Folha e Ditadura, tudo a ver

Vale a atualização: Folha admite que errou… e reincide, por Celso Lungaretti em 10/3/2009 e
Da ditadura à democracia sem povo, por Mino Carta em 05/03/2009
(tiagozecolmeia, em 11/03/2009, 22h31)

(do blog Língua de Trapo)

 

Caiu a máscara da Folha de São Paulo (FSP). Talvez apoiada na ideia de que brasileiro tenha memória curta, o editorial de 17/02/09 achou que passaria ilesa a tentativa de passar a mão na cabeça dos nossos anos de chumbo. Parafraseando o general Franco e até mesmo o saudoso (ao menos para a família Frias) Pinochet (vejo o vídeo aqui), insinuou que nossa ditadura não foi tão dura assim, sendo merecido o nome de “ditabranda”. Não bastasse, ofendeu abertamente dois professores que questionaram de forma legítima a falta de respeito do jornal com relação aos que tiveram sua dignidade violada pelo governo dos militares, aliados e súditos coniventes, dentre os quais a FSP não mais tem vergonha de fazer parte.

Colo abaixo um email de Juliana Ghisolfi que recebi na lista Flor da Palavra. A mensagem contém o texto do editorial, cartas de leitores e comentários da própria FSP. No final deste post, links para comentários de outros jornais, blogs e para uma petição de apoio aos professores Comparato e Benevides, ofendidos pela FSP.
Haverá uma manifestação contra esse espisódio, em frente ao prédio da FSP (Alameda Barão de Limeira, 425) às 10h do dia 07/03 (sábado). A manifestação é convocada pelo Movimento dos Sem Mídia
(tiagozecolmeia)
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Em suma, o que ocorreu foi o seguinte:

1) em editorial, publicado no dia 17 de fevereiro, com uma crítica à aprovação da reeleição por indefinidas vezes na Venezuela, o editor responsável pelo texto refere-se ao período do regime militar que prevaleceu no Brasil entre 1964 e 1985 como “ditabranda” (em oposição a ditadura). Foi o estopim para, nos dias seguintes, uma série de manifestações no Painel do Leitor, espaço no qual o leitor do referido jornal manifesta suas opiniões sobre os temas abordados pela FSP.

2) no dia 19/02, o leitor Sérgio Lopes escreveu ao Painel, questionando o termo “ditabranda”, comparando-o à Novilíngua. A resposta da redação foi um espanto: o regime brasileiro, em relação a outras ditaduras da época, foi leve, por isso o uso do termo “ditabranda”.

(Para quem não sabe o que é Novilíngua, fica aqui a sugestão de leitura do livro 1984, de George Orwell: este seria o nome do novo idioma, que o regime estava formulando. Na Novilíngua, os termos ganhavam novos significados, a tal ponto que o lema do regime, a partir da nova língua era: “Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é força.” Tudo ficção. Será? * )

3) no dia 20/02, mais uma série de manifestações contra o referido editorial. Entre as manifestações constavam as dos professores Benevides e Comparato. Pois a resposta da redação foi ainda mais infame que a anterior, escandalosa mesmo: a redação da Folha atacou deliberadamente os referidos professores, chamando-os de cínicos e mentirosos.

 

 


São Paulo, terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Editoriais

Limites a Chávez

Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder  

O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.

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Painel do Leitor, Folha de São Paulo, 19/02/2009.
Ditadura
“Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.
Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre “as chamadas ditabrandas -caso do Brasil entre 1964 e 1985” (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma “ditabranda”, um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma “ditabranda” ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal? É a “novilíngua”?
Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo. É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário.”
SERGIO PINHEIRO LOPES (São Paulo, SP)
Nota da Redação – Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional. 

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Painel do Leitor, Folha de São Paulo, 20/02/2009.
Ditadura
“Lamentável o uso da palavra “ditabranda” no editorial “Limites a Chávez” (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes (“Painel do Leitor”, ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível “comparativamente baixo’? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande “Julgamento em Nuremberg” (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: “Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente”. A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?”
MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS)

“Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros.”
LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO)
“Com certeza o leitor Sérgio Pinheiro Lopes não entendeu o neologismo “ditabranda”, pois se referia ao regime militar que não colocou ninguém no “paredón” nem sacrificou com pena de morte intelectuais, artistas e políticos, como fazem as verdadeiras ditaduras. Quando muito, foram exilados e prosperaram no estrangeiro, socorridos por companheiros de esquerda ou por seus próprios méritos. Tivemos uma ditadura à brasileira, com troca de presidentes, que não vergaram uniforme e colocaram terno e gravata, alçando o país a ser a oitava economia do mundo, onde a violência não existia na rua, ameaçando a todos, indistintamente, como hoje. Só sofreu quem cometeu crimes contra o regime e contra a pessoa humana, por provocação, roubo, sequestro e justiçamentos. O senhor Pinheiro deveria agradecer aos militares e civis que salvaram a nação da outra ditadura, que não seria a “ditabranda”.”
PAULO MARCOS G. LUSTOZA , capitão-de-mar-e-guerra reformado (Rio de Janeiro, RJ)
“Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de “ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi “doce” se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!”
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
“O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.”
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.
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Painel do leitor, Folha de São Paulo, 21/02/2009.
Ditadura
“Há anos a linha da Folha tem sido crítica às ditaduras, especialmente à nossa. Fiquei na dúvida se o termo “ditabranda” (editorial “Limites a Chávez”, 17/2) foi ato falho ou se é mesmo defesa do regime que foi de Castelo a Figueiredo. Nossos torturadores justificavam a nossa ditadura acusando a dos outros.”
JOEL RUFINO DOS SANTOS (Rio de Janeiro, RJ)

“Li as diversas manifestações sobre a ditadura no Brasil. Todas têm alguma validade, mas o que mais me chamou a atenção foi que a mensagem mais inteligente, mais holística, com menor conteúdo de raiva e de ódio veio exatamente de um militar (senhor Paulo Lustoza). Esperava-se que professores catedráticos tivessem um olhar mais colorido, capaz de reconhecer todas as matizes de um regime autoritário, e que o militar fosse mais branco e preto. Mas só o senhor Lustoza foi capaz de reconhecer que a nossa ditadura foi muito diferente das ditaduras de Fidel, de Stálin, de Hitler ou de Mao. Aqui não houve culto a personalidade, embora tenha havido violência e injustiças. Aqui não houve milhões de mortos nem fuga em massa para o exterior. Todos esses regimes se enquadram na definição de ditadura, mas as cores e a profundidade da falta de liberdade foram completamente diferentes.”
CARLOS EDUARDO CUNHA (São Paulo, SP)
“Qualificar a ditadura militar de “ditabranda” é insuportável. Assassinatos, perseguições, torturas, prisões iníquas, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes praticados naquela época por agentes do Estado. A relativização da perversidade desses crimes produz impacto aterrador. Os professores Fábio Comparato e Maria Victoria Benevides merecem o respeito e a gratidão do povo brasileiro pela luta pertinaz em defesa dos direitos humanos. Repudiamos com veemência os termos horríveis da resposta dada a eles neste “Painel” ontem.”
GOFFREDO DA SILVA TELLES JÚNIOR , professor emérito da USP, e MARIA EUGENIA RAPOSO DA SILVA TELLES, advogada (São paulo, SP)
“Ao chamar de “cínica e mentirosa” a “indignação” manifestada pelos professores Benevides e Comparato, a Folha (“Painel do Leitor”, ontem) foi no mínimo deselegante. Não soube lidar com as críticas. Concorde-se ou não com os professores, ambos utilizaram artifícios retóricos parecidos aos que a Folha recorreu para falar de Hugo Chávez no editorial de 17/2. Valeria também o cínico e mentiroso para o editorial?”
NONATO VIEGAS , jornalista (Duque de Caxias, RJ)
“Esta Folha entornou de vez o caldo. No lugar da autocrítica pela malfadada expressão utilizada no editorial de 17/2, de evidentes prejuízos para a cultura democrática, achou por bem agora atacar, de modo presunçoso, intelectuais brasileiros de inestimáveis serviços à crítica e superação do regime autoritário aberto em 1964.”
MARCOS AURÉLIO DA SILVA , professor do Departamento de Geociências da UFSC (Florianópolis, SC)

“A referência do editorial à ditadura brasileira como “ditabranda” não representou uma defesa ou tentativa de relativizar o período e, em seu contexto, deixa claro o caráter negativo de qualquer regime de exceção. Mas foi lamentável a forma como a Folha lidou com os protestos dos leitores. Em vez de aproveitar a oportunidade para reiterar o seu compromisso com as instituições democráticas e repudiar qualquer forma de autoritarismo, o jornal adotou uma posição defensiva, ambígua e evasiva, indigna do maior jornal do país. Particularmente inapropriado foi usar este espaço para atacar em nível pessoal dois professores universitários, rebaixando-se ao nível de um tabloide de aluguel e manchando a tradição de imparcialidade e a atitude profissional esperada pelos leitores. O que poderia ter sido um episódio menor vai ser lembrado na história da Folha como a semana infeliz em que o jornal usou seu espaço para hostilizar seus leitores.”
FELIPE DE AMORIM (Santo André, SP)
“Em relação à “Nota da Redação” em resposta às cartas do senhor Comparato e da senhora Benevides, advirto a Folha de que, apesar de correta, a referida nota despertará a fúria da militância esquerdista. Logo a Redação receberá mais um exemplar da mais profícua produção intelectual da esquerda brasileira: os abaixo-assinados.”
EDMAR DAMASCENO FONSECA (Belo Horizonte, MG) 

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LINKS

Folha (*) tem saudades da ditaDURA, por Paulo Henrique Amorim
Petição em solidarie
dade aos professores Comparato e Benevides
A “ditabranda” e a culpa de Fidel, por Gilson Caroni Filho em 23/2/2009
Direita, volver!, por Luiz Antonio Magalhães em 23/2/2009
Editor discorda da direção do jornal, por Fernando de Barros e Silva em 24/2/2009

‘Ditabranda’ para quem?, por Maria Victoria de Mesquita Benevides em 27/02/2009
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