Educação: causa de quem?

Não tenho tanta certeza quanto à importância da educação para projeto de humanização ou civilizatório, nem mesmo quanto à razão pela qual nós deveríamos dar suporte à educação enquanto suporte a esse projeto.

Explico: a sociedade tem alguns desejos, os quais nós tomamos para nós como se fossem nossos. Desenvolvimento, justiça e progresso são alguns desses anseios, normalmente colocados lá no final de um caminho que gostaríamos de construir e, portanto, dedicamos esforços para concretizá-lo.

Dessa ideia, há duas consequências cujo debate me interessa: a primeira diz respeito aos cidadãos que se negam a compartilhar desses desejos. A outra trata do papel da educação para a concretização dos nossos “sonhos sociais”.

Tomemos como exemplo a utopia do desenvolvimento social. Essa utopia está por trás de muitas das nossas instituições. A democracia é legitimada por ser o sistema que supostamente é mais capaz de nos levar com maior eficiência, ou pelo menos de forma mais justa, a um melhor patamar de desenvolvimento. O mesmo sentimento temos pelo trabalho, pela família e por algumas das várias regras que temos como fundamentais: muitos acreditam que, sem essas instituições, é impossível fazer com que nossa sociedade se desenvolva a ponto de dar uma perspectiva de um mundo melhor para todos nós.

Há um grande problema na hipótese desenvolvimentista: todos os indivíduos inseridos na sociedade a se desenvolver necessariamente precisam não só concordar mas também participar do mesmo projeto. Para haver progresso social, todos os membros da sociedade são obrigados a concordar com as decisões tomadas de forma coletiva, sob a pena de sabotarem o grande projeto e serem responsabilizados pelo seu fracasso. No entanto, não há qualquer razão para que as pessoas cheguem a um consenso com relação a essa hipótese e adesão ao projeto desenvolvimentista. Por um lado, é difícil para alguém inserido em um mundo em que os vencedores são mais valorizados que os perdedores, em que o mérito é encarado como um valor natural e absoluto, compreender que a vida pode ser rica e digna também para quem não quer só “vencer na vida”, que tem como destino a exclusão social (tendo ou optado ou não por essa exclusão). Obrigar qualquer pessoa a comprar o desenvolvimento, o qual não é de forma alguma inerente a uma suposta natureza humana, é de uma pretensão essencialmente fascista e que impede o mundo de ser culturalmente mais rico e liberado para as mais diversas formas humanas de expressão.

O argumento do respeito à diferença de visões de mundo é o mesmo que pretendo usar para desconstruir o atual papel de educação formal.

O projeto positivista de nação pressupõe um mecanismo de formação cidadã, ao qual corresponde a educação formal. Sem educarmos uns aos outros, não é possível criar condições para se ter um mundo mais justo; sem cidadãos capazes de transformar (em termos da práxis ou ação transformadora) a sociedade, não é possível concretizar o grande projeto de levar nossa civilização de um ponto de baixo a outro de alto desenvolvimento. É nesse sentido que o mundo precisa de um sistema educacional eficiente: para fazer do mundo um lugar melhor.

Mais uma vez há uma hipótese que nos é levada garganta abaixo. Quem tem o direito de dizer que todos devem se comportar de acordo com a essa proposta? Quem disse que a educação formal como tem sido construída é a melhor opção para um projeto de nação? Por que todos devem ser submetidos a uma educação construída sobre uma perspectiva desenvolvimentista? Será que a educação deve ser uma via para a humanização, ou será essa apenas uma hipótese que foi transformada em verdade? Não será a educação formal uma estratégia de docilização, de catequisação, dirigido à inculcação de causas ditas coletivas e universais baseada em meras hipóteses as quais não as questionamos?

Não quero negar o mundo em que vivemos ou dizer que não poderia ser melhor ou que não vale a pena fazer projeções para um futuro próximo e desejar mudanças. O que eu questiono aqui é por que cada um de nós precisa comprar uma causa que não é sua?

Há uns escritos muito interessantes de um autor chamado Max Stirner. No livro “O único e a sua propriedade”, ele diz

O divino é a causa de Deus, o humano a causa ‘do homem’. Minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre etc., mas exclusivamente o que é meu. Esta não é uma causa universal, mas sim… única, tal como eu.

Por que, enquanto sujeito da aprendizagem, eu devo acatar a causa da educação? Por que eu deveria ser educado a fim de concretizar um anseio de uma sociedade na qual eu caí de paraquedas? Se eu tivesse caído em uma ilha do leste asiático, estaria em um contexto absolutamente diferente, no qual eu deveria também a aderir a causas que não são as minhas, correto? Uma vez que já sei da existência de mais de uma causa, inclusive a minha própria causa, por que eu não posso optar por ela em detrimento as outras? Por que eu preciso escolher pela humanização/docilização? Não seria mais nobre agirmos de forma transformadora a fim de criar condições para as pessoas desenvolverem suas diferentes causas ao invés de serem imputadas a um projeto homogeneizador, além de alimentá-lo, que não dá espaço para as pessoas liberarem suas diferenças?

Essas são as reflexões que me incomodam enquanto educador sobre o papel da educação no contexto social em que nos encontramos. Tomar a educação formal como a solução para os males que assolam nossa sociedade pode ser tão eficiente quanto dar dízimos a igrejas ou pagar impostos cegamente, aderindo automaticamente e de forma mecânica a utopias sem questionar seus pressupostos.

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