Na catraca. II

Este texto é de dezembro de 2010. É inédito, embora tenha quase cinco anos de idade. Está sendo publicado agora por ter sido encontrado entre escombros e rascunhos abandonados na configuração deste blog. Mudei coisa ou outra do conteúdo, enxuguei algumas frases – provavelmente as que me impediram de publicá-lo naquela época. Apesar de mudados os endereços, a ideia se mantém a mesma.

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Volto da casa do meu pai depois de um final de semana nostálgico. Rememorei bons e maus momentos de minha juventude em São Vicente. Ao menos uma oportunidade para confrontar alguns preconceitos daquela época com os de hoje.

Com reflexões a mil e o domingo se esvaindo, subo em um ônibus na rua Augusta. Aquela linha passaria pela Cidade Jardim. Minha casa estava à espera, no Butantã. Nesse ínterim, cidade movimentada, consumo paulistano no ápice e busão lotado como no rush de segunda-feira.

Na luta por um assento, não passo a catraca e fico no banco logo atrás do motorista. Divido o banco com uma travesti. Ela estava a caminho da avenida do Jóquei, seu lugar de trabalho, enquanto todos os outros passageiros do ônibus, “normais” e de bem, voltavam para casa após um dia de consumo e de trabalho árduo. Muitos ali provavelmente se achavam mais dignos do que minha vizinha de banco.

Ouço um diálogo vir logo da frente. Uma jovem simpática conversa com o motorista em pé a seu lado.

– Como a linha tá lotada hoje. Há três semanas não estava assim. E nessa linha aqui normalmente sobem uns travestis pra ir pro Jóquei, não é? Hoje não tem nenhum.

Ledo engano. Eu tapava a visão da jovem. Distraída, sentiu-se à vontade para falar. Continuou ela a discorrer ao seu modo sobre mobilidade urbana e transexualidade, enquanto o motorista consentia com respostas curtas.

– Eles normalmente descem pela frente, não é?

Eles, não. Elas.

– Sim, são folgados. Pagam, giram a catraca e descem pela frente. É que tem um pessoal que pesa na deles, chama pra jogar bola, pra encher laje…

– Pois é. Há alguns anos eu trabalhava vendendo coisas em um ponto de ônibus na Francisco Morato. Um dia, quando desci no Jóquei para pegar outro ônibus pro meu trabalho, vi vários deles trabalhando na avenida. Vi que as pessoas que param os carros na avenida e saem com eles sempre são homens de família, muitos deles casados. Normalmente são homens bem de vida. Pra que isso, né? Que nojo.

A jovem filósofa desceu logo em seguida. Continuei ali, na minha, sentindo o perfume da outra moça que, como eu, continuava sentada e reflexiva.

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