Políticas educacionais na periferia: CEU Caminho do Mar

CEU Caminho do Mar

Há uma série de variáveis que determinam a situação de sucesso ou fracasso escolar – grosso modo, se o aluno é ou não é bem sucedido no processo de aprendizagem, resultado da escolarização a qual todos nós somos submetidos nas escolas.

Um estudo interessante levado a cabo por Haroldo Torres indica que não só os fatores individuais (etnia, sexo, escolaridade dos pais, renda familiar, etc.) mas também os espacias são relevantes para essa análise desse processo. Isso quer dizer que um menino branco de classe média que mora na periferia tem menor probabilidade de sucesso escolar que outro menino branco de classe média que mora no centro, sendo ambos filhos de pais com a mesma escolaridade.

Tal resultado é um forte motivo para que o Estado, ao criar políticas que visam a melhoria da qualidade de ensino, leve em conta fatores sócio-espacias, ou seja, considere políticas educacionais na periferia distintas das aplicados no centro, para que suas ações deem resultado.

Os Centros Educacionais Unificados (CEUs) representam um avanço nas políticas educacionais públicas nas periferias da cidade de São Paulo, por serem pioneiros nesse sentido e também por permitirem o acesso das comunidades afastadas do centro e uma diversidade de bens culturais aos quais antes não tinham alcance.

Tive a oportunidade de acompanhar de perto um CEU em um estágio que acabei de fazer para uma disciplina de meu curso de licenciatura. No meu caso e de meu parceiro de estágio, o Danilo, visitamos o CEU Caminho do Mar, no Jabaquara. Fomos muito bem atendidos por funcionários e alunos, o que nos foi mais que um incentivo para mergulharmos naquela realidade a qual não conhecíamos.

Segue uma breve introdução sobre a organização do CEU. Para começar, o CEU não é uma escola. O CEU é dividido em quatro unidades que funcionam em conjunto: três unidades educacionais – creche, educação infantil e ensino fundamental – e uma unidade gestora (ou Gestão). Um conselho de integração se reúne algumas vezes ao ano a fim de criar elos entre as ações das unidades e fazer com que convirjam ao objeto que têm em comum.

As quatro unidades agem articuladamente em benefício não apenas das crianças da região onde o Centro se situa, mas também para sua comunidade como um todo: adultos, idosos, educadores, atletas, donas-de-casa, ricos, pobres, o brilho do CEU é o mesmo para todos eles.

Na prática, o que faz do CEU mais que uma escola é a Gestão, responsável por organizar atividades voltadas a todos os públicos. As atividades são as mais diversas: cinema, teatro, cursos de dança, tricô e crochê, oficinas sobre cultura africana, natação, informática, tudo o que puder imaginar, além, obviamente, das atividades da creche e das escolas.A ideia principal é que as crianças estejam no CEU em tempo integral: quando não estão nas escolas, devem estar participando de atividades promovidas pela Gestão.

O CEU funciona portanto como espaço tanto de escolarização quanto de plena socialização.

Mas será que apenas políticas públicas são capazes de saciar a demanda por bens culturais, apagando a polarização espacial centro-periferia? Políticas individuais ou particulares, como ONGs, fundações e institutos, serão incapazes de suprir tal necessidade?

Normalmente são iniciativas individuais que assumem a responsabilidade de promover políticas públicas em periferias. De certa forma, o CEU não foge dessa regra. Apesar de o município fornecer uma série de ferramentas para que as políticas possam ser implementadas – além da estrutura do CEU, Secretarias de Educação, de Participação e Parceria e de Cultura, assim como os respectivos repasses de verba, e financiamento privado são alguns exemplos – são os coordenadores, diretores e chefes de unidades que, usufruindo de suas atribuições, viabilizam o sucesso das iniciativas públicas. A estrutura fornecida pelo Estado em si não traria resultados não fosse pela presença de pessoas que incorporam políticas desse caráter nas periferias.

De qualquer forma, os CEUs são modelos bem sucedidos (exceto por alguns oportunismos que emanam de políticas partidárias, mas não quero entrar nesse tema agora) de políticas educacionais que propõem minimizar o gradiente de acesso a bens culturais e educacionais entre centro e periferia – por mais que essa polarização não me satisfaça, mas essa é outra história.

As fotos não foram tiradas por mim. Se clicar sobre elas, irá para suas ligações originais. A foto abaixo me chamou muito a atenção. Durante as visitas não vimos a piscina cheia como na imagem, mas ela ilustra um pouco da relação da população local com esse tipo de entretenimento, normalmente caro e de acesso facilitado, sem dúvida, a quem mora no centro da cidade.

Piscinas do CEU Caminho do Mar

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