Liberada, libertária e “laertina”. 1. Experiência outdoor

Na realidade, quando nos travestimos, não estamos imitando nenhum “gênero original”, uma vez que gênero já é, em si, a imitação de algo que nunca existiu na realidade, que jamais possuiu um “original”. (Judith Butler)

Crossdresser é como se chama hoje um travesti de classe média ou alta que tenta se distinguir daquele esteriótipo visualmente ofensivo e socialmente repudiado, que em nosso imaginário ameaça a masculinidade de muitos e perturba a feminilidade de muitas. Embora eu pertença à classe média, serei classista, não vou me enrustir e me assumirei travesti para contar a experiência de uma noite em uma festa queer na Casa Mafalda. Claro que a nomenclatura neste post não vai resolver o problema de ninguém, mas ao menos serei sincera.

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Essa experiência outdoor foi só um tipo de começo. Nesse texto farei o relato. Se procura a justificativa, deverá aguardar um outro post.

A preparação

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Meu corpo é masculinizado, é praticamente impossível mudá-lo aos 30 anos sem intervenções cirúrgicas. Imagino que hormônios também não seriam tão bem sucedidos em uma transformação em um corpo feminino. Minha cintura não é fina, meu rosto é marcado por traços típicos de homens, não tenho seios (embora tenha “peitinhos”), meus ombros são largos. Como transformar meu corpo de homem em um de mulher com tantos empecilhos assim? Gastei um tempo pensando em estratégias, analisando roupas que pudessem desvalorizar ombros e cintura. Após algumas consultorias, dei um grande foda-se às roupas e fui atrás de outras alternativas. Pensei em depilação e maquiagem. Esta é relativamente fácil de realizar, embora eu não fosse capaz de fazer sozinha. Um estojinho e alguém com experiência poderiam me ajudar com toques e retoques.

E quanto à depilação? Poucas acreditam quando conto. Confesso que fiquei excitada ao me imaginar depilando o corpo inteiro, tronco e membros. Virilha achei exagero. Por questões econômicas decidi tirar apenas os pelos dos braços, costas e peito – uma meia calça fio 80 me pouparia umas dezenas de reais e mais dor. Imaginava como seria difícil bancar essa experiência depois de tantos anos ouvindo “ah, duvido que um homem aguente a dor da cera arrancando seus pelos”.

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A insuportabilidade da dor da depilação: caíra mais uma mentira. Já li alguns textos feministas muito bem argumentados, concluindo como quase tudo dito do homem ou da mulher é resultado de construções sociais e não tem nenhuma justificativa biológica. Brincar com bonecas ou carrinhos, gostar de azul ou rosa, ser sentimental ou racional, saber cozinhar ou arrumar o chuveiro. Falsas polarizações, é claro que homens também aguentam depilar como qualquer pessoa. Tanto aguentam quanto depilam – conversem com qualquer depilador/a: há mulheres que têm medo de depilar, homens que depilam e concluam que toda a variedade de opções não têm nada a ver com gênero ou sexualidade.

Na segunda-feira, marquei hora com a depiladora para a sexta-feira seguinte. Semana de pura ansiedade. “Por que diabos eu tô fazendo essa merda?”, me perguntava. Por quê? Porque não poderia ser de outro jeito.

Fui. Nilda, a depiladora, ficou impressionada com o motivo da minha depilação. “Deve ser uma festa boa, para você vir aqui se depilar só pra isso”. Aparentemente ignorou o “queer”, talvez por não saber seu significado, ou por achar não ser um conceito importante a ponto de fazer uma pessoa se depilar pela primeira vez. Começou pelas costas. Ela sabia quais cuidados tomar e o que fazer para tratar bem um freguês. Nenhuma dor até ali. Fui ajudado pelo medo e a expectativa de não aguentar e desistir logo de cara. Até ali estava fácil. Tirou os pelos dos braços. Pouquíssima dor, quase um refresco. Nilda me convenceu a depilar também as axilas – e não é que para cada tipo de pelo se usa uma cera diferente? Apesar da dor causar um incômodo reflexivo – “isso é mesmo necessário?”, acabava de criar uma demanda: descobri pela via empírica que a falta de pelos na axila implica em melhor higiene e menos cheiro. Por pouco Nilda não me convenceu a fazer também as sobrancelhas: neguei por medo de criar mais um novo hábito e um novo custo a partir dali.

“Você tá aguentando bem”, apoiava Nilda. O elogio era um apoio moral, pois ela, melhor que ninguém, sabia onde os pelos escondiam todo o sofrimento do universo. E esse lugar era a frente, barriga e peito, matreiramente deixada para o final. Conclusão: pretendo voltar a depilar as axilas, não vejo motivo para arrancar os pelos dos braços, todos os pelos das costas encravaram ao crescerem (mesmo seguindo as orientações da Nilda para usar esfregão e bucha – não preciso depilar as costas de novo, né?) e a depilação do peito é tortura, e é dificílimo me imaginar fazendo aquilo de novo.

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No sábado, dia da festa, as roupas estavam prontas. Usei uma combinação que não foi exatamente a que imaginei, mas ficou bacana. Gastei um tempo procurando uma saia que me agradasse. As que vi à venda eram todas apertadas e muito curtas para o meu gosto, preferia as não muito compridas, acima do joelho. Descobri que eu procurava na realidade uma minissaia… o que não facilitou minha busca. Achei por sorte uma barraquinha na Doze de Outubro que vende só saias e vestidos, onde comprei uma pretinha do meu tamanho. Da Marisa, comprei uma meia-calça vermelha sem perceber ser legging; acabei tendo que improvisar para fazê-la parecer uma meia-calça fechada, deixando sobrar as pernas para dobrar as pontas. Usei uma blusinha branca de alça – preferia uma do tipo nadador, mas fazer o quê? Vesti um sutiã rosa, confortável e com bojo (teve que ser número 46 para não me apertar o tronco), escondido pela blusinha. Calcinha fio dental preta. Graças ao google, encontrei um sapato boneca preto, número 42. Aliás, se precisar de dicas de lojas de calçados femininos de tamanhos especiais, estou à disposição.

Ingênua, achei que o cinza deixado pela barba feita poderia ser escondido por uma boa base. Só a depilação poderia ter salvado, mas naquela altura era tarde demais. Teria oportunidades no futuro para depilar o rosto, mas não para a festa. Conversando com minha namorada (fundamental em todo esse processo) me convenci de que não deveria usar Veet por ser agressivo demais, além de que eu conheço quem já se machucou com aquele veneno. Minha cunhada e minha namorada me fizeram as unhas das mãos com tinta vermelha e me maquiaram. Nós três estávamos prontas para a festa.

A festa

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Sou uma pessoa domesticada e dócil, pois minha família e escola funcionaram muito bem em meu processo de socialização (ou docilização?, dá na mesma) a ponto de eu não conseguir respirar sem pensar se estou atrapalhando alguém próximo a mim. Vestida seria pior ainda, todos constrangidos com meu corpo masculinizado coberto por aquela roupa feminina. Eu já me montara uma vez em um carnaval (embora com bem menos dedicação estética), mas no carnaval tudo pode. Aliás, há um tipo de permissão para esse evento, em que trajes femininos podem ser usados por homens, pois são fantasias (mesmo que você seja um transgênero, travesti ou crossdresser e não esteja fantasiada!) tão comuns quanto uma cueca vermelha sobre a calça azul ou uma fruteira na cabeça. No entanto, não é você mas sim as outras pessoas que escolhem quando você está de fantasia ou não, e são raras as pessoas que me dariam um alvará em junho para me vestir daquele jeito. Amarras sociais? Desatei todas, me convenci da minha liberação e fui em frente, pois eu definitivamente não estava fantasiada e, imagina!, não pediria permissão a ninguém.

Dez minutos de caminhada pela Lapa até a festa, 22h30 de um sábado. Os estabelecimentos abertos no caminho eram pizzarias. Alguns transeuntes chegando e saindo de casa para seus eventos, provavelmente bem tradicionais, e alguns motoboys me veriam daquele jeito com duas cisgêneros – nós três vestidas para matar, com saltos, roupas curtas, decotes e maquiagem. Imagine duas mulheres vestidas assim passando por todos os motoboys do mundo concentrados em duas pizzarias, e nenhum deles dá nem um pio sequer. Surreal? Pois foi o que aconteceu. Claro que eu não esperava que eles não percebessem minha presença, nem mesmo achassem que eu era uma cisgênero e mexessem com nós três, mas fiquei surpresa por, mesmo eu estando vestida e não vestido, nenhum deles ter feito qualquer gracinha com qualquer uma de nós.

Chegamos cedo para arrumar a casa. Um amigo, o primeiro a chegar, se supreendeu: “quem é essa piriguete?”; eu era a única no salão. Conforme mais pessoas chegavam, mais surpresas: “por que você está vestido assim?”. Pois não é que nem numa festa queer eu tenho permissão social para me vestir como de qualquer gênero? “O que você fez para ficar com os peitinhos assim?” “Onde você conseguiu um sapato tão grande?” Eu provocara muito mais perguntas do que eu imaginara.

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Provocava perguntas aos outros e a mim mesma. Alguns amigos apertavam meus peitos e bunda quando passavam por mim. Taí outra pergunta, da série “permissões bizarras”: quer dizer então que roupas femininas representam porteiras abertas para você fazer o que quiser com o corpo naquela roupa? A Marcha das Vadias, mais do que nunca, fazia total sentido para mim.

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No meio da festa, uma garota que conheci ali e só depois descobri ser lésbica me perguntava inconformada: “como assim você é hétero?” É complicado, mas com o tempo essa ideia vai ficando mais fácil de ser digerida. Duvido que eu seja capaz de esclarecer algo tão complexo, mas lá vai: você nasce com desejos que são seus. E o mundo está cheio de pessoas a fim de dizer para você qual é o seu desejo. E essas pessoas querem que um desejo esteja amarrado a outro. Mas não, identidade de gênero e orientação sexual não estão necessariamente atreladas. Sugiro que, ao invés de sustentar falsos vínculos e perpetuar preconceitos, tente se convencer de que é difícil ditar como as mais de 7 bilhões de pessoas no mundo devem se sentir e o que devem desejar. Essa poderia ter sido uma boa resposta, não é? Mas me contentei com o “sim, sou hétero”.

Não fui ofendida, molestada, agredida, não jogaram pedra em mim nem em ninguém que me acompanhou. Poderia ter aterrizado na laje um zepelim com dois mil canhões assim… mas nem isso. Tudo correu muitíssimo bem a noite inteira. A festa foi uma delícia, um clima sensacional. Lá pelas 6h, a polícia bate à porta a mando da vizinhança, que reclamava do barulho. Fui atender. Nunca havia sido bem tratada pelos cachorrinhos do governo, a ponto de não exigirem ver minha identidade (hã? hã?) e apertarem minha mão em despedida após registrarem a ocorrência. Ainda assim, perguntaram se era uma festa de aniversário, se eu era o dono da casa (e não dona, claro, pois estava fantasiada) e se a festa era minha. Sim, não, não, tchau.

Pós-festa

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Adormeci. Mal girou a Terra e lá já estava eu acordada de novo. Gostei de ver o esmalte nas minhas unhas. Decidi ficar com elas pintadas por mais um tempo. Durou até segunda-feira. Nas compras pela Lapa pela manhã, alguns comerciantes ficaram assustados com o vermelho em minhas mãos. Perplexos, não entendiam o motivo e não tinham coragem para me questionar. Na loja de materiais de construção, o mocinho não sabia se me atendia ou se clamava pela ajuda do dono do estabelecimento. Numa loja de informática, uma menina de seus 9 anos cochichou para seu irmão um pouco mais velho, e ficaram me encarando como se eu fosse um ser bizarro. Ela sim, quase me perguntou, dava para ver a curiosidade em seus olhos… mas já estava velha demais. Na biblioteca, onde fui entregar flyers da festa junina da Casa Mafalda, o atendente, sem ler uma linha do que eu tentava lhe mostrar, se negou a ficar com os panfletos e deu sete justificativas diferentes – disse que o evento era pago, de partido, que não divulgam eventos ali na biblioteca, que os flyers que eu estava vendo no balcão divulgavam eventos que eram diferentes do meu… será por eu ser negro ou pelas minhas unhas masculinas vermelhas? Minha rejeição diária tinha um novo ingrediente. Furioso, saí sem perguntar e sem saber o motivo. Na terça-feira trabalharia e, por não ter coragem de encarar os possíveis enfrentamentos na escola, tirei o esmalte.

Foi só o começo, foi uma mera experiência de uma festa qualquer, que no fundo não fez diferença ser queer ou não. Ainda há muita experimentação e provocação a ser contada, sobre choques em espaços e tempos (ainda!) não reservados ao pós-gênero. Pintar as unhas de rosa e sair por aí, andar de legging e saia pela vizinhança, ir ao vestiário do seu time de futebol de várzea com unhas dos pés pintadas e lingerie. Muito a contar, a ser respondido e ainda muito mais a ser perguntado, talvez sem ter resposta para tudo. Afinal, toda pergunta precisa de resposta?

Recomendo:

O desejo como fatalidade? nascer gay, lésbica, bissexual. Ou o desejo como devir? tornar-se gay, lésbica, bissexual, de Fabiano Camilo

Por um marxismo queer da periferia – Parte 2, de Lia Urbini para Revista Geni

Minha vida em cor-de-rosa (Ma vie en rose, Bélgica/França, Inglaterra. 1997)

Muriel Total, de Laerte

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Um comentário sobre “Liberada, libertária e “laertina”. 1. Experiência outdoor

  1. Maninho, animal demais!!! Parabéns pela coragem…
    Depois, quero mais detalhes dessa experiência.
    Perfeitas as tirinhas e as referências que você escolheu para ilustrar o post!
    Beijo!

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