Vestibulares reformulados: mais do mesmo (ou seleção por sorteio)

Enem assume novo formato e será usado como vestibular em 55 instituições federais de ensino superior. Unesp adota nova divisão de matérias e segunda fase no vestibular. Pontuação e provas da Fuvest são reformuladas.

Várias instituições de ensino superior do Brasil vêm apresentando mudanças nas provas de seleção de ingressantes nas universidades. Trocam uma disciplina aqui, tiram um dia de prova dali, alegando a tentativa de melhorar a seleção dos candidatos.

No fundo, permanece o vestibular e o caráter elitista das universidades. Cobrar uma visão interdisciplinar em detrimento da “decoreba”, especialidade dos cursinhos, tira do foco não só o problema da inclusão social nas universidades mas também o do número insuficiente de vagas, para o qual o vestibular foi dado como solução. O vilão não é mais essa seleção excludente, mas sim o “caráter conteudista” da prova.

A proposta dos vestibulares é filtrar os candidatos por mérito, representado por índices que tentam refletir o aprendizado do ensino médio. Esse critério é praticamente indiscutível: quando se trata de instituições de ensino superior que lideram rankings de respeito, a seleção por mérito é adotada em todo Brasil e, não tenho dúvidas, no mundo inteiro.

Embora o vestibular seja injusto (quem nunca fracassou em uma prova por estar em um mau dia?), o argumento para mantê-lo como critério de seleção é o de que a universidade necessita de pessoas preparadas (ou academicamente viáveis) para manter sua alta qualidade. No entanto, isso não garante que a meritocracia seja o melhor sistema de seleção do ponto de vista institucional. Ou seja, não significa que, no que depende da virtude dos selecionados, as universidades já atingiram seu máximo padrão de excelência.

Afinal, selecionar os ingressantes por mérito é mesmo essencial para a qualidade da universidade? Ou é apenas um critério para contornar a falta de vagas? Ingressantes com baixos índices de aprendizado (leia-se notas do vestibular) de fato afetam a excelência do ensino superior e da pesquisa no país?

Esta pesquisa da Unicamp mostra que não. O desempenho dos alunos ingressantes por sistema de cotas, portanto que tiveram menores notas no vestibular, ao longo do curso é igual ou superior ao dos não-cotistas. E a Unicamp continua sendo uma das universidades públicas que mais contribuem com a produção científica do país. (Deixo a discussão sobre cotas para outra oportunidade, por ora pretendo mostrar que ingressantes com baixos índices que representam o aprendizado no período referente ao ensino médio+cursinho não afeta a excelência da Academia.)

O atual formato do vestibular não necessariamente implica em excelência da instituição e ao mesmo tempo é injusto. Mas existe uma alternativa a ele?

Antes de responder a essa pergunta, peço que deixe qualquer preconceito de lado e receba de peito aberto minha proposta (e não só minha: veja este projeto de lei).

Imagine um sorteio no lugar do vestibular. Para o povo, seria mais justo. O público ingressante seria proporcional às etnias e classes sociais das comunidades em que as universidades estão inseridas – a fração de negros ingressantes, por exemplo, seria a mesma que a sua fração em uma determinada localidade. Isso bastaria para tornar o sorteio mais justo do que a seleção pelo mérito, que por sua vez deixa em desvantagem pessoas que não possuem as mesmas oportunidades de preparação para a prova.

Podemos ir além – e aí vem a melhor parte. O ensino em todo o país teria como diretriz não mais o conteúdo cobrado pela Fuvest ou de outros grandes vestibulares mas sim a busca pelo pleno conhecimento. Liberdade de aprendizagem, sem a obrigação de seguir um currículo engessado, repleto de informações que, depois de uma única avaliação, nunca mais serão utilizadas. Conteúdo para uma vida e não mais para apenas 4 horas de prova.

Fim dos cursinhos. Fim de taxas de inscrição. Fim das traumáticas provas, que demandam imensos gastos com megaestruturas de segurança e organização. Pessoalmente, mais justiça. Institucionalmente, maior diversidade cultural, o que enriquece a construção de conhecimento na universidade.

Seria mudar o foco, do problema para a solução. Uma real reestruturação do sistema de ensino como um todo. Uma verdadeira mudança, não apenas para inglês ver.

Mais: “A utopia do fim do vestibular“, um lindo texto de Rubem Alves

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6 comentários sobre “Vestibulares reformulados: mais do mesmo (ou seleção por sorteio)

  1. Acho que a seleção feita pelo vestibular não é meritocrática, prefiro falar numa “privilegiocracia”, já que quem gozou de mais privilégios ao longo da vida terá mais chances de mérito.

  2. Estas idéias que levantou são realmente originais.
    Não sei o que é pior, se a seleção com base no currículo, ou o Vestibular. No caso do primeiro, não tem como voltar atrás, você será um loser pelo resto da vida. No caso do primeiro, as desigualdades ficam mais expostas, embora ofereça uma chance de redenção. É a primeira vez que eu vejo uma discussão sobre o fim do Vestibular sem envolver apenas medidas paleativas, ou radicalismos que não podem ser colocados em prática, ou propondo outra coisa que tem algum problema grave em termos de exclusão social.
    Parabéns pelo tópico.

    Um grande abraço do fundo do meu coração vermelho de outubro de 1917,
    Atenágoras Souza Silva.

  3. Oq vc postou é em grande parte uma bobagem sem tamanho.

    É claro q não há vagas suficientes para todos, alias isso nem deveria de existir.A universidade serve ou deveria servir apenas para alunos interessados.

    Como separar os alunos dedicados dos não dedicados? POr entrevista? Por sorteio?? Isso nao define niguem!!!

    É bem verdade q o vestibular não consiga discernir de forma plena os alunos com potencial (leia-se vontade e dedicação) para cursar a universidade, entretanto creio q seja o melhor metodo para q em parte possamos escolher os que mais se dedicaram no vestibular.

    E falar em privilegios das classes mais altas é admitir a falta de capacidade dos alunos de escola publica. Alem de não ver nda d+ por um pai querer investir no seu filho em uma educacao de qualidade (visto q a publica é muito ruim) e ver q seu investimento gerou frutos (vaga em uma boa faculdade), acho q com um pouco de esforço um aluno da rede publica tem total condicao de entrar em uma boa faculdade.

    Desculpe amigo, mas ja estudei em escolar barra pesada, onde alguns estao presos, outros com filhos, uns viraram pedreiros e alguns como eu e uns amigos entramos em boas universidades

    Não quero q fiques chateado comigo, só queria expor minha opiniao q diverge em muito da sua.

  4. Anônimo, obrigado pelo comentário.

    > A universidade serve ou deveria servir apenas para alunos interessados.

    Esse é um pressuposto interessante. No entanto, até onde sabemos, ainda não foi criada uma seleção que dê conta dele. O sorteio, assim como o vestibular atual, de fato não procura alunos interessados, mas sim tenta ser mais justo em inserir no meio acadêmico a mais ampla diversidade cultural possível.

    O maior fracasso do vestibular no formato atual é sua incapacidade de contemplar as mais diversas camadas sociais – embora com o ProUni, a grande maioria dos que entram nas universidades ainda é a classe média, o que vai claramente contra as políticas de inclusão social que o estado deveria promover.

    Agora, é preciso muito suor para se acreditar que o vestibular mede dedicação, esforço ou interesse. Você acredita piamente nisso? Se for assim, pobre se dedica menos do que rico, ou a discrepância que se vê atualmente não se justifica. Eu ainda acho que o poder aquisitivo, o que compra um, dois, cinco anos de cursinho, livros e tudo mais, é um fato muito relevante e que, acoplado à dedicação, facilita e muito o sucesso no vestibular. Caso contrário, os pobres devem ter uma propensão (talvez genética?) a não se dedicarem tanto quanto os ricos. E, por essa sua frase,

    > E falar em privilegios das classes mais altas é admitir a falta de capacidade dos alunos de escola publica.

    , ambos não queremos crer nisso.

    Você quis dizer capacidade intelectual, não é? Porque em geral famílias (nas periferias urbanas você as encontra com facilidade, só precisa ir lá) que recorrem à escola pública são incapazes de pagar sequer uma mensalidade no Dante, Bandeirantes, Objetivo…

    Ainda assim sua afirmação tem uma justificativa, embora local. Com local quero dizer com casos muito específicos. Até porque tentar prever a capacidade dos alunos usando dois fatores (dedicação e poder aquisitivo) é muito simplista, e seria muita pretensão tentar resolver toda uma sociedade a partir daí; obviamente existem outros agentes que contribuem com uma, digamos, "pessoa vencedora", classificação na qual, como descreveu, você se encaixa.

    Nesse sentido, acho ainda mais pretensioso (e muitas vezes arrogante) dizer que a dedicação é o único parâmetro relevante para definir uma "pessoa vencedora". Minha humilde e limitada experiência pessoal insinua que o ser humano é complexo demais para ter suas ações e comportamento justificados só pelo seu interesse.

    Enfim, se não houvesse limite de vagas, talvez fosse possível inserir no ensino superior uma população pobre interessada. Como o número de vagas é restrito, é natural que dessa disputa (um bom sinônimo para o vestibular) só sobreviva quem tenha mais armas, ou seja lá o recurso que tenha em mente.

    Agradeço por ter gasto seu tempo lendo e expondo sua opinião quanto ao meu texto.

    Um abraço.

  5. Tiago, não sei o qto vc conhece da rede publica. Mas vc cre realmente q um aluno q não sabe nem dividir tem a competencia de entrar em uma universidade?? Pessoas analfabetas funcionais, tem de tudo lá!

    Não vejo nada d+ (como ja disse anteriormente) um pai querer bancar o estudo de seu filho em uma boa escola (e talvez um cursinho) e depois reverter seu dinheiro em uma faculdade publica. Pois temos escolas de má qualidade e faculdades de boa qualidade publicas. Assim esse pai preocupado supre a falta de qualidade da escola publica q o governo deveria dar.

    O buraco é muito mais em baixo, mas não creio q colocar uma pessoa despreparada em um nivel acima seja a solucao.

    Agora vc virá com indices de algumas faculdades com alunos q entraram por cotas. Como disse eu acredito no potencial de pessoas q se dedicam, talvez em parte por eu estar nesse exemplo tao restrito. Mas não consigo ver outro meio de avaliar um aluno senao o vestibular.Concordo com vc q está longe do ideal, mas antes ele dq um sorteio q não avalia nda.

  6. Anônimo,
    o que propus com a reflexão de vestibular por sorteio foi algo como uma troca de roupas, desvestir por um instante os valores elitistas com os quais nos cobrimos a todo momento para assim podermos analisar o que se pode fazer para a construção de uma universidade que cumpra sua proposta – que hoje não é cumprida!, a de construir conhecimento que beneficie toda a população, antes mesmo de funcionar diretamente como ferramenta de inclusão social por meio de sua seleção.

    No entanto, você usa dois argumentos elitistas para negar a eficiência da seleção por sorteio como parte da estrutura de uma universidade que cumpra seu papel: o primeiro é o do conflito com os interesses do ponto de vista institucional, ou seja, pessoas despreparadas na universidade prejudicariam seu padrão de excelência e abalariam o tripé ensino-pesquisa-extensão. Insisto na experiência comprovada de que essas pessoas são subestimadas por esse ponto de vista, e que apresentam um desempenho tão bom ou melhor que as "dedicadas". Isso seria o bastante para desmistificar o paradigma elitista de que o usufruto da universidade deve ser limitado a quem segue o protocolo de ensino estabelecido pela própria elite. Mas para aceitar meu argumento você precisa, como já disse, ver como patológico o privilégio dado aos que se comportam de acordo com a cartilha de valores de uma camada bem estabelecida da sociedade. Posso te responder de outra forma: sim, um analfabeto funcional pode ser competente o suficiente para fazer parte de uma universidade, e ele não necessariamente vai fazer cair a excelencia da instituição – muito pelo contrário, a fará muito mais rica culturalmente do que hoje. É esse o valor que prezo: diversidade cultural, mesmo que em detrimento do conhecimento de normas encucadas pelo sistema de ensino fundamental e médio que temos hoje, que serve apenas para proteger a segregação social estabelecida.

    E sua argumentação se confirma elitista quando apresenta o segundo argumento, respaldado no direito praticamente privado ao acesso à universidade. É privado porque você parte do ponto de vista de um pai que paga para o filho passar no vestibular, uma situação na qual se encaixa uma minoria da população, enquanto deveria partir de uma situação mais geral. Para refletir sobre uma sociedade justa, precisa deixar de pensar como um grupo restrito para refletir como população, no seu sentido mais amplo.

    Não bastasse o caráter elitista do seu ponto de vista, você ainda mostra que está a defender o seu interesse exclusivo, ou de um grupo restrito de pessoas que são muito parecidas com você, ao invés de se mostrar a favor da garantia de um benefício comum à população como um todo. Para defender seu interesse, você isola um valor, que chama de dedicação, e o usa para se destacar da população em geral. Diferente do que acontece em ciências exatas, não é viável nas humanas pautar um determinado comportamento em apenas uma variável (ou valor), embora seja uma ferramenta muito comum quando se trata de se distinguir convenientemente de outros indivíduos. Avaliar o comportamento humano a partir de uma única variável é, portanto, frustrante principalmente quando se trata de resolver problemas humanos por ser um método simplista e limitado. Isso faz de seu argumento baseado na "dedicação" oportuno e injusto, pois visa seu próprio benefício.

    O vestibular nos moldes atuais beneficia uma elite, que se diz mais dedicada, e usa como álibi a excelência da universidade. Hoje é impossível avaliar dedicação, como tento demonstrar contrapondo seus argumentos ponto a ponto. Como uma avaliação pautada em dedicação é inviável, o sorteio passa a ocupar a lacuna da seleção mais justa dos candidatos a ingressantes da universidade.
    Um abraço

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