A vã filosofia de um pedagogo iludido

lola51“Vamos fazer pedagogia? Curso de um ano a distancia, vai ser sussa. Sozinho não consigo fazer, se você for comigo, acho que a gente termina”. Mal me convenceu e já estava matriculado, junto a um velho amigo. Nem me preocupei em saber os conteúdos, fui descobrindo como funcionava enquanto caminhava, assim como aquele aparelho posto em uso sem ler o manual. Assim soube que deveria fazer monografia e estágio – os dois, pois um não elimina o outro. Daria mais trabalho do que pensei.

Por que pedagogia? Vários motivos: por querer conhecer a fundo os processos de escolarização, por não querer parar de estudar e por acreditar que o curso ajudaria a estruturar melhor minha prática de professor de Ciências. “Porque eu gosto” não estava na lista. Mas, depois da primeira graduação, a gente aprende que a água da nascente nunca é igual à da foz.

Trezentas horas de estágio para fazer. Cem na Educação Infantil, com crianças de até 6 anos de idade, e mais duzentas nos outros níveis. Na última semana, fiz doze horas em um EMEI. Passei todas essas horas, devidamente assinadas, sem mentira, na sala de aula. De acordo com meu parceiro de curso, a diretora deve achar que sou pedófilo, porque “ninguém cumpre todas as horas de estágio”. Caxias? Não, cumpro as horas porque comecei a gostar da ideia de educar crianças bem pequenas.

Crianças são brutalmente geniais. Não aceitam shots de felicidade, apenas grandes quantidades, aos banhos. E de piscina. “Tio, você tem piscina? Tem cachorro? Tem gato? Poxa, tio, mas você não tem nada!”, diziam elas, enquanto praticamente se revezavam me abraçando. “Tio, quantos anos você tem?”. Adivinha! “Seis! Trinta e sete! Quarenta e oito! Catorze!” Não há limites para sua curiosidade, muito menos para a criatividade geradora de suas respostas.

inluzão

E me impressionada cada vez mais pensar como nós, adultos, somos capazes de destruí-las e tirar toda sua alegria e vontade de viver enquanto elas crescem, e de nos destruirmos enquanto crescemos. Durante todo o momento que passei com elas nessas doze horas, a cada fala, a cada atividade, a cada sorriso e abraço que recebo, me perguntei como nós podemos transformar criaturas tão doces em monstros duros, secos, frios, cinzas, pasteurizados, enfim, em nós?

Deve existir uma lista interminável de processos responsáveis pela humanização das crianças e, sem dúvida, não damos conta de controlar todos eles. No entanto, é possível minimizar alguns estragos que vêm com esse pacote “humanizatório”. A escola, creio eu, deve servir para reduzir esses danos. Até então eu não acreditava que a escola pudesse cumprir esse papel – e não é preciso ir para universidade nenhuma para perceber isso, basta passar uma parte de sua vida dentro desse espaço e reconhecer que sua essência é a mesma de uma fábrica, de um manicômio, de uma prisão, de uma igreja para se desconfiar que deva ter alguma coisa errada em sua concepção e, consequentemente, em como se estruturou ao longo da História. Creio que minha descrença seja resultado de ter experimentado ser educador apenas de Ensino Fundamental e Médio, pois agora percebo como na Educação Infantil essa história é um tanto diferente. Não há aquele sinal avisando aos operários a hora de entrada e saída, da refeição e das obrigações gerais, as atividades tendem a ser absolutamente lúdicas e com baixíssimo ar de cobrança e, embora o tempo seja fracionado para a melhor organização das atividades, a docilização dos corpos e esvaziamento das mentes não tomam conta de todo o processo, embora, sem ingenuidade, saibamos que o gérmen da disciplina está lá, por se tratar de educação formal e, nesses termos, não poderia ser diferente.

Mas, como eu dizia, não damos conta de controlar todos os processos de escrotização do ser humano, por mais afiada que seja a escola, corpo docente, direção, gestão, comunidade… Sempre há uma família, uma igreja, um Estado e todas as instituições seculares para desafinar a orquestra. A soma de estímulos a práticas opressoras e preconceituosas é tão grande a ponto de extrapolar nossa imaginação. Embora seja difícil enumerar todos os responsáveis, é possível notar alguns de seus efeitos, principalmente quando as crianças reproduzem falas e ações que elas não poderiam ter inventado por si só.

1234443_578801228851166_1084708839_n

Como em um incidente ocorrido na hora da motoca, quando a quadra é tomada por triciclos pedalando ferozmente por todas aquelas miniaturas sorridentes de pessoa. Alguma das crianças teve a brilhante ideia de brincar de polícia. Não era polícia e ladrão, como no meu tempo, mas simplesmente polícia. Minutos depois, surge uma delas chorando. “Tia, o Fulano me bateu no meu nariz”. Toca chamar o Fulano. “Querido, fala pra gente por que você bateu no Sicrano”. De cabeça baixa e semblante fechado – crianças de cinco anos não mentem, a não ser que estejam brincando – Fulano responde, sério e prevendo a repreensão: “É que a gente tava brincando de polícia, e aí eu bati nele”.

Elas são pequenas máquinas de aprender, não precisam estar enfurnadas num calabouço, sentadas em carteiras rígidas e com um pedaço de papel na frente, seguindo ordens de ditos superiores, para aprenderem a reproduzir aquilo que vêem todos os dias. Crianças aprendem onde e com quem estiverem, sem discriminar o que deve ou o que não deve ser aprendido. Parece-me que cabe a nós, adultos e limitados que somos, buscarmos maneiras de se garantir que essas crianças não se deformem como nos deformamos e nos deformaram. Talvez consigamos cumprir com esse objetivo se criarmos um espaço de convívio livre de nossos vícios e em que se estabeleçam condições básicas (ou princípios) para que crianças sejam pelo resto da vida aquilo que elas de fato deveriam ser: simplesmente crianças.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s