Livre arbítrio

Obviamente a Chacina do Realengo teve que invadir a casa de meu pai. E justamente quando eu o visitava, em pleno almoço na sala, tomando uma sopa que ele me preparara – carinho para o filho que extraíra um dente do siso no dia anterior.

O que faz uma pessoa agir tão cruelmente quanto aquele sujeito que matou 12 crianças na escola? Natureza humana? Sociedade? Não. Segundo meu pai, isso tem relação com o mal que permeia a humanidade. Estava por vir um breve e raro discurso sobre as escrituras sagradas. Fazia anos que não conversava sobre religião com ele. E não tinha saudade alguma disso.

– Filho, sabe que é complicado falar sobre isso com você, pois você não acredita no que eu vou lhe falar… mas existe Maldade nesse mundo.

De fato, ele me conhece bem. Tentei rebater seu argumento de várias formas. Não queria deixá-lo falando sozinho. Conversamos tão pouco, não podia abrir mão de cinco minutos de diálogo, mesmo sobre um assunto que não me apetece mais. Decidi ir até o fim. Caminhei pelo maniqueísmo do discurso ocidental, passei pelo positivismo herdado do século XIX até que cheguei a um ponto que talvez conseguisse por um final àquela discussão.

– Tudo bem, mas quem criou a maldade do mundo foi Deus.

– Não. Deus não fez a luz? Como conseqüência, surgiu a escuridão.

– Mas se Ele é onisciente, sabia que surgiriam as sombras.

– Isso mesmo.

– Então, se Ele criou o bem sabendo que surgiria a maldade de sua ação, Ele é responsável pela maldade.

– Não. O homem faz suas escolhas, tem seu livre arbítrio. O homem escolhe o que faz e pode tomar atitudes benéficas ou que causam mal aos outros. Não é Deus quem escolhe.

– Isso não faz Deus menos responsável por ter criado a Maldade.

Gaguejou, relutou, não aceitou.

– Sou incapaz de responsabilizar Ele pela maldade do mundo.

Vendo o final da discussão que não deveria nem sequer ter começado, papai se levantou para ir à cozinha. Percebeu que não tinha me dado a pimenta para minha sopa.

– Não estou podendo comer pimenta, pai.

– Por quê? Por causa do dente que extraiu?

– Não.

– Por causa do estômago?

– Não. Por isso.

Mostrei a ele pela primeira vez a Mafalda tatuada na parte de dentro do meu braço. Ele olhou a arte por uns dez segundos.

– É… livre arbítrio – disse ele com a voz quase trêmula e cabisbaixo antes de deixar a sala e ir para seu quarto.

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2 comentários sobre “Livre arbítrio

  1. Olá, Marília.

    Obrigado pela visita. É um prazer vê-la por aqui.

    E agora estou de olho no Porcolitro.

    Beijão!

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