Trick or treat?

Vozes na porta, toca a campanhia do apartamento. Olho para Eleilson, o outro morador. Quem pode ser a esta hora da noite? Visita na hora de jantar, sem qualquer aviso? Engano, só pode ser. Deve ser visita pra vizinha.

Perduram a tagarelar. Soa como um grupo de crianças, pelo menos algumas delas não param de conversar e dar risadinhas.

Levanto para ver quem toca. Pelo olho mágico, aparecem vários rostos distorcidos e desconhecidos. Não reconheço nenhum deles. Tudo bem, sou novo no prédio, não conheço muita gente aqui mesmo. Além disso, estou em São Paulo, mesmo se eu fosse o síndico do prédio seria difícil conhecer seus condôminos, ocupados e apressados com seus compromissos – e eu com os meus. Em uma rápida varredura pela memória, nenhuma daquelas fisionomias remetia a qualquer parente meu, do Eleilson ou a qualquer pessoa vista antes. Quem poderia ser?

No auge de minha inocência, não atentei aos trajes, nem sequer à data. Abri a porta e dei de cara com o uníssono “doce ou travessura”. Suspirando e de cabeça baixa, agradeci aos tempos por pelo menos ter ouvido a frase no sotaque brasileiro. Eram umas sete crianças, meninas e meninos, algumas muito pequenas (como se conheceram?, num prédio tão frio, sem pátio, sem jardim, sem convivência, ainda mais em São Paulo?), fantasiadas de bruxa, vampiro, Dona Morte e qualquer outra coisa sombria, maquiada e que costuma fugir da luz. Em grupo, rasgavam o horário nobre de todas as famílias de cada um dos apartamentos dos dezenove andares do prédio pedindo doces.

– Tem alguém aí vestido de saci? Não? Mas hoje é dia do saci! Vocês acham que merecem doce mesmo assim?

Todas as carinhas, já com toda a graça perdida por conta daquela desgraçada piada do marmanjo que esquecera de sua infância naquele segundo, baixaram e responderam qualquer coisa. Não lembro o que falaram, pois até eu fiquei constrangido com a situação que eu acabara de criar. Elas não sabiam como reagir, provavelmente por não ter sido a primeira resistência que recebiam naquela noite ao pedirem doces. Talvez nem mesmo tenham ouvido falar em saci até então. Para elas, pererê pode ser qualquer som estranho que sai dos carros ou de seus escapamentos, quem dirá que teriam entendido o motivo da minha pergunta? E se é dia das bruxas, haveria alguma problema pedir doces de porta em porta?

– Pronto, aí estão seus doces – e coloquei alguns Tridents no ecobag que trazia alguns chocolates e pirulitos que ganharam dos outros vizinhos.

As crianças agradeceram sorridentes. Torço para que minha amargura não tenha tirado nem um pouco da doçura trazida por seus gritinhos e risadinhas que enchiam de volume aquele sempre sombrio e ermo corredor, tocando de forma inocente uma brincadeira que vem se tornando tradição. Afinal, a infância e tudo o que ela traz de doce vai além de qualquer nacionalidade, língua, sotaque ou cultura, e contra isso não há razão que possa resistir.

Se as crianças não sabem por que dizem “doce ou travessura” ao invés de “rapadura ou pererê”, a culpa não é delas, é dos mais velhos que, já esgotando sua ternura, nunca pararam para essa reflexão ou tentar mudar o rumo dessa história.

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6 comentários sobre “Trick or treat?

  1. Tudo bem que a culpa não é delas, mas se você não desse nada e mais uns três ou quatro vizinhos não entrassem na brincadeira alegando estarem à serviço do tal Pererê, tenho certeza de que, ano que vem, pelo menos um deles bateria a sua porta com gorrinho vermelho e pulando numa perna só. Mas, tudo bem, chatisse minha. Só um comentário: o texto tá muito bom, cara! Bem escrito, instigante…
    Abraço!

    • Cara, muito obrigado pelo comentrio. Fico feliz por ter gostado do texto. E seria lindo ver a crianada pulando numa perna s com gorrinho no ano que vem. Ta um mote pra subverter o Halloween: instigar as crianas a irem de casa em casa pedindo doces, mas vestidos de saci, cuca, boitat, comadre fulozinha, perna cabiluda, mula-sem-cabea, curupira, iara, pisadeira, boto…

      • Pois é, cara… Mas, tem me irritado o jeito como as coisas estão sendo tratadas. Tudo na internet vira briga do bem contra o mal. De um contra o outro. Por achar que as crianças simplesmente devem conhecer um pouco da cultura nacional, chegaram a me apontar ontem como um babaca nacionalista (como se eu estivesse torturando criancinhas na rua para que elas odiassem o que é dos Estados Unidos). Virou Halloween contra Saci. Pq isso? O fato de eu defender o Saci passou a me qualificar como um nacionalista besta que prega a morte do Halloween. Não é estranho?

      • Pior que no mais estranho. Esse maniquesmo j normal. No h muitos esforos para nos entendermos. Triste.

  2. As pessoas ficam apegadas a um nacionalismo besta. Adoro o saci, assim como gosto dos monstrinhos do dia das bruxas. Criança não enxerga fronteiras nacionais. É uma pena que nós tenhamos aprendido a enxergar. Porque daí teríamos Saci e Zombies na mesma festa. Agora, os doces, esses, com certeza, a elas tanto faz que se dão porque estão vestidas de Saci, ou de Dona Morte….rsrs!

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