Na catraca. III

Aquela moça dos cabelos cacheados me chamaram a atenção logo que subi no ônibus. Ela conversava com uma amiga e o cobrador.

Logo desceram as duas. O cobrador, sem perder tempo, atualiza o motorista do bafão que acabara de descobrir.

– Tá difícil arrumar emprego mesmo. Viu? Elas acabaram de sair da entrevista. Eram dez vagas, contrataram dez loiras e elas ficaram de fora.
– Ué! Mas a outra é loira…
– É mais ou menos. Falaram que eram dez vagas, contrataram dez loiras. Tá vendo?! O povo vota na Dilma e Lula, agora tá todo mundo sem emprego! Quem paga é essa juventude. Tinham dez loiras, contrataram todas – refletiu o cobrador, naturalizando o racismo estruturado nos 516 anos de história do país.

Culpa da Dilma. Nem mesmo a responsabilidade sobre o preconceito racial estrutural do país foge do alcance da inábil presidenta.

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Na catraca

Subi no busão. Quando encostei na catraca, saquei meu bilhete único (cartão de passagem) e lembrei: “dia de pular catraca”. Protesto contra o aumento da tarifa, organizado por vários movimentos, dentre eles o que defende o passe livre.

Olhei pra dentro do ônibus. Fui o segundo passageiro a subir. O coletivo acabara de sair do ponto inicial, estava praticamente vazio.

Perguntei pro cobrador, com meu bilhete já no aparelho que descontaria meus R$2,70:

– Tem muita gente pulando a catraca hoje?

– Não, ninguém pulou. Por quê?

– Por que hoje é dia de protesto contra o aumento da tarifa, que subirá para R$2,90.

– Ninguém pulou. E se pulasse, o ônibus pararia na hora e botaríamos o cara pra fora. Isso não é protesto, isso é vandalismo.

O cobrador, que não terá um centavo de aumento em seu salário, reproduziu o discurso do explorador. Sentei e, na marcha fúnebre em direção ao meu trabalho e R$2,70 mais pobre, fiquei a pensar sobre o que deveria ter dito ao cobrador para convencê-lo da importância do protesto.

Por fim, não pulei a catraca e segui calado, convencido de que não poderia fazer mais nada. Pelo menos não naquele momento.