“Tinha que ser petista. Só falta defender a Dilma!”

É por me ver acuado em acusações como essa que resolvi propor uma explicação pedagógica da diferença entre petistas e o restante da esquerda. O público-alvo deste texto é quem se entende como uma pessoa disposta a ver o mundo além de duas dimensões e não se satisfaz com um mísero óculos 3D. Se sua miopia é do tipo social, faça um esforço, pois a realidade alheia talvez não esteja tão longe assim.

Afinal, não é possível que uma pessoa seja capaz de separar lixo de materiais recicláveis, distinguir um cavalo de uma zebra, entender a diferença entre catraca de canhão e conhaque de alcatrão, mas não consiga perceber que ser de esquerda não é a mesma coisa que votar na Dilma. Afinal, existe muita coisa além do PT. A esquerda não é um monobloco, por isso não pode ser generalizada como um bando de petistas.

A seguir apresento um breve glossário*. Parto do princípio de que a diferença entre ser de esquerda e de direita é o desejo de transformar a sociedade tendo em seu horizonte o fim das desigualdades sociais. Para diferenciar os grupos, considero aquelas ações e posturas que vão além de reclamar na fila do banco e xingar muito no Face. Outro princípio é que a explicação para a desigualdade social não está na natureza humana, na lei de Gerson ou na vontade de Deus: qualquer obstáculo à mudança na sociedade pode ser superado pelo esforço coletivo. Esforço individual faz parte do jargão liberal (e não libertário, hein!), ao qual o discurso da esquerda historicamente se opõe.

Se você acredita em qualquer uma dessas mitologias e já moveu o mouse para fechar esta janela em seu navegador, peço encarecidamente que insista, siga com a leitura, faça algum esforço e tente entender a diferença entre petistas, marxistas, anarquistas, trotskistas, maoístas… Não precisa nem mesmo quebrar aquela vidraça de banco que há dentro de você, basta tentar entender que petistas e socialistas são seres com ideias diferentes. Acredite que você estará criando condições para uma boa ação: poderá fazer um bem para a saúde da sua família, de seus colegas de trabalho e para as pessoas que dividem o espaço público com você. Não precisa concordar com as ideias que caracterizam cada segmento, basta entender que são diferentes.

Meu objetivo está longe de defender qualquer uma das ideologias que estabelecem as fronteiras do espectro político – pelo menos não aqui. O que pretendo é fornecer alguma referência para quem tiver interesse em ofender algum membro da esquerda de maneira um pouco mais rigorosa do que usar a triste e desgastada alcunha de “petista”.

Esse texto é também para você em uma situação como a minha. Cansou de ser chamado de petista por aquela tia tacanha que azeda sua sobremesa de domingo ao sugerir que o Lula nada mais é do que um enviado da sarjeta para abrir a bolsa dessa classe média que lutou para chegar aonde chegou? Ainda acredita que é capaz de convencer o babaca daquele colega de trabalho que te inferniza enquanto você faz um esforço atroz para explicar que a Dilma não cogita ameaçar ninguém com distribuição de renda alguma aumentando o poder de compra e dando crédito pra classe C? Está perdendo a disposição para conversar na fila do mercado ou no coletivo com aquela senhorinha que parece ser tão simpática até o triste momento em que ela cita o Reinado Azevedo para sugerir que os petralhas são enviados cubanos para aumentar o preço do tomate e viabilizar o golpe comunista? Pensa em furar os ouvidos se mais uma vez receber o epíteto de petista por simplesmente não concordar com pessoas com os pontos de vista acima? Então envie este texto àquelas e àqueles com quem você tem a custosa missão de estabelecer um convívio harmonioso.

Comunismo: lugar-comum à maior parte da esquerda. Uma sociedade comunista é aquela na qual não há desigualdades sociais, opressões e na qual todos são tratados da mesma forma e tem o mesmo acesso a tudo que precisa para viver. Nessa sociedade não há líderes nem Estado. Para se chegar ao comunismo, existem diversas teorias.

Socialistas: são anticapitalistas e propõem o fim das desigualdades sociais pela via revolucionária, lutam pela distribuição de bens e pelo fim dos benefícios e privilégios econômicos e/ou sociais restritos a uma determinada elite, ou seja, lutam pelo fim da propriedade privada. Para alcançar o comunismo, um socialista acredita que é necessária a criação de um partido (um pouco diferente da nossa concepção atual de partido) ou organização de vanguarda para organizar a classe trabalhadora. Esse partido tem a função de mostrar aos trabalhadores que eles estão sendo explorados pelos seus patrões. O socialismo seria uma espécie de etapa de transição entre o capitalismo e o comunismo, na qual o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores. A principal teoria que embasa a luta socialista é o marxismo, corrente inspirada nos escritos de Karl Marx.

Marxistas:também são anticapitalistas e acreditam que houve um momento na História em que um primeiro pilantra deu a si mesmo o direito de acumular bens materiais além do que precisava, deixando outras pessoas na mão. Esse primeiro pilantra – ou burguês, se preferir – dividiu o mundo em dois: entre os exploradores e os explorados. Assim, uma pessoa marxista advoga que quando os explorados tomarem e repartirem igualmente todos os meios de produção (fábricas,  empresas etc.) por meio de uma revolução social, o comunismo será alcançado, mas isso acontecerá depois da experiência socialista (conforme descrita acima). Nem todos os marxistas acreditam necessariamente na etapa socialista, ou na vanguarda etc., pois existem inúmeras correntes internas no marxismo, o que possibilitou o surgimento de vários grupos que têm discordâncias entre si, mas que tem o comunismo como horizonte.

Anarquistas: Acreditam no bem comum, mas sua conquista só pode ser concretizada com a negação de toda forma de exploração e opressão de qualquer natureza e pela afirmação e garantia da diversidade humana. Por isso, são anticapitalistas e não acreditam no Estado como ferramenta para transformar a sociedade – pelo contrário, veem no Estado mais uma forma de garantia da ordem das coisas. Confiam que as pessoas, trabalhando juntas, são capazes por si só de se organizarem e conseguirem tudo o que precisam, inclusive transformar a sociedade, sem representantes eleitos, chefes de estado ou uma elite de legisladores e magistrados fazendo o meio-campo ou ditando seus rumos. Em outras palavras, se autogovernam. Uma pessoa anarquista não vota, não confia em qualquer pessoa que diz representá-la (seja petista, tucano ou partidário de qualquer combinação da sopa de letrinhas).

O que é comum a todos: a indignação ao ver negros, indígenas, homos, trans, mulheres, bandidos e qualquer outra minoria serem violentadas por sistemas de opressão como o capitalismo, patriarcado, família, religião etc. Querem derrubar o capitalismo. Por caminhos diferentes.

Petista: membro, militante, simpatizante ou afim ao Partido dos Trabalhadores (PT). Acredita na via eleitoral-partidária e no Estado como ferramenta de transformação social. Seu partido tem origem no movimento de metalúrgicos do ABC e Grande São Paulo e de seus respectivos sindicatos, e seu principal líder é o Lula. Suas reivindicações sempre foram trabalhistas; embora muitos de seus militantes se identificassem com o discurso socialista (com o qual as reinvindicações de perspectiva trabalhista estão alinhadas), atualmente isso não corresponde mais à realidade do partido. Embora tenha sido criado com o viés socialista, o PT combatia as formas tradicionais de fazer política na esquerda. Com o tempo sua forma de atuação foi mudando e o socialismo já não está mais no horizonte do partido como um todo, o que corrige qualquer possível espanto causado por sua aliança com empresários, Michel Temer e toda a corja de oligarcas para chegar ao poder. E, definitivamente, hoje petistas não são pessoas nem um pouco revolucionárias!

Agora, se mesmo assim você decidir chamar de petista qualquer pessoa que discorde de você ao vê-la coçar a cabeça enquanto ouve você reproduzindo irresponsavelmente o discurso pau-mandado do Boris Casoy, Fátima Bernardes ou qualquer outro cachorrinho da mídia corporativa, não poderá mais se defender dizendo que a culpa é por você ter o limitado repertório do programa do Datena – se é que esse argumento pôde algum dia ser utilizado dignamente.

(* Corro o risco de, por conta dessa publicação, ser apedrejado por representantes de todos os grupos que citei acima e que não concordam com as descrições. As pessoas que me ajudaram a escrever isso tudo de forma cuidadosa e minimamente rigorosa me alertaram para essa possibilidade, e inclusive pediram para não serem citadas. Não duvido que as críticas surjam de todos os lados – na realidade, estou à espera disso. Mas meu desespero tem sido tão grande ao ser chamado de petista na atual conjuntura que não tive como não escrevê-lo. Como diria um CAMARADA, “irresponsabilidade seria não escrever”.)

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