Liberada, libertária e “laertina”. 3. Minha roupa não é um alvará de estupro

As duas situações ocorreram na Casa Mafalda, entre eu e duas pessoas desconhecidas.

A primeira situação foi relativamente tranquila. Como a Lapa é repleta de puteiros, chega um certo horário da noite em que aparece uma série de pessoas que não têm o perfil de frequentadores da Mafalda, saem desses lugares e entram na Casa, numa boa, sem compromisso. Isso acontece em praticamente todas as festas que viram madrugada. Em uma delas, um cara de seus 35, talvez 40 anos, bem bêbado, apareceu e começou a tentar trocar ideia. Digo tentar porque, primeiro, ele não estava sóbrio o suficiente para fazê-lo e, depois, porque ninguém dava trela para ele, principalmente as mulheres.

Fiquei lá, cuidando da entrada da festa, curtindo meu vestido vermelho, minha meia-calça preta, minha sapatilha vermelha e minha breja. O cara se encostou na parede ao meu lado, começou a falar um monte de palavras indecifráveis. Por um momento me pareceu que ele não queria só trocar ideia comigo, queria algo diferente, e eu não sabia dizer o quê. Loucura minha, né? O que ele poderia querer mais? Não sabia o que responder a mim mesmo, limitado por minha ingenuidade e leve ebriedade.

O cara resmungou mais um pouco, disse a ele que não entendia o que ele queria dizer. Então ele deixou bem claro: “eu quero chupar seus peitos, chupar você inteiro…” Interrompi e toquei o cara pra fora da Casa, dizendo que ele não estava entendendo que ele estava em uma festa e talvez não entendesse o que se passava ali.

Só uma cantada, meio desajeitada, certo? Mera coincidência ter acontecido pela primeira vez quando eu me vestia com aquelas roupas.

Até que houve uma segunda situação. Outra festa, outras pessoas, outro constrangimento. Desta vez, mais violento.

Estava no hall, cuidando do caixa e da cobrança de entradas. Por um momento, fiquei de costas para a passagem. Festa cheia. Naquele instante, muita gente passava por ali, tanto para sair quanto para entrar na Casa. Senti um aperto em minha bunda, um daqueles bem servidos. Pensei ter sido minha companheira a responsável por aquilo. Até fiz uma cara de prazer. Quando virei para procurá-la, onde ela estava? Impossível ter se escondido, tinha muita gente, não dava para correr. A pessoa mais próxima, quase encostada em mim, era um cara de seus 40 anos, alto, parecendo o Tackleberry, com óculos, calça, coturno. A possibilidade de ter sido ele o autor da bela apalpada desapareceu num átimo, como se nunca tivesse existido, virou pura alucinação, e a presença de uma blusa pendurada em seu antebraço tirava qualquer dúvida de que ele não tinha feito o que eu sentira, mas sim foi mero efeito de um esfregão sem intenção de sua blusa. Era impossível alguém, um cara, ter me passado a mão; em meus 30 anos de idade isso nunca tinha acontecido. Pronto, não precisava me preocupar e nem tirar satisfação de ninguém por uma situação absurda, que provavelmente não tinha acontecido. Voltei a contar as notas de dinheiro e a organizar as moedas.

Depois perguntei aos organizadores da festa quem era essa figura; disseram que ele era convidado, mas não o conheciam. Festas abertas dão espaço para isso. 

Minutos depois, percebi o mesmo cidadão me medindo dos pés à cabeça, parava ao meu lado, ficava olhando para mim. Reconsiderei a situação: o cara me apalpou mesmo e, como eu não falei nada, começou a achar que eu estava na dele. Puta que o pariu! Será que aquilo estava mesmo acontecendo? O que fazer agora? A situação ficava cada vez mais inusitada e bizarra, e eu sem ação, sem reação, sem condição e coragem de tomar qualquer atitude e dar um fim àquilo. Nunca tinha acontecido comigo, será que acontecera mesmo só por que eu estava de saia e sapatilha?

Ainda na dúvida, contei à minha companheira. Ela começou a perceber que o cara estava mesmo na minha cola. Quando eu ficava parado numa parede, lá vinha ele. Até que sentou no mesmo sofá que eu, ao meu lado. Levantei e nunca mais voltei para aquela sala. Ali ele dormiu por três horas seguidas, se levantou quando limpávamos a Casa, já no fim da festa, e foi embora.

Se o que eu conto lhe parece uma novidade, como foi novidade para mim, provavelmente você é um homem. De todas as mulheres a quem contei, ouvi que esse é o cotidiano que elas têm que enfrentar desde sempre. Eu já havia sentido na pele um indicativo de que a forma com que você se veste dá supostas permissões aos outros invadirem seu corpo. Era uma reunião, estava pela primeira vez ali, só entre amigos, de saia branca, sapatilha e meia-calça (pois é, meu repertório vestuário não é nem um pouco vasto). Quando entrei na sala, perdi a conta de quantos apalpões recebi, de homens e mulheres. Claro, brincandeira de todo mundo, pura descontração. “Minha roupa tá dando permissão para vocês fazerem isso comigo? Por que nunca fizeram isso antes?” Alguém ainda fez alguma piada para acabar com a torta de climão, no entanto aquilo nunca mais se repetiu, e quem conversou comigo sobre esse episódio – uma mulher, aliás – disse ter percebido como a gente, inclusive ela, perpetua a opressão sem perceber.

O discurso machista tenta justificar o injustificável apontando a roupa curta, o decote ou seja lá o que o homem diz o deixar excitado como responsável pela opressão que a mulher sofre. Minha curta experiência usando roupas femininas me sugere que a própria condição de mulher, de não ser homem, alicerça essa opressão. Se você é assinalada como não-homem seja por sua roupa, genótipo, fenótipo ou alguma prática que lhe dá a etiqueta F ou te afasta da heteronormatividade, você automaticamente está sujeita contra sua vontade à uma condição de dominação e dá alvará para os outros fazerem com você e seu corpo o que diz o roteiro da ordem das coisas, desde ouvir gracinhas na rua até mesmo o estupro.

Embora seja uma experiência recente, me vestir com roupas femininas em público tem sido extremamente revelador e tem me ajudado a começar a entender a importância de se posicionar junto ao discurso feminista, embora minha condição de homem faça com que, querendo ou não, eu reproduza o machismo principalmente em suas formas subliminares. Tenho noção do papel político que assumo ao vestir minhas roupas (masculinas ou femininas), e não tenho a ambição de reparar a opressão secular a qual mulheres, homossexuais, transexuais e travestis estão sujeitas. Apesar de saber das limitações às quais estou sujeito, me passa a ser insuficiente reconhecer como nossas práticas perpetuam o machismo: passo a sentir a necessidade de assumir práticas e discursos que tensionem com a ordem opressora, na perspectiva de se ter, pela construção ou transformação, um mundo em que qualquer pessoa se sinta à vontade, livre e segura em qualquer lugar e não só perto de amigos, amigas ou sozinha entre quatro paredes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s