Liberada, libertária e “laertina”. 2. A violência do olhar


Não deveria, mas faço. Procuro saber como as pessoas me olham. São diferentes os olhares que recebo quando ando com unhas pintadas, saia, meia-calça e sapatilha. Todos os olhares de pessoas estranhas, sem exceção, são violentos. A cada olhar, uma nova decepção, uma ferida na utopia, como se o horizonte ficasse cada vez mais distante mesmo andando em direção a ele.

Tem o olhar de estranhamento. Como se pra quem me vê fosse inacreditável um cara que não tem aparência e corpo de mulher e nem de travesti andar por aí assim. Que porra é essa?, já é carnaval?, o que esse cara tem na cabeça pra andar assim por aí? é o que vejo nos olhos de quem me vê.

Outro olhar é o do menosprezo. Para muita gente o que faço significa abrir mão de um status de homem e me rebaixar ao status de mulher. Misoginia em seu estado mais explícito. Como se minha negação a adequar minha aparência e modo de me vestir ao meu sexo biológico me tornasse alguém inferior. Minha companheira diz perceber esse tipo de olhar quando está comigo. Ela diz que alguns olham como se ela precisasse de um homem de verdade para saber o que é bom – exatamente como falam de lésbicas os homens que sabem o que é ser homem.

O olhar que mais me incomoda é o da indiferença dissimulada, o blasé. Não só porque ele esconde o menosprezo e/ou o estranhamento, mas porque ele mostra como as pessoas sabem se adequar às situações, demonstrando a falsa aceitação do diferente, como se aceitassem o que veem, embora esteja nítido que não concordem.

A ocasião em que esse olhar me foi mais marcante foi uma visita a uma escola grande, tradicional e bem católica, com uma amiga à procura de uma creche para matricular seu filho de poucos meses. Eu estava em um desses momentos de estrangeiro no mundo, alienígena, Geni, em que a gente fica na febre de botar pra fora a ariana dentro da gente e radicalizar, de sair esfregando na cara de todos e todas que andar assim não é um problema pra mim, mas sim pra quem não saiu do século XX, de gritar aos quatro cantos o que é a violência do cissexismo, de extravasar de todas as formas o desalinhamento do meu sexo biológico à minha identidade de gênero; de começar uma guerrilha urbana, transformando em arma meu corpo e minhas roupas em munição. Naquele momento, faria isso sozinha se fosse preciso, bancaria a briga que fosse para andar como eu quero. Essa fúria vai e volta, e na época estava num ápice. Mais do que justificado eu ir de vestido, meia calça e sapatilha à uma escola católica, certo?

As reações foram as mais diversas e facilmente associadas a faixas etárias diferentes. Até seus 4 anos, as crianças olhavam para mim com curiosidade, como se algo dissesse a elas que alguma coisa ali estivesse diferente. Entre 5 e 6, já sabiam que eu não estava vestido “como deveria”, mas para elas era apenas curioso. Dos 7 para cima, as risadas eram mais frequentes, a ponto de as crianças no recreio saírem pelo pátio chamando as amigas para não perderem a oportunidade de verem o cara vestido de mulher. Eu não esperava reações diferentes dessas. Afinal, vivemos a ditadura do binarismo de gênero e do cissexismo, e homens vestidos com roupas femininas não são comuns a não ser em carnaval e em festas “do trocado” (de preferência vulgarizando a imagem do feminino). As reações inesperadas foram das coordenadoras e professores da escola que receberam minha amiga e eu. Ignoraram minha roupa e a todas as reações de todas as crianças da escola. Isso me deixou envergonhada, arrependida de estar fazendo aquilo. Por um momento, o que eu fazia não se justificava, pois minha provocação estava sendo ignorada. Por uns momentos fiquei com vontade de sair correndo dali, ir ao banheiro, vestir uma calça, uma camiseta, qualquer tênis. Ainda bem que não pintei as unhas, teria ficado muito mais envergonhado por ter gastado meu tempo em vão, sem conseguir tirar das professoras e coordenadora nem sequer um franzir de sobrancelhas. As representantes da escola não apenas sabiam que era uma provocação como tinham certeza de como agir naquela situação sem nos causar qualquer constrangimento – até porque ali encenávamos ser uma família de potenciais clientes.

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Há algumas pessoas que não me olham de um jeito violento.

Pensei um pouco. Se eu estivesse ali na recepção daquela escola de sunga, eu seria impedido de entrar e qualquer pessoa diria que eu estava inadequadamente trajado para a ocasião. Embora o fato de eu estar de vestido tenha causado as mesmas reações nas crianças se eu estivesse na moda praia (masculina ou feminina), a instituição sabia que ao me rejeitar as implicações à sua imagem seriam absolutamente negativas. Lembrei-me de Laerte ter sido impedida de usar o banheiro feminino e como isso repercutiu negativamente ao restaurante em que se deu a questão.

A falsa indiferença é frequente. Até meu vizinho, embebido de ares franceses, foi tomado pelo blasé e ignorou a afronta por um tempo. Não cobrou nada, não comentou nada, como se estivesse tudo bem. Unha pintada, calça legging, minissaia, nadinha. Naquela altura da guerrilha, aberta inclusive contra a boa vizinhança, sabíamos que ele e todos os outros moradores da vila não estavam muito confortáveis com minhas roupas. A indiferença não durou muito. Certo dia, me perguntou:

– Vem cá, deixa eu te fazer uma pergunta: você é escocês? Porque tô vendo que você usa saia…

– Não, escocês usa outro tipo de saia. Essa aqui é toda preta, a de escocês é xadrez.

– Ah, achei que você era escocês, por isso andasse assim por aí, de saia.

– Ué, você nunca usou saia, não?, perguntei de forma pouco ingênua, nem meu tom de voz escondeu a provocação. Ele, quase ofendido, respondeu:

– Eu não! Quem usa saia é mulher!

– Eu não sou mulher e uso saia, respondi. Mas ele, afrontado, já tinha entrado em seu bunker.

Acabou que hoje em dia, quando vou de saia ou de vestido pelas ruas, ignoro absolutamente todos e todas por quem passo. É isso ou correr o risco de ficar paranoico pela pressão de ter que lidar com o que os outros pensam sobre mim. Não olho pra cara de ninguém, não chego a saber se cruzei com uma pessoa conhecida, pela presidenta da república ou a dona morte. Faço exatamente como muitas mulheres que, ao andarem por aí desconfortáveis com os homens que olham para elas, ignoram a presença dos olhares que lhe depositam. Evito me preocupar com os olhares não por achar que sou um objeto de desejo, mas para me esconder da violência denunciada por todos esses tipos de olhares.

Como minha condição de cis-gênero homem nunca havia me colocado (nem nunca colocaria) nessa situação de enfrentamento, provocada por estar com roupas femininas, só agora sinto na pele a chamada opressão de gênero. Não sofreria com isso em outro contexto, por ser homem ou, como dizem assinalado biopoliticamente como tal. Passo a ter algum indício de como a dominação masculina age sobre nossos corpos, tanto de homens que oprimem irreflexivamente quanto não-homens oprimidas.

 

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Um comentário sobre “Liberada, libertária e “laertina”. 2. A violência do olhar

  1. Espero que esse comentário não seja considerado violento. No meu caso é difícil não parecer violento. Mesmo que corte os braços e as pernas ainda assim pareceria violento. Geralmente eu me faço de mudo também, dessa forma, talvez pareça menos violento. Mas as vezes tem o efeito oposto. Mas sempre é difícil escolher o que dizer. Se você já nasce de uma certa forma que não quer ser é muito difícil voltar atrás. O que existe antes de nascer? Talvez seja o mesmo que existe depois da morte. Mas nascer também é violento, assim como a morte. Você começa sendo bombardeodo por informação de todos os lados do universo que lhe rodeia. Qual seria a sua primeira reação? Chorar é mais comum. E eu chorei ao entrar nesse mundo. Porque não fiquei na minha não-existência para sempre? Porque alguém tinha que nascer. Isso não me parece justo. Mas mesmo que você passe a vida toda longe de quem quer proteger, ainda assim não deixará de lado a violência que lhe colocam como modelo. Assim como alguém tinha que nascer, alguém também tinha que ser violento. O único problema é se eu não quiser isso.

    Sempre penso que seria muito mais fácil para mim se tivesse nascido mulher, afinal, sempre seria considerado a ponta mais fraca, a coisa mais delicada e a mais indefesa. E no caso de não ser, eu ainda poderia existir bem comigo mesmo. Mas no caso de nascer homem e ser a ponta mais fraca, isso não funciona muito bem. Não é isso que esperam de você, isso está fora do script, e ninguém preparou nada para quem nascesse assim. Para quem nasce assim o mundo não lhe dá boas vindas.

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