Por que Dimenstein ataca os professores?

De acordo com Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de S. Paulo, os professores da rede pública de SP deram uma aula de baderna na assembleia de sexta-feira, na qual se decidiu pela continuação da greve da categoria. No texto postado na sexta-feira, ele diz que os professores agiram mau agredindo com paus e pedras os policiais que isolavam a região do Palácio dos Bandeirantes. Como eu estava lá, vi agressões mútuas – difícil garantir quem as iniciou – e fiquei sabendo da presença de pelo menos um P2 (policial à paisana) infiltrado na manifestação, me interrogo por que Dimenstein optou por investir seu tempo escrevendo um texto com um ponto de vista enviesado e dedicado a sujar a imagem dos professores manifestantes, sem dar uma linha ao abuso de violência da PM.

Dimenstein se diz um sujeito que conhece de perto a realidade da escola pública, dando a si autoridade para falar sobre os problemas que determinam o fracasso escolar atualmente, em particular no estado de São Paulo.

Já publicou alguns livros sobre ensino, inclusive em parceria com especialistas da área, como Rubem Alves (filósofo, professor emérito da Unicamp e maior escritor no Brasil de livros de auto-ajuda para professores); esse é mais um ponto que costuma lhe atribuir algum mérito ao tratar do assunto. Seu status de quasi-educador é ainda fortalecido por ter idealizado o Projeto Aprendiz de educomunicação, que deu origem à ONG Cidade Escola Aprendiz, centrada na ideia de educação comunitária. Além de se dedicar ao Projeto Aprendiz, ele é membro do Conselho Editorial da Folha.

Essa é parte da vida pública de Dimenstein, o qual tem sido criticado, como ele mesmo diz, por uma série de leitores e professores por sua posição política frente à educação. Sinceramente, eu acreditava (de forma ingênua) que Dimenstein tinha um ponto de vista diferente dos seus leitores. Não poderia dizer que ele tinha má intenção com seus textos simplesmente por pensar que a educação deve ser construída de forma diferente do que eu acredito.

Até que li a coluna em que ele chama os professores de baderneiros.

Ao se referir aos professores agredidos pela polícia na tarde de ontem como baderneiros “desrespeitando a lei e atirando paus e pedras contra a polícia”, entre outras pérolas, mostrou sua afinidade com o discurso mentiroso e mau caráter do governador do estado, que insiste em mentir à imprensa que menos de 1% dos professores estão em greve.

Mas a afinidade de discursos não é mera coincidência. Sabe-se que, sem uma base política, o poder de um governante se torna frágil. Lula, por exemplo, estabeleceu sua base política, ao longo do crescimento do PT enquanto partido, nos movimentos sociais. Hoje, o presidente se apoia também em empresários e banqueiros. Já José Serra optou por estabelecer seu poder com base na imprensa marrom, como jornais e revistas de grande circulação cuja opinião varia de acordo com o interesse de seus amigos. Nesse espectro da mídia comprada, encontram-se os grandes jornais de São Paulo, inclusive aquele em que Dimenstein é um dos conselheiros editoriais e que (coincidência?) tem um membro do comitê editorial indicado por Serra.

Se há muitos anos os tucanos são blindados pela imprensa, há obviamente uma troca de interesses em jogo. Dada sua posição na mesa, Dimenstein certamente não está fora dessa jogada.

Não é possível que, com toda sua responsabilidade e pretensão de educador, Dimenstein seja incapaz de fazer uma crítica sequer à Secretaria de Educação e ao Governo do Estado em todas suas trapalhadas ao longo desses anos – desde a compra de milhares de exemplares de revistas da Editora Abril sem licitação, passando pela precarização dos regimes de trabalho (contratação de 100 mil professores temporários por ano e efetivação de apenas 10 mil a cada quatro anos), até a publicação repleta de erros dos Cadernos do Professor, utilizados pela rede estadual de ensino. Ainda assim, semanalmente dedica suas colunas à desmoralização da categoria que atualmente mais ataca a imagem do “ínclito” governador José Serra. Há isenção no ofício desse jornalista? Se Dimenstein é tão comprometido com a educação de São Paulo, por que insiste em tirar a culpa do governador sobre a descarada política de sucateamento (leia-se destruição) do ensino paulista, que começou há anos e hoje sofre de uma tuberculose galopante (ou você acha que o custo do aluno para o estado é o mesmo que para uma escola particular)? Por que esse colunista não deixa claro que a PM utilza da violência sobre toda e qualquer manifestação contra o governo, criminalizando os movimentos sociais?

Caro Dimenstein, se há alguma aula ocorrendo por estas bandas, então o senhor é o “professor”. E aprendi que, se eu for candidato a algum cargo político um dia, terei muitos amigos jornalistas golpistas como o senhor. Infelizmente, hoje, em minha carreira de educador, não posso chamá-lo de amigo com tantas mentiras que conta sobre nós e que inventa a favor do governo Serra.

Mais sobre a forma com que os professores são tratados por José Serra

“A Democracia, a Baderna e a Paz”, do Passa Palavra

E para não dizer que minhas críticas são infundadas: Depois da trampa da Globo: Serra dá R$ 3,7 milhões a “Conselheiro” da Folha(*)

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