Caracol de Caratateua

Tento aqui descrever uma das experiências que tive na viagem ao Fórum Social Mundial 2009, em Belém/PA. Fico satisfeito com o aprendizado que tive de todas as atividades que pude presenciar no Fórum que, em se tratando de práticas, deixou muito a desejar – até justificável pela enorme dimensão e diversidade de posturas que vêm agregando em si com o passar das nove edições, sem contar seu caráter turístico dado pelo financiamento dos governos federal e do Pará. No entanto, o que me marcou de verdade foi a passagem, embora muito curta, pelo caracol zapatista de Caratateua, uma iniciativa paralela e alternativa à do Fórum em uma ilha próxima à capital do Pará.

O que é um caracol zapatista?

Os caracóis foram idealizados pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional como centros de comunicação autônoma e de cultura social. O nome vem da metáfora das conchas de caracóis usadas como intrumento de comunicação, como o anúncio de eventos, por povos indígenas. Diz-se também que os primeiros deuses maias, “os sustentadores do mundo”, traziam consigo caracóis em seus corações, o que só vem a enriquecer esse símbolo. Há alguns anos o EZLN passou por mudanças em sua estrutura e a morte dos centros culturais chamados aguascalientes cedeu espaço a “los caracoles” (saiba mais, em inglês). Na interpretação do Subcomandante Marcos, os antigos aguascalientes agora são “a porta para os excluídos entrarem nas comunidades e para as comunidades acessarem o mundo de fora”.
Um caracol pode ser visto também como uma base usada na produção de coisas, que são consumidas e trocadas pela produção de outros carácois que, juntos, formam uma rede de trocas. Essa troca não se restringe a bens materiais mas se estende aos culturais, às experiências de formas de organização igualitárias e de resistência ao poder que explora o homem, vivenciadas pela comunidade que dele fazem parte. O caracol segue um modelo autogestinário (saiba mais sobre autogestão).

O caracol de Caratateua

Todas essas interpretações em nada impedem a resignificação do caracol idealizado pelo EZLN. É o que parece estar acontecendo na ilha de Caratateua (também conhecida como Outeiro, nome de um de seus bairros). Por curiosidade: o nome Caratateua foi dado pelos indígenas devido ao formato da ilha lembrar uma batata grande. A ilha é um distrito administrado pela prefeitura de Belém do Pará e sofre de problemas recorrentes nas regiões periféricas das grandes cidades, normalmente causados pelo descaso da organização central. Foi escolhida para ser também um nó da rede Flor da Palavra. Como você pode ler aqui, “a rede Flor da Palavra começou a ser inventada em 2006 de forma não planejada e sem uma grande convocatória, graças à grande quantidade e variedade de iniciativas de grupos e indivíduos do campo autonomista brasileiro e mexicano, em particular os ligados à mídia livre, que deram forma à organização horizontal e colaborativa de eventos sobre o zapatismo e as lutas locais. A ‘facilidade’ com que se instaurou esse processo organizativo horizontal apontava o amadurecimento de um interesse amplo pelo zapatismo no Brasil, e de sua capacidade para conectar movimentos e outros lutadores sociais. Diante disto surgiu a idéia de começar a invenção de rede Flor da Palavra, sem renunciar à forma colaborativa e aberta de organização”. Ou seja, tenta-se fazer do caracol de Caratateua um espaço autônomo e horizontal e integrado com a comunidade em que se contextualiza, ao mesmo tempo interligado a uma rede de caracóis, apoiado em iniciativas igualitárias e em uma proposta de levar ao grupo social do qual faz parte um modelo de convivência alternativo ao que se tem hoje ditado pelo Estado e pelas outras formas de poder vigentes.
Para a fixação de uma sede na ilha, o que viabiliza a integração da comunidade com o caracol enquanto centro social autônomo, há uma arrecadação para a compra de um terreno que sirva como sede para o caracol, e parece que o dinheiro doado até então é suficiente.

O Caracol no dia 31/1/9

Meu primeiro contato com o caracol de Caratateua foi pelo site do CMI. Na verdade, dois amigos, Nabo e João Tragtemberg, me falaram sobre ele ao saberem que eu iria à Belém. Fiquei interessado ao saber da proposta de autogestão e horizontalidade. Infelizmente reservei apenas o último dia de minha estadia na capital do Pará para visitar a casa que está sendo alugada como sede do caracol; um dia não seria suficiente para ajudar os colaboradores que tocavam as atividades no local, quem dirá as poucas horas que passei lá com os companheiros que fiz no ônibus e acampamento, durante a viagem. Saímos da UFRA, onde acampávamos, no dia 31/01 por volta das 9h. Chegamos perto das 11h. Não foi difícil encontrar a rua São Miguel, 160, logradouro do caracol, principalmente com a ajuda de D. Socorro, uma senhora simpatissíssima, moradora do Bairro da Brasília, que conhecemos na lotação que pegamos em Icoaraci, bairro de Bélem. Quando chegamos, encontramos na casa alugada 20 ou mais pessoas e, pelo que conversei com alguns presentes, todos os dias ao longo daquela semana (quando a casa começou a ser usada como centro) manteve-se essa média de pessoas presentes, embora à noite dormissem menos pessoas – por volta de 5. Quando cheguei, havia um grupo fazendo o almoço comunitário – arroz, lentilha e um tipo de farofa – essencialmente vegano, em respeito aos que estavam presentes, e cartazes para divulgação do Encontro Amizade Caratateua. O grupo com quem fui rapidamente integrou-se naquelas atividades e ajudou na compra de alguns alimentos para o almoço.

Encontro da Amizade
O Encontro procedeu da seguinte forma: começou com um multirão para coleta de lixo espalhado na praça Amizade, onde foram realizadas as atividades do Encontro, e na praia da Brasília. Em seguida, foi feita a caminhada e um protesto com a afixação de mensagens e depósito do lixo coletado na sede da Administração Regional, denunciando o descaso com relação à coleta de lixo no local por parte da Prefeitura de Belém. Então foram oferecidas oficinas de respiração e naturologia, inspirado em estudos diversos envolvendo yoga e outras práticas, de compostagem e de construção de instrumentos musicais com materiais coletados da floresta, seguidas da apresentação do Grupo Tucuxi de carimbó (expressão cultural da região). Não participei do Encontro todo, apenas da coleta de lixo, pois voltamos para Belém em torno de 15h30, antes da caminhada e do protesto. De acordo com relatos que venho lendo no site do CMI, muitos dos moradores participaram do evento e aceitaram bem a iniciativa do caracol em promover um evento integrativo, assim como vêm encarando bem sua proposta. Obviamente existe alguns resistentes e oportunistas, mas parece não ser suficiente para desmobilizar ou desacreditar a iniciativa.

Minhas impressões

A sensação que tive no caracol foi de muitas pessoas trabalhando para que ele funcionasse. As pessoas estavam de fato engajadas em colocar a ideia em prática e, em particular, fazendo o possível para o Encontro acontecer da forma mais organizada possível. E, pelo que li, de fato aconteceu. Havia uma preocupação por parte de todos na integração da comunidade com o caracol enquanto centro social, até porque de outra forma tal iniciativa não faria sentido; incorporar as atividades no dia-a-dia das pessoas e fazer com que o caracol funcione de forma orgânica dentro, ou melhor, com a comunidade é o sentido final para tudo isso, visando a prática de um modelo de convivência autogestionário, alternativo ao determinado pelo capital e que acredita-se ser o único possível. Foi consenso que a mobilização se tornou mais intensa devido ao Fórum, assim como havia a preocupação de o inverso ocorrer ao final do mesmo. Isso pode vir a comprometer a permanência das pessoas que estão tocando a construção do caracol e da consolidação do iniciativa na comunidade de Caratateua. Me parece que o número pequeno de pessoas que ficaram na ilha e a distância dos colaboradores, que estão voltando para suas cidades devido ao fim do Fórum, é um fator decisivo para o sucesso ou não do caracol. Por isso já existe uma mobilização para uma caravana que sairá em julho para a ilha, tendo em vista a necessidade de aplicar forças na manutenção do centro.
O que mais me impressionou foi ver, enfim, pessoas comprometidas com um ideal igualitário e sua prática. Lá as coisas estão sendo feitas de verdade e as dificuldades estão sendo transpostas com empenho geral. Pode haver uma série de críticas sobre o que se tenta construir naquele espaço, mas para quem está ou esteve presente no Encontro e ao longo daquela semana não havia críticas suficientemente consistentes ou que dessem motivo para não se tentar colocar em prática um modelo social alternativo e mais justo, ao mesmo tempo sustentável. E a vontade das pessoas de se fazer as coisas acontecerem mexeu demais comigo, e me fez voltar para São Paulo muito disposto a buscar novas práticas que contemplem algumas de minhas vontades antigas, principalmente a de implementar uma autogestão. Percebi que é possível praticar um mundo diferente e muito mais justo do que o que vivencio hoje.

Questões a serem levantadas

Dessa reflexão surge uma série de dúvidas e críticas sobre o funcionamento do caracol e a ideologia por trás da iniciativa. Uma pergunta básica em reação à proposta é se há contradição no uso de dinheiro dentro da iniciativa, tendo-se em vista que ela se propõe como alternativa ao modelo capitalista. Isso não me parece um problema, pois até o funcionamento pleno do caracol há uma fase de transição em que os modelos econômicos vigente e proposto devem se misturar. A ideologia a princípio pode parecer contraditória mas na prática me parece ser a forma real de se construir um caracol em interação com a comunidade. Outra pergunta é sobre onde entra o zapatismo na ideologia. Como já disse, não me parece ser um problema a releitura do caracol zapatista, até porque o próprio caracol é uma transição do que se idealizava pelo EZLN nos aguascalientes na década de noventa, uma evolução da proposta original. O que não foge do contexto é a organização horizontal, autogestionária e livre de exploração do homem e da natureza.
É factível que, quando o caracol estiver integrado com a comunidade em sua plenitude e a autogestão viabilizada, haja problemas do ponto de vista da legislação imposta pelo Estado, por exemplo no que trata da arrecadação de impostos sobre sua produção, dando espaço às sanções legais dentro da concepção de governo vigente. Vale a analogia entre o Estado e um gás, que sempre preenche o espaço vazio deixado pela ausência de outro, o que pode fazer com que o Estado brasileiro tente impedir o avanço da comunidade alimentada pela autogestão, violentando e engolindo essa convivência alternativa. Esse é um problema sério para o qual não tenho uma resposta pronta, e que gostaria de discutir e compartilhar com outras pessoas.
Espero que o texto tenha contribuído com a compreensão da minha impressão do que se passa no caracol de Caratateua e do que está sendo proposto por seus idealizadores. É preciso deixar claro que estive lá por pouco tempo e que o texto, por retratar minha leitura daquela iniciativa, está plenamente aberto à discussão.

Fotos do caracol e da praça Amizade no dia 31/1/9
Encontro Amizade Caratateua em 31/1/9
Reportagem do Diário do Pará sobre o Encontro Amizade Caratateua
Entrevista de 2004 explicando sobre o nascimento e o funcionamento dos caracóis e das Juntas de Bom Governo
Sobre o FSM2009
Economia solidária

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3 comentários sobre “Caracol de Caratateua

  1. e ai beleza, como anda os trabalhos em outeiro o que foi feito de espaço estive lá em 2009 mas não tenho noticas alguma abraços…

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