O papel da escola

Quando o objetivo é defender determinado ponto de vista, normalmente os pressupostos que alicerçam o discurso da defesa ficam escondidos em um quarto ermo e escuro. É como se costuma fazer com aquele tio mais velho que a família evita ao máximo ter presente nas noites de Natal. Os mais velhos sabem por que querem esse tio escondido, enquanto as crianças nem sempre sabem, mas acabam se acostumando, conforme crescem, com a ideia de que é melhor para a família que aquele tio fique à parte da festa.

Há alguns pressupostos para a defesa da escola e de seu papel social que me interessam, embora pareça ser uma perda de tempo lidar com esse assunto. Alguns preferem não refletir acerca de tais pressupostos, pelo mesmo motivo que os parentes preferem esconder o tio, enquanto outros sequer imaginam que os pressupostos são pressupostos e não verdades, com a mesma ingenuidade das crianças que se divertem com a situação do tio que traz vergonha à familia.

Às vezes me parece que os pressupostos do papel da escola para a nossa sociedade sofrem desse mal, pois é praticamente impossível encontrar alguém que questione esse papel. Não só o senador Cristóvão Buarque acredita que a educação seja o único caminho para tornar digna a vida do brasileiro, e que a escola é um mecanismo nobre de socialização. Há quase um consenso entre os mais humanistas de que oferecer escola de qualidade a todos é fundamental para emancipar os cidadãos, dando a cada um condições de serem atuantes sociais, responsáveis por transformar a realidade na qual estão inseridos.

Será que educação e escola são tão importantes quanto se acredita? Será o ensino um bem cultural tão bom quanto acreditamos? Será a escola uma instituição capaz de fornecer a satisfação individual que dela se espera? É tão óbvio que a escola melhora as pessoas, ou estaria eu cometendo um pecado questionando o papel social da escola?

Antes de profanar o papel da escola tentando responder a essas questões, aparentemente menores e impertinentes como a das crianças, há uma proposição que precede qualquer pressuposto para a escola como se conhece atualmente: a escola não respeita as diferenças de seus alunos. A escola, em sua essência, é uma instituição que foi criada com o intuito de homogeneizar seu público alvo. A escola dos jesuítas surgiu para domesticar os indígenas; a escola do século XIX e primeira metade do século XX serviu para formar elites pensantes, dando a seus alunos todos os bons modos que eram de se esperar de sua estirpe; a escola financiada pelo Estado constrói seu currículo, por mais humanista que seja sua aplicação, pensando em docilizar seus alunos, no processo de formação cidadã, dando a ele um comportamento civilizado. Enfim, a escola é um dos mais poderosos mecanismos de subjetivação que se tem notícia na história da humanidade: é ela que forja os sujeitos de acordo com as expectativas e o contexto.

A princípio, não há nada de bom nem ruim na subjetivação: esse é um processo mediador de basicamente todas as relações humanas. A publicidade pressupõe um sujeito ao produzir o material que veicula a informação desejada, a empresa que fabrica detergentes neutros sabe que alguns de seus usuários têm alergia aos tipos alternativos e por isso não pode tirar de circulação os sabores para os alérgicos; o pessoal de RH sabe muito bem quem contratar para sua empresa; o segurança de shopping, com alguma experiência, sabe quem serão os clientes que poderão causar maiores problemas aos interesses de seu patrão. Para cada relação, institui-se um sujeito com o qual se interage.

O interessante de se notar é que não só existe a expectativa de um sujeito com o qual se espera lidar em cada situação, mas também existem mecanismos responsáveis por produzir os sujeitos que satisfaçam essas expectativas.

Ao assistir um comercial do governo federal falando sobre a importância do voto consciente, é automática a associação da publicidade como mecanismo forjador de cidadãos que correspondem ao interesse do governo. Em época de eleições surgem propagandas pregando aos cidadãos sua responsabilidade de ter a consciência que o governo deles espera e, portanto, que não devem se abster da obrigação de votar.

O mesmo ocorre em uma campanha anti-fumo. Nela, o consumidor de hoje é pressionado a seguir o exemplo do cidadão comprometido com o progresso – uma pessoa saudável, que siga as leis e que seja capaz de consumir e contribuir com impostos, trabalhar e adiar sua aposentadoria o máximo de tempo possível, portanto longevo. E como o governo seria capaz de intervir na vida das pessoas se não fosse por propagandas, campanhas publicitárias e pela escola?

Insisto em manter o maniqueísmo afastado dessa reflexão. Se os processos de subjetivação são a princípio bons ou ruins, depende do ponto de vista de quem o está a analisar. Há quem prefira trocar a possibilidade de viver mais por alguns prazeres mundanos, enquanto há os que não abrem mão de um bom e gorduroso bife de picanha ao invés de se submeterem à norma cada vez mais comum que praticamente obriga a todos terem um corpo magro, com IMC médio de 25 e capaz de viver até os 120 anos de idade, por mais dolorida, limitada e rotineira que seja essa vida. Sujeito são e dócil versus sujeito hipertenso e autônomo: qual é bom ou ruim? É óbvio que cada um tem sua resposta, e não tenho dúvidas de que a minha aqui não interessa. (Fica a dica: não dou ouvidos ao doutor Dráusio Varela em hipótese alguma).

E é justamente na construção de sujeitos que se insere a escola. Não há um modelo de escola que pense em respeitar as diferenças de todos os alunos ao mesmo tempo. Há modelos mais democráticos ou até mesmo libertários que têm como premissa a autonomia do aluno em sua formação, tanto no final quanto durante o processo. Nessa situação, o aluno tem espaço para escolher o que aprender e como aprender – é o caso da Summerhill School, na Inglaterra, idealizada por Neil e inspirada na visão de mundo do psicanalista Wilhelm Reich, entre outras em vários pontos do mundo, como EUA, Israel, inclusive várias em São Paulo. No entanto, não há por que acreditar que qualquer indivíduo deve se ajustar a esse sistema. Um desajustado social, que, digamos, não seja muito afim dos direitos humanos ou adepto de violência gratuita, dificilmente conseguiria (isso é pura especulação) conviver em um ambiente como esse, pois seria possivelmente rotulado como dotado de algum distúrbio psicológico ou rejeitado pelas pessoas de tal escola. É inevitável que um aluno mais violento que o normal seja expulso ou impedido de participar desse processo de formação. Isso mostra que a escola, libertária, estatal ou privada, não respeita todas as diferenças entre as pessoas, embora cada um estabeleça graus diferentes de aceitação do diferente.

E isso não é absolutamente um problema! Se neste ponto você está pensando “mas é óbvio que uma pessoa violenta não deve ser respeitada!, ela deve ser submetida a um tratamento para se tornar capaz de conviver em sociedade”, então estamos concordando que a escola, assim como os manicômios, hospitais, prisões, orfanatos, serve para homogeneizar as pessoas, fazê-las mais capazes de viver em sociedade. Não quero dizer que a escola seja ruim ou boa por seu caráter pasteurizador, mas sim que esse é um princípio indissociável da escola: ela pressupõe um sujeito – no caso, sociável – e investe seu tempo para produzir cidadãos que pensem como tal. Portanto, se no final do processo de escolarização as pessoas devem ser sociáveis, não faz sentido esperar que a escola queira formar pessoas com dificuldade de socialização. Essa é uma forma de dizer que a escola não respeita as diferenças entre as pessoas, pois serve justamente para acabar com tais diferenças.

Não acredito que a escola esteja fugindo de seu propósito, que a educação esteja em crise ou que seu papel está sendo deturpado por interesses adversos. A escola forja sujeitos normais, dociliza os corpos. A questão é até onde seus alunos podem ter suas singularidades respeitadas, manifestarem suas diferenças. Mas esse é tema para um futuro texto.

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2 comentários sobre “O papel da escola

  1. Hummmmmmmmmmmmm…é. Mas no final, não….rsrs!!! A questão da violencia, por exemplo. A violencia é a tentativa de aniquilição do outro pelo que ele é. Pode ser consciente, ou não. Pode ser uma defesa, ou um ataque. Mas um sujeito expressa um sentimento pela violencia, não é um sentimento em si. Isso não tem a ver necessariamente com homogeneizar. Há sempre uma escolha moral (ou ética) do que se escolhe respeitar como diferença e do que se escolhe não respeitar. Talvez a questão seja mais quais os principios que regem esta escolha. Com relação à escola: por mim, eu simplesmente jogaria fora.

  2. Olá, Yara. Obrigado pelo comentário.

    Você me pegou ao dizer que a violência “não é um sentimento em si”. Nunca tinha pensado por esse lado. Preciso de verdade pensar melhor sobre isso.

    Um abraço

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