A escola segundo meus alunos

Hoje pude conversar com meus alunos, pois tive bastante tempo de folga com eles: além de uma sala inteira não ter comparecido, o que presenteou com cinquenta minutos de ócio, o Agita Galera (motivo da ausência daquela sala) foi adiado pela diretoria de ensino devido ao clima seco em São Paulo. Como gosto muito de conversar com os alunos, lá fui eu para o pátio jogar tênis de mesa e conviver um pouco com eles. Até que deu o sinal anunciando o fim do banho de sol. Seguindo as orientações da diretora, me dirigi à sala para “conversar com eles e ir dispensando eles aos poucos”, pois como não haveria o Agita Galera e eles supostamente não tinham em mãos seu material, não fazia sentido deixá-los trancados nos pavilhões, em suas respectivas celas.

Dos alunos que lá sobraram, seis foram para aula – alguns já sabiam que não precisariam nem mesmo subir para sala pois seriam dispensados logo a seguir. Eu e meu camarada professor de Filosofia fomos até eles para lançarmos dois dedinhos de prosa ou qualquer papo furado que viesse à mente.

Depois das duas frases que explicaram (ou não) o motivo de serem dispensados, perguntei a eles o que achavam da escola. Foi quando teve início uma das maiores experiências antropo-sociológicas (se não a única que possa ser chamada como tal) da minha vida.

A resposta imediata e consensual é que a escola já foi melhor do que é hoje. Eles acreditam que a escola (leia-se sua administração) deveria ser mais rigorosa, como já foi no passado. Um dos alunos que lá estava falou que estuda lá desde a quinta série (hoje está no segundo ano do ensino médio) e que a escola poderia ser melhor se não fosse tão frouxa como está sendo e fosse mais rigorosa em impor aos alunos suas regras de funcionamento.

Os fatos que os alunos apontam como cruciais para a direção da escola ter essa imagem de ser negligente com a impunidade dos alunos são vários: vistas grossas para quem chega atrasado, para a segunda e até mesmo para a terceira aula; falta de punição para quem depreda o patrimônio, como o caso dos alunos (vagabundos, segundo eles) que queimaram uma cortina de uma sala há alguns dias; consentimento dos inspetores e da própria direção com relação aos alunos que não querem assistir aula e ficam no pátio sem nada para fazer, para falar de alguns casos. Vejo em seu discurso que eles atribuem à direção a responsabilidade da escola não ser boa como deveria.

Então perguntamos, o filósofo e eu, se respeito às regras e rigor na sua implementação tem relação direta com o objetivo maior da escola (lembram dele?): o aprendizado. Perguntamos também se os alunos, ou todos os sujeitos do processo inseridos nesse contexto, não estão contaminados, viciados, incapazes de perceber que a lógica da qual fazem parte poderia ser outra; e quais as razões para haver ambientes em que, apesar de serem livres de tantas regras e punições, as coisas funcionam tão bem quanto uma escola militar ou uma empresa, exemplos que eles deram de instituições com as quais a escola deveria aprender.

O discurso dos alunos manteve-se o mesmo. A sociedade possui regras, as pessoas precisam delas para conviverem melhor, e as punições são fundamentais para que as pessoas aprendam que, mesmo estando em situações ruins, podem piorar.

Não adiantou falar-lhes de escolas democráticas e libertárias, de empresas em que os funcionários fazem seu próprio horário, entre várias instituições mais livres do que as quais estamos acostumados. Por que umas funcionam e outras não? Será que a responsabilidade é sempre de quem impõe as regras? Os membros do jogo não tem qualquer responsabilidade sobre seu funcionamento? Será que a escola só funcionará quando todos os alunos forem obrigados a respeitarem as regras? Regras e punições são a única alternativa? Ou deveria a escola, no lugar de condicionar os alunos a respeitarem seu regimento (deixando orgulhoso Skinner e qualquer behaviorista), estimular que os alunos aprendam a tomar decisões sem intervenção de uma instância hierarquicamente acima deles?

Quem quer fazer com que a escola seja um ambiente melhor e que funcione, não adianta apenas investir na formação dos docentes, em teorias pedagógicas e cognitivas, reformulação da estrutura de poder do sistema educacional etc. É fundamental que os alunos sejam também considerados parte ativa do sistema, como um grupo que possui atuação política relevante assim como influência direta no sucesso ou não de todo o processo e de seu produto. Os alunos possuem responsabilidade sobre o sucesso ou fracasso da escola. O problema é que o discurso ao qual estão incorporados e que, portanto, reproduzem é indício de que não há uma boa perspectiva para qualquer mudança desse sistema. No atual paradigma de escola, estruturada sobre uma mentalidade meritocrática e pautada em regras rígidas, a qual é reproduzida não só pelo Estado e seus representantes mas também pelo alunos, é difícil pensar em uma alternativa que faça a escola funcionar ou ao menos ser encarada como uma “boa escola”.

Meus alunos veem a escola como um instrumento de docilização. Haverá algum problema nessa concepção de escola?

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7 comentários sobre “A escola segundo meus alunos

    • Fala!

      Assunto não só pro Marrocos, mas pra vida toda. Dar aula com certeza é uma experiência fascinante.

      Abraço

  1. Pelo que entendi, você pegou a amostra dos alunos que voltaram à sala de aula. Deveriam ser os mais certinhos mesmo…

    Agora se estão certos ou errados, ao meu ver, é outra história. Cada um tem sua visão de mundo e sua forma de mundo ideal.

    Para o mundo deles, ou que eles esperam (ou acham que o fazem), estão corretos.

    Para os mais rebeldes (entenda rebeldia como uma boa qualidade, que faz observar as coisas por um outro ângulo, podendo este ser mais à esquerda ou mais à direita), estes alunos estariam errados.

    Um grande abraço

    • Sim, a amostra é não apenas enviesada mas também muito reduzida.

      Não queria entrar no mérito de certo ou errado. Acho que eles, os alunos, têm de fato uma visão de mundo própria, que é diferente da visão que tem o Estado, diferente da que tem os professores e diferente da que eu tenho. Sou incapaz de dizer qual é melhor que a outra.

      Minha intenção é justamente entrar em contato com outras visões de mundo, outras experiências, pra ir formando minhas ideias. E nessa empreitada vão surgindo algumas surpresas. Talvez por ingenuidade minha eu esperava outro discurso da parte deles (mesmo de tão poucos alunos), por isso tamanha surpresa.

      Mas tenho certeza de que muito mais do que 10% da sala ou da escola tem a mesma opinião. Esse discurso é o normal, é o pico da gaussiana. Talvez, no lugar de “estarão eles certos”, eu deva perguntar se isso é um problema de fato.

      Abraço

    • Pois é, também não acredito que essa visão deva ser mudada, apesar de eu não concordar com ela. Por outro lado, como conciliar o papel da escola enquanto um mecanismo transformador da realidade dos alunos com esse discurso?

      Eu havia guardado essa tira na mesma semana em que aconteceu essa conversa. Foi uma das melhores do Laerte nesses últimos tempos. Veio a calhar.

      Abraços

  2. Fala Tiago!

    Muito bom o blog. Gostei pra caramba. Legal saber que você escreve por aqui. Sobre o post eu concordo com o que você disse, mas sou mais enfático. Acho sim que os alunos têm o poder para mudar a situação da escola e que, diante dos problemas da mesma, eles se ausentam dele atribuindo a culpa a outros. Até acho que a escola poderia ser um pouco mais rigorosa, mas isso não impediria que a mesma não atingisse o objetivo: o aprendizado. E para este objetivo é preciso uma comoção de todos os elementos da escola: professores, inspetores, diretores e ALUNOS. Não que eu ache que os outros elementos (professores, inspetores, diretores) fazem a sua parte. E, a meu ver, este é o problema mór no ensino.
    O Groppa dizia uma coisa para os alunos: “viva este lugar” e eu acho que isso vêm bem a calhar.

    Falouzis… Shock!!!

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