A falácia do evolucionismo social

Hoje um camarada insinuou que a França, assim como os outros países europeus, são mais evoluídos que o Brasil. Isso aconteceu quando ele contava que as pessoas de lá costumam não respeitar filas, furando-as com a maior cara-de-pau – ele achou estranho um país evoluído ter pessoas que se comportam dessa maneira. Como de praxe, me intrometi e disse que talvez isso fosse um sinal de que essa história de países evoluídos talvez fosse uma mentira e essa evolução social não existisse. Ele respondeu que existe sim e como exemplo citou um episódio em que ele, na Europa, se atrasou e não chegou na estação a tempo de embarcar no trem para Paris. Explicou o caso para a moça do guichê, a qual sem rodeios entregou a ele um novo bilhete para o trem do horário seguinte – não bastasse, ainda devolveu 25 euros referente à diferença entre os dois horários.

Isso é evolução? A cordialidade ou domesticação de um serviço (público?) implica que TODAS as civilizações deverão no fim dos tempos ter passado por tudo o que a Europa sofreu na história? Todos os países, inclusive Japão, Indonésia, Argélia, Austrália, deverão passar pela Inquisição da Igreja Católica para que seus cidadãos sejam tão educados quanto os franceses?

Vou tentar fazer meus vínculos entre o sucesso evolutivo da Europa e o fracasso brasileiro. Para começar, pensemos em nosso país, onde a criminalidade é alta: é um país atrasado? Há quanto tempo estamos de atingir o estágio evolutivo da Inglaterra? Onde será que erramos? Talvez na proclamação da república, quando abrimos mão de um rei, uma imagem folclórica da qual os ingleses se orgulham de ter como chefe de estado. Talvez em um Brasil monárquico os criminosos daqui pudessem ter mais respeito aos bens materiais de seus irmãos de solo. E a Índia? É uma pena ser um país tão atrasado que, apesar de ter sido uma colônia inglesa, nunca atingirá o estágio evolutivo do povo estadunidense – e demorará para alcançar o fantástico número de assassinatos por armas de fogo registrado nos EUA.

Acreditar que o evolucionismo de Darwin pode explicar como as sociedades se modificam no tempo é puro positivismo: não há razão alguma para acreditar que haja uma “seleção natural” das sociedades. Lembram do exemplo do rapaz do censo populacional, que após passar por três casas seguidas onde moravam em cada uma delas um John Williams concluiu que em todas as casas seguintes ele encontraria outros John Williams? Não há pressupostos para que a bela teoria darwiniana, que explica em toda sua glória como os seres vivos evoluem, se ajuste a todos os tipos de eventos em nosso planeta, quiçá nem mesmo do Universo! Sem exagerar, é mais fácil levar em conta o desenvolvimento de cada uma das sociedades, das menos tecnológicas às mais socialmente justas, como resultado de uma escolha dentre um amplo espectro de caminhos a serem tomados, de forma que nenhuma das opções escolhidas por cada sociedade deve ser mais importante do que as outras. Não é justo dizer que as populações indígenas sejam primitivas e que fizeram a escolha errada. Simplesmente optaram (talvez de forma inconsciente) por não sofrerem da desgraça das grandes civilizações, como genocídios, pestes, exploração do trabalho, dentre tantas outras mazelas inerentes a países com grandes populações. Achar que os índios deveriam ter desenvolvido um Estado é mero eurocentrismo.

É certo que em se tratando de tecnologia temos muito que aprender com a Europa. Até posso estar enganado, mas o nazismo, o facismo e a intolerância racial fazem parte do mundo europeu, não fazem? Ou um Darwin sociólogo não levaria essas características em conta em sua teoria de evolução?
Até quando vamos reproduzir esse discurso preconceituoso e antiquado dos evolucionistas do século XIX?

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3 comentários sobre “A falácia do evolucionismo social

  1. Respeito sua opnião, mas discordo quanto ao ponto principal.

    Apontar o bom desempenho em uma dada área, a boa educação ou o nível de instrução secular para uma certa sociedade não leva automaticamente ao raciocínio Sócio-evolucionista. Ao menos, não consigo ver como uma coisa pode ser vinculada à outra.

    Isto é feito a todo momento. Em um local sem água encanada, o primeiro que abrir um poço artesiano será sucedido por vários. O êxito do primeiro foi usado como motivação aos demais. E não percebo como o primeiro está mais evoluído. O que isto significa é que alguém tem que dar o primeiro passo.

    Cada sociedade, podemos generalizar aqui para países uma vez que é o foco do tema, tem seus pontos fortes e seus pontos fracos. Obviamente que conhecendo as maselas de seus quintais, buscamos soluções para tais obtidas por outros povos. Uma aplicação direta de uma solução para um dado problema seria viável em um outro povo com outro perfil histórico, demográfico e geo-político? Certamente não!
    Alguns poucos casos vingariam, outros estariam fadados ao fracasso. Entretanto, devo salientar aqui o fato de que a busca por soluções prontas é relativamente natural, sempre tendo-se em mente a necessidade de não se reinventar a roda (apesar de eu discordar deste tipo de aplicação direta neste caso em particular).

    Perceber que um dado país eliminou um dado mal, não os faz superior. Mas podem fazê-los para um outro povo, uma motivação de que sim é possível. Mesmo que não sigam os mesmos caminhos traçados pelo primeiro, mesmo que as metodologias sejam outras. O que importa é que sim há saída!

    Quando vejo no noticiário (não sei até que ponto pode-se confiar neles) que uma pessoa pode andar tranquilamente à noite em uma dada metrópole, seja ela na Europa, EUA ou na América Latina, não os vejo como mais evoluídos e sim como um povo que de sua lista de problemas aquele foi riscado. Mérito a eles e que bom seria que aqui isso fosse verdade. Mas é possível e vamos a luta.

    E se eles conseguiram é sinal de que devemos exigir de nossos governantes, quando cabem a eles, ou a nós mesmos (caso da fila, por exemplo) a solução do problema. Um primeiro passo seriam discussões sobre o tema. E educação, muita educação, seja familiar, seja secular.

    O fato em questão é, nosso país tem problemas. Desde os de entraves burocráticos, que não permitem o avanço social tão almejado, até os de ordem pública e enraizados na ideologia popular. Não é de se orgulhar quando vemos uma fila de marmanjos a mijar nas paredes de edifícios por pura preguiça de procurar um sanitário público, mesmo que estes estejam a 50-100 metros e aos montes (experiência própria em qualquer festa popular no Rio de Janeiro). O fato de algumas cidades brasileiras não terem esse hábito não as fazem mais evoluídas no sentido darwiniano. Mas faz com que nos envergonhemos mais ainda de que em outras cidades tal hábito é tido como natural. Para outros povos aquilo era tão constrangedor que o eliminaram de suas vidas.

    Ao me deparar com favelas, violência, saúde e educação públicas em estado lastimáveis neste meu país, e ao perceber que em outros países tudo isto não é mais problema, penso: “Gostaria de ver o meu país naquela linha. Mas, saliento enfaticamente, gostaria de ver o Brasil sempre como Brasil. Os jangadeiros em Fortaleza, os gaúchos ao Sul, os cantadores de toada no sertão, os sambistas cariocas, os índios das mais diversas tribos e etnias, os negros e seus descendentes com suas culturas ricas e exuberantes. Além dos recém incorporados imigrantes, descendentes de italianos, japoneses, alemães dentre tantos, que escolheram estes brasis para viverem. Todos eles vivendo em um país sem fome, miséria, corrupção, ou fura-filas ou mija-paredes. Mas todos eles no Brasil e construindo o Brasil que amo. E que sei que é possível e viável.

  2. Caríssimo Moisés,
    Obrigado pelo comentário.
    Posso ter sido injusto e subestimado nosso camarada, talvez ele tenha tentado expressar a mesma opinião que você. Mas ele falou em países evoluídos como exemplos a serem seguidos, e esse conceito é perigoso.
    Concordo com você(s) que é importante pensar na cultura como uma instituição a ser construída. Para isso se compara comportamentos e sociedades e se “pega emprestado” o mais interessante – algo como aprender com os erros (ou acertos) dos outros. É louvável agregar cultura alheia. Eu ficaria feliz em ter um governo como o da Suécia ou a produção industrial do Japão. No entanto o tom que ele usou foi de que há uma direção que nossa sociedade deve seguir, da primitiva para a desenvolvida, e que o grande modelo de desenvolvimento a ser seguido é o europeu. Ele não falou de indígenas sulamericanos, inuítes do polo norte ou povos micronésios – talvez por não sabermos nada desses povos e sermos incapazes de usá-los como exemplo. Essas sociedades também possuem uma riqueza cultural imensurável na qual poderíamos muitas vezes nos pautar mas devido a nosso preconceito subestimamos todas elas. É tão comum classificar esses povos como primitivos quanto acreditar que o desenvolvimento econômico e organização dos europeus seja a ponta da seta das sociedades. Nosso camarada não seria o primeiro nem o último a acreditar nesse evolucionismo.

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