Aumento da tarifa de ônibus e o Grande Congestionamento

À espera do Grande Congestionamento

 

Um trecho do livro “Não verás país nenhum”, de Ignácio De Loyola Brandão, que me marcou demais foi o Grande Congestionamento. Nessa que é apenas uma das críticas à política nem um pouco ecológica do contexto em que o livro foi escrito, o autor criou a situação em que milhares de carros ficaram parados em um congestionamento sem início nem fim de tão grande que era. Os donos ficaram sentados em seus carros durante dias, esperando pelo fim daquele engarrafamento, até que perceberam que não haveria solução a não ser abandoná-los ali e voltarem para suas casas.

De tanto se produzir carros e colocá-los nas ruas sem qualquer planejamento ou responsabilidade sobre isso, às vezes tenho a sensação de que o Grande Congestionamento em breve deixará de ser ficção e se tornará realidade. Pode parecer triste (não para mim) ou cruel, mas creio que esse fim é inevitável, gostando dele ou não.

Por outro lado, ainda acredito que possa haver uma via na qual possamos cultivar uma cultura menos pautada em autoafirmação e consumo e que dê lugar a uma postura mais consciente (embora eu tenha dúvidas quanto a viabilidade dessa solução quase metafísica à qual damos o nome de consciência) tanto da população quanto de quem diz nos representar frente a ações de cunho coletivo. Duas conseqüências imediatas dessa nova cultura, possivelmente pautada em uma economia baseada no uso racional de recursos naturais ao invés do acúmulo de capital, que depende necessariamente da exploração humana e do consumo, deveria ser a diminuição do uso de carros e o incentivo ao transporte coletivo. Obviamente o Estado deveria assumir seu papel nessa perspectiva, enquanto o papel de seus cidadãos por ele “representados” deveria ser o de cobrá-lo para que essa tendência, natural em um mundo que se pretende sustentável e ecologicamente correto, seja concretizada.

Manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, em 13 de janeiro de 2011

E essa cobrança existe. O Movimento Passe Livre de São Paulo organizou na última quinta-feira 13 uma manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus na capital paulista, de R$2,70 para 3 reais. Esse aumento expressa como não faz parte da política estatal o incentivo à utilização de transporte coletivo. A prefeitura anda na contramão não apenas da moda da sustentabilidade mas também do respeito aos usuários de seus ônibus, obrigados a pagar uma tarifa que viola o direito ao transporte público previsto pela lei nacional e que, mesmo se a tarifa fosse justa, não condiz com o serviço oferecido.

Enquanto a prefeitura retrocede em uma política que deveria expandir seus serviços a toda a população, esta mostra indignação e, pelo menos uma fração, se presta a reivindicar uma mudança na postura política de quem a “representa”. Prova disso são as manifestações contra o aumento da tarifa, para não falar de outros movimentos sociais relevantes como o FLM, que recentemente ocupou inúmeros prédios do Centro reivindicando um plano habitacional justo em São Paulo.

Parece não haver argumentos razoáveis contra a motivação de manifestações como a de quinta-feira. No entanto, os métodos para a cobrança feita à prefeitura ainda geram controvérsias.

Um argumento contra manifestações que ocupam as ruas é que elas não surtem efeito. Se fosse verdade, os movimentos contra o aumento das tarifas de ônibus em Florianópolis e Recife não teriam dado em nada – pelo contrário, depois das manifestações, as prefeituras voltaram atrás e não aumentaram as tarifas – assim como não haveria passe livre aos estudantes de Cuiabá.

Outro argumento é que os manifestantes seriam violentos. E é óbvio que a polícia os agrediu na quinta-feira com gás de pimenta, bombas de estilhaço e balas de borracha, como mostra o vídeo acima, por serem violentos. Isso é uma grande falácia, pois não há comparação entre a força utilizada pelos manifestantes, por mais violentos que tenham sido, e a utilizada pela PM. Podemos comparar também o método da polícia para prender os manifestantes: após dispersar a manifestação com as bombas e tiros, viaturas perseguiram e renderam aleatoriamente pelas ruas do centro grupos de jovens que poderiam estar na manifestação. Motivo? Um motivo dado foi que alguns derrubaram uma cabine da PM na praça da República. Isso ainda não é justificativa razoável para atirarem bombas e ferirem manifestantes. Ou a PM carece de táticas eficientes para prender infratores ou esse fato foi convenientemente utilizado para dispersas uma manifestação que compromete a imagem do prefeito e de sua gestão. Se fosse um conflito isolado entre manifestantes e a PM, poderia dizer que não é intenção de nossos “representantes” no governo oprimir quem dele discorda.

Ou seja, a prefeitura não apenas fere o direito do cidadão ao transporte público, cobrando tarifas abusivas, mas também coíbe violentamente uma cultura que busca garantir o bem-estar social sob uma pespectiva coletiva e reivindicar por justiça por meio da ação direta.

Quinta-feira, 20, haverá mais um ato, agora com saída da Praça do Ciclista (av. Paulista com av. Consolação). E provavelmente mais violência e agressões policias desproporcionais às ocorrências. Independente de o Estado vivificado pela prefeitura fazer seu papel ou não, creio que a manifestação nos permite defender nosso ponto de vista e reivindicar não apenas uma tarifa justa mas também uma alternativa razoável para o transporte na cidade.

Ocupar as ruas para se manifestar ainda é melhor do que aguardar pelo Grande Congestionamento.

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Leia mais sobre a luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo em Viomundo, Blog do Sakamoto e Passa Palavra.

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5 comentários sobre “Aumento da tarifa de ônibus e o Grande Congestionamento

  1. Incapaz de fazer comentários inteligentes,só tenho duas coisas a dizer:
    1 – A prefeitura de São Paulo não tem critérios.
    2 – O Grande Congestionamento está próximo. Às vezes, ouço no rádio que a cidade “está com cento e poucos quilômetros de congestionamento” e fico pensando qual será o número do Grande Congestionamento? 300? 350 quilômetros de congestionamento? Falta pouco…

    “Teve motorista que ficou uma semana, duas, sem abandonar o carro (…) As famílias traziam mudas de roupas, café, comida. E o desespero quando souberam que não circulariam mais? Choravam diante do automóvel, inconsoláveis, lamentando como se fosse um parente morto. Mulheres desmaiavam histéricas” – trecho do livro “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão.

    Maykon
    http://amenidadescronicas.blogspot.com

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