Um mísero passo

Se você procurar no google, vai ver uma série de dicas de quem sofre da mesma coisa e de especialistas de como lidar com o problema. Faça uma lista com suas tarefas, faça atividades físicas dia sim, dia não, use a técnica pomodoro, faça isso, faça aquilo, faça assim, faça assado.

Comigo nada disso tem funcionado. Quando sinto a obrigação cochichando em meu ouvido é como se eu ficasse hipnotizado por ela. Tenho certeza de que, se estivesse em um campo aberto pensando no trabalho que preciso cumprir, me tornaria claustrofóbico, acoado, miseravelmente impotente e estagnado.

Daqui da minha cama, numa distância de dois metros da mesa de meu computador, imagino aquele documento aberto no editor de texto. O documento que me convoca para a inevitável produção de qualquer coisa ou materialização de qualquer ideia é o mesmo documento que me afasta, me empurra para longe. É como se ele me amarrasse na obrigação de me dedicar a ele, numa coleira que me prende a uma distância fixa, não muito longe, mas perto o suficiente para não esquecer do que é inevitável.

Tento achar explicações para essa catatonia, das mais racionais até às mais esotéricas. Já pensei que pudesse ser uma doença causada pela cidade, pela vida burguesa, pela correria do cotidiano, pela obrigação de acertar, de não errar, pelo medo de terminar a tarefa. Poderia ser uma justificativa do subconsciente para buscar o ócio produtivo ou qualquer outra perversão do capital. Não seria o puro prazer de procrastinar? Ou ainda uma vagabundagem congênita, tão odiada pelos crentes do progresso?

Imaginei também ser algum tipo de estrutura que obriga as pessoas a serem como devem ser e, portanto, seguirem o script da vida – crescer, casar, trabalhar para ter seu carro, família, filho e filha para, no final, ter a propriedade no interior para morrer de velho; quem não segue o script acaba por disparar um gatilho no fundo do próprio cérebro, provocando uma autosabotagem, deixando de cumprir pequenas tarefas e comprometendo o próprio emprego.

Como segurar essa barra? Retomar o script e se submeter à ordem das coisas, talvez.

Não seria um espírito zombeteiro? Um encosto tomando meu corpo para brincar com minha vida, fazer dela um inferno e impedir que eu cumpra tarefas muito simples, como a de traduzir um texto curto, do inglês para o português, e salvá-lo em um documento na área de trabalho. Imagino crianças em uma escola de inglês fazendo com alegria essa atividade sem qualquer compromisso, até repetindo-a em casa. Eu, que troco minha força de trabalho, realizando tarefas como essa, por dinheiro para ter o que comer, não consigo fazer. Já estou no ponto de me questionar se o faria mesmo de graça, tamanha é minha impotência para sair daqui da cama e digitar meia dúzia de palavras.

barra_anti_panico3Esse pequeno passo, para mim, se transforma em uma pedra pequena no meio do meu caminho, que cresce, se avoluma e se torna um monstro tão imenso quanto a escuridão, debruçado sobre minha barriga, travando-me aqui, ofegante e tentando levantar para enfrentar um computador que, a dois metros de distância de mim, inofensivo e até então domesticado, agora me parece hostil e me ameaça com cerca de meia página a ser digitada. E não consigo fazer nada além de me manter aqui parado, dando voltas em minha mente na tentativa de desvendar a falta de controle sobre minha própria capacidade motora.

De onde vem essa imobilidade? Por que uma tarefa outrora simples se torna numa montanha irremovível? Será um teste de fé? Fé em quê? Preciso acreditar em deus para cumprir uma obrigação cuja única dificuldade parece ser eu levantar da cama, sentar da cadeira e teclar por, no máximo, vinte minutos?

Começo a imaginar um fosso se abrindo entre minha cama e a mesa em que está o computador. Não deve ter mais de dois metros entre uma e outra. Até poderia pegar uma trena para medir, aposto que não dá dois metros. No entanto, a materialidade da medida passa a se tornar relativa quando busco um impulso para me levantar e resolver aquela tarefa simples que deveria ter sido feita já há três horas – se não fosse tão difícil sair dessa insustentável liberdade em que me afundei. Os dois metros se tornam quinze, vinte, trinta, o suficiente para eu não alcançar a mesa nem mesmo com um salto. Imagino o quão profundo deve ser esse fosso. Sinto a atmosfera do meu quarto sendo sugada para dentro dele, como se o chão fosse um aspirador querendo me dragar. Travo ainda mais.

Já consigo ouvir o som de uma moeda que eu jogaria daqui. Ouço aquele fiu de um corte fino no ar, ecoando no vão entre eu e o pc e levando todo o tempo do universo para tocar o fundo, tão profundo que não é possível saber se a viagem daquela moeda chegou ao fim. Estou tão travado que já me tornei a própria cama.

Ao invés de dar o único final feliz que este capítulo de minha história poderia ter, levanto e vou dar uma volta na rua, como procurando algo para me iludir com a possibilidade de cumprir, quem sabe um dia, essa minha tarefa. Talvez contemplar a lua me ajude a ignorar a tarrafa dentro da qual estou me perdendo. Afinal, já passei a tarde inteira tentando dar um passo sem sucesso, não posso permirir me afundar também durante a noite nessa irreconhecível impotência.

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