Dona Sônia

Tinha acabado de me mudar. Minha companheira e eu alugamos uma casa. Era abril, tarde de sábado. Havia percebido que a pia estava com o sifão quebrado. Fui buscar um novo, não achei, paciência.

Voltando para casa, vi uma senhora sentada no ponto de ônibus no outro lado da rua. Me pareceu ter muitos, muitos anos. Chuto uns 90. Tinha roupas bem usadas e um carrinho de feira cheio de compras. Talvez eu não a tivesse percebido se ela não tivesse me chamado. Imaginei que tipo de ajuda ela precisaria de mim. De pronto, meti a mão no bolso para procurar alguma moeda.

Atravessei a rua e a cumprimentei. Sua resposta foi um trem de sons. Mesmo com muito esforço, não entendi absolutamente nada, nem sequer uma vogal. Tentou frases curtas que também não decifrei. Sua idade afetava sua dicção.

– Moça, me desculpa, mas eu não estou conseguindo entender o que a senhora está dizendo.

– Qual seu nome?

– Tiago.

– O meu é Sônia.

Provavelmente ela já tinha me falado o nome antes e eu não havia entendido, mas, ótimo!, havia sido dado um grande passo.

– A senhora precisa de alguma ajuda?

O que se deu dali em diante foi um diálogo longo e de conteúdo sucinto. Ela falava de “ônibus para Lapa” e “trem para Itapevi”. Me convenci de que ela queria saber se ela estava no caminho certo para ir para casa. Como eu não a entendia bem, por mais que ela tenha repetido as mesmas informações várias vezes, perguntava:

– A senhora quer saber se aqui passa o ônibus pra Lapa? E se da Lapa dá pra pegar o trem pra Itapevi?

Respondeu que sim, com uma certa felicidade em perceber que, enfim, eu a entendia. Naquele instante, reparei nela, além de uma satisfação, um certo ar de superioridade. Não era arrogância, era como se ela controlasse tudo o que estava acontecendo. Como se dona Sônia soubesse que estava no caminho certo desde sempre – e sabia. Respondia ela positivamente para satisfazer minha curiosidade? Afinal, não estaria com toda aquela idade ali longe de Itapevi perdida ou à toa fazendo feira. Enquanto esperava o ônibus, resolveu controlar o tempo ao seu modo e à sua maneira, trocando peões de lugar e refazendo as regras do jogo.

Por que ela precisaria de mim ali enquanto brincava de Cronos e inventava uma nova lógica e leis da Física inéditas? Era simpática, inofensiva e comunicativa, embora criptografasse tudo o que emitia. Eu queria estar ali, me sentia bem e tentava compartilhar de alguma maneira daquela boa vibração que ela tinha. Acho que tentei racionalizar todas as metáforas representadas por ela, como se eu pudesse fotografar em palavras aquela ligação entre nós, para depois contar para alguém tudo o que senti. Hoje estou convencido de ter pegado o caminho errado sem me perder.

E então ela começou a chorar. Eu não conseguiria entender mais nada, enfim. Sentei ao lado dela, coloquei meu braço por trás dela e sobre seu ombro, e esperei aquilo que estava acontecendo terminar de acontecer.

– Tá tudo bem?

– Tá tudo bem.

– A senhora tem certeza de que não precisa de ajuda?

– Tenho. Toma…

Tirou do carrinho de feira um saquinho com folhas raladas e me entregou.

– Moça, obrigado, mas tenho comida em casa, acabei de almoçar.

– Toma – me entregou, se negando a ouvir qualquer argumento que eu pudesse inventar além dos que ela já tinha ouvindo.

Agradeci. Fiquei sem ter o que dizer. Nesse tempo, passou um senhor. Perguntei a ele se ali passava um ônibus pra Lapa. Ele se enrolou um pouco. Percebi que dona Sônia até quis ouvir o que ele tinha a dizer, mas ficaria ali esperando sua condução, independente de qualquer novidade que ele tivesse a nos contar. Ele seguiu caminho. Era minha vez.

– Preciso ir. Espero que a senhora consiga ir pra Lapa e de lá pra Itapevi.

Muito feliz, me deu tchau.

É como se eu tivesse passado pelo set do Histórias que só existem quando lembradas.

Achei que ela precisava de ajuda quando a vi. Queria ali não ter feito qualquer julgamento. Queria não poder julgar mais nada, nem o que se passa, nem o que ainda vai passar. Apenas estar ali, viver ali, experimentar ali, e pronto.

Quem sabe um dia.

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