Memórias póstumas de uma libertação merecida

wpid-20150907_193347.jpgSubi a ladeira de bicicleta e com uma estranha empolgação. Talvez um coquetel de endorfina, no sangue por conta da pedalada, e um toque de euforia para mais uma reunião pedagógica na escola, com uma pitada daquela insanidade fundamental para sustentar pouco mais de uma hora e meia de anúncios de que o mundo está chegando ao fim vindos da boca de colegas de trabalho. Se eu pelo menos tivesse uma aula para dar naquele dia… Mas nem isso para diminuir minha dor.

“Será que a inspetora no portão fará o chiste novamente?” Mal terminei de pensar e ouvi a fatídica piada do “cadê o uniforme da escola, hein?”. Já tinha ouvido aquilo mais vezes que a do pavê em Natal em família. Não bastasse ver estudantes terem que se sujeitar à surreal humilhação de vestirem um uniforme para não receberem advertência da inspetora na entrada, tenho eu que ser cobrado com um comentário cretino por meu uniforme de professor. Sim, professores têm uniforme: não podem ir pra escola de bermuda sem correrem o risco de ouvirem gracinha ou receberem uma cara torcida. Enquanto tranco a bicicleta, me pergunto de que inferno deve vir aquela misteriosa empolgação. “Não é possível que eu ainda sinta algum prazer em participar de reunião de professores”.

Sigo o script. Começo com o sorriso sem graça, um oi aqui, encosto a bicicleta ali, outro oi-tudo-bom-tudo-bem burocrático mais frente, uma engolida a seco por, sem nem ter atravessado o estacionamento, ouvir uma má frase vir da janela da sala de profes… Sabe aquela maldição que lançam em seu ouvido? Aquela que te faz desejar ter nascido com deficiência auditiva. Ou ainda a que te faz querer uma espada escorregar da mão de alguém e, como se colocada ali pela compaixão de deus, entrar por um ouvido, rasgar o cérebro, chegar no outro lado da cabeça e salvar você de mais uma besteira que polui aquela atmosfera desgraçada. Frases que te fazem se sentir mal por cada vez mais ter certeza de que o mundo está sim mudando, mas para pior, como “bandido bom é bandido morto”, “Brasil tá virando Cuba”… Naquele dia fui recebido com o “manifestante grevista é baderneiro”. Era apenas o prelúdio de mais uma aula de trabalho pedagógico e coletivo, vulgo ATPC.

Em uma sala apertada, improvisada como de propósito para aperfeiçoar aquela fábrica de pessoas à beira de um ataque de nervos, professores e professoras se amontoam em órbita de uma mesa de reuniões para debaterem o nada, o vazio, em um tradicional ritual em homenagem à inexistência de coerência em argumentar sobre qualquer evento ou fenômeno natural – quem dirá social. Bullying, drogas, gênero, petismo, nacionalismo, religião, tudo era conteúdo para engordar aquela produção dadaísta-ideológica financiada pelo Estado, ao tempo em que de pedagógico nada se produzia. Sentei e comecei a desenhar minhas já tradicionais cenas de suicídio. O flerte com a morte era o que tornava suportáveis aquelas reuniões.

Até que, como se colocassem uma cereja naquele bolo fecal, fui presenteado com a frase definitiva: “aqui na escola não vamos mudar os problemas da sociedade, então bola pra frente, não vamos perder nosso tempo discutindo isso, né, aqui não temos solução para nada”.

Se o nosso fim era inevitável, por que esperar? Como num reflexo, puxei o estilete em meu estojo e cortei meu pulso direito. A euforia acabara. Embora achasse estranho, me sentia tranquilo, de certa maneira aliviado, enquanto via meu próprio sangue jorrando para todos os lados.

Quem recebeu o primeiro jato, o mais espesso, foi o coordenador pedagógico. Desde que ele entrou na escola, percebíamos um certo esforço daquele pobre ser que tentava não se submeter aos desmandos da diretora, pau-mandada da supervisora de ensino que, por sua vez, fazia o viciado papel de reproduzir a lógica da gestão imposta pela ordem das coisas. Mas, como se punido por ser ali o mais alto da hierarquia, teve que se afastar depois do esguicho e limpar seus óculos para tentar entender o que estava acontecendo, perdendo quase toda a cena.

Em seguida, foi a professora de português a presenteada com outro bem servido golpe de hemoglobina. Naquele instante senti a felicidade da vingança. Como se eu tivesse guardado toda a groselha que, gota a gota, aquela fascista me salpicava durante todas aquelas malditas reuniões, dei um leve sorriso enquanto pensava comigo mesmo “você não gosta de Milani? Pronto, taí”.

Não poupei ninguém. Enquanto o sangue tingia móveis, paredes, provas do Saresp, diários de classe, toda uma sorte de papéis inúteis, apontava o jato para o rosto de cada uma das pessoas presentes. Marcava em vermelho uma por uma, como elas fizeram com suas canetas durante todos seus anos de trabalhos, reprovando uma nação de estudantes desajustados, insolentes, que se negavam a ser domesticados e dóceis. Quando tonteei, agradeci os tempos por estar abandonando aquele espaço de maneira triunfal e por ter tido a coragem de fazer o que sonhei durante, sem exceção, todas as reuniões pedagógicas em que estive presente em meus anos de magistério. Caí e vi o pavor tomando o semblante de todos e todas ao meu redor. O pobre professor de Artes, chateado, provavelmente lamentava por não ter conseguido sacar a tempo seu celular para filmar a cena para colocá-la em um de seus filmes B, hobby que lhe dava a sanidade mental para não ser o protagonista de um ato como o meu. O rosto que destoava dos outros foi o do professor de Sociologia, que dias antes me confessara ter decidido exonerar no final do ano. Seu olhar foi uma mistura de cumplicidade e inveja, e ali tive certeza de que foi ele a pessoa mais compreensiva com quem trabalhei naquela escola.

Eu amava estar em sala de aula, conversar diariamente com estudantes, e era enorme a satisfação de poder trocar vivências com toda aquela gente que, obrigada por pais e mães, se submetia ao ambiente escolar e se resignava por ao todo mais de doze anos àquela violência institucionalizada em troca de um pedaço de papel escrito “diploma”. Claro, às vezes um perdia a noção e me desrepeitava, outras ouvia alguém fazer uma cobrança meio sem cabimento por uma nota… mas eu seria incapaz de me queixar de estudantes, as maiores vítimas dessa roda viva chamada escola. Para mim, o difícil mesmo foi aguentar são as reuniões com professores e professoras. Mas, enfim, conseguira alcançar minha libertação.

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