O valor do saber

Muito se fala sobre estudantes que não querem estar na escola, preferem perder seu tempo em seus celulares, não estão nem aí para o conhecimento que professoras e professores oferecem, desrespeitam a autoridade… são queixas que vêm aumentando de maneira crescente, a ponto de serem sensíveis em todas as escolas, de públicas a particulares, sem respeitar classe ou credo.

Se esse fenômeno transcende escolas de regiões ou perfis socioeconômicos, há uma sugestão de que há uma estrutura responsável por estudantes estarem alheios à escola e às suas atividades, sem dar qualquer importância ao saberes e ao que essa instituição tem a lhes oferecer.

Por que estudantes preferem estar em qualquer lugar menos na sala de aula? Por que o ambiente escolar é bom para a socialização, mas é desinteressante, desvalorizado e aparentemente sem a menor importância para estudantes?

Há quem diga que é uma questão geracional, influenciada pelo atual fácil acesso às tecnologias de informação. Ouve-se também que há uma crise de valores, que se manifesta na perda de autoridade do professor em sala de aula.

Apesar de ser necessário uma investigação mais profunda e rigorosa para se responder a essa pergunta, arrisco um palpite. Corro o risco de ser irresponsável para ao menos despertar alguma discussão sobre o tema.

Nosso modelo de educação formal, em salas de aula centradas em uma pessoa detentora e oferecedora do conhecimento, remonta ao século XIII e se constituiu na Europa. A participação das aulas nas universidades, dentro de alguns limites e restrições, era optativa a quem tivesse interesse em desvendar a organização do mundo e do Universo. A princípio, não havia coação: quem não quisesse não precisava estar lá. Apesar da exigência de um comportamento disciplinar e respeito à autoridade investida à quem ministrava as aulas, provavelmente não era necessário o uso de métodos coercitivos para que o conhecimento fosse valorizado por estudantes. A valorização do saber aparentemente era algo dado a priori, uma vez que as pessoas que frequentavam a universidade estavam lá por iniciativa própria. Não havia necessariamente uma obrigação de ela estar ali buscando novas formas de conhecer o mundo.

Em algum momento dessa história, as pessoas começaram a ser obrigadas a frequentar a escola. A institucionalização da escolarização passou a regular uma série de relações sociais. A igreja e o Estado dependiam de uma instituição disciplinar que correspondesse às necessidades da produção, portanto econômicas.

Estar em um ambiente contra a própria vontade é, independente da circunstância, desconfortável e, no geral, ofensivo a qualquer corpo. Seja um guarda britânico, uma criança diagnosticada com TDAH, alguém em uma fila de banco ou ainda uma pessoa claustrofóbica em um elevador, estar onde não se quer estar pode causar não só desconforto mas também traumas irreparáveis. Poderia aqui trazer referências ao que poderia ser a natureza humana, mas prefiro adotar uma postura conservadora e não ir tão longe. Me limito a dizer que parece haver uma tendência de as pessoas buscarem situações de liberdade para o corpo, mente e o que mais que nos permita manifestar enquanto seres vivos. Quando o ambiente escolar deixa de ser um espaço de conforto a pessoas que passam a frequentá-lo por imposição da família, da igreja, do Estado ou de qualquer outra instituição que imponha uma ordem externa, a tendência de se buscar espaços mais livres passa a se manifestar e, quase que espontaneamente, a escola passa a ser um espaço desagradável.

Como fazer com que uma instituição desagradável para os nossos corpos cumpram com seus objetivos? Por mais importante que a escolarização possa ser, como garantir que as pessoas cumpram com a obrigação de se escolarizarem se o ambiente escolar é essencialmente hostil?

O palpite é de que a criação de tecnologias específicas de disciplinarização dos corpos em ambiente escolar tornou-se mais intensa quando a frequência nas escolas passou a ser obrigatória. Na lógica de os fins justificam os meios, as pessoas têm que aprender por bem ou por mal. O maior investimento em métodos de coerção nas escolas parece não ser o único problema decorrente da escolarização imposta pela ordem social. Essa imposição, resultado de um jogo político que faz da escola não mais um templo de sacralização do conhecimento mas sim um dispositivo disciplinar, um aparelho ideológico, implica na desvalorização do saber. Ter conhecimento não deixa de ser importante, mas concorre com a necessidade de ter um diploma, certificados ou qualquer outro instrumento facilitador de uma distinção social.

Tem início o processo de desvalorização do conhecimento. A motivação primeira do modelo de educação formal constituído no Ocidente passa então a se perder ao longo de um processo histórico que propõe a escola como principal formadora de mão-de-obra, no século XIX e XX, e de cidadãos conscientes de seu papel social, do XX para o XXI. A escola, espaço criado para facilitar o acesso ao conhecimento, se transforma e tem novas funções, como a de formar pessoas aptas a corresponder a interesses diversos – cidadãos, pagadoras de impostos, civilizadas, que sustentam um modo de vida que corresponde ao modelo de economia e sociedade vigentes. A escola não é mais o templo do saber, mas a instituição que busca garantir a perpetuação da ideologia da classe dominante.

A desvalorização do conhecimento parece atingir seu auge na atualidade, com a banalização da informação, estágio que atingimos com a popularização das tecnologias de informação. Com um toque em uma tela, tem-se acesso a informações que em outras épocas só se teria com longas viagens ou no mínimo investindo-se muito dinheiro.

Houve um tempo em que um “trabalho escolar” foi um gênero plausível para se construir e apresentar o que se conhecia sobre um assunto. Hoje, sites que disponibilizam trabalhos prontos dominam as primeiras páginas indicadas por ferramentas de busca na internet e dispensam a leitura de seu conteúdo.

Há quem leia e compartilhe informações na redes sociais sem saber sua origem. Por mais que haja empresas prestadoras de serviço de difamação por mecanismos virtuais, criando memes e reportagens com informações falsas, há pouca responsabilidade em filtrar de maneira crítica os conteúdos em circulação. Não importa se a informação condiz com a realidade, importa se ela está alinhada à sua opinião.

Nesse contexto, que espaço existe para a reflexão sobre a relação entre a realidade e o simbólico? Há como se pensar sobre a construção de um conhecimento que nos permita acessar e expressar a realidade em algum grau, sendo que vivemos em tempos de que esse tipo de conhecimento não tem mais valor? Como lidar com a falta de responsabilidade de se usar um texto que não foi lido? Afinal o que estamos fazendo com a informação quando a acessamos? O que precisamos fazer para lidar com a informação de maneira que ela interfira em nossa visão de mundo e nos ajude a construir o conhecimento com um propósito social, que nos permita relações com o mundo de maneira libertadora e livre de opressões?

Não é à toa ter-se tornado comum ouvir pessoas que sentem-se à vontade para mostrar sua opinião sem conhecer com profundidade sobre o que estão a falar, não só no facebook como em qualquer espaço para além de telas e eletrônicos. Longe de fazer uma crítica à liberdade de opinião, questiono o processo que nos permite sermos negligentes com o conhecimento histórica e socialmente construído.

Parece-se me que tirar aparelhos eletrônicos das mãos das pessoas ou ainda fortalecer discursos moralistas e chauvinistas não vai nos ajudar em nada a resolver nossa limitação em lidar com estudantes que preferem estar nos corredores e não nas salas de aula. Meu palpite é de que precisamos de espaços em que o conhecimento seja valorizado sem usarmos métodos coercitivos ou discursos moralistas, saudosistas ou retrógrados. Talvez o caminho para um novo modelo de escola seja o de repensar nosso papel de educantes enquanto responsáveis por mostrar o valor do conhecimento e sua importância para a real transformação de nossa sociedade, tomando como base relações mais justas, sem opressões e que nos permitam viver livremente em sociedade.

Anúncios