ditabranda”, comparando-o à Novilíngua. A resposta da redação foi um espanto: o regime brasileiro, em relação a outras ditaduras da época, foi leve, por isso o uso do termo “ditabranda”.

(Para quem não sabe o que é Novilíngua, fica aqui a sugestão de leitura do livro 1984, de George Orwell: este seria o nome do novo idioma, que o regime estava formulando. Na Novilíngua, os termos ganhavam novos significados, a tal ponto que o lema do regime, a partir da nova língua era: “Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é força.” Tudo ficção. Será? * )

3) no dia 20/02, mais uma série de manifestações contra o referido editorial. Entre as manifestações constavam as dos professores Benevides e Comparato. Pois a resposta da redação foi ainda mais infame que a anterior, escandalosa mesmo: a redação da Folha atacou deliberadamente os referidos professores, chamando-os de cínicos e mentirosos.

 

 


São Paulo, terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Editoriais

Limites a Chávez

Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder  

O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.

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Painel do Leitor, Folha de São Paulo, 19/02/2009.
Ditadura
“Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.
Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre “as chamadas ditabrandas -caso do Brasil entre 1964 e 1985” (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma “ditabranda”, um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma “ditabranda” ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal? É a “novilíngua”?
Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo. É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário.”
SERGIO PINHEIRO LOPES (São Paulo, SP)
Nota da Redação – Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional. 

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Painel do Leitor, Folha de São Paulo, 20/02/2009.
Ditadura
“Lamentável o uso da palavra “ditabranda” no editorial “Limites a Chávez” (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes (“Painel do Leitor”, ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível “comparativamente baixo’? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande “Julgamento em Nuremberg” (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: “Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente”. A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?”
MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS)

“Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros.”
LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO)
“Com certeza o leitor Sérgio Pinheiro Lopes não entendeu o neologismo “ditabranda”, pois se referia ao regime militar que não colocou ninguém no “paredón” nem sacrificou com pena de morte intelectuais, artistas e políticos, como fazem as verdadeiras ditaduras. Quando muito, foram exilados e prosperaram no estrangeiro, socorridos por companheiros de esquerda ou por seus próprios méritos. Tivemos uma ditadura à brasileira, com troca de presidentes, que não vergaram uniforme e colocaram terno e gravata, alçando o país a ser a oitava economia do mundo, onde a violência não existia na rua, ameaçando a todos, indistintamente, como hoje. Só sofreu quem cometeu crimes contra o regime e contra a pessoa humana, por provocação, roubo, sequestro e justiçamentos. O senhor Pinheiro deveria agradecer aos militares e civis que salvaram a nação da outra ditadura, que não seria a “ditabranda”.”
PAULO MARCOS G. LUSTOZA , capitão-de-mar-e-guerra reformado (Rio de Janeiro, RJ)
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.
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Painel do leitor, Folha de São Paulo, 21/02/2009.
Ditadura
“Há anos a linha da Folha tem sido crítica às ditaduras, especialmente à nossa. Fiquei na dúvida se o termo “ditabranda” (editorial “Limites a Chávez”, 17/2) foi ato falho ou se é mesmo defesa do regime que foi de Castelo a Figueiredo. Nossos torturadores justificavam a nossa ditadura acusando a dos outros.”
JOEL RUFINO DOS SANTOS (Rio de Janeiro, RJ)

“Li as diversas manifestações sobre a ditadura no Brasil. Todas têm alguma validade, mas o que mais me chamou a atenção foi que a mensagem mais inteligente, mais holística, com menor conteúdo de raiva e de ódio veio exatamente de um militar (senhor Paulo Lustoza). Esperava-se que professores catedráticos tivessem um olhar mais colorido, capaz de reconhecer todas as matizes de um regime autoritário, e que o militar fosse mais branco e preto. Mas só o senhor Lustoza foi capaz de reconhecer que a nossa ditadura foi muito diferente das ditaduras de Fidel, de Stálin, de Hitler ou de Mao. Aqui não houve culto a personalidade, embora tenha havido violência e injustiças. Aqui não houve milhões de mortos nem fuga em massa para o exterior. Todos esses regimes se enquadram na definição de ditadura, mas as cores e a profundidade da falta de liberdade foram completamente diferentes.”
CARLOS EDUARDO CUNHA (São Paulo, SP)
“Qualificar a ditadura militar de “ditabranda” é insuportável. Assassinatos, perseguições, torturas, prisões iníquas, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes praticados naquela época por agentes do Estado. A relativização da perversidade desses crimes produz impacto aterrador. Os professores Fábio Comparato e Maria Victoria Benevides merecem o respeito e a gratidão do povo brasileiro pela luta pertinaz em defesa dos direitos humanos. Repudiamos com veemência os termos horríveis da resposta dada a eles neste “Painel” ontem.”
GOFFREDO DA SILVA TELLES JÚNIOR , professor emérito da USP, e MARIA EUGENIA RAPOSO DA SILVA TELLES, advogada (São paulo, SP)
“Ao chamar de “cínica e mentirosa” a “indignação” manifestada pelos professores Benevides e Comparato, a Folha (“Painel do Leitor”, ontem) foi no mínimo deselegante. Não soube lidar com as críticas. Concorde-se ou não com os professores, ambos utilizaram artifícios retóricos parecidos aos que a Folha recorreu para falar de Hugo Chávez no editorial de 17/2. Valeria também o cínico e mentiroso para o editorial?”
NONATO VIEGAS , jornalista (Duque de Caxias, RJ)
“Esta Folha entornou de vez o caldo. No lugar da autocrítica pela malfadada expressão utilizada no editorial de 17/2, de evidentes prejuízos para a cultura democrática, achou por bem agora atacar, de modo presunçoso, intelectuais brasileiros de inestimáveis serviços à crítica e superação do regime autoritário aberto em 1964.”
MARCOS AURÉLIO DA SILVA , professor do Departamento de Geociências da UFSC (Florianópolis, SC)

“A referência do editorial à ditadura brasileira como “ditabranda” não representou uma defesa ou tentativa de relativizar o período e, em seu contexto, deixa claro o caráter negativo de qualquer regime de exceção. Mas foi lamentável a forma como a Folha lidou com os protestos dos leitores. Em vez de aproveitar a oportunidade para reiterar o seu compromisso com as instituições democráticas e repudiar qualquer forma de autoritarismo, o jornal adotou uma posição defensiva, ambígua e evasiva, indigna do maior jornal do país. Particularmente inapropriado foi usar este espaço para atacar em nível pessoal dois professores universitários, rebaixando-se ao nível de um tabloide de aluguel e manchando a tradição de imparcialidade e a atitude profissional esperada pelos leitores. O que poderia ter sido um episódio menor vai ser lembrado na história da Folha como a semana infeliz em que o jornal usou seu espaço para hostilizar seus leitores.”
FELIPE DE AMORIM (Santo André, SP)
“Em relação à “Nota da Redação” em resposta às cartas do senhor Comparato e da senhora Benevides, advirto a Folha de que, apesar de correta, a referida nota despertará a fúria da militância esquerdista. Logo a Redação receberá mais um exemplar da mais profícua produção intelectual da esquerda brasileira: os abaixo-assinados.”
EDMAR DAMASCENO FONSECA (Belo Horizonte, MG) 

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LINKS

Folha (*) tem saudades da ditaDURA, por Paulo Henrique Amorim
Petição em solidarie
dade aos professores Comparato e Benevides
A “ditabranda” e a culpa de Fidel, por Gilson Caroni Filho em 23/2/2009
Direita, volver!, por Luiz Antonio Magalhães em 23/2/2009
Editor discorda da direção do jornal, por Fernando de Barros e Silva em 24/2/2009

‘Ditabranda’ para quem?, por Maria Victoria de Mesquita Benevides em 27/02/2009