Greve dos professores de SP. Assembleia do dia 26/03/10

Pelo menos 15 mil professores (minha conta; a da Apeoesp somou 20 mil, a da PM, hilários 5 mil) se juntaram hoje sob a chuva para decidir em assembleia a continuidade ou não da greve. Felizmente, a paralisação continua.

Por que felizmente? Passei duas semanas dando aulas pensando se seria uma decisão feliz aderir à greve. Até que resolvi parar. Vários – incontáveis, eu diria – foram os motivos para minha decisão.

Mas há também motivos contra.

Pensei nas crianças que querem ter aula e têm medo de precisar repô-las aos sábados ao longo do ano. A elas, não interessa a greve. Pensei no meu salário indo por água abaixo e no risco de perder meu emprego – pois sou OFA (ocupante de função atividade, o mesmo que professor temporário) e não tenho qualquer estabilidade empregatícia: se faltar por 15 dias consecultivos, perco o cargo. Nesse sentido, paralisar é tão producente quanto dar um tiro no próprio pé. Pensei nos 80% dos professores da minha escola que não aderiram, e me sinto isolado no meio de todos aqueles “macacos velhos” que, após todos os longos anos que vêm servindo o magistério, possuem argumentos fortíssimos para seguirem trabalhando em meio ao vendaval. Como se andorinhas sozinhas não fizessem verão.

Não sou andorinha, nem sequer me interessa a estação. Como tenho espaço para atuar na sociedade – seja como professor, seja como qualquer sujeito – luto para mudar essa estreita área de influência que com minhas parcas ações consigo influenciar.

Mas aderi à greve, e preciso me justificar.Antes, preciso fugir desse vício de polarizar os pontos de vista. Tenho essa forte tendência maniqueísta de justificar os fatos contrapondo-os em duas colunas, antagonizando-os.

Se não quero polarizar os argumentos, é porque não acredito na unidade por trás de um movimento. Não é verdade que, em todas as disputas ideológicas ou políticas, existem dois blocos coesos, um contra o outro. Seria mais do que utópica – seria fantástica uma organização em que todas as pessoas concordam em todas as instâncias com suas diretrizes ou determinações. Um sindicato ou um movimento social homogêneo é tão real quanto uma sala de aula só com alunos sedentos por conhecimento. Por isso, não espero que todas as pessoas participantes de uma greve concordem com todas as reivindicações que a motivam.

Esse é o meu caso. Se tomarmos a pauta comum da Apeoesp, da Conlutas, da CUT e dos outros movimentos sindicais, vemos sempre as exigências por

-aumento salarial, normalmente citando 34,3% de aumento,

– fim da provinha (eliminatória de temporários) e da provona (que fornece aumento salarial por mérito) e

– melhores condições de trabalho.

Concordo apenas com a mais geral das exigências. Na realidade, minha pauta seria essencialmente diferente. Não exigiria o fim da provinha, mas sim a construção por inciativa do Estado de um projeto de formação continuada de professores. Afinal, se o estado investisse nos professores que já fazem parte da Rede, não haveria o porquê de forçá-los ao desemprego, culpabilizando-os por não investirem em sua própria capacitação profissional – o que o salário de fato não permite. Formação continuada é uma reivindicação nobre e legítima a provinha seria desnecessária no final das contas.

Não exigiria o fim da provona, mas sim a criação de um plano de carreira para todos os professores igualmente. Afinal, se os professores já foram contratados alguma vez e se houvesse investimento na formação dos professores, vincular aumento salarial a mérito seria mera questão de retórica. Premiação por mérito, como já mostraram os behavioristas, funciona perfeitamente apenas com pombos e camundongos. E, como consequência, não seria preciso gastar verba pública com a provona.

E melhores condições de trabalho é o que qualquer profissão tem direito de exigir, dado o cotexto histórico, jurídico e social. A concepção de trabalho sempre injustiçou o trabalhador, seja através da mais-valia ou fazendo com que alguns trabalhassem mais que as outros em nome de um desenvolvimento que só produz resultados para a elite. Chega a ser ridícula a inclusão desse ponto nas reivindicações.

Mas minha adesão à greve não tem nada a ver diretamente com essa pauta. Só aderi a ela porque um sentimento de hipocrisia me assolou: não poderia seguir criticando o governo do estado e sua política de sucateamento da educação pública (básica e superior) enquanto abriramão de um direito dado aos trabalhadores pela Constituição de 88. Quando me vi com um instrumento de luta nas mãos (por mais arcaico que a greve possa parecer) e dando minhas aulas fingindo estar alheio ao potencial sacrifício de parte do corpo docente, que enchia as avenidades da cidade em assembleias com 40 mil pessoas, vi que de alguma forma existiam pessoas compartilhando do meu ponto de vista, apesar de enxergarmos por ângulos diferentes. Não somos iguais, nossos anseios não são compatíveis, mas, enquanto professores e sujeitos responsáveis por uma prática social, nosso inimigo é comum. E a desunião é um passo sem volta rumo ao fracasso não só da nossa categoria mas da sociedade como um todo, que há anos sofre com a política neoliberal tucana no governo de São Paulo e sua consequência nefsta sobre a educação pública.

A assembleia no Palácio do Bandeirantes

Hoje, na assembleia, senti um alívio. Obviamente não se apagam de uma hora para outra todos os bons motivos para não se entrar em greve. Isso me fez sentir a alma dividida por um tempo. Até participar da assembleia de hoje.

Vi de perto as agressões da polícia aos professores. Senti com meus próprios olhos (não apenas vi, mas senti) o gás lacrimogênio lançado pela polícia contra nós. Com a finalidade de dispersar a mutidão e apoiado pela aquela hipótese (que sempre surge para justificar a violência policial) de que sempre há um manifestante violento (como se isso fosse o bastante para que uma mutidão seja agredida de forma descabida como aconteceu), a polícia lançou bombas de efeito moral, balas de borrada e desceu seus cassetetes sobre os professores manifestantes. Enquanto isso, após convocar uma comissão para negociar a pauta de reivindicações, a Casa Civil fazia sua proposta: só haveria negociação se os professores interrompessem a paralisação.

Em outras palavras: “enquanto o Estado espanca vocês, finjam que essa greve nunca aconteceu e TALVEZ nós, do PSDB (Pior Salário do Brasil), daremos a vocês um vale-coxinha e um corredor polonês para saírem daqui com o rabo entre as pernas”.

Recusamos. Tentaram pintar nossa cara e nos colocar um nariz vermelho (não com um daqueles de palhaço, mas com uma bela duma cassetada na cara). Não passaram. A greve continua ao menos até quarta-feira, dia 31.

E não passarão.

Presenciar (mais uma vez) a violência do Estado sobre manifestantes pacíficos me ajudou a aliviar a culpa. Aquela culpa que vem quando lembro das pobres criancinhas que querem aprender Física ou aquela que vai apertar meu coração quando ver meu holerite com meio salário a menos. Não só alivou minha culpa, mas também me deu mais força para seguir forte, acreditando que ainda vale a pena, ao menos uma vez neste mundo, lutar pelo que se acredita.

Mais:

Serra recebe professores a bomba. 16 feridos (do Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim)

O mundo bizarro de Serra (do Brasília, eu vi, de Leandro Fortes)

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3 comentários sobre “Greve dos professores de SP. Assembleia do dia 26/03/10

  1. Sinto a mesma coisa que você, obrigada por compartilhar seus sentimentos, isto nos da força, para continuarmos lutando pelo que gostamos de fazer e ser.

    • Olá, Edimara.
      Obrigado pelo comentário. Fico feliz por compartilhar do mesmo sentimento com outras pessoas.

      Um abraço

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