O chato enquanto trincheira antifascista

– Posso fazer uma pergunta pra vocês? Eu sou chato pra caralho, não sou?

Tinha lá uns 12 anos, talvez. Buscava a aprovação de dois amigos vizinhos meus.

Não sei o que esperava como resposta. Sei que tinha uma mensagem a passar, muito clara pra mim: faria o que fosse preciso para não ser o chato da turma.

Impossível recordar a motivação de não querer ter aquela etiqueta grudada em minhas costas. Ninguém quer ser chato, não é? Então eu obviamente também não deveria me sujeitar a essa pecha.

Difícil foi entender que, quando não se sujeita-se a ser chato, deixa-se de ser sujeito.

Penso no processo que leva ao veredicto de uma pessoa chata: um julgamento (pelo outro) de uma ação sua e uma avaliação (feita pelo outro) com base em um critério nada objetivo (escolhido pelo outro). Ser ou não ser chato depende, a priori, de quem te avalia.

Não, não existem critérios naturais para classificar o chato. O chato de agora pode nunca ter sido chato até há poucos instantes e, em um átimo, corre o risco de voltar a ser a pessoa mais descolada do pedaço – sem poder controlar para onde o vento da chatice vai soprar. A relação entre o defeito moral e o veredicto é puramente histórica, portanto social.

Longe de ser relativista: os critérios não são arbitrários. Apesar de nada objetivo, os referenciais para o veredicto nunca fogem à normalidade. Ser chato é ser abjeto, é ser diferente do que a ordem das coisas prenuncia.

Pegue qualquer situação típica. Ouvir música em alto volume na rua. Pedir três quintos a mais de uma escumadeira de arroz no refeitório. Problematizar a fala do coleguinha. Fumar em lugar público. Acender a luz para ler à noite em uma viagem de ônibus ao lado de um passageiro com sono. Pedir uma ajuda pra resolver um problema trivial. Programar o relógio para apitar de hora em hora. Chamar seu colega da baia do lado para ver em sua tela uma manchete de notícia que surgiu em seu feed (e, provavelmente, no dele também). Pedir as horas com uma frequência além da aceitável. Peidar no busão. Fazer questão todo dia de criticar a polícia na sala de professores. Evangelizar domingo de manhã de porta em porta. Insistir na piada do pavê em encontros de família. Repetir diariamente o comentário sobre o clima no elevador. Explicar uma piada. Visitar alguém no meio de uma tarde de terça-feira. Repetir com outras palavras o que já foi dito.

Não quero dizer que é libertador cheirar a bufa alheia, que a ceia natalina é o caminho para a comunhão familiar ou ainda que compartilhar uma manhã pós-balada com solícitas testemunhas de Jeová nos levarão à paz entre os povos. Minhas questões estão em outro plano: de que ordem é meu desejo de intervir no comportamento do outro e sugerir-lhe como agir ou deixar de fazê-lo? Por que meu julgamento prescinde me colocar no lugar da outra pessoa para entendê-la?

Chata é a pessoa que  não se adequa à expectativa de outra, é quem não tem problema em não aceitar os padrões impostos, a normatividade, a regulação social. Na pasteurização social que nos assola e nos acinzenta, nada mais autêntico que ser uma pessoa chata.

Sem receio de pecar pela categorização, a função do rótulo chato é tirar a legitimidade da escolha da outra pessoa pela liberdade de ser ela mesma. É como se fosse o remédio certeiro pra liquidar a espontaneidade daninha naquela monocultura de adequação que as autoridades deixaram escapar: na ausência de doutores para te cagar regra e te dizer como tem que ser, sempre haverá alguém para te chamar de chato.

A palavra chato é um sutil cavalo-de-tróia do fascismo em nossa língua. É um instrumento poderoso, violento e supereficiente de controle performático dos outros e de si. Estruturas externas internalizadas, armadas como uma flecha pronta para etiquetar as inadequações mais espontâneas e envenenar o que poderia ser a marca mais autêntica de um ser. A frase “que cara chato” é capaz de implicar transformações em profundidades da identidade de qualquer pessoa que deixariam psiquiatras, pastores, médicos, juízes e pms impressionados. Logo, aceitar-se como chato é, de certa forma, se colocar em uma das trincheiras contra os pequenos fascismos que operam em nós cotidianamente.

Mesmo tendo deixado de me dirigir aos outros com perguntas tão diretas em busca de aprovação, até hoje me vejo deixando de fazer o que me faz ser eu mesmo simplesmente para satisfazer expectativas que nunca construí mas que estão em mim. É que, infelizmente, se aceitar como chato não sintetiza todo cuidado que se deve ter de si. Tem-se mesmo é que ir todo dia ao quintal para se exterminar as diferentes sementes de Estado que nos jogam por detrás dos muros.

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