Serra e sua mão no Rodas

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O novo reitor da USP

1981 foi o ano em que Maluf escolheu Antônio Hélio Vieira para reitor da USP.

Após as eleições internas, onde votam professores e uma parcela mínima de funcionários e estudantes, cabe ao governador escolher o reitor entre os três candidatos mais votados.

Naquele ano, Maluf não escolheu o mais votado da lista indicada pelo Conselho Universitário (conhecido como CO mas deveria, para ser coerente, ser chamado de CU).

Depois de 1981, ocorreram sete eleições para reitor. Até ontem, todos os governadores haviam escolhido o primeiro das listas a eles indicadas.

Na época do regime militar, o estatuto da USP foi fortemente influenciado pelo governo a fim de restringir a participação subversiva nas decisões da Universidade. Como herança do regime, até hoje o governador vigente escolhe quem ocupara o cargo máximo da USP.

Alguns dizem que, em respeito à autonomia universitária, desde 1981 os governadores escolheram os mais votados das listas tríplices.

Essa explicação parece-me inocente demais.

Creio que as posturas políticas dos reitores escolhidos nunca foram tão discrepantes entre si a ponto de fazer com que o mais votado fosse rejeitado.

Em 2009, o cenário é diferente.

José Serra (PSDB) deixou de escolher Glaucius Oliva, o mais votado, para nomear reitor João Grandino Rodas.

Por que Serra quebrou a expectativa e não nomeou Oliva?

Nos últimos anos, o governador vem sendo apontado como responsável por conflitos dentro e fora das universidades paulistas.  Há quem diga que Serra foi complacente com manifestantes em episódios como a ocupação da Reitoria em 2007 contra os decretos que, segundo os mobilizados, feriam a autonomia universitária.

Serra cansou de ver sua política de ensino superior criticada. Oliva, que desde o início de sua campanha foi apoiado pela ex-reitora Sueli Vilela, não garantiria a influência do governador nas decisões internas à universidade, repetindo a política da reitora dos últimos quatro anos.

No passado, a polícia não agia na Universidade. Na era Rodas, Serra conseguiu estender os tentáculos da PM para dentro dos campi.

Obviamente Rodas possui, do ponto de vista político, alguma vantagem sobre Oliva.

Voltando um pouco no tempo, lembremos do papel desempenhado por Rodas durante a greve de 2009 na USP. Foi ele quem influenciou a então reitora Sueli a permitir a intervenção da PM no campus e sua violência sobre os manifestantes.

Foi Rodas, enquanto diretor da Faculdade de Direito da USP, quem fez com que a polícia agisse sobre os manifestantes no Largo São Francisco em 2007.

“Infelizmente”, Rodas não esteve presente nas decisões políticas da Reitoria no episódio em que seu prédio ficou ocupado por estudantes, funcionários e professores grevistas durante 51 dias. Nesse episódio, a polícia não agiu.

Rodas possui um histórico de decisões voltadas à restrição de manifestações utilizando a força da Polícia Militar. Após o regime militar, nenhum outro reitor ou diretor fez como Rodas, utilizando da violência legal para lidar manifestantes, os quais normalmente “perturbam as atividades acadêmicas”.

Não tenho dúvida de que esse ponto foi decisivo para a escolha de Serra. Rodas como reitor garante que a USP será administrada de acordo com os interesses tucanos. Sueli Vilela, de quem Serra diverge, causou-lhe problemas demais ao longo dos quatro anos. Isso Rodas não fará.

Maluf e Serra possuem em comum mais do que suas origens. Vieira foi a solução de Maluf em 1981. Em 2009, Serra garantiu sua influência política e a polícia na USP. O que é ótimo para a estabilidade do Estado democrático imposto.

Enquanto reitor, Rodas é a mão na roda de Serra.

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O sapo popular e a oposição

Em uma lista de amigos da faculdade, foi enviado o vídeo em que Obama se refere a Lula como o político mais popular do planeta.

Um camarada tucano, G., respondeu atacando o presidente, dizendo que não basta ser popular, mas sim eficiente e eficaz.

Eu e uns amigos temos um embate político com esse tucano há muito tempo, e acho que não vai acabar tão cedo. Resolvi mais uma vez dedicar algumas linhas em resposta ao seu ataque ao Lula Superpop. Creio que essa resposta sirva a toda oposição:

Os motivos do Lula não são diferentes dos seus, G.. Aliás, são raros tanto no PSDB, PT quanto em qualquer partido os que não usam a política em benefício próprio.

Esse seu email mostra que você segue o mesmo caminho. Faz um discurso pomposo e agressivo atacando o presidente só para seguir fazendo o papel de oposição, o que restou ao seu PSDB no cenário político federal. Mais como uma lição da cartilha de escalada ao poder do que em defesa do interesse público.

Se estivesse de fato preocupado com as irresponsabilidades dos agentes políticos, não se ocuparia deturpando o contexto do “popular” usado pelo Hussein negão mas sim criminalizando ações do Jereissati ou até mesmo do Gilmar Mendes, para dar poucos exemplos.

Esse presidente iletrado que é o Obama, portanto não menos molusco que o nosso, não sabe português. A frase foi a seguinte: “He is the most popular politician on Earth”. Deve fazer algum sentido procurar o significado dela no dicionário de língua inglesa, pois nos ajudaria a entender melhor o que isso significa no contexto de quem o criou.

Mas não precisamos ir tão longe. Até pode ter passado pela cabeça desse Hussein estadunidense o populismo do Lula, mas convenhamos que o molusco tupiniquim é um presidente muito diferente de Mao, Chavez, Sadam, Fujimori, Bush ou até mesmo Médici e Vargas, tão diferente a ponto de ser difícil de acreditar que Obama compararia estes a Lula em qualquer ocasião. Não se tem notícias de pessoas que o Lula tenha chutado para fora do Brasil ou mandado matar em qualquer lugar do planeta, ao contrário de todos os que você citou.

O contexto da frase é bem claro: trata-se de um encontro de líderes mundias. Não só pela ocasião, o negão mais popular do planeta se referia à política externa desempenhada pelo atual governo brasileiro. E vale um comentário: não deve ser à toa que o FHC nunca recebeu esse rótulo ao longo de seus dois mandatos, sendo um deles extendido por ele mesmo – aí acho que o FHC de fato se aproximou mais do Chavez do que do Lula.

Mas se você, G., quer falar do caráter das decisões de quem governa o Brasil nos dias de hoje, proponho que você fale também do nosso Governo de SP. Peço licença para usar suas próprias palavras, que você dedicou para espinafrar o governo federal, apontando-as agora para o Serra: “um político ao meu ver (…) não deve ser avaliado pela sua popularidade e sim pela eficiência e eficácia em seus atos” e “seu governo medíocre nada fez alem de estufar as bases do seu partido e os gastos públicos irresponsavelmente, uma vez que não sabe agradar de outra forma.”

A popularidade do Serra é inquestionável; sua “eficiência e eficácia” são imaculadas, pelo menos é o que a grande mídia (não) mostra diariamente; ele é tão impecável em sua administração que, caso ambicionasse ao Governo em 2010, seria reeleito facilmente. Procuro diariamente nos grandes jornais respostas a algumas perguntas sobre o que ele vêm fazendo nos últimos anos, mas a Folha e o Estadão não dedicam sequer uma linha para denunciar as falcatruas nas quais ele se envolve. Talvez você, tão ligado ao PSDB, possa me ajudar com algumas delas:

i) qual a razão das assinaturas das revistas da Abril sem abertura de licitação? Isso não configura irresponsabilidade de gastos públicos?

ii) por que o troca-troca de secretários da educação paulista apesar da manutenção do caráter planilista e empresarial, há mais 14 anos sujeitando o ensino em SP ao fracasso? Faz parte do caminho de sucesso dessa Secretaria?

iii) qual a diferença entre o mensalão do PT e as “doações” da Camargo Corrêa a vários partidos, dentre eles o puríssimo PSDB?

iv) por que o superfaturamento das ambulâncias, aliás conteúdo do dossiê esquecido, nunca foi investigado?

v) por que as denúncias de compra de cargos públicos estaduais, como os da Polícia Civil, são ignorados e minimizados pelo Serra? Esse é o máximo de sua eficiência?

Não quero justificar qualquer erro do Lula com os do Serra. Só quero apontar problemas na administração de SP para os quais você nunca dedicou uma linha de um email sequer. Já para debochar do “sapo barbudo” ou criminalizar movimentos sociais que poderiam em tempos passados ter tido alguma associação com o PT, muito pelo contrário, pois sempre que possível você nos envia um email preconceituoso quando não contendo mentiras.

Isso só me faz acreditar que seu discurso não tem compromisso algum com a defesa de qualquer interesse público mas sim com uma causa própria, seja ela azul ou vermelha. (Para aliviar um pouco, confesso que isso não é invenção sua.) Caso contrário, você já teria atacado o Serra há muito tempo ou levantado no mínimo as perguntas que fiz acima.

Apesar do tapa político, um abraço do seu camarada que não te passou cola em MAC115,

Dois Paraguais

O que acontece se você deixar o PSDB por 14 anos governando um estado? Nasce mais um Paraguai na América do Sul.

Estranho? Veja ao lado a foto (extraída da FSP) do mapa contido em uma apostila distribuída pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEESP) como material complementar aos alunos e professores de sua rede de ensino. Nela há dois Paraguais – um deles foi trocado pelo Uruguai e o outro “roubou” um pedaço da Bolívia, sendo que nenhum deles corresponde ao território verdadeiro.

Quem foi o responsável por isso? As apostilas foram confeccionadas pela Fundação Vanzolini e o conteúdo foi selecionado por pessoas escolhidas pela SEESP. Obviamente a Fundação arcará com os custos (como mostra esta matéria da FSP), pois é o lado mais fraco da corda. Mas a responsabilidade de escolher pessoas (in)competentes para criar o material é da Secretaria, que além disso acabou aprovando o material com pelo menos essa falha no conteúdo. Ou seja, cagou na entrada e na saída. Não foi uma impressão borrada, uma página faltando ou uma falha tipográfica, mas sim um mapa errado, o que é bem mais grave.

Ora, o presidente Lula é diariamente achovalhado por algumas vezes não ter seguido a norma culta da língua portuguesa (e também por vezes que não o fez) e por isso é tratado como uma pessoa ignorante. Circulam em nossos emails uma série de placas e mensagens contendo fugas do português formal. Vemos frequentemente as pessoas ridicularizando outras por não saberem as regras de nossa língua – quem nunca riu de um erro alheio ou chamou outrem de burro? Esse tipo de comportamento é bem aceito, faz parte da nossa cultura. Mas até agora ninguém se preocupou em ridicularizar a secretária de educação ou o governador.

Falei sobre esse mapa com vários amigos e vários deles não tinham ouvido falar sobre esse problema. Não são pessoas que se dedicam à busca aprofundada por notíticas mas que considero bem informadas. Os jornais tratam esse caso como secundário, com menos destaque do que a redução de juros nos EUA, apesar de talvez não ser menos importante. Isso é mais um sinal do esforço que a imprensa faz para blindar a imagem do futuro candidato a presidência pelo PSDB. Daqui a um pouco menos de dois anos veremos o atual governador concorrendo ao maior cargo do poder executivo nacional e sem dúvida a apostila malfeita não será lembrada; ninguém ousará apontar o dedo para o fracasso educacional que o estado nos enfia goela abaixo há mais de uma década ou para qualquer outra falha política do PSDB (como a compra de milhares de assinaturas de revistas da Abril sem abertura de licitação). O descaso com a educação não é de agora, basta ver a expansão de vagas das ETEs e FATECs sem aumento de verba, da aprovação continuada (transformada em aprovação automática), da política de números em detrimento da qualidade do ensino, dentre tantos outros desleixos com nosso ensino. Em outra situação, esses episódios seriam um belo banquete para satisfazer os anseios de poder vislumbrados pelos abutres da mídia elitista, conservadora e golpista que hoje, ao contrário, se ocupa em preservar a imagem do governador José Serra, seu amigo do peito e do bolso.

No final das contas, nem assim a Bolívia conseguiu uma saída pro mar…

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