O quarto poder e a defesa das elites

Não existe mídia imparcial. Sempre há interesse por trás de qualquer manifestação humana. Toda informação é manipulada por quem a transmite, pois é limitada pela linguagem empregada na transmissão.

Aqui há um vídeo ótimo feito por secundaristas, que trata das ferramentas da mídia para manipulação de informações. Ele mostra como mensagem transmitida pode tomar um formato que corresponda ao interesse de quem a veicula.

No entanto, essa imparcialidade pode ser utilizada de maneira perversa, servindo como mais uma forma de poder estabelecido de quem comanda os meios de comunicação.

Da teoria para a prática: temos, infelizmente, muitos exemplos de como a imprensa nos trai com informações não confiáveis, formatadas de modo a esconder verdades que vão de encontro ao interesse dos detentores dessa mídia. Em nome de uma pequena elite, se aproveitam dos meios que têm para enviesar os fatos.

Seguem quatro episódios desse semestre que me chamaram a atenção.

Em 25 de março foi deflagrada pela Polícia Federal (PF) a operação Castelo de Areia. Nela, foram presos diretores da construtora Camargo Corrêa. No relatório da investigação levada pela PF, surgem nomes de partidos – PSDB, DEM, PPS, PMDB, PSB, PDT e PP – que teriam recebido doações ilegais para suas campanhas eleitorais. Não, o PT não foi citado no relatório. Ainda assim surgiram matérias – pelo menos um ou dois frutos de um esforço descabido da imprensa marrom, associando o PT e mais dois partidos às irregularidades da construtora, mesmo não existindo nenhuma evidência dessa associação.

De quem é o interesse de levantar uma suspeita que não existe?

Antes de responder, vamos ao caso da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

A Veja, via Diogo Mainardi (o que se tem de pior na história do jornalismo), lançou suspeita sobre Vitor Martins, diretor da ANP; disse que Martins “se valeria de seu cargo para direcionar os pareceres da ANP sobre a concessão de royalties do petróleo, favorecendo as prefeituras que aceitassem contratar os préstimos” da empresa da qual é sócio. Cita ainda um relatório da PF (na verdade, um relatório paralelo da operação Royalties e não o relatório final) que conteria dados que indicam o conflito de interesses do diretor Martins. No entanto, esconde que quando Martins passou a dirigir a ANP já não tinha qualquer vínculo com a dita empresa de consultoria. Ou seja, não há nem mesmo conflito de interesse para respaldar a acusação. Nassif em seu blog (aqui, aqui e aqui) destrincha muito bem o papel de Mainardi nesse ataque descabido.

Por que acusar alguém com tanto ímpeto sem qualquer indício de crime?

Essa resposta não é tão difícil e tem relação com a pergunta anterior. Evidências de fraude podem impulsionar uma nova CPI (por exemplo, da Petrobrás) contra o governo. Caso os governistas insistam no caso da construtora, a oposição pode usar a CPI em um contra-ataque. Conspiracionismo? Poderia ser se o próprio Mainardi, pau-mandado das elites (veja o que ele não faz pelo Daniel Dantas), já não tivesse feito o favor de reivindicar a investigação contra o atual governo. Esse método não é novo: há alguns anos usou-se o mensalão – cultura secular da qual o PT levou toda a culpa – e agora tem-se uma potencial CPI da Petrobrás, cujo álibi é Vitor Martins e uma fraude que não existiu.

Exemplos de factóides criados pelos grandes jornais e revistas. Impressionantes, ainda assim não únicos.

Há ainda a velha blindagem do PSDB em SP: ninguém fala das irregularidades no governo Serra. Já citei algumas em um post antigo, insisto em uma delas aqui. Por que nosso governador permite o gasto estatal de R$ 3,7 milhões, da pasta da Educação de SP, com 220.000 assinaturas de revistas da editora Abril sem abertura de licitação? O governador alegou que as revistas Recreio e Nova Escola são as únicas publicações na área de educação de interesse dos professores da rede estadual. Mentira. Não bastasse a decisão do ano passado, começou o mês de abril anunciando um novo gasto com 5.449 assinaturas de Folha de S. Paulo e Estadão.

É de interesse de todas as escolas de SP assinarem esses jornais? Quem terá acesso aos exemplares? São as melhores mídias? Contêm as informações mais confiáveis que os núcleos escolares devem ter à sua disposição? É muito raro encontrar qualquer citação ou crítica a essa má utilização de recursos públicos e irresponsabilidade no uso da máquina estatal, em benefício de interesses privados.

Nesse caso não há informação manipulada, apenas não veiculada. Peca-se pelo silêncio.

Mas o que se faz com a Operação Satiagraha é, ao meu ver, o mais impressionante dos quatro exemplos. Essa operação da Polícia Federal ameaça o poder do banqueiro condenado Daniel Dantas e de todos (e não poucos) que dele se respaldam para ter um lugar ao sol na política e mercado nacionais. A estratégia de defesa empregadoa pela legião de advogados do banqueiro é ilegitimar a investigação da PF, apontando uma série de possíveis irregularidades e contaminações ao longo de seu curso. A Justiça julgou algumas delas e as apontou como inconsistentes. Os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo (salvo poucas exceções) seguem os mesmos passos e insistem em atacar o acuado Protógenes Queiroz, delegado que liderou as investigações. Percebam: não querem inocentar Dantas usando fatos que provem sua inocência, mas sim com a destruição de fatos que provem sua culpa. A ficha de acusações que o “orelhudo” (como diz a CartaCapital em sua bela cobertura do caso) carrega é antiga e longa. O “problema” é que, enfim, o dono do grupo Opportunity foi condenado e preso, embora tenha sido libertado duas vezes pelo presidente do STF.

Qual a função da grande mídia no cenário em que Dantas tem o papel principal? Revistas (Veja, Época e IstoÉ), jornais (Estadão e Folha de S. Paulo) e obviamente a TV Globo – para citar apenas alguns meios – vêm fazendo um esforço descomunal para atacar a investigação da PF, exatamente como fazem os advogados do banqueiro. A preocupação em acusar a PF é muito maior do que a de incriminar Dantas, como comprovam todas as reportagens sobre o escândalo dos grampos (que ninguém ouviu, se é que existem). Os esforços conjuntos dos quatro poderes foram tão bem sucedidos que o delegado foi afastado por tempo indeterminado.

Afinal, para que servem as investigações: apontar as raízes da corrupção no Brasil ou apenas fazer rodeios? Desvendar as origens desse cancro da política nacional, foco da atual PF, é menos importante do que buscar falhas nas operações? Por que enquanto o banqueiro criminoso está solto todos se voltam para a inteligência investigativa do Brasil, que atingiu um padrão de excelência em suas atividades nos últimos anos, e a acusam de irregularidades?

Quando deveriam se posicionar frente a estas questões, todos se calam – ou são calados, como aconteceu com o programa do Observatório da Imprensa, vítima de nítida censura.

Esses episódios mostram que o papel da mídia na cobertura de todos esses escândalos é decisivo e por trás dele está a defesa de interesses privados, em particular da elite à frente das decisões do país.

Quando não basta o Estado e os Três Poderes, a elite que compõe tanto a oposição quanto o governo tem a imprensa agindo em seu favor.

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Um comentário sobre “O quarto poder e a defesa das elites

  1. Sem esquecer que o Itagiba, presidente da cpi dos grampos é desafeto de Paulo Lacerda. Está agindo por vingança (no mínimo).

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