O caçador de sacis em festa de Halloween

Véspera da tradicional festa de Halloween na escola. Embora eu seja uma resistência quase fundamentalista à importação de comemorações folclóricas estadunidenses – preciso ainda escrever sobre imperialismo e destruição dos símbolos e da identidade do outro pelo neocolonizador? – fiz vista grossa e não problematizei nada.

Estou ganhando ternura? Ou amolecendo? Minhas problematizações na escola vêm há algum tempo perdendo sua intensidade.

Tentei me entregar à brincadeira. Disse à minha companheira que um estudante me sugeriu ir fantasiado de motoqueiro fantasma. Eu insinuava disposição para aderir ao evento, inclusive à caráter. “Por que você não vai fantasiado de caçador de saci? Ou de saciólogo?”

Sorrio por dentro: ela me conhece mesmo. Banquei. Poderia, enfim, chegar perto de realizar o sonho de ser um sociólogo.

Tiro do fundo do armário a camisa branca polo, de entrevistas, junto a uma jaqueta bege cheia de bolsos. Com um chapéu meio arqueólogo, meio safári, me sinto adequado. Lembro de um vídeo explicativo de como fazer um tornado dentro de uma garrafa. Com essa roupa e um saci preso no recipiente, quem negaria minha vocação à “saciologia”?

Chego na escola, vou à sala de professores. “Como você está elegante”, ouço da professora de biologia, vestida de preto e com maquiagem sutilmente pesada. Comecei bem. A professora fascista de língua portuguesa, que compete diariamente comigo em uma disputa da qual nunca fiz parte, olha e até dá um sorriso. Sorrio de volta, quase realizado por dividir um contentamento com pessoas que estão à anos-luz de distância da minha forma de ver o mundo. “Vim da saciólogo”, digo enquanto estico a jaqueta na tentativa de desamassá-la um pouco.

Nesse instante, até a ambulância que passava na rua parou a sirene. “Ah”, disse a bióloga dando um ponto final à conversa. A outra professora, a fascista, fecha a cara, pega seu diário e sai da sala. O que eu fiz? Eu não deveria estar fantasiado? Não passei o perfume do saciólogo? Seria a jaqueta verde e não bege? Ou eu não estava fantasiado e não sabia? Qual pecado cometi? Talvez quando Jesus voltar eu tenha alguma pista.

Fui para a festa. Todo mundo, ou quase, estava com alguma fantasia.

Góticas, vampiros, jogadores de futebol. Não é de Halloween, mas vale a fantasia.

Wandinha, Pennywise, gente sangrando e com feridas. O corredor era cenário de filme da Tela Quente.

Não é que deu certo? Estudantes protagonizaram e se engajaram com a atividade. Agora, se divertiam na própria festa.

Bruxas, caubóis, zumbis, militar da força nacional com máscara de palhaço.

Espera. Fantasia de assassino? Afinal, por que não poderia?

Os outros personagens de horror eram todos ficcionais. Mas militar que mata preto pobre na quebrada é diferente: real, cruel, sangrento, genocida da população composta pelos próprios estudantes dessa escola, inclusive aquele fantasiado.

Existe limite para fantasia? Penso numa situação limite, absurda. Nazismo costuma ser bom parâmetro para limite de crueldade. Por exemplo, fantasia de Hitler. Pode? Lembro da polêmica escolha de um professor em uma escola particular que se propôs a reproduzir uma sala de reunião nazista, com suásticas penduradas em bandeiras vermelhas pelas paredes. O objetivo era ambientar a discussão sobre holocausto. A falta de ética do professor revoltou muita gente. Poucas pessoas ousam questionar a violência representada em símbolos nazistas. No entanto, por que poucas pessoas reconhecem a violência simbólica impregnada na polícia e no exército?

Um estudante se fantasia de Pablo Escobar. Outro, com roupas do dia-a-dia, exibe aos de confiança uma arma de brinquedo. Ele não queria que eu visse. Peço para me mostrar. É de brinquedo e de ferro, pesada, ao mesmo tempo.

A problematização parece nunca andar sozinha, tem vindo sempre acompanhada de isolamento. Problematização e isolamento: quase um romeu-e-julieta, mas amargo. Das duas, uma: ou divido minha inquietação na sala de professores e acabo mais uma vez ignorado ou guardo para mim e sofro solitário. De qualquer forma, sigo impotente diante de um filme de horror em que a violência simbólica é perpetuada de maneira irresponsável.

Estou em um ensaio sobre a cegueira?

Todos os dias, calado, sou recebido na entrada da escola pelas estátuas de Fernão Dias e padre Manoel da Nóbrega, dois grandes assassinos da história da colonização da América portuguesa. Minha visão de mundo me deixa ilhado, preso a uma solitária, sem ter a quem perguntar se só eu acho uma atrocidade símbolos de violência estarem representados na porta de uma escola; hoje, em uma brincadeira de Halloween, representados em fantasias de horror real.

A quem eu perguntaria, se na sala de professores sou ignorado até mesmo quando faço um esforço atroz para desconstrair e entrar na brincadeira?

Minha solidão diária é a de um caçador de sacis em festa de Halloween. A diferença hoje é que estou à caráter.

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2 comentários sobre “O caçador de sacis em festa de Halloween

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