Resistência e política pedagógica: a importância de objetivos e estratégias

Propor-se a uma tarefa sem saber onde se quer chegar e por onde seguir é tão razoável quanto ir a uma rodoviária para viajar para onde não se sabe e sem saber como pagar o ônibus. Embora coincidências possam fazer com que a viagem aconteça, poucas pessoas se aventurariam a isso sem um mínimo planejamento.

Minha sugestão é que assumir uma ação reconhecidamente política sem ter claros seus objetivos e as estratégias para realizá-la é predestinar tal ação ao fracasso.

Tome como exemplo o trabalho de professora. Se a pessoa acredita que ser professora se resume a ensinar conteúdos de uma área de conhecimento – o que me parece ser uma visão simplista e superficial do que se faz em sala de aula – inevitavelmente vai se deparar com dificuldades que decorrem das relações de poder que permeiam a escola. Pode ter uma inspetora que está preocupada em manter boas as relações com a direção e te faz pedidos informais sem qualquer intenção pedagógica (quem nunca ouviu um “não faz isso senão complica pra mim” de um bedel?), uma vice-diretora que cobra “parceria” do corpo docente esperando que abaixem as cabeças às arbitrariedades da equipe gestora, ou ainda uma série de sujeitos do currículo (explícito ou oculto) da escola que colocam interesses geralmente pessoais em concorrência com o seu. Nesse cenário, como poderia se garantir com sucesso o cumprimento de uma tarefa a princípio simples como a de fazer seu papel em sala de aula?

O enredo fica mais complexo quando a professora se entende como um ser político protagonizando um papel essencialmente social.

É urgente a construção de uma cultura em que todas as pessoas da comunidade escolar se percebam como sujeitos políticos. É fundamental o entendimento da educação formal como uma ação política, permeada de relações de poder que exigem um posicionamento seguindo uma reflexão mínima sobre papéis, escolhas, objetivos e estratégias. Lendo Paulo Freire, Mikhail Bakunin, Silvio Gallo, Hannah Arendt, José Pacheco, Anísio Teixeira, Paul Robin, Sebastian Faurre, Pierre Bourdieu ou qualquer pessoa que tenha se proposto a pensar minimamente a escola, percebe-se que há consenso de que o ato de ensinar é essencial, inevitável e fundamentalmente político. Contudo, esse olhar sobre educação parece estar à anos-luz de distância do projeto de educação pública do Governo do Estado de São Paulo e, consequentemente, de grande parte das escolas da rede pública de ensino.

Como, enquanto professora, se relacionar com um ambiente repleto de pessoas que, alinhadas a um senso comum ou ao projeto de educação estatal, baseiam suas relações no desrespeito, na violência, na miséria ética e se alienam do magistério enquanto prática política? Ao mesmo tempo, como combater e não reproduzir os sistemas de opressão – capital, Estado, patriarcado, heteronormatividade, homolesbotransfobia, racismo, fascismo? Como não se resignar diante de tantas dificuldades articuladas e organizadas para sabotar seus objetivos políticos, barreiras impostas por gestão escolar, diretoria de ensino, secretaria de educação, política institucional, colegas de trabalho, burocracia sindical e toda a sorte de pessoas treinadas e empenhadas em te derrubar?

Não é possível alguém em sã consciência esperar que boas coincidências possam ocorrer em uma escola para que se possa cumprir com seu papel de maneira honesta e ética.

É um desafio descomunal manter seus objetivos de maneira ética no interior de um ambiente que regula um habitus fantasiado de pedagógico mas que, na verdade, perpetua a ordem das coisas. Nesse sentido, é impensável manter-se em ambiente tão hostil sem traçar uma estratégia visando objetivos políticos e pedagógicos a longo (a perder de vista), médio e curto prazo.

Pois resistência sem organização não demora para se transformar em resignação.

Acredito que, para alguém que pretenda se manter entrincheirada em ambiente escolar e ter a transformação social em seus horizontes, vale o exercício periódico de rever suas práticas e avaliar sempre que possível seus objetivos e estratégias.

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Quando a PM faz do mundo um picadeiro

É praticamente inquestionável a necessidade da Polícia Militar para nossa sociedade, principalmente quando se trata de sua função “legítima” de garantir a segurança e a ordem social. Inclusive corre-se o risco de ser punido quando se duvida da integridade moral de um policial ou até mesmo da própria Corporação. No entanto, pouco se questiona seu monopólio da violência e seu abuso arbitrário da força em situações diversas.

Se, de acordo com o artigo 1° da Constituição Federal, todo poder emana do povo, por que as manifestações políticas são reprimidas violentamente? Manifestações não são garantias do povo reivindicar do governo a postura que achar necessária? Ou a “festa da democracia” se resume àquela piada que acontece a cada dois anos chamada de eleições? Se existem orientações para se reprimir/dispersar uma manifestação e agredir qualquer pessoa envolvida em passeatas, por que a polícia mente e esconde esse objetivo?

Refiro-me ao ocorrido nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes: a polícia infiltrou um PM à paisana (P2) na manifestação dos professores estaduais, na sexta-feira dia 26 de março, e tentou de todas as formas mentir sobre esse policial infiltrado.

A foto do P2 foi publicada nos jornais, que acreditavam que o cidadão barbado (como raramente se encontra um PM) e carregando no colo uma policial ferida seria um professor.
A Secretaria de Segurança Pública desmentiu a imprensa, afirmando que o suposto professor era na realidade um policial à paisana em operação na região. Essa foi a primeira versão do governo frente ao fato.

A segunda versão da PM dizia que o P2 não estava em serviço, mas sim passando pela manifestação por acaso.

Na terceira versão, contrariando as duas anteriores, a assessoria disse que o P2 “estava no local, não disse o que estava fazendo”.

Mas a Apeoesp jogou areia e apagou a mentira contada pela assessoria da PM, confirmando que o P2 estava em serviço, tanto que subiu em um ônibus de professores em Osasco que se dirigia à assembleia.

Por que todo esse esforço da Corporação para mentir sobre esse P2 em serviço? Se a PM  está seguindo a lei e obedecendo ordens, por que esconde a motivação de infiltrar um P2 na manifestação?

Esse é apenas dos episódios em que tentam fazer o povo de palhaço ao esconder vergonhosamente um fato de interesse público – como os familiares que tentam esconder às pressas aquela tia que só os envergonha, na ilusão de que as visitas nunca tivessem notado sua presença; como se fôssemos ingênuos a ponto de não percebermos a tentativa de criminalizar o movimento dos professores – ou haveria outro motivo para esconder a verdade sobre o P2? O papel da Polícia Militar deixa de ser meramente repressivo, passando a ser também cômico e revoltante ao mesmo tempo. Tentar esconder a verdade sobre o P2 de forma atrapalhada como foi feito não é apenas hilário mas também um insulto ao cidadão paulista.

A PM, que se esconde atrás da falaciosa defesa da ordem em favor de um progresso – enquanto existe para fazer valer a vontade de uma elite estabelecida – nos deliciou com essa cômica peça circense. Como se não bastasse, mostrou que não são apenas alguns de seus peões isolados os únicos sujeitos a desonestidade: não há garantia de que essa instituição tenha qualquer comprometimento com a verdade.

Se precisam de uma instituição para reprimir manifestações democráticas, abram o jogo e mostrem para que a PM foi criada e por que ainda existe. Mas não nos coloquem na plateia de uma ópera-bufa como essa. É um insulto à nossa inteligência.

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Infiltração e repressão: Serra repete práticas de Yeda, da Agência Carta Maior

Por que Dimenstein ataca os professores?

De acordo com Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de S. Paulo, os professores da rede pública de SP deram uma aula de baderna na assembleia de sexta-feira, na qual se decidiu pela continuação da greve da categoria. No texto postado na sexta-feira, ele diz que os professores agiram mau agredindo com paus e pedras os policiais que isolavam a região do Palácio dos Bandeirantes. Como eu estava lá, vi agressões mútuas – difícil garantir quem as iniciou – e fiquei sabendo da presença de pelo menos um P2 (policial à paisana) infiltrado na manifestação, me interrogo por que Dimenstein optou por investir seu tempo escrevendo um texto com um ponto de vista enviesado e dedicado a sujar a imagem dos professores manifestantes, sem dar uma linha ao abuso de violência da PM.

Dimenstein se diz um sujeito que conhece de perto a realidade da escola pública, dando a si autoridade para falar sobre os problemas que determinam o fracasso escolar atualmente, em particular no estado de São Paulo.

Já publicou alguns livros sobre ensino, inclusive em parceria com especialistas da área, como Rubem Alves (filósofo, professor emérito da Unicamp e maior escritor no Brasil de livros de auto-ajuda para professores); esse é mais um ponto que costuma lhe atribuir algum mérito ao tratar do assunto. Seu status de quasi-educador é ainda fortalecido por ter idealizado o Projeto Aprendiz de educomunicação, que deu origem à ONG Cidade Escola Aprendiz, centrada na ideia de educação comunitária. Além de se dedicar ao Projeto Aprendiz, ele é membro do Conselho Editorial da Folha.

Essa é parte da vida pública de Dimenstein, o qual tem sido criticado, como ele mesmo diz, por uma série de leitores e professores por sua posição política frente à educação. Sinceramente, eu acreditava (de forma ingênua) que Dimenstein tinha um ponto de vista diferente dos seus leitores. Não poderia dizer que ele tinha má intenção com seus textos simplesmente por pensar que a educação deve ser construída de forma diferente do que eu acredito.

Até que li a coluna em que ele chama os professores de baderneiros.

Ao se referir aos professores agredidos pela polícia na tarde de ontem como baderneiros “desrespeitando a lei e atirando paus e pedras contra a polícia”, entre outras pérolas, mostrou sua afinidade com o discurso mentiroso e mau caráter do governador do estado, que insiste em mentir à imprensa que menos de 1% dos professores estão em greve.

Mas a afinidade de discursos não é mera coincidência. Sabe-se que, sem uma base política, o poder de um governante se torna frágil. Lula, por exemplo, estabeleceu sua base política, ao longo do crescimento do PT enquanto partido, nos movimentos sociais. Hoje, o presidente se apoia também em empresários e banqueiros. Já José Serra optou por estabelecer seu poder com base na imprensa marrom, como jornais e revistas de grande circulação cuja opinião varia de acordo com o interesse de seus amigos. Nesse espectro da mídia comprada, encontram-se os grandes jornais de São Paulo, inclusive aquele em que Dimenstein é um dos conselheiros editoriais e que (coincidência?) tem um membro do comitê editorial indicado por Serra.

Se há muitos anos os tucanos são blindados pela imprensa, há obviamente uma troca de interesses em jogo. Dada sua posição na mesa, Dimenstein certamente não está fora dessa jogada.

Não é possível que, com toda sua responsabilidade e pretensão de educador, Dimenstein seja incapaz de fazer uma crítica sequer à Secretaria de Educação e ao Governo do Estado em todas suas trapalhadas ao longo desses anos – desde a compra de milhares de exemplares de revistas da Editora Abril sem licitação, passando pela precarização dos regimes de trabalho (contratação de 100 mil professores temporários por ano e efetivação de apenas 10 mil a cada quatro anos), até a publicação repleta de erros dos Cadernos do Professor, utilizados pela rede estadual de ensino. Ainda assim, semanalmente dedica suas colunas à desmoralização da categoria que atualmente mais ataca a imagem do “ínclito” governador José Serra. Há isenção no ofício desse jornalista? Se Dimenstein é tão comprometido com a educação de São Paulo, por que insiste em tirar a culpa do governador sobre a descarada política de sucateamento (leia-se destruição) do ensino paulista, que começou há anos e hoje sofre de uma tuberculose galopante (ou você acha que o custo do aluno para o estado é o mesmo que para uma escola particular)? Por que esse colunista não deixa claro que a PM utilza da violência sobre toda e qualquer manifestação contra o governo, criminalizando os movimentos sociais?

Caro Dimenstein, se há alguma aula ocorrendo por estas bandas, então o senhor é o “professor”. E aprendi que, se eu for candidato a algum cargo político um dia, terei muitos amigos jornalistas golpistas como o senhor. Infelizmente, hoje, em minha carreira de educador, não posso chamá-lo de amigo com tantas mentiras que conta sobre nós e que inventa a favor do governo Serra.

Mais sobre a forma com que os professores são tratados por José Serra

“A Democracia, a Baderna e a Paz”, do Passa Palavra

E para não dizer que minhas críticas são infundadas: Depois da trampa da Globo: Serra dá R$ 3,7 milhões a “Conselheiro” da Folha(*)

Greve dos professores de SP. Assembleia do dia 26/03/10

Pelo menos 15 mil professores (minha conta; a da Apeoesp somou 20 mil, a da PM, hilários 5 mil) se juntaram hoje sob a chuva para decidir em assembleia a continuidade ou não da greve. Felizmente, a paralisação continua.

Por que felizmente? Passei duas semanas dando aulas pensando se seria uma decisão feliz aderir à greve. Até que resolvi parar. Vários – incontáveis, eu diria – foram os motivos para minha decisão.

Mas há também motivos contra.

Pensei nas crianças que querem ter aula e têm medo de precisar repô-las aos sábados ao longo do ano. A elas, não interessa a greve. Pensei no meu salário indo por água abaixo e no risco de perder meu emprego – pois sou OFA (ocupante de função atividade, o mesmo que professor temporário) e não tenho qualquer estabilidade empregatícia: se faltar por 15 dias consecultivos, perco o cargo. Nesse sentido, paralisar é tão producente quanto dar um tiro no próprio pé. Pensei nos 80% dos professores da minha escola que não aderiram, e me sinto isolado no meio de todos aqueles “macacos velhos” que, após todos os longos anos que vêm servindo o magistério, possuem argumentos fortíssimos para seguirem trabalhando em meio ao vendaval. Como se andorinhas sozinhas não fizessem verão.

Não sou andorinha, nem sequer me interessa a estação. Como tenho espaço para atuar na sociedade – seja como professor, seja como qualquer sujeito – luto para mudar essa estreita área de influência que com minhas parcas ações consigo influenciar.

Mas aderi à greve, e preciso me justificar.Antes, preciso fugir desse vício de polarizar os pontos de vista. Tenho essa forte tendência maniqueísta de justificar os fatos contrapondo-os em duas colunas, antagonizando-os.

Se não quero polarizar os argumentos, é porque não acredito na unidade por trás de um movimento. Não é verdade que, em todas as disputas ideológicas ou políticas, existem dois blocos coesos, um contra o outro. Seria mais do que utópica – seria fantástica uma organização em que todas as pessoas concordam em todas as instâncias com suas diretrizes ou determinações. Um sindicato ou um movimento social homogêneo é tão real quanto uma sala de aula só com alunos sedentos por conhecimento. Por isso, não espero que todas as pessoas participantes de uma greve concordem com todas as reivindicações que a motivam.

Esse é o meu caso. Se tomarmos a pauta comum da Apeoesp, da Conlutas, da CUT e dos outros movimentos sindicais, vemos sempre as exigências por

-aumento salarial, normalmente citando 34,3% de aumento,

– fim da provinha (eliminatória de temporários) e da provona (que fornece aumento salarial por mérito) e

– melhores condições de trabalho.

Concordo apenas com a mais geral das exigências. Na realidade, minha pauta seria essencialmente diferente. Não exigiria o fim da provinha, mas sim a construção por inciativa do Estado de um projeto de formação continuada de professores. Afinal, se o estado investisse nos professores que já fazem parte da Rede, não haveria o porquê de forçá-los ao desemprego, culpabilizando-os por não investirem em sua própria capacitação profissional – o que o salário de fato não permite. Formação continuada é uma reivindicação nobre e legítima a provinha seria desnecessária no final das contas.

Não exigiria o fim da provona, mas sim a criação de um plano de carreira para todos os professores igualmente. Afinal, se os professores já foram contratados alguma vez e se houvesse investimento na formação dos professores, vincular aumento salarial a mérito seria mera questão de retórica. Premiação por mérito, como já mostraram os behavioristas, funciona perfeitamente apenas com pombos e camundongos. E, como consequência, não seria preciso gastar verba pública com a provona.

E melhores condições de trabalho é o que qualquer profissão tem direito de exigir, dado o cotexto histórico, jurídico e social. A concepção de trabalho sempre injustiçou o trabalhador, seja através da mais-valia ou fazendo com que alguns trabalhassem mais que as outros em nome de um desenvolvimento que só produz resultados para a elite. Chega a ser ridícula a inclusão desse ponto nas reivindicações.

Mas minha adesão à greve não tem nada a ver diretamente com essa pauta. Só aderi a ela porque um sentimento de hipocrisia me assolou: não poderia seguir criticando o governo do estado e sua política de sucateamento da educação pública (básica e superior) enquanto abriramão de um direito dado aos trabalhadores pela Constituição de 88. Quando me vi com um instrumento de luta nas mãos (por mais arcaico que a greve possa parecer) e dando minhas aulas fingindo estar alheio ao potencial sacrifício de parte do corpo docente, que enchia as avenidades da cidade em assembleias com 40 mil pessoas, vi que de alguma forma existiam pessoas compartilhando do meu ponto de vista, apesar de enxergarmos por ângulos diferentes. Não somos iguais, nossos anseios não são compatíveis, mas, enquanto professores e sujeitos responsáveis por uma prática social, nosso inimigo é comum. E a desunião é um passo sem volta rumo ao fracasso não só da nossa categoria mas da sociedade como um todo, que há anos sofre com a política neoliberal tucana no governo de São Paulo e sua consequência nefsta sobre a educação pública.

A assembleia no Palácio do Bandeirantes

Hoje, na assembleia, senti um alívio. Obviamente não se apagam de uma hora para outra todos os bons motivos para não se entrar em greve. Isso me fez sentir a alma dividida por um tempo. Até participar da assembleia de hoje.

Vi de perto as agressões da polícia aos professores. Senti com meus próprios olhos (não apenas vi, mas senti) o gás lacrimogênio lançado pela polícia contra nós. Com a finalidade de dispersar a mutidão e apoiado pela aquela hipótese (que sempre surge para justificar a violência policial) de que sempre há um manifestante violento (como se isso fosse o bastante para que uma mutidão seja agredida de forma descabida como aconteceu), a polícia lançou bombas de efeito moral, balas de borrada e desceu seus cassetetes sobre os professores manifestantes. Enquanto isso, após convocar uma comissão para negociar a pauta de reivindicações, a Casa Civil fazia sua proposta: só haveria negociação se os professores interrompessem a paralisação.

Em outras palavras: “enquanto o Estado espanca vocês, finjam que essa greve nunca aconteceu e TALVEZ nós, do PSDB (Pior Salário do Brasil), daremos a vocês um vale-coxinha e um corredor polonês para saírem daqui com o rabo entre as pernas”.

Recusamos. Tentaram pintar nossa cara e nos colocar um nariz vermelho (não com um daqueles de palhaço, mas com uma bela duma cassetada na cara). Não passaram. A greve continua ao menos até quarta-feira, dia 31.

E não passarão.

Presenciar (mais uma vez) a violência do Estado sobre manifestantes pacíficos me ajudou a aliviar a culpa. Aquela culpa que vem quando lembro das pobres criancinhas que querem aprender Física ou aquela que vai apertar meu coração quando ver meu holerite com meio salário a menos. Não só alivou minha culpa, mas também me deu mais força para seguir forte, acreditando que ainda vale a pena, ao menos uma vez neste mundo, lutar pelo que se acredita.

Mais:

Serra recebe professores a bomba. 16 feridos (do Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim)

O mundo bizarro de Serra (do Brasília, eu vi, de Leandro Fortes)

Políticas educacionais na periferia: CEU Caminho do Mar

CEU Caminho do Mar

Há uma série de variáveis que determinam a situação de sucesso ou fracasso escolar – grosso modo, se o aluno é ou não é bem sucedido no processo de aprendizagem, resultado da escolarização a qual todos nós somos submetidos nas escolas.

Um estudo interessante levado a cabo por Haroldo Torres indica que não só os fatores individuais (etnia, sexo, escolaridade dos pais, renda familiar, etc.) mas também os espacias são relevantes para essa análise desse processo. Isso quer dizer que um menino branco de classe média que mora na periferia tem menor probabilidade de sucesso escolar que outro menino branco de classe média que mora no centro, sendo ambos filhos de pais com a mesma escolaridade.

Tal resultado é um forte motivo para que o Estado, ao criar políticas que visam a melhoria da qualidade de ensino, leve em conta fatores sócio-espacias, ou seja, considere políticas educacionais na periferia distintas das aplicados no centro, para que suas ações deem resultado.

Os Centros Educacionais Unificados (CEUs) representam um avanço nas políticas educacionais públicas nas periferias da cidade de São Paulo, por serem pioneiros nesse sentido e também por permitirem o acesso das comunidades afastadas do centro e uma diversidade de bens culturais aos quais antes não tinham alcance.

Tive a oportunidade de acompanhar de perto um CEU em um estágio que acabei de fazer para uma disciplina de meu curso de licenciatura. No meu caso e de meu parceiro de estágio, o Danilo, visitamos o CEU Caminho do Mar, no Jabaquara. Fomos muito bem atendidos por funcionários e alunos, o que nos foi mais que um incentivo para mergulharmos naquela realidade a qual não conhecíamos.

Segue uma breve introdução sobre a organização do CEU. Para começar, o CEU não é uma escola. O CEU é dividido em quatro unidades que funcionam em conjunto: três unidades educacionais – creche, educação infantil e ensino fundamental – e uma unidade gestora (ou Gestão). Um conselho de integração se reúne algumas vezes ao ano a fim de criar elos entre as ações das unidades e fazer com que convirjam ao objeto que têm em comum.

As quatro unidades agem articuladamente em benefício não apenas das crianças da região onde o Centro se situa, mas também para sua comunidade como um todo: adultos, idosos, educadores, atletas, donas-de-casa, ricos, pobres, o brilho do CEU é o mesmo para todos eles.

Na prática, o que faz do CEU mais que uma escola é a Gestão, responsável por organizar atividades voltadas a todos os públicos. As atividades são as mais diversas: cinema, teatro, cursos de dança, tricô e crochê, oficinas sobre cultura africana, natação, informática, tudo o que puder imaginar, além, obviamente, das atividades da creche e das escolas.A ideia principal é que as crianças estejam no CEU em tempo integral: quando não estão nas escolas, devem estar participando de atividades promovidas pela Gestão.

O CEU funciona portanto como espaço tanto de escolarização quanto de plena socialização.

Mas será que apenas políticas públicas são capazes de saciar a demanda por bens culturais, apagando a polarização espacial centro-periferia? Políticas individuais ou particulares, como ONGs, fundações e institutos, serão incapazes de suprir tal necessidade?

Normalmente são iniciativas individuais que assumem a responsabilidade de promover políticas públicas em periferias. De certa forma, o CEU não foge dessa regra. Apesar de o município fornecer uma série de ferramentas para que as políticas possam ser implementadas – além da estrutura do CEU, Secretarias de Educação, de Participação e Parceria e de Cultura, assim como os respectivos repasses de verba, e financiamento privado são alguns exemplos – são os coordenadores, diretores e chefes de unidades que, usufruindo de suas atribuições, viabilizam o sucesso das iniciativas públicas. A estrutura fornecida pelo Estado em si não traria resultados não fosse pela presença de pessoas que incorporam políticas desse caráter nas periferias.

De qualquer forma, os CEUs são modelos bem sucedidos (exceto por alguns oportunismos que emanam de políticas partidárias, mas não quero entrar nesse tema agora) de políticas educacionais que propõem minimizar o gradiente de acesso a bens culturais e educacionais entre centro e periferia – por mais que essa polarização não me satisfaça, mas essa é outra história.

As fotos não foram tiradas por mim. Se clicar sobre elas, irá para suas ligações originais. A foto abaixo me chamou muito a atenção. Durante as visitas não vimos a piscina cheia como na imagem, mas ela ilustra um pouco da relação da população local com esse tipo de entretenimento, normalmente caro e de acesso facilitado, sem dúvida, a quem mora no centro da cidade.

Piscinas do CEU Caminho do Mar

Alan Turing: questão de sexualidade

alan_turing5No último dia 10 o governo britânico pediu desculpas pela forma violadora como tratou o cientista inglês Alan Turing na década de 1950 responsabilizando-o por sua sexualidade.

Alan Mathison Turing (1912-1954) deu contribuições a diversas áreas do conhecimento científico, como matemática, lógica, ciência da computação e química. Apesar de ser mais lembrado na Inglaterra do que em outros países, não é exagero dizer que todo o mundo é influenciado pela produção científica de Turing. Para citar apenas parte de seu legado, foi ele quem fundamentou a ideia de computador enquanto máquina de resolver problemas matemáticos, decifrou a máquina criptográfica alemã Enigma, utilizada na Segunda Guerra Mundial (colaborando assim com a reviravolta dos Aliados e sua vitória), ajudou a construir o conceito de algoritmo e fomentou o debate sobre inteligência artificial.

Por ser homossexual, foi condenado pela legislação da época, sob a qual foi considerado doente mental e criminoso. Foi afastado dos projetos secretos do quais participava por ser encarado como um risco à segurança do país. Para não ser preso, submeteu-se em 1952 a um tratamento com hormônios femininos como forma de se curar do que na época era encarado como distúrbio mental. Aos 41 anos foi encontrado morto; acredita-se ter sido vítima de suicídio, embora sua mãe tenha duvidado da versão oficial de sua morte. O pedido de desculpas do governo britânico, comunicado pelo premiê Gordon Brown, foi reflexo de uma petição on-line que visava resgatar o assunto e chamar a atenção para a falta de financiamento ao museu do cientista.

Apesar de a ação discriminatória e homofóbica do Estado inglês contra Alan Turing não ser mais aceita como foi naquela época (desde 1973 a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Associação Americana de Psiquiatria) não é raro ainda presenciarmos discriminação a colegas (não só) no meio acadêmico, embora de forma não institucionalizada, por conta de sua orientação sexual. Sofrem tratamento diferenciado, desde piadas “inocentes” a maus tratos, por terem uma identidade sexual que não corresponde à exigência social.

Muitas vezes essa discriminação passa desapercebida: a “naturalidade” com que é encarado esse tipo de distinção, visto como espontâneo frente ao “desvio comportamental” associado à homossexualidade (como se existisse um modo normal de se agir, que devesse ser imputado a todo e qualquer indivíduo), é mais do que herança do pensamento que permeava o contexto em que Turing (e não só ele) teve sua dignidade violada. A heteronormatividade é mais uma das máscaras com que se veste a não aceitação do que é diferente. Ou uma homofobia dissimulada se comparada ao que era há 50 anos, porém não menos opressora.

Para insipirar a reflexão, uma bela obra de arte audiovisual.

(Extraído do blog Café com Ciência)

Criminalização – II. Dos movimentos sociais

A justificativa para o uso da força policial é a preservação da ordem social, encarada como um tipo de motor civilizatório; sem essa tal ordem, seria impossivel manter a sociedade coesa e em desenvolvimento. No entanto, não reconhecemos muitas vezes o uso da polícia na defesa da ordem política que beneficia grupos específicos em detrimentos dos da sociedade em seu sentido mais amplo.

Os movimentos de reivindicações sociais vão de encontro a essa ordem política, e sofrem com as forças de reação. Uma dessas forças é a associação dos movimentos sociais a ações criminosas. Enquanto os movimentos reivindicam seus direitos, supostamente garantidos pela lei, a elite detentora do poder reage dando-lhes cores de delinquência por meio dos recursos que possui, impedindo o comprometimento da atual configuração social a qual assegura os interesses dessa minoria.

A relação entre movimento social e crime é construída em geral pelo estado e pelos meios de comunicação. Da mesma forma que se usa o estado como instrumento para estabelecer interesses particulares de uma minoria contra a população marginalizada, ele também é utilizado para afastar a ameaça aos valores elitistas promovida pelos movimentos socias. A investida por meio do estado contra os movimentos populares é fortalecida pela atual estrutura do sistema penal, respaldado no combate ao comportamento que ofende os valores burgueses e cuja origem reside nas transformações sociais que ocorreram após a Revolução Francesa.

Os meios de comunicação assumem papel fundamental ao acusarem os movimentos e seus agentes, dando a eles a imagem de delinquentes. Não faltam exemplos para esse tipo de ação.

Trabalhadores e estudantes são frequentes atores na luta por seus direitos e sofrem as consequências nas mãos do estado. Desde reivindicações por preços justos no uso do transporte público até exigências de reajustes salariais, tais categorias são reprimidas com a força policial. Nesse caso, o estado utiliza do monopólio da violência para manutenção de uma política que atende aos interesses do corpo empresarial e de quem os acompanha.

O MST sem dúvida é o movimento social mais estigmatizado, por conta da sua importância na reivindicação na reforma agrária no Brasil. Comumente são associados crimes às suas manifestações, e a imprensa, sem deixar claros os fatos, favorece os interesses das elites detentoras das terras atacando a imagem do movimento – como ocorreu no último conflito em Belém do Pará, em abril de 2009.

Não é menos notável o papel dos ruralistas e grandes detentores de terras na criminalização do movimento indigenista. Tendo em vista o crescimento da força mobilizadora em torno da defesa das reservas dos povos indígenas e quilombolas, garantido pela constituição de 1988, a mídia vem tentado criminalizar a cultura desses povos, muitas vezes acusando-os de serem incapazes de conviver civilizadamente sem intervenção do estado em suas comunidades. Exemplo claro é este fantasioso vídeo mostrando uma criança sendo enterrada viva, usado por ONGs na defesa de uma intervenção cultural nas tribos amazônicas. Deve-se destacar também o recente conflito entre índios e policiais no Peru, onde ao menos 60 pessoas morreram na manifestação a favor do direito sobre suas terras.

O esforço empenhado pela tevê venezuelana no apoio ao golpe de estado levado pelos opositores do presidente Hugo Chávez em abril de 2001 talvez seja o exemplo mais emblemático do que a mídia pode fazer para transformar manifestantes em criminosos. o documentário A revolução não será televisionada” contrapõe de forma pedagógica os fatos aos factoides criados pela imprensa golpista, norteados para a derrubada do presidente.

Embora devamos ter cuidado para não nos posicionarmos cegamente a favor de qualquer movimento social, não podemos deixar de aprofundar nossa análise crítica. Só assim somos capazes de identificar o jogo de poderes por trás do uso da polícia para coibir ações tidas como criminosas quando podem na verdade corresponder à verdadeira luta por direitos comuns.

Em tempo – Dossiê: Lutas e repressão nas universidades de São Paulo