O ódio

Entro na sala e sinto o cheiro da desrazão. A mensagem se traduz em meu corpo na forma de um arrepio que não vem do medo, mas do desespero. Da falta de esperança.

Um mergulho em um mar de absurdos irremediáveis me cortam a pele. Imerso nesse realismo fantástico, me sinto como um peixe seco, uma aberração, o desajuste, o travesti, o abjeto.

Custo acreditar em como posso estar tão só no meio de tanta gente.

Existem dois universos: o meu e o outro, o das outras pessoas. Curiosamente, os dois se sobrepõem sem interagirem, paralelos e sobrepostos.

Como se, regidas por regras diferentes das minhas, as pessoas se relacionassem por meio de absurdos.

Como se fosse absolutamente normal um objeto cair para cima, um pão ser desassado.

Aqui, a razão pede trégua.

Sinto-me como uma barata em um depósito de tetrapak. Estar aqui é sentir na pele a esterilização, a hermetização, o UHT, sem ter uma saída no horizonte.

A síndrome de Estocolmo tomou o mundo. Por que não tomou a mim? Me pouparia dessa dor.

Diante de um comportamento geral inusitado, sinto-me em um ensaio não escrito por Saramago. Mas não é um ensaio, é real, concreto e intencional, não tem nada de acaso.

As coisas parecem ser mesmo feitas para serem assim como são, e querer o diferente é se isolar cada vez mais em sua própria casca de noz.

Será esse arrepio um tipo de carapaça que o corpo cria espontaneamente para se proteger das ondas de ódio que tomaram nossa atmosfera?

Não há saída à autolobotomia, à demissão intelectual. A regra é a da pura exoneração compulsória da racionalidade.

Faça você mesmo: insira uma faca em seu lobo frontal, desconecte o máximo possível de ligações nervosas do seu cérebro e viva como todo mundo.

Percebo então que esse arrepio não é nenhum tipo de proteção, mas sim um presságio para a inevitabildade da morte, a única solução para sair de uma vez por todas deste espaço amaldiçoado.

Pensei que dançaria para ela quando ela viesse me buscar, mas não há tempo para isso: é correr parar morrer, com urgência.

Quero meu fim a cada encontro, a cada audição, a cada contato, a cada troca de olhares com todo mundo com quem divido esse espaço. Minha vontade é de guilhotinar a mim mesmo, rasgar os próprios pulsos, jogar-se na frente do trem, enfiar uma espada na cabeça.

Com as próprias unhas, abrir no peito um buraco do tamanho da cidade para extravazar de uma só vez toda a violência encruada, calcificada, que enrigece meus músculos a ponto de tirar qualquer reação a esse estupro corretivo que se materializa na ordem das coisas.

Penso às vezes como é estranho querer a própria morte e não a de todo o resto.

Parece-me paradoxal, até perceber que não há solução para ser quem se é e ser absolutamente diferente do que já foi naturalizado.

Como não sobra esperança, o único caminho é a busca por um fim a esse cancro que transforma tudo em pus, de fora para dentro, antes que tome o pouco que sobrou do coração.

É dar um basta a essa dor maldita, imposta por um modo de vida frígido, cinza, alienado, resignado que pinta inexoravelmente essa maldita escola em que me enfiei.

Prefiro morrer a estar neste ATPC.

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